Entre o sertão, a renda, a chuva e as mãos que sustentam o artesanato brasileiro, Celina Hissa apresentou uma coleção de beleza delicada e ambição coletiva. Na passarela, encontrei vestidos que dispensam explicações, algumas escolhas mereciam uma curadoria afiada e uma pergunta que a moda ainda precisa aprender a responder: quem recebe os aplausos quando o talento é de muitas pessoas?
Por Fábio Lage – House of Models
Toda vez que uma marca brasileira decide levar o sertão para uma passarela, existe uma pergunta que me interessa antes mesmo de descobrir quais roupas serão apresentadas: estamos diante de uma interpretação verdadeira de um território ou de mais uma tentativa de transformar a cultura brasileira em cenário para uma bela campanha de moda? Porque, convenhamos, mon amour, a nossa indústria já demonstrou um talento impressionante para encontrar poesia no trabalho dos outros, especialmente quando esse trabalho envolve mulheres, técnicas antigas e histórias capazes de emocionar uma plateia. Nada contra a emoção… até amo. O problema começa quando o encanto da narrativa se torna mais importante do que aquilo que a roupa efetivamente apresenta ou, pior, do que as pessoas responsáveis por sua existência.
A Catarina Mina chega a essa conversa com uma vantagem considerável. Fundada por Celina Hissa, a marca cearense construiu sua identidade justamente no encontro entre o conhecimento artesanal, o desenvolvimento de produtos e as relações de produção, um caminho que registramos em sua estreia na SPFW N57. Não descobriu o crochê porque alguém resolveu anunciar o retorno do feito à mão numa reunião de tendências. Tampouco precisou esperar a sustentabilidade virar argumento obrigatório de apresentação comercial para discutir a remuneração das artesãs. Essa trajetória não torna suas escolhas imunes à crítica, evidentemente. Pelo contrário, estabelece um nível de responsabilidade que merece ser levado a sério. E foi com essa expectativa que examinei Bonito pra Chover, coleção apresentada em 15 de outubro de 2026, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, durante a SPFW N61.

Bonito pra Chover: o sertão e a chuva na passarela da SPFW N61
O título nasce de uma expressão conhecida no sertão, onde olhar para o céu carregado pode significar reconhecer a promessa de água. É uma inversão interessante de perspectiva, sobretudo para quem vive em cidades nas quais algumas nuvens escuras já são suficientes para transformar a mobilidade urbana numa prova de resistência psicológica. Na caatinga, a chuva participa de ciclos ecológicos, atividades produtivas, relações sociais e expectativas que não cabem numa simples descrição meteorológica. Celina Hissa encontrou nesse fenômeno o ponto de partida para uma coleção que procura traduzir o gotejar, o deslocamento da água, a vegetação e as transformações da paisagem por meio das técnicas artesanais. A proposta é bonita. A dificuldade, como sempre acontece na moda, está em conseguir que a roupa seja tão interessante quanto a história contada sobre ela.

