Luiza Perote chega à Victoria’s Secret. E o Brasil continua no roteiro

Ilustração editorial digital inspirada na preparação de Luiza Perote para a Victoria’s Secret, não uma fotografia documental
Composição editorial criada com auxílio de inteligência artificial. Não corresponde a um registro fotográfico documental.

Da infância em Humaitá à passarela da Victoria’s Secret, Luiza Perote chega a Los Angeles com um currículo que a moda já conhece. E, às vésperas do segundo turno, sua fala sobre voltar ao Brasil para votar acrescenta outra dimensão à história.

Por Fábio Lage — House of Models

Imagem de capa: composição editorial criada com auxílio de inteligência artificial, inspirada nos bastidores do desfile. Não se trata de uma fotografia documental. As fotografias apresentadas no corpo da reportagem são registros originais.

É curioso como o Brasil gosta de esperar o mundo aplaudir para só então olhar com atenção para quem saiu daqui. No caso de Luiza Perote, a espera chega a ser um pequeno desaforo. A amazonense de 21 anos entra neste domingo, 18 de outubro, na passarela do Victoria’s Secret Fashion Show, em Los Angeles, com uma coleção de trabalhos para Chanel, Fendi, Prada, Saint Laurent e outras casas que muita gente levaria uma vida inteira para reunir. Ainda assim, posso apostar que, para uma parcela considerável do público, será a Victoria’s Secret a responsável por apresentá-la. A indústria sabe quem ela é há bastante tempo, honey.

A participação de Luiza no espetáculo de 2026 foi confirmada neste domingo, e a amazonense é anunciada como a primeira modelo de seu estado a integrar o desfile. É um dado de representação importante, sobretudo quando o ponto de partida é Humaitá, no interior do Amazonas, e o destino é um evento capaz de transformar modelos em imagens reconhecidas pelo público que não acompanha as semanas de moda. Mas há um cuidado básico que vale registrar: participar do Fashion Show não equivale, automaticamente, a receber o título de Angel. O show é uma coisa; a nomenclatura e os vínculos promocionais da marca, outra.

Luiza Perote em fotografia editorial de moda
Luiza Perote. Imagem de divulgação.

O caminho que começou longe das capitais da moda

Em Humaitá, Luiza fazia seus próprios ensaios pelos corredores de casa. Os vídeos em que aparecia desfilando chamaram atenção nas redes, mas seria uma injustiça reduzir o início da carreira a um truque de algoritmo. O que há entre aquela menina e a profissional que hoje cruza os bastidores europeus é trabalho. Aos 17 anos, ela se mudou para São Paulo e passou a construir, com a EVOL Management, um percurso internacional que exige mais do que beleza e uma boa foto: exige aceitar a rotina dos testes, interpretar roupa, entender ritmo, ouvir um não sem transformar a carreira numa crise de identidade e, no dia seguinte, começar de novo.

Falo disso porque acompanho há mais de duas décadas a mania que a moda tem de romantizar descobertas. Adoramos a menina que saiu de algum lugar distante e apareceu numa campanha. Quase nunca contamos o preço da passagem, a solidão, as jornadas atravessadas por fusos horários e a inteligência necessária para permanecer contratável depois que a novidade deixa de ser novidade. Luiza atravessou justamente essa prova. Não como personagem folclórica de uma Amazônia que o mercado gosta de usar como cenário, mas como profissional brasileira disputando os mesmos castings e contratos de qualquer grande nome internacional.

Quem acompanha a ficha viva de Luiza no HOFM Intelligence sabe que uma carreira se lê de uma temporada para outra, não pelo brilho de uma noite. Os números ajudam a tirar essa história do terreno do adjetivo. Em levantamento da FashionUnited feito a partir de dados da Launchmetrics/Spotlight, Luiza somou 63 desfiles ao longo de 2025. Na temporada de outono/inverno 2026, foram 34 participações nas principais semanas de moda, de acordo com o balanço divulgado pela imprensa especializada e já abordado pelo House of Models. Abriu a Etro, em Milão, e encerrou a Acne Studios, em Paris. Para quem não vive o backstage, abrir ou fechar pode soar como detalhe. Para quem conhece a engrenagem, significa confiança numa modelo para sustentar momentos decisivos de uma coleção.

Luiza Perote desfila para a Etro na temporada primavera/verão 2027
Luiza Perote para Etro SS27. Imagem do arquivo do House of Models.

