SPFW N61: o empate das recordistas, 330 nomes e uma maratona de passarelas

Anna Lumiar e Emmy Neves, recordistas de desfiles da SPFW N61, em montagem de capa do House of Models

Anna Lumiar e Emmy Neves dividiram a liderança com 12 desfiles cada. Entre trocas de maquiagem, corridas de um backstage a outro e uma agenda de 21 apresentações, a moda brasileira mostrou que desfilar dá muito mais trabalho do que parece.

Por Fabio Lage – House of Models

Ui ui ui, Nossa Senhora do Catwalk! A São Paulo Fashion Week N61 terminou com um empate daqueles que fazem qualquer jornalista de moda arregalar os olhos: Anna Lumiar da Joy Management e Emmy Neves da Move Management dividiram a liderança da temporada, com 12 desfiles cada. Mas antes de entregar o troféu imaginário às duas, preciso contar uma coisa, mon amour. Porque, se a competição fosse para descobrir quem mais correu atrás de uma passarela nesta edição, euzinho também teria alguma coisa a dizer.

O House of Models foi mapeado para 21 dos 23 desfiles considerados na nossa agenda de cobertura. E não faltou disposição para acompanhar essa maratona, que envolveu apresentações dentro e fora do circuito principal, bastidores, entrevistas e uma sucessão de deslocamentos que colocaria à prova até a paciência de um monge tibetano. São Paulo, como sabemos, não é exatamente uma cidade que facilita a vida de quem precisa estar em dois lugares quase ao mesmo tempo.

Foi assim que tivemos de declinar o desfile da Hisha para priorizar o da Handred. Não se tratava de preferência estética ou falta de interesse, mas de uma questão absolutamente prática: não havia tempo hábil para cumprir os dois compromissos. O trânsito paulistano, esse personagem recorrente e nada discreto das semanas de moda, também resolveu participar do calendário. Sem convite, naturalmente.

Então fica estabelecido: Anna e Emmy dividiram o primeiro lugar entre as modelos. Eu fiquei com o recorde afetivo de correria… Atura ou surta, bebê!

A brincadeira tem seu fundo de verdade, mas também ajuda a explicar uma parte da profissão que raramente recebe a atenção merecida. Porque, enquanto nós corríamos de um desfile para outro, havia modelos enfrentando uma operação ainda mais complexa: sair de uma passarela e praticamente entrar no backstage da seguinte.

Desfile da Ammi na SPFW N61 (2026)

Doze desfiles não são apenas doze caminhadas

É fácil olhar para um ranking e imaginar que o trabalho de uma modelo começa quando ela pisa na passarela e termina quando desaparece atrás da cortina. Quem conhece os bastidores sabe que a história é outra, baby.

Antes de uma apresentação, existe prova de roupa, cabelo, maquiagem, orientação de casting, marcação de entrada e, quando a agenda permite, ensaio técnico. Agora imagine tudo isso multiplicado por vários desfiles, alguns deles separados por intervalos apertadíssimos.

A modelo termina um trabalho e precisa chegar ao próximo… A maquiagem que acabou de ser construída para uma coleção precisa ser removida… O cabelo, cuidadosamente preparado para uma determinada imagem, precisa ser desfeito e reconstruído… Outra equipe assume, outra proposta estética entra em cena, outra roupa exige atenção, outro diretor de casting estabelece o ritmo.

E, muitas vezes, quando essa profissional finalmente chega, o ensaio técnico já aconteceu.

Isso significa entrar numa dinâmica que os demais integrantes do elenco talvez tenham tido tempo de conhecer previamente. Entender a ordem, localizar a entrada, reconhecer o percurso e ajustar a caminhada à proposta do desfile. Tudo sob a pressão de um relógio que não costuma demonstrar grande sensibilidade artística.

Ui ui ui, daling Lee da Silva… Quem vê a imagem pronta dificilmente imagina a quantidade de decisões, deslocamentos e improvisos necessários para que aqueles poucos segundos de passarela aconteçam.

Por isso, quando falamos que Anna Lumiar e Emmy Neves participaram de 12 desfiles cada, estamos falando também de resistência física, disciplina, versatilidade e uma capacidade profissional de adaptação babadeira que merece ser reconhecida.

Anna Lumiar na passarela da Ammi durante a SPFW N61
Anna Lumiar para AMMI – SPFW N61 2026 – Foto: Zé Takahashi
Emmy Neves na passarela de Catarina Mina durante a SPFW N61
Emmy Neves para Catarina Mina – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Anna Lumiar e Emmy Neves: um empate no topo

Anna Lumiar apareceu em 12 apresentações: Apartamento 03, Ammi, Foz, Cria Costura, Uó por Marcelo Sommer, Handred, Amir Slama, Dario Mittmann, Catarina Mina, Artemisi, Mercado Livre e Marina Bitu.

Emmy Neves também chegou a 12: À La Garçonne, Mercado Livre, Catarina Mina, Dario Mittmann, Santa Resistência, Amir Slama, Hisha, Aluf, Cria Costura, Foz, Ammi e Apartamento 03.

