De Panambi aos editoriais de Steven Meisel, das asas de 2009 às flores de 2026, a gaúcha voltou ao Victoria’s Secret Fashion Show com algo que nenhuma marca pode fabricar de uma hora para outra: história, prestígio e permanência.
Por Fábio Lage – House of Models
Em 2009, Carol Trentini entrou no Victoria’s Secret Fashion Show carregando asas inspiradas em árvores, num daqueles exercícios de imaginação em que o figurino ameaça virar um jardim botânico e a modelo precisa convencer o mundo de que tudo aquilo é perfeitamente natural. Dezessete anos depois, quando voltou à passarela da marca, em Los Angeles, no dia 18 de outubro de 2026, havia flores novamente em cena. O conjunto em verde e rosa, de renda e construção floral exuberante, parecia oferecer à nossa gaúcha uma espécie de reencontro visual com aquela mulher de 2009. Mas há uma diferença que nenhuma quantidade de pétalas consegue esconder: a indústria mudou, Carol mudou e o significado de estar ali já não é o mesmo.
Não se trata de procurar mensagens secretas no figurino, mon petit. Trata-se de reconhecer um privilégio raro na moda, mercado que troca de tendência com mais facilidade do que certas pessoas trocam de opinião: poder olhar para a mesma profissional em dois momentos separados por quase duas décadas e perceber que o espetáculo é apenas uma parte da história. A outra está nos trabalhos realizados enquanto as câmeras da Victoria’s Secret apontavam para outros rostos.
Este foi o quarto Fashion Show de Carol, depois das participações de 2005, 2006 e 2009. Aos 39 anos, ela não precisava provar que sabia caminhar sob refletores, nem pedir que o mercado reconhecesse sua existência. A questão, portanto, não é simplesmente celebrar um retorno. É perguntar o que a Victoria’s Secret ganha ao recuperar para o seu elenco uma mulher cuja reputação atravessou revistas, fotógrafos, casas de moda e gerações sem depender exclusivamente de uma única vitrine. Ui ui ui… agora, sim, temos um babado de mercado.

Antes de existir uma asa, já existia uma carreira
A história começa em Panambi, no Rio Grande do Sul, muito longe da maquinaria de produção de celebridades que dominaria o imaginário dos anos 2000. Descoberta ainda adolescente, Carol fez parte de uma geração de brasileiras que saiu de cidades distantes dos grandes centros e encontrou nas agências internacionais um circuito em que beleza abria a porta, mas jamais bastava para manter alguém dentro da sala. Havia testes, temporadas, recusas, fittings, aviões, editoriais capazes de transformar um rosto desconhecido em referência de uma estação inteira e, sobretudo, aquela disciplina que o público raramente enxerga numa fotografia pronta.
Uma das viradas profissionais veio com Marc Jacobs, numa campanha fotografada por Juergen Teller. Vieram depois as passarelas de Chanel, Louis Vuitton, Dior, Versace, Gucci, Miu Miu e tantas outras casas, ao lado de páginas assinadas por alguns dos fotógrafos mais influentes de sua época. Não é uma relação de grifes escrita para impressionar leitor, bebê. É o registro de uma carreira que aprendeu a existir em lugares diferentes, com exigências diferentes, e que não precisou transformar cada temporada num anúncio de reinvenção pessoal.
Em maio de 2007, Carol estava entre as dez modelos reunidas por Steven Meisel na capa da Vogue americana dedicada à nova geração de tops. Raquel Zimmermann, outra brasileira, também fazia parte daquele seleto grupo. O contexto importa: a revista, que há anos privilegiava atrizes e celebridades em suas capas, abria espaço para mulheres cujo nome e autoridade nasciam do próprio trabalho na moda. Carol não era acessório da fotografia; era parte do argumento editorial de que modelos também precisavam voltar a ocupar o centro da conversa.
E que trabalho havia por trás daquele rosto. Quem acompanhou a carreira de Trentini lembra da energia física que ela levava aos ensaios, dos saltos diante das lentes de Arthur Elgort à imagem em movimento construída com Annie Leibovitz e o nadador Michael Phelps para a Vogue americana em 2008. São páginas que ajudam a explicar por que sua presença não se resume a vestir bem uma roupa. Carol tornou-se reconhecível também pela maneira de dar movimento a uma ideia, qualidade muito menos reproduzível do que um penteado ou um filtro.
A propósito, ser escalada para o Fashion Show e possuir o antigo contrato de Angel nunca foram coisas automaticamente equivalentes. A marca transformou essa palavra em uma espécie de título de nobreza pop, e a internet passou a distribuí-la com uma generosidade que faria inveja a qualquer cartório. Mas participação em desfile, contrato publicitário e posição na indústria são categorias distintas. Confundi-las seria diminuir justamente a história que estamos tentando contar.