Seu nome integra o Top 50 do Models.com e apareceu entre as indicadas a Modelo do Ano de 2025 na plataforma. No Brasil, foi reconhecida como Modelo do Ano no FFW Brasil Fashion Awards 2025, reconhecimento que já analisamos aqui no House of Models. A campanha da Fendi fotografada por Steven Meisel e a sequência de editoriais internacionais completam um percurso que não depende de uma única noite em Los Angeles para fazer sentido. A Victoria’s Secret acrescenta visibilidade popular a uma carreira que o circuito especializado já respeita.

A outra notícia, fora da passarela

No meio dessa agenda aparece um gesto que merece ser observado com a mesma atenção, embora por razões inteiramente diferentes. Em 14 de outubro, um vídeo atribuído a Luiza circulou nas redes acompanhado da informação de que ela pretende voltar ao Brasil para votar no segundo turno das eleições, marcado para domingo, 25 de outubro. Não tivemos confirmação independente de sua viagem nem acesso à íntegra da gravação; por isso, o correto aqui é registrar a intenção divulgada, e não anunciar uma passagem comprada ou uma chegada já realizada.

Retrato editorial da modelo brasileira Luiza Perote
Luiza Perote em retrato editorial. Imagem de divulgação.

O ponto, para mim, está longe da tentativa de transformar uma modelo em cabo eleitoral involuntário ou de medir a cidadania alheia pela urna em que cada um aperta um botão. Luiza tem o direito de se posicionar, assim como seus leitores têm o direito de concordar ou discordar. O que chama atenção é uma jovem brasileira cuja carreira exige circulação permanente entre continentes falar sobre a importância de participar de uma decisão coletiva no país onde nasceu. O direito ao voto não deveria se tornar assunto extraordinário. Mas, num ambiente em que a fama costuma ser tratada como licença para não responder a nada, recordar esse compromisso diz alguma coisa.

O calendário é inequívoco: a Justiça Eleitoral marcou o segundo turno para 25 de outubro. Se a viagem anunciada nas redes se concretizar, Luiza sairá de uma semana em que representa o país numa das vitrines mais vistas da moda para exercer um direito que nenhuma grife pode exercer em seu lugar. E há uma diferença bonita entre as duas coisas. No desfile, ela representa uma trajetória profissional. Na urna, representa somente a si mesma, como qualquer outra eleitora. Talvez seja essa a parte menos espetaculosa e mais adulta da história.

Luiza Perote se prepara no backstage da Victoria’s Secret Fashion Show 2026
Luiza Perote durante a preparação de beleza no backstage da Victoria’s Secret Fashion Show 2026. Imagem de divulgação.

O desfile, as asas e aquilo que permanece

A Victoria’s Secret chega a 2026 ainda tentando reorganizar a própria narrativa depois de anos em que seu ideal de corpo e seus códigos de desejo foram objeto de críticas merecidas. O retorno do espetáculo recolocou diversidade e casting no centro da conversa, embora nenhuma mudança de elenco, isoladamente, resolva as contradições de uma marca ou de uma indústria. A chegada de Luiza pertence a esse presente: uma passarela de alcance global que se aproxima de mulheres com trajetórias muito distintas das antigas caricaturas de perfeição fabricada.

O Fashion Show acontece neste domingo, 18 de outubro, em Los Angeles, com transmissão anunciada para as 20h30 no horário de Brasília. Haverá música, figurinos, cenário, câmeras e a habitual operação para converter cada entrada na passarela em milhões de reproduções. O espetáculo existe para produzir desejo, e não há pecado nisso. Meu interesse, porém, continua sendo a pessoa capaz de sair dele com uma carreira mais robusta do que a imagem de alguns segundos que ficará circulando na internet.

Luiza Perote já chegou longe o suficiente para não precisar que lhe expliquem a importância de um desfile. O que espero é que o público brasileiro comece a perceber algo que nós, que acompanhamos modelos como profissionais e não como acessórios de grife, insistimos em dizer há anos: o grande acontecimento não é uma brasileira ser aceita no show de uma marca americana. É uma brasileira de Humaitá ter construído uma carreira que a colocou ali por mérito, trabalho e decisões de casting. Se, depois disso, ela ainda fizer questão de estar no Brasil para votar, haverá uma história a mais para contar. E ela não precisará de asas.

Fontes e referências:Models.com; FashionUnited / Launchmetrics; TSE; postagem que repercutiu a declaração nas redes.

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.