Crochê, renda de bilro e agave: o artesanato nordestino como design
Nos looks de abertura, a resposta aparece com uma força visual considerável. Vestidos de superfícies claras, atravessados por longas franjas brancas e prateadas, transformam os fios em linhas verticais que descem pelo corpo. Há algo de cascata na maneira como essas estruturas envolvem as modelos, enquanto redes vazadas, elementos brilhantes e acessórios pendentes ampliam a sensação de água em um movimento babadeiro. Não é necessário consultar uma explicação conceitual para perceber a associação. O trabalho manual deixa de ser apenas um mero detalhe decorativo e passa a determinar a aparência, o volume e, em alguns casos, a própria silhueta da peça. É uma demonstração eficiente de como uma ideia relativamente simples pode ganhar complexidade por meio da matéria.
Essas primeiras construções também representam um dos aspectos mais importantes do desenvolvimento da coleção. Segundo a marca, a família Trovejo utiliza resíduos de malha de algodão provenientes da cadeia industrial da Riachuelo, transformados em novas superfícies têxteis por artesãs de Caicó e Acari, no Rio Grande do Norte, em colaboração com o Instituto Riachuelo. O reaproveitamento não é percebido pelo espectador apenas porque alguém escreveu a palavra upcycling no release. Ele ganha expressão visual nos fios que cobrem as peças, transformando um material anteriormente destinado ao descarte em parte do desenho. É uma solução que merece atenção. Mas o uso de resíduos, por mais interessante que seja, comprova uma prática de reaproveitamento, não a sustentabilidade integral de uma coleção. A discussão também atravessou nossa crítica de À La Garçonne na SPFW N61, embora em uma proposta estética bastante diferente. Já voltaremos a essa diferença, bebê, porque ela importa bastante.
O que mais me interessou, entretanto, não foram necessariamente os vestidos de maior impacto imediato. Em algumas peças claras, a trama aberta se encontra com painéis diagonais, bases translúcidas e áreas mais fechadas que reorganizam visualmente o corpo. Um vestido de decote profundo, com superfícies luminosas atravessando a silhueta em diferentes direções, consegue produzir sofisticação sem recorrer ao aumento de volume. Em outro, os vazados permitem que o corpo participe da composição como uma superfície adicional. Não estamos falando simplesmente de colocar uma renda sobre um vestido bonito, honey… Quando o desenho artesanal determina onde a roupa revela, cobre, atravessa ou interrompe a anatomia, o trabalho manual participa da modelagem. É aí que a coleção encontra algumas de suas soluções mais maduras.

Essa distinção é fundamental para compreender o lugar da Catarina Mina na moda brasileira contemporânea. O artesanato não precisa permanecer eternamente associado à aparência rústica, à lembrança de uma viagem ou àquela ideia antiquada de que uma peça feita à mão só pode ser valorizada quando conserva uma estética considerada tradicional. Há conhecimento de estrutura, ritmo, repetição, tensão e superfície nesses ofícios. Um desenho feito com bilros, uma trama de crochê ou uma técnica de tear não representa apenas uma referência cultural. Pode oferecer soluções de construção que uma máquina industrial não reproduz da mesma maneira. O desafio de Celina Hissa está justamente em fazer esse repertório dialogar com proporções, transparências e necessidades de um guarda-roupa atual, sem esvaziar sua origem para torná-lo mais palatável ao mercado.
E a coleção consegue fazer isso em diferentes momentos. Os vestidos de alças finas, com aplicações florais sobre o busto, apresentam uma elegância menos dependente de grandes volumes. As flores de aparência natural contrastam com tecidos leves, criando uma relação interessante entre o trabalho manual mais denso e a fluidez da base. Uma dessas construções aparece em branco; outra encontra uma tonalidade quente, próxima ao amarelo-dourado, acompanhada por uma camada transparente que suaviza os contornos do corpo. O resultado se aproxima do vestuário de festa sem recorrer àquela solenidade habitual que costuma acompanhar a palavra luxo. Gostei dessa maneira de colocar materiais aparentemente modestos no centro de uma roupa que poderia perfeitamente ocupar uma ocasião importante. A sofisticação, afinal, não precisa pedir autorização a Paris para existir no Ceará, mon petit.
A pesquisa artesanal é mais extensa do que essas imagens sugerem à primeira vista. Além do crochê e da renda de bilro, a coleção incorpora a renda tramoia trabalhada pelo coletivo Mães do Mar, em Acaraú, a rede de travessa de Itarema e diferentes aplicações de fibras naturais e bordados. Há também trabalhos associados a grupos de Maranguape, Trairi e Itaitinga, no Ceará, e de localidades do Piauí e do Rio Grande do Norte. Essa geografia importa porque a construção de uma coleção não começa quando a roupa chega ao ateliê da direção criativa. Começa muito antes, nos territórios onde determinados conhecimentos foram preservados, transmitidos, adaptados e transformados ao longo de gerações. E há uma diferença enorme entre contratar uma técnica como acabamento e estabelecer uma colaboração que permita a esse conhecimento continuar existindo e produzindo renda.