Em 2009, as árvores. Em 2026, as flores. E no intervalo, uma vida inteira
A última participação de Carol antes deste reencontro aconteceu em 2009, numa edição nova-iorquina que teve os Black Eyed Peas entre as atrações musicais. Nos bastidores daquele espetáculo, a modelo descreveu suas asas como uma criação inspirada em árvores. Era o auge de uma linguagem visual que frequentemente transformava lingerie em pretexto para cenografias monumentais, plumas, adereços e estruturas que faziam da passarela um híbrido de show televisivo, publicidade e fantasia. A competência da modelo consistia, entre outras coisas, em não desaparecer dentro da própria produção.
Em Los Angeles, em 2026, o encontro com o universo floral reapareceu no segmento de inspiração primaveril do desfile. O rosa, o verde e o volume das flores recuperaram algo daquele prazer quase excessivo que a Victoria’s Secret sempre soube vender. Seria tentador dizer que nada mudou. Só que mudou tudo. A Carol que volta não precisa representar a eterna promessa dos anos 2000; carrega a experiência de quem conheceu diferentes diretores criativos, crises da indústria, transformações da fotografia e uma relação muito menos ingênua entre imagem e mercado.
Talvez seja exatamente isso que torna interessante sua passagem de 2026. Uma new face pisa num grande show imaginando o que aquela noite poderá fazer por sua carreira. Uma modelo com duas décadas de trabalho pode fazer a mesma travessia perguntando o que vale a pena acrescentar ao que já construiu. São posições diferentes diante da vitrine, não uma hierarquia moral entre gerações. E confundir experiência com aposentadoria iminente é um vício que a moda deveria ter abandonado antes de inventar seu centésimo discurso sobre inclusão.

A carreira que continuou enquanto a Victoria’s Secret olhava para outro lado
Entre 2009 e 2026, Carol tornou-se mãe de Bento e Benoah, reorganizou sua rotina, empreendeu com a marca infantil Benbini e continuou a trabalhar. Ela própria já contou que o nascimento do primeiro filho exigiu uma pausa e que, quando decidiu retomar o ritmo profissional, encontrou clientes dispostos a recebê-la de volta. É uma informação mais relevante do que a romantização habitual da maternidade, honey: permanecer desejada por clientes depois de negociar outro ritmo de vida revela a solidez de uma relação construída ao longo dos anos.
Os exemplos recentes estão diante de nós. Em 2025, Carol apareceu em produções da Vogue Brasil, da Harper’s Bazaar Brasil e do Vogue World em Los Angeles. Em abril de 2026, abriu o desfile da Osklen na Rio Fashion Week, uma entrada que o próprio House of Models acompanhou e analisou como demonstração de autoridade de passarela. Em setembro, estava em editorial da Vogue britânica; no início de outubro, atravessou a passarela da Chloé na temporada Spring/Summer 2027. Duas semanas depois, apareceu diante das luzes da Victoria’s Secret. Isto, meu amor, não é um retorno à profissão… É uma agenda babadeira.
Existe uma diferença imensa entre desaparecer e escolher trabalhos. E é justamente essa distinção que algumas narrativas sobre modelos veteranas insistem em ignorar. Quando a mulher tem 19 anos, a indústria lhe promete um futuro; quando chega aos 39 com uma carreira consolidada, parte desse mesmo mercado tenta vender a mera continuidade de sua presença como um milagre. Não é milagre. É permanência profissional. O espantoso deveria ser o quanto ainda precisamos explicar isso.

