Uma garçonete em Niterói, uma trancista em Queimados, um pai diante de uma vitrine em Duque de Caxias… Na temporada internacional SS27, nove modelos ligadas ao Rio de Janeiro cruzaram as passarelas de Nova York, Londres, Milão e Paris. Mas as histórias que merecem ser contadas começaram bem antes do primeiro casting... Ui ui ui!
Por Fabio Lage – House of Models
Na madrugada anterior ao desfile da Versace, uma mensagem chegou ao booker de Mauria Caetano: o look reservado para a modelo havia sido cancelado. Era Milão, setembro de 2025, e ela participava dos castings para a temporada Spring/Summer 2026. Segundo contou numa entrevista ao blog Ditadura Fashion, havia sido considerada para uma estreia exclusiva e, por causa daquela possibilidade, deixou de participar de outros testes. Sem look, sem passarela e, àquela altura do calendário, praticamente sem tempo para buscar outra oportunidade, baby.
Mauria seguiu para Paris, onde ainda tinha um fitting marcado com a Saint Laurent. Na véspera do desfile, foi dormir sem receber a confirmação que esperava. Quando acordou, encontrou o e-mail com o horário de apresentação… a gata chorou de emoção, querides. E contou que só conseguiu acreditar completamente no que estava acontecendo quando já estava na fila final do desfile.
Eu adoro quando uma história de moda tem acontecimentos suficientes para dispensar a nossa mania de transformar tudo em metáfora. Uma noite, a modelo perde a oportunidade que parecia certa. Poucos dias depois, desfila para Anthony Vaccarello. Nenhum departamento de marketing precisou escrever um roteiro sobre perseverança; os fatos já se encarregaram da dramaturgia.

E, para compreender o tamanho daquele momento, precisamos voltar alguns anos.
Mauria tinha 16 quando uma fotógrafa ligada à agência 40 Graus a abordou no Rio de Janeiro. Fez testes, produziu um book, conheceu profissionais que tentaram encaminhá-la para São Paulo. Mas a mudança demorou, a pandemia atravessou os planos e, durante algum tempo, a carreira deixou de parecer uma possibilidade concreta. Ela trabalhou numa loja em Niterói e chegou a abandonar a ideia de continuar na profissão.
Um antigo agente voltou a procurá-la em outubro de 2021… Mauria finalmente se mudou para São Paulo em janeiro do ano seguinte, mas a transformação não aconteceu naquela velocidade cinematográfica que os perfis de agências adoram sugerir. Passou cerca de um ano e meio na cidade, conseguiu poucos trabalhos de moda e precisou trabalhar como garçonete num restaurante do Itaim Bibi.

Sua primeira viagem internacional aconteceu em setembro de 2023, depois de conseguir representação em Londres. Em 2024, já havia participado de uma apresentação da Yuhan Wang na capital britânica. A Saint Laurent, um ano depois, representou seu grande momento de afirmação no circuito internacional, como ela própria o descreve.
Agora avancemos para setembro de 2026, baby. Mauria Caetano atravessa a New York Fashion Week desfilando para Tory Burch, Michael Kors, Calvin Klein Collection e Carolina Herrera. Na apresentação de Ulla Johnson, recebe a responsabilidade babadeira de abrir o desfile. Depois seguem Burberry, em Londres, uma sequência de trabalhos em Milão e apresentações como Balmain, Celine e Alaïa, em Paris.
Repare na distância entre essas duas temporadas. Em 2025, Mauria ainda relatava a experiência de perder uma oportunidade na última hora e esperar, insegura, a confirmação de outra. Na SS27, seu nome já circulava pelas quatro principais capitais da moda.
É uma mudança profissional concreta. E é justamente por isso que vale resistir à tentação de chamar tudo de consagração. A carreira continua acontecendo; a história não precisa de ponto-final só porque chegamos à última página do calendário… convenhamos.

