Gabi Moura na Victoria’s Secret: quando a fama chega antes da passarela

Da tela do celular ao segundo Fashion Show consecutivo, a brasileira de Niterói ajuda a explicar como audiência, casting e carreira de modelo passaram a negociar o mesmo território.

Por Fabio Lage – House of Models

Para entender por que Gabi Moura voltou ao Victoria’s Secret Fashion Show em 2026, talvez seja necessário abandonar por alguns minutos a pergunta que a indústria repetiu durante décadas… “de qual agência saiu essa modelo?”; e encarar outra, bem mais contemporânea: de qual tela ela saiu, quantas pessoas já a acompanhavam antes mesmo de pisar naquela passarela e por que esse público interessa tanto a uma marca que tenta conversar com uma geração que não espera mais a televisão dizer quem merece ser famosa?

Em 18 de outubro de 2026, em Los Angeles, Gabriela Moura atravessou novamente o universo PINK da Victoria’s Secret, ao som do KATSEYE, cercada por brilho, franjas e aquela estética pop que já nasce sabendo que cada segundo será recortado, repostado, transformado em Reel, TikTok, fancam, meme e sabe Deus mais o quê antes mesmo de alguém conseguir processar o look inteiro. Era seu segundo Fashion Show consecutivo; a estreia havia acontecido em 15 de outubro de 2025, em Nova York. E é justamente a repetição que muda o tamanho do babado: uma estreia pode ser curiosidade, impacto ou teste de casting; duas convocações começam a sugerir relação, reconhecimento e continuidade, bebê!

O que existe por trás daquela imagem é uma mudança de lógica que a moda, durante muito tempo, fingiu não perceber. A Victoria’s Secret foi extraordinariamente eficiente em transformar modelos em celebridades, usando televisão, campanhas, bastidores e o próprio mito das eternas Angels como uma máquina global de produção de desejo; agora, também trabalha com mulheres que chegam ao casting trazendo comunidade própria, linguagem construída fora do circuito tradicional e capacidade de disputar atenção sem depender integralmente da chancela da indústria. A tela não substituiu a passarela, mon amour; as duas passaram a negociar entre si, e Gabi Moura é um caso bastante revelador dessa nova equação.

Gabi Moura no Victoria’s Secret Fashion Show 2026 em Los Angeles

De Niterói para um mercado que já não tem uma única porta de entrada

Nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, Gabi começou a publicar vídeos nas redes no início de 2020, misturando humor, dança, cotidiano, beleza e lifestyle até construir uma audiência que cresceu muito antes de uma passarela internacional entrar formalmente na equação. Seus planos de estudar fora foram atravessados pela pandemia; ela chegou a iniciar Publicidade e Propaganda no Brasil antes de se mudar para os Estados Unidos em 2023, levando consigo algo que a velha indústria costumava entregar às modelos apenas depois de anos de carreira: público.

Em 2025, Gabi já ultrapassava a casa dos 11 milhões de seguidores no TikTok e, no ano seguinte, sua comunidade somada nas diferentes plataformas se aproximava dos 15 milhões. São fotografias de momentos e critérios distintos, portanto não cabe fazer aquela matemática criativa de release que soma laranja com blush e termina produzindo um número mágico; o dado relevante é a escala e, principalmente, o fato de que essa escala existia antes de a Victoria’s Secret colocá-la na passarela.

É aqui que a história muda de maneira deliciosamente importante. Gabi afirma que ser modelo sempre esteve entre seus sonhos e que o que demorou não foi o desejo, mas a confiança para assumir esse lugar quando as oportunidades começaram a surgir em sequência. Parece uma diferença pequena, mas editorialmente é enorme: desmonta aquela narrativa preguiçosa em que uma influencer muito popular recebe um convite para um grande desfile e resolve brincar de modelo por uma noite. Segundo a própria Gabi, a ambição era anterior à fama digital; o caminho até ela é que aconteceu por uma rota que a antiga cartilha do mercado não sabia prever.

Isso não significa que seguidores sejam sinônimo de desempenho como modelo, da mesma forma que um bom catwalk não transforma ninguém automaticamente em criadora de conteúdo. Significa que o casting de 2026 acontece num ambiente em que presença diante da câmera, influência comercial, alcance digital, capacidade de gerar conversa e competência de passarela podem ser avaliados ao mesmo tempo. É uma configuração bastante diferente daquela que consagrou boa parte das supermodelos brasileiras dos anos 1990 e 2000, quando a indústria primeiro validava o rosto e só depois, em muitos casos, o grande público aprendia o nome.

