Chanel Cruise 2026/27: Matthieu Blazy abriu a janela da maison para Biarritz, Brasil e desejo

Mon petit da Silva… eu acabei de assistir ao desfile Cruise 2026/27 da Chanel com aquela sensação rara que a moda, quando resolve lembrar por que existe, ainda consegue provocar vontades… Vontade de tocar. Vontade de vestir. Vontade de entrar na roupa como quem entra numa paisagem digna de ser vivida. Vontade de pertencer a um sonho sem pedir desculpas por isso, bebê.

Por Fabio LageHouse of Models

Matthieu Blazy, meu novo diretor criativo favorito do momento, vem me cativando cada vez mais porque parece entender uma coisa que muita gente no luxo esqueceu enquanto estava ocupada demais fazendo produto para rede social: Chanel não pode deixar de provocar sonho, baby. Não o sonho decorativo, perfumado artificialmente, embalado em release de boutique. Falo do sonho físico, sabe? Aquele que começa no olho, passa pela pele e termina numa espécie de convicção íntima: “eu poderia ser mais eu dentro disso”.

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Como homem, eu sinto falta de uma versão masculina oficial da Chanel. Não é de hoje. E não estou falando de uma camiseta com logo jogada no cabide masculino para cumprir tabela, darling Lee. Estou falando daquele desejo real e inebriante. De jaquetas que eu usaria, de camisas que eu sentiria no corpo, de bolsas que eu carregaria sem ironia, de colares que eu vestiria como armadura simbólica, de um tweed babadeiro com presença, de uma calça com caimento impecável, de uma peça que não me pedisse para performar feminilidade nem masculinidade, mas apenas estilo. E, vendo essa Cruise Collection em Biarritz, percebi que Blazy talvez esteja fazendo algo muito mais interessante do que lançar uma “linha masculina” com fanfarra corporativa: ele está tornando Chanel habitável para outros corpos, honey.

Isso é muito mais sofisticado, convenhamos… E, possivelmente, muito mais perigoso para o desejo.

Porque uma grande maison vai além de vender roupas, bebê. Chanel vende permissão. Permissão para se mover de outro jeito, para comunicar identidade sem precisar explicar currículo, para sair da persona social e entrar num território em que tecido, caimento, gesto, logotipo, memória e fantasia constroem uma segurança quase espiritual. Ui ui ui, mon amour, quando Chanel acerta, não é só um look. É uma autorização surreal.

E foi justamente isso que senti nessa primeira Cruise Collection de Matthieu Blazy para a maison, apresentada em Biarritz: uma Chanel menos museológica, menos engessada no próprio altar, menos refém da reverência automática. Uma Chanel com sal. Com vento. Com pele. Com corpo. Com mar. Com humor. Com história. Com desejo. E, sim, com uma brasilidade fina atravessando a coleção como brisa atlântica, sem precisar vestir uma palmeira na cabeça para abalar Bangu e adjacências…

Biarritz é certidão de nascimento!

Escolher Biarritz para a primeira Cruise de Blazy na Chanel é um gesto babadeiramente histórico, quase litúrgico. Gabrielle Chanel escolheu Biarritz, em 1915, para abrir sua maison de alta-costura longe das convenções de Paris, reunindo sob o mesmo teto boutique, ateliês, salões e apartamento, antecipando o famoso modelo simbólico da Rue Cambon. Foi na costa basca, depois de seus primeiros passos como modista em Paris, Deauville e Monte-Carlo, que o estilo Chanel tomou forma… Vai tomando, bebê!

Biarritz, portanto, não entra como postal barato de recordações… Entra como origem. Como lugar onde Chanel aprendeu que elegância não precisava ser prisão. A cidade, com seu Atlântico batendo forte, sua aristocracia em deslocamento, seus esportes, seus banhos de mar, sua vida entre salão e praia, ofereceu à jovem Gabrielle um laboratório de modernidade bem babadeiro. Ali, o corpo feminino podia andar, respirar, viajar, bronzear, observar nadadores, atravessar ambientes. Ali, a roupa precisava acompanhar a vida… e não domesticá-la; viu?

De acordo com Matthieu Blazy, em Biarritz, Gabrielle “olhava os nadadores, se bronzeava, usava roupa de trabalho francesa”, e esse estilo de vida ao ar livre, somado ao clima atlântico, afinou seu gosto por roupas confortáveis e práticas.