O que a velha fábrica de Angels encontra numa Industry Icon
Durante boa parte de sua história, a Victoria’s Secret aperfeiçoou uma operação de imagem muito específica: reunia mulheres reconhecidas nos circuitos de moda, entregava a elas uma plataforma televisiva gigantesca e transformava aquele elenco num universo de celebridades compreensível até para quem jamais soube diferenciar uma temporada de alta-costura de uma coleção comercial. Nomes como Gisele Bündchen, Adriana Lima e Alessandra Ambrósio ajudaram a dar corpo a esse imaginário. A máquina vendia lingerie, claro, mas vendia principalmente a sensação de acesso a um clube cuja mitologia era maior do que qualquer peça exposta na vitrine.
O problema é que clubes assim também envelhecem. A marca interrompeu o formato tradicional de seu desfile após 2018, em meio à queda de relevância do espetáculo e às críticas dirigidas a padrões restritivos de beleza e representação. Ao retomar o Fashion Show em 2024, precisou negociar uma imagem mais plural com o peso de um passado que ainda movimenta nostalgia, desejo, controvérsia e enormes expectativas comerciais. Não basta reunir rostos diversos numa mesma passarela; a questão mais difícil é descobrir se essa mudança alcança, de fato, a cultura da empresa.
É nesse cenário que Carol aparece como mais do que uma convidada nostálgica. Seu reconhecimento como Industry Icon traduz uma autoridade conquistada fora do universo Victoria’s Secret, a partir de uma longa trajetória de passarelas, editoriais e campanhas. Isso não significa que sua presença legitime automaticamente tudo o que a marca faça. Significa que a escala simbólica do espetáculo também se alimenta de carreiras que ele não criou. Para uma empresa empenhada em reconstruir relevância cultural, a diferença não é pequena.
As transmissões monitoradas da edição de 2026 atingiram um pico estimado de aproximadamente 3,64 milhões de espectadores simultâneos. O dado ajuda a dimensionar o tamanho da vitrine, mas não corresponde ao total de pessoas únicas que assistiram ao evento, muito menos a uma medida do efeito econômico provocado por uma modelo específica. Sem conhecer cachês, cláusulas contratuais, desempenho comercial e pesquisas de marca, afirmar que Carol saiu dali mais valiosa seria trocar reportagem por fanfic com maquiagem de mercado. E nós não temos idade editorial para isso, bebê.

Dois caminhos brasileiros, uma mesma passarela
A presença de Carol no mesmo show que recebeu novamente Gabi Moura é quase uma aula prática sobre as transformações do casting. Gabi chegou ao espetáculo trazendo uma comunidade construída nas plataformas digitais, uma audiência que a conhecia antes de qualquer grande apresentação da marca. Carol chegou pelo caminho oposto: uma assinatura profissional consolidada ao longo de décadas, prestígio editorial e uma imagem construída na relação com criadores, fotógrafos e clientes. Nenhuma dessas trajetórias anula a outra, e colocar as duas mulheres para disputar uma competição imaginária sobre quem é mais “modelo de verdade” seria desperdiçar a pauta.
O que interessa é observar como a Victoria’s Secret passou a reunir diferentes formas de poder numa única passarela. Adriana Lima carrega a memória institucional do espetáculo; Carol, a autoridade que atravessa a alta moda e retorna pontualmente a esse universo; Gabi, a circulação digital de uma geração que nasceu depois do auge televisivo das Angels. Todas levam algo próprio à marca. E todas recebem alguma coisa de volta. O tamanho dessa troca só seria mensurável com dados que contratos e equipes comerciais raramente dividem com a imprensa.
A moda gosta de fazer parecer que existe apenas uma maneira legítima de construir uma carreira, mas basta olhar com atenção para esse elenco para perceber a fragilidade da ideia. A indústria hoje vende juventude, memória, reconhecimento, comunidade, técnica e repertório em plataformas cada vez mais misturadas. O desafio do jornalismo não é escolher uma vencedora por impulso; é explicar como cada uma negocia seu espaço sem fingir que os pontos de partida são iguais.

Carol Trentini não voltou para ser a menina de 2005
Há ainda um aspecto que me interessa particularmente nessa história. Quando uma modelo cruza uma passarela aos 39 anos depois de ter estreado ali tão jovem, não estamos olhando para o tempo que ela conseguiu esconder. Estamos olhando para o tempo que conseguiu viver. A maternidade, os trabalhos recusados, os clientes mantidos, as mudanças de ritmo, os dias em que a câmera não estava por perto e a capacidade de continuar desejada por um mercado impaciente fazem parte da imagem tanto quanto o brilho do figurino.
É cômodo para a Victoria’s Secret transformar esse retorno numa celebração de suas próprias lembranças. E é legítimo que o público sinta nostalgia. Mas reduzir Carol a uma recordação elegante dos anos 2000 seria retirar dela o que tornou esse reencontro possível: o presente. Uma mulher que continua fotografando, desfilando, trabalhando e escolhendo o que quer fazer não é peça de museu esperando que alguém a descubra novamente.
Por isso, volto à pergunta do título: quem precisava de quem? A resposta menos romântica e mais interessante é que a relação pode beneficiar os dois lados, mas por razões diferentes. A Victoria’s Secret ganha acesso à credibilidade e à memória de uma modelo que construiu carreira para muito além de suas asas. Carol volta a ocupar um palco de circulação pop global sem precisar colocá-lo no centro de sua biografia. O espetáculo oferece visibilidade; ela oferece densidade histórica. E densidade, mon amour, não se compra na liquidação.
Em 2009, Carol saiu daquela passarela carregando árvores. Em 2026, voltou rodeada de flores. Entre uma imagem e outra, fez o que as melhores carreiras fazem quando ninguém está distribuindo coroas: criou raízes próprias. Atura ou surta, bebê.
Foto: Divulgação
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