O primeiro Fashion Show não foi ponto final; foi o começo de uma negociação

Quando Gabi estreou no Fashion Show de 2025 dentro do universo PINK, a associação fazia sentido quase matemático. A divisão jovem da Victoria’s Secret precisava conversar com uma geração que vive nas redes, enquanto Gabi já falava fluentemente com essa geração e chegava ao evento carregando uma comunidade que não precisava ser apresentada a ela do zero. Seria fácil reduzir esse encontro a uma conta de seguidores; seria igualmente ingênuo fingir que os seguidores não pesam em um ecossistema no qual alcance, identificação e circulação passaram a fazer parte da lógica comercial.

Antes mesmo da estreia de 2025, Gabi já havia manifestado publicamente o desejo de participar do badalado Fashion Show. Mais tarde, ao falar sobre a própria trajetória, deixou claro que a Victoria’s Secret fazia parte de um imaginário de infância e que voltar pelo segundo ano significava continuar construindo uma relação profissional que gostaria de prolongar. O sonho, portanto, não surgiu depois do convite; o convite apenas deu forma pública a algo que já estava ali.

Um ano depois, Gabi retornou com mais repertório, embora isso não signifique que a ansiedade tenha evaporado sob uma nuvem de body shimmer. Ao falar sobre a segunda participação, contou que viveu a experiência com mais tranquilidade, mencionou a convivência com outras mulheres do elenco e revelou ter buscado orientação com veteranas como Candice Swanepoel. É um detalhe ótimo porque devolve humanidade àquela imagem cuidadosamente iluminada: por trás do cabelo pronto, da maquiagem e da caminhada de poucos segundos, existe uma profissional ainda aprendendo a dominar um ambiente que para muita gente parece natural apenas porque a câmera esconde o nervosismo.

Há também um cuidado necessário com a terminologia, porque moda adora transformar qualquer par de asas em título nobiliárquico. Participar do Victoria’s Secret Fashion Show, mesmo em duas edições, não equivale automaticamente a possuir o antigo contrato de Angel, e misturar essas categorias pode render uma legenda romântica, mas não ajuda em nada quem tenta entender carreira, contrato e posicionamento com alguma precisão. Palavras precisam significar alguma coisa, baby.

Da Sports Illustrated aos sonhos de Dior, Prada e Saint Laurent

Em maio de 2026, Gabi integrou pela primeira vez a edição Swimsuit da Sports Illustrated, fotografada na Flórida, e também participou da passarela organizada pela publicação durante a Miami Swim Week. São trabalhos posteriores à estreia na Victoria’s Secret que ajudam a dimensionar a ampliação de seu portfólio, mas convém manter aquela distância mínima entre jornalismo e publicidade: o fato de terem acontecido depois do Fashion Show não prova que tenham acontecido por causa dele, e a ordem cronológica sozinha não transforma correlação em causalidade, por mais tentador que seja escrever uma bela historinha de ascensão inevitável, honey.

O que podemos afirmar, porque a própria Gabi já deixou isso claro, é que a ambição profissional vai além desse circuito. Ela tem falado abertamente sobre aprofundar sua atuação como modelo e cita Saint Laurent, Dior e Prada entre as casas com as quais gostaria de trabalhar. A declaração não cria contrato, não transforma desejo em booking e certamente não significa que alguém em Paris ou Milão esteja esperando seu WhatsApp, mas revela direção… e direção importa quando uma carreira ainda está construindo a passagem entre capital de atenção e capital de moda.

Também não se deve transformar audiência digital em garantia de longevidade, porque o mercado conhece incontáveis personalidades com números extraordinários e pouquíssimas carreiras capazes de sobreviver quando o algoritmo muda de humor. O desafio realmente interessante para Gabi é converter a atenção que já possui em repertório, relações profissionais e competências que continuem tendo valor quando outra plataforma surgir, outro formato virar febre e o feed decidir se apaixonar por uma nova personagem. É justamente aí que a história deixa de ser sobre popularidade e começa a ser sobre carreira.

Gabriela Moura fotografada nos bastidores do Victoria’s Secret Fashion Show 2026

O Brasil que Gabi leva para fora não cabe apenas numa bandeirinha

Outro ponto que merece sair do rodapé biográfico é a maneira como Gabi fala da própria origem. Ao explicar como o Brasil atravessa sua imagem, ela descreve um orgulho difícil de traduzir para quem não nasceu aqui e associa essa identidade à personalidade, ao gosto por roupas coloridas e ao prazer de representar o país internacionalmente. É uma fala interessante porque a moda passou décadas exportando modelos brasileiras enquanto, muitas vezes, domesticava parte da brasilidade delas para encaixá-las nos códigos de Paris, Milão ou Nova York. Gabi chega num momento diferente: sua audiência conheceu sua personalidade antes de uma grande casa ter a chance de editá-la.