É exatamente aí que a coleção ganha espessura. Blazy não volta a Biarritz para fazer fantasia de arquivo, não, viu… Ele volta para reativar uma pergunta essencial: o que Chanel significa quando volta a se mover?

A resposta aparece na própria estrutura do desfile. O salão se transforma em uma verdadeira praia. O preto se abre para o corpo. O duplo C deixa de ser apenas logotipo e vira arquitetura afiada. A bolsa cresce, amolece, pesa, acompanha. O sapato bicolor reaparece em variações quase lúdicas. A ráfia sussurra. A seda foulard flutua. O tweed relaxa. A lona lavada tira o excesso de cerimônia. O denim brilha. O jornal vira memória. A praia entra pela janela sem pedir licença, querides!

Atura ou surta, bebê: Biarritz aqui não é decoração. É argumento.

Matthieu Blazy não está decorando códigos. Está abrindo janelas e portais

O erro mais comum ao falar de Chanel é tratar seus códigos como peças de museu. Preto. Branco. Bege. Tweed. Camélia. Duplo C. Bolsa. Pérolas. Sapato bicolor. Little black dress. Tailleur. Tudo isso pode virar relíquia se cair em mãos medrosas. E Chanel, por ser Chanel, corre sempre esse risco: de se transformar numa marca tão consciente de seu próprio mito que começa a administrar memória em vez de criar desejo.

Blazy parece entender o perigo. Ele não nega os códigos. Também não os coloca numa redoma com iluminação bonita e segurança particular. Ele mexe. Ele torce. Ele aproxima do corpo. Ele deixa o tecido respirar… fluir.

A própria Chanel define a coleção dizendo que “o pequeno vestido preto continua se reinventando” e que o duplo C atravessa silhuetas em movimento, de conjuntos fluidos em seda foulard a saias de ráfia e tailleurs em lona de algodão lavada. Essa frase oficial é importante porque revela a espinha dorsal do desfile: assinatura e movimento, manifesto e matéria, arquivo e praia.

A abertura com o pequeno vestido preto, desfilado por Noor Khan, é quase uma tomada de posição. Um vestido preto sem mangas, decote profundo, topstitching branco desenhando linhas que convergem para a cintura e criam uma espécie de cartografia do corpo. É Chanel no grau zero e, ao mesmo tempo, Chanel reprogramada. E convenhamos, bebê… o preto não aparece como luto, rigidez ou solenidade. Ele se materializa como manifesto gráfico, como roupa que conhece sua história, mas não pede bênção para existir no presente.

O desfile começou com uma releitura do little black dress no ano em que se celebra o centenário da imagem radicalmente simples que a Vogue chamou, em 1926, de “Chanel’s Ford”. Blazy ainda contextualizou esse gesto como deslocamento social: Chanel teria retirado o vestido preto dos trabalhadores, das empregadas, das moças de loja, decontextualizando-o e impondo-o à aristocracia… Ui ui ui!

Essa é a chave, mon amour de Champs Élysees… Chanel sempre foi uma operação de deslocamento. Ela pegou o que não deveria estar no salão e levou ao salão. Pegou roupa prática, roupa masculina, roupa esportiva, roupa de trabalho, roupa de movimento, e transformou em linguagem de elite. Blazy parece voltar a esse gesto fundador, mas sem caricatura vintage. Ele olha para Gabrielle além da santa padroeira do tweed, mas como uma mulher que entendeu antes dos outros que o corpo moderno precisava de liberdade absoluta.

A coleção inteira nasce desse delicioso entendimento. O duplo C aparece em cintos, tops, saias, recortes, maiôs, bolsas, toucas, vestidos e tricôs, mas o melhor momento é quando ele deixa de parecer emblema e passa a funcionar como construção. Há saias em que o logo curva os quadris. Há tops em que o símbolo vira ponto focal. Há vestidos em que o contorno gráfico do C não grita, mas desenha. É branding, claro, darling Lee. Chanel nunca fingiu ser monja do minimalismo anônimo. Mas é branding com inteligência visual de ponta, não mendicância de logo… Deus me Free!

Blazy foi cirúrgico ao falar sobre referências baseadas em desenhos de Chanel de 1929, em que o logo atravessava roupas inteiras. “The whole clothes are the logo”, disse ele. Isso muda tudo… porque o logo não está pendurado na roupa, bebê. A roupa é o logo.