Do azul ao vermelho: como a Catarina Mina transformou as cores da caatinga
A passagem dos tons claros para os azuis revela outra faceta da apresentação. Primeiro surgem superfícies brancas salpicadas de azul, distribuídas entre jaquetas amplas, blusas, saias e calças de volumes generosos. A padronagem irregular lembra marcas deixadas pela água, mas também acrescenta uma dimensão gráfica que afasta a coleção de uma interpretação exclusivamente romântica da chuva. Esses conjuntos me parecem especialmente relevantes para o mercado porque demonstram que a marca consegue trabalhar com peças separadas, combináveis e menos dependentes de um acontecimento especial. Essa dimensão comercial também merece atenção desde a abertura da primeira loja da Catarina Mina em São Paulo, que o House of Models já acompanhou. Depois, o azul-marinho assume uma densidade maior, associado a superfícies brilhantes, bordados e tecidos de aparência mais compacta. A atmosfera se transforma sem que seja necessário colocar outra nuvem na passarela.
Curiosamente, uma coleção que fala da transformação da caatinga não precisa recorrer ao verde como solução óbvia para representar o florescimento. Entre os brancos, os tons naturais, os azuis e os vermelhos, a paisagem aparece muito mais como transformação de matéria do que como ilustração literal da vegetação. Considero essa uma escolha inteligente. O semiárido brasileiro não pode continuar reduzido àquela imagem simplista de terra rachada esperando uma intervenção milagrosa do céu. A caatinga é um bioma vivo, com seus próprios ciclos, espécies e formas de resistência. A chuva modifica sua aparência e suas condições, mas não inaugura sua existência. Quando a coleção evita depender exclusivamente de uma cartela naturalista, abre espaço para uma interpretação menos previsível desse território.
Nos vermelhos, a coleção ganha intensidade. Aparecem saias longas em tons de ferrugem, blusas de trama aberta, vestidos de recortes diagonais e combinações que misturam terracota, coral, vermelho vivo e transparências. Algumas peças utilizam o artesanato como construção principal, especialmente nas regiões do busto e do quadril; outras distribuem os vazados sobre bases mais lisas, produzindo diferenças de densidade e revelando parte do corpo. Gosto particularmente de uma proposta com decote frente única, trama avermelhada e volume ampliado abaixo da cintura. Ali, a técnica ajuda a desenhar a proporção do conjunto, sem precisar se apresentar como uma espécie de troféu pendurado sobre a roupa. Outro vestido vermelho, com painéis diagonais e áreas translúcidas, demonstra como o mesmo repertório pode adquirir uma sensualidade menos óbvia, construída pela relação entre cobertura e exposição.

O styling de Dani Ueda: tênis, sombrinhas e os excessos da coleção
Mas é justamente nesse território que precisamos conversar sobre a edição. A Catarina Mina reuniu muitas técnicas, muitas texturas e uma quantidade generosa de acessórios, e nem sempre a soma desses elementos favoreceu o resultado. A questão da edição também apareceu na nossa crítica de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61, embora em uma linguagem de moda completamente diferente. Em determinadas composições, franjas, brincos alongados, pendentes volumosos, bolsas tramadas e superfícies inteiramente trabalhadas pareciam disputar o mesmo espaço. A proposta de traduzir a chuva estava tão presente que algumas peças acabavam cercadas por várias explicações visuais para uma ideia que já havia sido compreendida. Ui ui ui, mon amour… Quando a roupa consegue fazer chover sozinha, não é preciso convocar o departamento inteiro de meteorologia para confirmar a previsão.
As sombrinhas são o exemplo mais evidente dessa relação. Primeiro aparece uma versão branca, com superfície vazada; depois, uma vermelha, acompanhando um vestido de diagonais e transparências na mesma família cromática. Como objetos artesanais, possuem interesse visual. Como recurso de styling, tornam o conceito imediatamente reconhecível. O problema é que a coleção já havia traduzido a chuva por meio dos fios, dos pontos luminosos, das superfícies e dos contrastes materiais. A sombrinha não chega a comprometer o resultado, mas reforça uma literalidade que a pesquisa têxtil tinha capacidade de superar. Em certos momentos, a melhor decisão de uma direção de moda é permitir que uma boa roupa termine de falar sem interrupções.
O trabalho de Dani Ueda também apresenta acertos importantes. A escolha recorrente de tênis e sandálias da marca desejável VEJA aproxima vestidos longos, rendas e peças transparentes de uma imagem menos cerimonial. A combinação interessa especialmente nas propostas com calças amplas, túnicas e jaquetas, nas quais o artesanato encontra uma atitude cotidiana. Mas existe uma ressalva: quando praticamente toda a coleção recorre à mesma oposição entre roupa elaborada e calçado esportivo, o contraste deixa de surpreender. A primeira combinação comunica liberdade. A repetição excessiva transforma essa liberdade em fórmula. Acredito que algumas peças teriam ganhado ainda mais personalidade com uma edição de acessórios e calçados menos uniforme.