Antes do primeiro casting, havia uma vida
Existe uma coisa particularmente curiosa na maneira como a indústria da moda apresenta suas descobertas: a modelo parece começar a existir no instante em que alguma agência publica suas primeiras fotografias. Antes disso, aparentemente, ela estava guardada numa espécie de estoque celestial de new faces, esperando que um olheiro finalmente autorizasse sua entrada no planeta.
Pois Laiza de Moura estava trabalhando num pet shop no Centro do Rio quando esse encontro aconteceu.
Nascida na capital fluminense e criada em Santa Cruz, na Zona Oeste, Laiza contou ao Models.com, em dezembro de 2021, que havia passado dois anos trabalhando na loja, cercada por acessórios para poodles e yorkshires, quando chamou a atenção de um olheiro. Eu fico imaginando a cena, mon amour… Tantos lugares onde a moda costuma procurar sua próxima estrela e, naquele dia, foi preciso atravessar um comércio de artigos para cachorros.
A partir dali, Laiza construiu uma trajetória internacional que começou a ganhar projeção na Saint Laurent, em 2020, e passou por Balenciaga, Chanel, Versace, Hermès, Miu Miu e Loewe. Mas existe uma diferença deliciosa entre saber quais marcas ela desfilou e descobrir como se lembra desses trabalhos.
Na primeira vez em que participou de um desfile da Chanel, Laiza foi a quinta modelo a entrar na passarela. Imediatamente associou o número ao Chanel Nº 5 e à famosa declaração de Marilyn Monroe sobre o perfume. Na apresentação Métiers d’Art seguinte, apareceu na segunda saída. E brincou, em entrevista, com a possibilidade de um dia ocupar a primeira posição.

A mulher entendeu o peso histórico do número cinco dentro daquela maison e ainda encontrou uma maneira de se divertir com a própria colocação. Isso diz alguma coisa sobre a personalidade da bela..
Fora do trabalho, Laiza contou gostar de cozinhar para familiares e amigos. Entre massas, tortas e outras receitas, sua especialidade são as coxinhas (AMOOO). A mesma profissional que participou de campanhas para Phoebe Philo e Saint Laurent tem uma reputação culinária a preservar. E acho sinceramente maravilhoso que exista espaço, dentro de uma carreira internacional, para uma história que envolva tanto a Chanel quanto uma boa coxinha.
Na SS27, Laiza apareceu em Nova York, desfilou em Milão e seguiu para Paris. Um dos acontecimentos mais importantes foi a abertura do desfile da Elisabetta Franchi, em 25 de setembro. Estamos falando de uma profissional que já acumula várias temporadas, experiências publicitárias e trabalhos editoriais, e que continua conquistando posições relevantes nas apresentações.
Seu percurso babadeiro ajuda a entender que permanecer no mercado exige uma história diferente daquela necessária para chegar. São tempos distintos dentro da profissão, embora a indústria frequentemente insista em comunicar ambos com o mesmo vocabulário de novidade.

E foi também no Rio de Janeiro, mas em outra realidade geográfica e familiar, que Larissa Almeida começou a construir uma história que merece ser recuperada.
Em agosto de 2021, uma publicação nas redes sociais mostrou César Gusmão, vendedor ambulante de Duque de Caxias, observando a fotografia da filha numa vitrine da C&A. Ele costumava passar pela loja para admirar aquele trabalho publicitário e registrava as imagens para mostrar à família… A filha era Larissa Almeida.
Segundo contou ao jornal Extra, em relato repercutido por A Gazeta e outros veículos, foi justamente o pai quem a incentivou a procurar uma agência. Ela não imaginava a profissão como um caminho acessível e recordava uma relação difícil com a própria autoestima. César, entretanto, acreditava naquela possibilidade antes que ela estivesse convencida.

Larissa começou a trabalhar profissionalmente em 2017 e se mudou para São Paulo em 2019. Também relatou experiências de racismo em processos seletivos, incluindo comentários ofensivos sobre suas características físicas. Não estamos falando de obstáculos abstratos nem de uma frase pronta sobre enfrentar preconceitos, mas de situações que ela descreveu publicamente.
Tenho uma proximidade particular com essa história: também sou de Duque de Caxias. E, depois de tantos anos acompanhando carreiras de modelos, encontro agora uma conterrânea cuja lembrança mais bonita daquele período não envolve o backstage de uma grande maison, mas o próprio pai diante de uma vitrine.
O homem que a incentivou a entrar na profissão estava ali, no comércio, vendo o resultado de uma decisão que havia ajudado a tomar.
A trajetória de Larissa seguiu por trabalhos no Brasil e no exterior, campanhas comerciais e temporadas internacionais. Na New York Fashion Week SS27, participou de Pamella Roland, Parsons MFA, Bibhu Mohapatra e PatBO.
Quatro apresentações em setembro de 2026. E uma história familiar registrada cinco anos antes, que nenhum número de booking conseguiria substituir.