Repare na variedade de marcas, honey. Estamos falando de coleções que não compartilham necessariamente a mesma linguagem, o mesmo público ou a mesma ideia de imagem. E essa é uma das qualidades mais interessantes de uma profissional babadeiramente requisitada: conseguir transitar entre diferentes universos sem perder sua identidade.

Uma boa modelo não é um cabide ambulante, expressão que já deveria ter sido aposentada há muito tempo. Ela interpreta a roupa com o corpo, entende o ritmo da coleção e participa da construção daquela imagem que, posteriormente, será fotografada, compartilhada e lembrada.

O empate entre Anna e Emmy é, portanto, mais interessante do que parece. As duas chegaram ao mesmo número por caminhos de casting diferentes, atravessando propostas criativas diversas e uma rotina de bastidores que exige muito mais do que a desenvoltura de uma bela caminhada.

Clara Liotto para HERCHCOVITCH; ALEXANDRE – SPFW 2026 – Fotos: Zé Takahashi

Os outros nomes que movimentaram a temporada

Logo atrás das líderes, Clara Liotto, Gabriely Dobbins, Kai Andrade, Liya Santos, Mouhamed Diop e Rachel Ravoline aparecem com dez desfiles cada, segundo os números reunidos pelo House of Models.

Aline Souza, Amira Pinheiro e Mustafar completam o grupo de destaque com nove participações.

Considerando os empates, são 11 profissionais distribuídos entre as dez primeiras posições do ranking. E existe algo especialmente interessante nessa configuração: a presença de diferentes perfis, trajetórias e identidades entre os nomes mais recorrentes da temporada.

Mouhamed Diop para Forca – SPFW N61 – Foto: Zé Takahashi/ @agfotosite

A edição também permitiu observar modelos transitando entre apresentações praticamente consecutivas. Essa circulação não representa apenas popularidade diante das equipes de casting. Revela uma rotina de trabalho em que disponibilidade, preparo e capacidade de adaptação podem ser tão determinantes quanto a imagem escolhida para representar uma coleção.

E aqui faço uma ressalva que considero necessária: quantidade de desfiles não é sinônimo automático de prestígio, remuneração ou sucesso profissional. Uma única entrada numa passarela pode ter um peso extraordinário na carreira de alguém. Da mesma forma, participar de muitos desfiles não significa necessariamente receber cachês proporcionais à exigência daquela rotina.

Kai Andrade para HERCHCOVITCH; ALEXANDRE – SPFW 2026 – Fotos: Zé Takahashi

Os 330 nomes de uma temporada que ainda pode ser maior

Ao acompanhar a SPFW N61, o House of Models conseguiu catalogar 330 nomes distintos relacionados aos castings dos desfiles oficiais, um retrato expressivo de quem participou da construção visual desta edição.

E esse número não deve ser confundido com o total absoluto de profissionais que passaram pela semana de moda. O universo real pode ser maior, já que nem todos os nomes foram identificados.

O dado, ainda assim, ajuda a dimensionar o trabalho coletivo que existe por trás de uma temporada. Porque as imagens que chegam ao público são o resultado de uma engrenagem formada por estilistas, equipes de criação, profissionais de beleza, produção, casting, nossas divas camareiras e, evidentemente, pelos modelos.

São eles que dão movimento extremamente necessário às roupas. E isso deveria ser óbvio, mas nem sempre recebe o devido reconhecimento.

A passarela tem glamour. O trabalho precisa ter valor.

Aluf – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

Há outro assunto que não pode ser ignorado. Durante esta edição, ouvimos relatos de profissionais do mercado sobre modelos que decidiram não aceitar determinados desfiles diante das condições de remuneração oferecidas.

É uma discussão que merece atenção e aprofundamento… Não podemos presumir que toda ausência de uma modelo tenha sido motivada pelo cachê, mas também não podemos fingir que a questão financeira não faz parte das decisões profissionais.

Afinal, a mesma modelo que atravessa a cidade, desfaz uma maquiagem, reconstrói o cabelo, perde um ensaio técnico e se prepara para outra entrada está prestando um serviço especializado; né baby? E serviço especializado precisa ser valorizado!

Amir Slama – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

A indústria gosta de celebrar o espetáculo. Eu também gosto, evidentemente… mas o espetáculo não pode apagar o trabalho que o sustenta.

Ao final, Anna Lumiar e Emmy Neves dividiram o topo da nossa classificação. Outros profissionais mostraram uma capacidade admirável de circular entre marcas, propostas e agendas apertadas. E centenas de nomes ajudaram a construir mais um capítulo da São Paulo Fashion Week.

Quanto a mim, sigo com os pés no chão… embora eles tenham pedido férias depois de tantos desfiles. Porque, mon amour, uma coisa é desfilar. Outra é correr atrás de quem desfila.

E nessa história, pelo menos, todo mundo merece um aplauso.

Abalou Bangu e adjacências!

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.