Isso não significa que ela esteja imune às regras do sistema… calma, honey Lee de Xique-Xique, ninguém escapa tão fácil assim; mas altera um pouco a relação de poder. A criadora que se tornou conhecida falando diretamente com milhões de pessoas não chega completamente vazia para receber uma identidade fabricada por campanha, desfile ou editorial; ela já carrega referências, hábitos de comunicação e uma ideia pública de si. Para uma indústria acostumada a transformar rosto em personagem, trabalhar com alguém que já chega contando a própria história exige outro tipo de negociação, bebê.

A Victoria’s Secret ainda fabrica estrelas? Sim… só que algumas já chegam famosas

Quando o Fashion Show era um acontecimento essencialmente televisivo, a lógica era relativamente vertical: a marca e a emissora apresentavam modelos a milhões de espectadores e ajudavam a transformar mulheres conhecidas dentro da indústria em celebridades reconhecíveis pelo grande público. Em 2026, a distribuição é muito mais fragmentada, com transmissão oficial convivendo com bastidores, vídeos curtos, cortes, comentários, republicações e perfis pessoais que prolongam o show por dias. As transmissões monitoradas da edição chegaram a um pico estimado de 3,64 milhões de espectadores simultâneos; é um alcance significativo, mas não uma medida do impacto individual de Gabi, e seria intelectualmente preguiçoso fingir que sabemos exatamente quanto cada participante moveu de audiência ou venda.

O que sabemos é que uma participante com comunidade própria amplia as possibilidades de circulação de cada momento do espetáculo, enquanto a marca oferece em troca uma produção gigantesca, um elenco internacional, chancela comercial e acesso a audiências que talvez aquela criadora ainda não alcançasse sozinha. É uma relação potencialmente recíproca e, sem contratos, dados de campanha ou conversões individualizadas, qualquer tentativa de declarar quem “ganhou mais” seria apenas fanfic corporativa com planilha imaginária, mon amour,

Existe algo deliciosamente irônico nessa transação: a indústria que durante décadas se orgulhou de selecionar rostos para depois transformá-los em nomes agora precisa aprender a trabalhar com nomes que já chegam conhecidos, trazendo público, códigos próprios e poder de distribuição. Isso não torna o trabalho das modelos tradicionais obsoleto nem transforma influência em passaporte automático; apenas faz do casting uma arena mais complexa, na qual diferentes tipos de capital; editorial, comercial, cultural, técnico e digital, convivem, colaboram e disputam espaço.

Influencer ou modelo? Talvez a pergunta já esteja ficando velha

Gabi Moura não representa a substituição das supermodelos por influenciadoras, e insistir nessa oposição talvez diga mais sobre a nossa dificuldade de acompanhar a transformação do mercado do que sobre a carreira dela. O que sua trajetória representa é um ambiente no qual a influência se tornou uma das linguagens possíveis da profissão, com vantagens comerciais evidentes e exigências técnicas que continuam existindo. Ter milhões de seguidores não ensina ninguém automaticamente a desfilar; desfilar muito bem também não ensina ninguém a construir uma comunidade digital. São trabalhos diferentes, e justamente a capacidade de circular entre eles pode determinar o tamanho dessa carreira daqui para frente.

Talvez por isso a pergunta mais interessante já não seja se Gabi “merecia” estar no Victoria’s Secret Fashion Show. Ela esteve lá em 2025, voltou em 2026 e o fato dispensa tribunal de comentários. A questão agora é se consegue transformar esse extraordinário capital de atenção em uma trajetória suficientemente consistente para continuar sendo contratada quando o hype procurar outra personagem, quando o algoritmo mudar e quando a indústria exigir algo que quinze segundos de vídeo não conseguem resolver. Pela maneira como fala sobre confiança, carreira, permanência na Victoria’s Secret e o desejo de alcançar casas como Dior, Prada e Saint Laurent, parece bastante consciente de que é essa segunda camada que está construindo.

Quem acompanha apenas o brilho das franjas vê um só um desfile; quem observa o deslocamento do poder na indústria da imagem enxerga uma negociação do futuro acontecendo em tempo real. De um lado, uma marca que durante anos ensinou o mundo a reconhecer modelos e agora tenta reconstruir seu espetáculo para uma geração criada no feed; do outro, uma brasileira de Niterói que aprendeu a falar com milhões de pessoas antes mesmo de a moda decidir chamá-la de modelo. Ui ui ui, mon amour… o porteiro continua na porta, mas a convidada já chegou com uma fila do lado de fora.

A trilogia também analisa o retorno de Carol Trentini, 17 anos depois e as 21 participações de Adriana Lima e a construção de seu legado.

Segundo capítulo da trilogia do House of Models sobre as brasileiras no Victoria’s Secret Fashion Show 2026. A reportagem trabalha com informações publicamente verificáveis e não atribui contratos ou trabalhos posteriores ao desfile sem comprovação. Leia também a reportagem sobre Luíza Perote, brasileira estreante na edição de 2026.

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.