Em Queimados, também na Baixada Fluminense, outra jovem tinha uma ocupação bastante diferente antes de embarcar para sua primeira temporada europeia.
Kaia Ferreira trabalhava como trancista. Começou atendendo clientes em casa e depois passou a trabalhar no salão de uma amiga de sua mãe. Ao mesmo tempo, estudava informática e considerava ingressar numa faculdade para seguir carreira na área de perícia.
A moda já aparecia entre seus interesses, e Kaia começou a trabalhar como modelo em 2024. Passou pela São Paulo Fashion Week, desenvolveu seu material profissional e, em setembro deste ano, embarcou para a primeira viagem internacional da vida. O House of Models acompanhou sua estreia em uma reportagem publicada em 23 de setembro.
O destino era Milão. O compromisso, a Prada.
Ui ui ui… Tem gente que inaugura o passaporte com uma fotografia na frente do Duomo, descobre como pedir um cappuccino e passa três dias tentando entender o preço de um táxi. Kaia foi apresentar a coleção Spring/Summer 2027 de Miuccia Prada e Raf Simons.

Aos 18 anos, estreou internacionalmente com exclusividade para a Prada durante a temporada italiana. A informação é importante porque esse tipo de contrato estabelece uma reserva profissional naquele circuito. Não significa que a modelo tenha recebido algum passe vitalício para a maison ou que sua carreira esteja definida para os próximos dez anos. Significa que aquele foi o primeiro trabalho internacional e que a Prada teve exclusividade sobre sua apresentação naquela etapa.
Dez dias depois, Kaia apareceu na passarela da Loewe, em Paris, na coleção impecável apresentada por Jack McCollough e Lazaro Hernandez.
Prada e Loewe em sua primeira temporada internacional. Antes disso, um salão de beleza em Queimados, clientes para atender, aulas de informática e planos acadêmicos que ainda faziam parte de sua rotina.

Nem toda descoberta precisa acontecer na mesma hora
Laura Schulze estava indo à praia com amigos, aos 16 anos, quando foi abordada por um olheiro no Rio. Recebeu a proposta, mas não decidiu imediatamente trocar seus planos pelo universo das agências.
Continuou estudando, trabalhou e ingressou na faculdade de Economia do Ibmec. Só mais tarde, aos 20 anos, resolveu reconsiderar aquela possibilidade. Deixou o curso entre o terceiro e o quarto período e passou a desenvolver sua carreira internacional.
A decisão não foi recebida sem preocupação pela família… Laura contou que os pais temiam vê-la abandonar uma formação considerada segura por uma profissão muito menos previsível. A própria modelo reconheceu o medo envolvido naquela mudança.

Ela passou por experiências profissionais em Londres e outros mercados europeus antes de chegar ao circuito de grandes desfiles em Milão.
Na temporada SS27, abriu a apresentação de Carolina Herrera em Nova York e, poucas semanas depois, abriu e fechou a Giorgio Armani em Milão. Também esteve em Londres, na passarela de Aaron Esh, e em Paris, com Lanvin.
São acontecimentos que ganharam importância dentro de uma carreira ainda relativamente recente. Mas o detalhe de que mais gosto na história de Laura está fora do casting.

Depois de morar em diferentes países e conhecer novas culturas por meio do trabalho, ela desenvolveu um interesse pela gastronomia. Pensa em voltar a estudar, mas não necessariamente Economia. Considera frequentar cursos culinários e, quem sabe, abrir um café ou restaurante no futuro.
Ou seja, a jovem que deixou a faculdade porque não se reconhecia mais naquele caminho continua procurando outras maneiras de aprender e trabalhar. Só que agora possui experiências que provavelmente não teria conhecido se tivesse permanecido exatamente onde estava.
Giovanna Lannes também recebeu uma abordagem profissional ainda adolescente, mas sua história seguiu outro ritmo.
Em 2016, aos 13 anos, passeava com a família por um shopping quando uma mulher perguntou se gostaria de participar das fotografias de lançamento de uma marca. Giovanna ficou tão nervosa que sua mãe precisou conduzir a conversa.
As fotografias aconteceram, um profissional envolvido na produção sugeriu que procurasse agências em São Paulo e a jovem iniciou seu desenvolvimento no mercado.
A história foi contada pela própria Giovanna ao Models.com, em outubro de 2021. É uma versão particularmente interessante porque apresenta uma adolescente que não havia planejado aquela carreira, aceitou experimentar e precisou contar com a mãe para atravessar o primeiro encontro profissional.

Sua estreia internacional de passarela documentada veio em fevereiro de 2025, com Carolina Herrera. Na SS27, Giovanna passou por MM6 Maison Margiela e Anteprima em Milão, além de Shiatzy Chen e Christopher Esber em Paris.
A relação entre decisões familiares e desenvolvimento profissional fica ainda mais interessante quando chegamos a Sheila Bawar.
Sheila nasceu no Rio de Janeiro, mas cresceu em São Paulo, numa família com raízes na Guiné-Bissau. Sua mãe trabalhava como cabeleireira num salão da Galeria do Rock e costumava levar as filhas ao trabalho quando não estavam na escola.