Rede de travessa de Itarema: quando o tear se transforma em moda
Há, contudo, um momento em que a coleção consegue superar boa parte dessas questões. As peças de listras multicoloridas, construídas com faixas verticais atravessadas por linhas horizontais e finalizadas por franjas, introduzem uma arquitetura têxtil diferente das rendas e das superfícies vazadas apresentadas anteriormente. É nesse grupo que aparece a rede de travessa, técnica associada à região de Itarema. A composição de branco, vermelho, azul, amarelo e tons naturais não precisa imitar uma paisagem para afirmar sua ligação com o conhecimento artesanal. O desenho tem personalidade própria. Uma túnica sobre calça vermelha, uma saia de faixas multicoloridas combinada a camisa translúcida e uma construção longa próxima ao encerramento são exemplos de como o trabalho de tear pode organizar a roupa inteira, em vez de se limitar a decorá-la.
Esse talvez seja o desenvolvimento mais interessante da coleção. Quando a Catarina Mina troca a necessidade de representar visualmente a chuva pela confiança nas possibilidades do próprio conhecimento têxtil, o resultado ganha autonomia. O artesanato deixa de funcionar como evidência de origem e passa a constituir uma linguagem de criação. A roupa não precisa anunciar o endereço de onde veio a técnica para merecer atenção, embora esse endereço continue sendo fundamental para compreender sua história. A diferença é sutil, mas decisiva: uma coisa é fazer uma bela peça que homenageia um saber tradicional; outra é permitir que esse saber participe da invenção de uma forma contemporânea.

Casting da Catarina Mina na SPFW N61: diversidade, modelos e gerações
E é impossível falar desse percurso sem observar o casting. Entre os nomes previamente mapeados pelo House of Models para a apresentação estão Anna Lumiar e Emmy Neves, justamente as duas profissionais que dividiram a liderança de participações na SPFW N61. O elenco fotografado apresenta uma pluralidade babadeira… embora a predominância de corpos magros mantenha boa parte da apresentação dentro de padrões bastante familiares à indústria. Há uma unidade de beleza construída por cabelos presos de maneira pouco rígida, tranças, pele luminosa e acessórios expressivos. A imagem parece buscar naturalidade, mas não deixa de ser cuidadosamente dirigida.
O que mais chama atenção, porém, é a presença de uma modelo de cabelos brancos no encerramento registrado pela fotografia. Vestindo uma das construções multicoloridas mais expressivas da coleção, ela aparece com a roupa de faixas geométricas sobre uma trama azul-escura, acompanhada por acessórios pendentes e calçado esportivo. Não precisamos inventar sua biografia, chamá-la de artesã ou atribuir a ela uma representação simbólica que ninguém comprovou para reconhecer a relevância daquela imagem. Sua presença amplia a variedade geracional do elenco e produz uma relação interessante com uma coleção dedicada a técnicas que atravessam o tempo. O trabalho artesanal costuma ser apresentado como herança, mas a indústria da moda continua frequentemente obcecada por uma juventude quase obrigatória. Ver uma modelo mais velha ocupando aquele espaço, sem que a roupa perca força ou contemporaneidade, merece atenção.