Foi nesse salão que uma profissional ligada à moda viu Sheila e suas irmãs, Lara e Mara, gêmeas com albinismo, e pediu autorização para fotografá-las… A mãe recusou.
A mulher voltou outras vezes durante aproximadamente três meses, até conseguir a autorização. As meninas participaram de um projeto fotográfico relacionado à Nike e, depois daquela experiência, começaram a surgir outros trabalhos.
Mas, quando a atividade profissional passou a ocupar espaço demais, a mãe tomou outra decisão: interrompeu os trabalhos para que as filhas terminassem os estudos.

Sheila contou essa história numa longa entrevista à revista britânica Perfect. Na adolescência, chegou a considerar a neurocirurgia como possibilidade profissional. Aos 17 anos, por iniciativa de um tio, começou a frequentar aulas de teatro para enfrentar sua timidez e acabou descobrindo uma paixão pela interpretação… Te entendo amigah!
Ela já tinha um interesse antigo por roupas… Na infância, recortava fotografias de revistas e criava vestidos de papel para suas bonecas. Observava as roupas tradicionais da Guiné-Bissau usadas pela mãe e as diferenças entre aquele repertório doméstico e o vestuário que encontrava na escola.
Quando retomou a carreira de modelo, aos 18 anos, encontrou outra forma de explorar essa curiosidade.
Na fotografia de moda, Sheila gosta de construir personagens. Em sua entrevista à Perfect, explicou que prefere a liberdade de improvisação de um editorial à precisão exigida pela passarela, onde não existe a possibilidade de refazer a tomada.
É uma observação deliciosa, vinda de alguém que conheceu o teatro antes de começar a desfilar internacionalmente.

Sheila também pinta telas desde criança, lê durante os castings e mantém uma playlist chamada Waiting Room, pensada justamente para as horas de espera. Já contou que gosta de jogar xadrez e que organiza objetivos profissionais num caderno. Uma das metas era estrelar uma campanha da Versace, trabalho que conseguiu realizar em 2025.
Sua estreia numa grande passarela parisiense aconteceu com Saint Laurent, em 2024. Mais tarde vieram editoriais e campanhas, incluindo trabalhos com Rafael Pavarotti e Katie Grand, nos quais a modelo experimenta imagens que dificilmente seriam descritas pela indústria como discretas.
Na SS27, Sheila participou da 7 For All Mankind, em Nova York, e da Alberta Ferretti, em Milão. Também apareceu no Vogue World Milano, evento especial realizado durante a temporada.
Não precisamos inflar esses trabalhos para perceber o que existe de singular em sua trajetória. A gata não parece interessada apenas em ser reconhecida pela própria aparência. Sua relação com o trabalho passa pela atuação, pela experimentação e pelas possibilidades de inventar uma personagem diante da câmera… E pensar que sua mãe precisou interromper a primeira fase da carreira para que ela terminasse a escola… Arrasou!

Quem cria a imagem também pode querer estar atrás da câmera
Em Araruama, na Região dos Lagos, Rayssa Ricardo cresceu com um interesse particular por fotografias, vídeos e personagens.
Segundo sua biografia profissional na The Industry, ainda criança gostava de experimentar figurinos e gravar conteúdos para o YouTube. Começou a trabalhar como modelo aos 13 anos, quando vivia na Coreia do Sul, uma passagem de sua história que ainda merece ser melhor explicada publicamente.
Não sabemos exatamente quais circunstâncias a levaram àquele país, nem quanto tempo permaneceu por lá. Sabemos que a experiência marcou o começo de sua atividade profissional e que a relação com a produção de imagens já existia antes disso.

Em setembro de 2023, Rayssa estreou na passarela internacional da Diesel, em Milão, durante a apresentação Spring/Summer 2024 de Glenn Martens. Nos anos seguintes, acumulou trabalhos comerciais e editoriais, incluindo projetos para Gucci, Missoni, Longchamp e Emporio Armani.
Na SS27, apareceu na apresentação de Thom Browne, em Nova York, em 15 de setembro.
Mas, para mim, a curiosidade está nessa menina que gostava de criar vídeos e que continua interessada em filmar, editar e registrar paisagens mesmo depois de começar a trabalhar profissionalmente diante das lentes.
A relação entre ser fotografada e produzir imagens próprias não precisa se transformar numa grande teoria sobre a moda contemporânea. É uma dimensão concreta de Rayssa que vale conhecer melhor, sobretudo numa indústria onde tanta gente trabalha para construir a imagem de uma única pessoa e tão pouco se pergunta sobre o que essa pessoa gostaria de mostrar.