Catarina Mina, Instituto Riachuelo e sustentabilidade: quem faz a moda acontecer?
Resta, entretanto, a discussão mais importante de toda essa história. A Catarina Mina possui uma trajetória documentada de iniciativas voltadas à transparência produtiva, incluindo o projeto Uma Conversa Sincera, lançado em 2015, que colocou os custos das peças e a remuneração de quem as produz no centro de seu discurso empresarial. É uma diferença relevante em relação às marcas que descobriram o artesanato como argumento de comunicação. Existe um histórico a considerar, e seria superficial ignorá-lo. Mas também seria igualmente superficial transformar esse histórico num certificado permanente de responsabilidade. Quando uma coleção envolve novos territórios, diferentes grupos de artesãs e parcerias industriais, surgem perguntas legítimas sobre remuneração, continuidade das encomendas, participação criativa, distribuição dos ganhos e rastreabilidade das peças.
O envolvimento do Instituto Riachuelo acrescenta outra camada a essa discussão. Há mérito em recuperar resíduos de uma grande operação industrial e transformá-los em matéria-prima para uma produção artesanal. O que não se pode fazer é tratar o reaproveitamento como resposta automática para todos os problemas ambientais e trabalhistas envolvidos na cadeia da moda. A transformação de resíduos é uma prática identificável; a redução efetiva do impacto ambiental depende de informações que não aparecem numa fotografia de passarela. Da mesma forma, o fortalecimento de comunidades artesanais precisa ser observado para além da quantidade de grupos mencionados num release. Não se trata de desacreditar o trabalho da Catarina Mina. Se trata de reconhecer que uma marca com esse histórico tem condições de aprofundar a conversa, apresentar resultados e estabelecer padrões que outras empresas ainda preferem evitar.

O que a coleção Bonito pra Chover acerta e onde perde força
E aqui chegamos ao ponto que considero essencial. A coleção tem bons vestidos, soluções de transparência muito interessantes, aplicações florais delicadas, conjuntos comerciais convincentes e uma pesquisa têxtil babadeira que merece ser reconhecida. Também tem repetições, escolhas de acessórios que poderiam ter sido mais contidas e momentos nos quais a abundância de recursos enfraquece a individualidade das peças. Não vejo uma revolução na silhueta feminina, tampouco acredito que essa fosse a principal ambição da marca. O avanço mais consistente está na ampliação do repertório técnico e na maneira como diferentes conhecimentos artesanais começam a conquistar funções mais complexas dentro do vestuário.
Há uma ironia especialmente interessante no fato de essa coleção ter sido apresentada no Pavilhão das Culturas Brasileiras, justamente quando a São Paulo Fashion Week completava trinta anos. Durante décadas, a moda brasileira precisou negociar sua legitimidade entre referências internacionais, demandas comerciais e a necessidade permanente de demonstrar que possuía uma identidade própria. Agora, diante de uma marca que aproxima comunidades do Ceará, do Piauí e do Rio Grande do Norte, talvez a pergunta mais pertinente já não seja se o artesanato brasileiro merece estar numa passarela importante. Essa discussão deveria ter sido superada há muito tempo. O que precisamos perguntar é qual lugar essas pessoas ocupam na estrutura econômica, na autoria e nas decisões que determinam o futuro dessa moda.

Celina Hissa apresentou uma coleção que merece elogios, principalmente quando permite que as técnicas artesanais conduzam o desenho das peças. Bonito pra Chover não resolve todas as questões que levanta, e algumas escolhas visuais poderiam ter encontrado um resultado ainda mais forte com menos interferências. Mas seu trabalho reafirma uma possibilidade importante para o mercado brasileiro: construir uma linguagem contemporânea sem tratar o conhecimento tradicional como um souvenir sofisticado, retirado de seu território para ganhar uma etiqueta mais cara.
No sertão, olhar para o céu pode ser uma maneira de reconhecer que alguma coisa está prestes a mudar. Na moda, prefiro olhar também para quem está trabalhando enquanto os outros aguardam a transformação. Porque a chuva pode até inspirar um vestido belíssimo, mon amour, mas os pontos, os nós, as tramas e as horas de trabalho não caem do céu.
E quando os aplausos começam, seria muito bom que alcançassem todas essas mãos.
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