Essa curiosidade pela interpretação e pela criação também atravessa a vida de Juliana Nalú, embora tenha encontrado outros destinos profissionais.
Juliana cresceu no Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e começou a procurar oportunidades ainda adolescente, acompanhada pela mãe. Em entrevistas concedidas à Latina e à Numéro Netherlands, contou que desejava ser modelo desde pequena e que passou anos participando de seleções antes de conseguir um trabalho de grande repercussão.
Em 2016, venceu o Casting CUFA: Solte Seu Brilho, competição que lhe garantiu uma bolsa para estudar atuação na Casa das Artes de Laranjeiras. Dois anos depois, apareceu no capítulo final de Segundo Sol, interpretando Marina, personagem que surgiu como par romântico de Ícaro, vivido por Chay Suede.
Em paralelo, a gata desenvolveu sua carreira de modelo, participou de uma campanha babadeira da L’Oréal Paris e começou a construir oportunidades internacionais. Se mudou para os Estados Unidos, trabalhou em projetos de moda e ampliou sua presença pública.
A experiência de viver fora do país também teve seus momentos delicados. Durante a pandemia, Juliana relatou dificuldades para reencontrar a família no Brasil. O reencontro aconteceu em janeiro de 2022.
Anos depois, ajudou a mãe a conquistar uma nova casa, episódio que recordou numa entrevista sobre suas realizações pessoais.

Mas o acontecimento que mais me interessa na trajetória de Juliana não é exatamente uma campanha, uma capa ou o desfile de Casablanca que realizou em Paris na SS27… É a decisão de criar o Favela Seeds.
A iniciativa, desenvolvida com participação de sua família, promove atividades culturais, educativas e oportunidades para jovens talentos. Em parceria com a Mix Models, chegou a organizar um processo de seleção de modelos dentro do Complexo do Chapadão.
Juliana já contou que, quando era adolescente, gostaria de ter encontrado uma oportunidade semelhante no próprio bairro.
O projeto ainda precisa ser acompanhado em seus resultados concretos, no desenvolvimento profissional dos participantes e na capacidade de transformar aquelas primeiras oportunidades em trabalhos continuados. Uma seleção de modelos, por si só, não resolve as desigualdades de acesso da indústria. Mas sua realização dentro da comunidade revela uma escolha pessoal que merece atenção.

A menina que precisou viajar com a mãe para participar de castings passou a organizar uma seleção no lugar onde cresceu… E é curioso que essa história termine em Paris, mas não exatamente na passarela.
Porque a Casablanca SS27, apresentada em 2 de outubro, registra um novo capítulo profissional de Juliana. Entretanto, o Favela Seeds aponta para outra questão, talvez mais interessante do que saber qual será seu próximo desfile: o que acontece quando alguém que passou anos tentando entrar no mercado começa a participar da criação de caminhos para outras pessoas?
A indústria da moda tem uma memória muito particular… Consegue identificar uma coleção pelo ano, um vestido pelo número do look, um fotógrafo pela luz e uma modelo pelo rosto, mas frequentemente perde os acontecimentos que existiam antes da primeira fotografia profissional.
Foi assim que uma garçonete de Niterói chegou à Saint Laurent. Que uma funcionária de pet shop de Santa Cruz passou a caminhar para Chanel. Que o pai de uma modelo de Duque de Caxias encontrou sua filha numa vitrine. Que uma trancista de Queimados inaugurou o passaporte com a Prada.
Também foi assim que uma estudante de Economia mudou de profissão, que uma adolescente precisou da mãe para responder a uma desconhecida num shopping, que uma jovem descobriu o teatro antes da passarela, que uma menina de Araruama levou seu interesse por imagens para o mercado internacional e que outra, criada no Chapadão, começou a organizar oportunidades dentro da própria comunidade.
São vidas muito diferentes, né? Algumas atravessaram anos de mudanças na indústria; outras mal começaram a escrever seus primeiros capítulos internacionais.
E talvez a coisa mais interessante que a SS27 tenha colocado diante dos nossos olhos seja justamente aquilo que não estava nas roupas.
Os desfiles já terminaram… As fotografias já circulam, os próximos castings estão sendo preparados e, em poucos meses, a indústria voltará a anunciar quem são seus novos rostos favoritos, como se tudo tivesse começado naquela manhã.
Eu prefiro continuar olhando para as pessoas… Porque, mon amour, o look acaba na última saída. A história de quem o vestiu ainda tem muita coisa para contar.
Foto: Divulgação
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