E aí o babado fica interessante, porque Blazy parece saber que a Chanel contemporânea precisa de desejo imediato sem abrir mão de complexidade. Ele entende produto, imagem, arquivo e internet. Sabe que uma bolsa precisa vender, mas também precisa aparecer num frame. Sabe que um casaco precisa ser reconhecível, mas não pode parecer figurino de cliente aprisionada em 1998. Sabe que uma coleção Cruise precisa falar com viagem, verão, praia e consumo internacional, mas sem virar catálogo de resort com grife.

O sonho Chanel voltou a ter corpo

Se você chegou até aqui e ainda acredita que Chanel vende apenas roupa… Mon bebê de Xique-Xique… canta para subir! Chanel vende a hipótese de uma vida plena. E a Cruise 2026/27 é forte porque o sonho aparece no corpo, não apenas na superfície; que muitas vezes é bem rasa.

Ele aparece no vestido branco com viés preto, amarrado na cintura, com fenda e movimento de pareô sofisticado. Aparece no vestido preto de franjas e textura, que caminha como noite molhada. Aparece no conjunto rosa, quase doce, mas cortado por estrutura e atitude. Aparece no tailleur vermelho com fenda, que faz o clássico sair do gabinete e ir direto para o calor. Aparece nas camisas listradas com bermudas, nos casacos amplos, nos tops de praia, nas saias de ráfia que balançam como se tivessem ouvido música antes de entrar na passarela… que delicinha!

O salão com vista para o mar reforça essa dramaturgia inebriante. É a Chanel entre interior e exterior. Entre etiqueta e vento. Entre carpete e areia. O desfile aconteceu em um ballroom do cassino com vista para a Baía da Biscaia, e essa moldura importa porque coloca a roupa entre o protocolo do luxo e a indisciplina da paisagem.

Quando a roupa se move nesse espaço, ela ganha outra temperatura babadeira. Um tailleur preto parece menos escritório e mais gesto. Um tricô listrado parece menos náutico óbvio e mais memória de praia basca. Uma bolsa-cesto deixa de ser acessório pitoresco e vira objeto de vida. Um sapato bicolor com ponta colorida vira pontuação pop gostosa. Um colar grande no pescoço transforma o corpo em lugar de poder.

O sonho, aqui, não está apenas no vestido de noite final, embora ele exista e seja deslumbrante. Está na possibilidade de se imaginar vivendo dentro da Chanel sem virar personagem engessado da própria marca. Isso é novo. Ou melhor: isso é velho do jeito certo. Gabrielle Chanel fazia roupa para se mover. Blazy parece ter entendido que, em 2026, a verdadeira sofisticação talvez seja devolver mobilidade simbólica a uma maison que, por muito tempo, correu o risco de parecer satisfeita demais com sua própria vitrine.

A Chanel que eu vestiria

Agora vamos falar do elefante elegante no salão: eu, homem, desejando Chanel… Cê jura, né?

Não desejo Chanel como fantasia de apropriação. Não é sobre invadir o closet feminino e sair gritando “moda sem gênero” como quem acabou de descobrir a roda no TikTok… Deus me livre, mas quem me deram! A questão é mais profunda. É sobre perceber que certas roupas, quando bem pensadas, deixam de pedir autorização binária.

Eu olhei para várias jaquetas dessa coleção e pensei: eu usaria. A jaqueta preta cropped de lapela ampla com calça fluida e bolsa de corrente dourada. A jaqueta branca curta com bermuda de couro marrom. Os casacos listrados com construção de tailleur, as camisas soltas de seda foulard, os tops esportivos, os tricôs de gola aberta, as bermudas, as calças amplas, os colares grossos, as bolsas grandes, as bolsas-cesto, as sandálias, os óculos, os lenços. Tudo isso tem uma presença que pode atravessar corpos masculinos sem perder a alma Chanel.

Mon amour, o ponto aqui não é neutralizar a roupa. O ponto é amplificar o desejo. A Chanel de Blazy não precisa fingir que gênero não existe. Ela pode fazer algo muito mais sofisticado: criar peças que homens desejem porque são bonitas, táteis, inteligentes, poderosas e carregadas de símbolo. Uma jaqueta de tweed com ombro preciso e acabamento vivo. Uma camisa listrada com botão dourado. Um casaco de lona lavada com cara de viagem. Uma bolsa grande que não parece “bolsinha”, mas objeto de deslocamento, trabalho, vida. Um colar que não delicadeza o corpo, mas que o arma.

E convenhamos bebê… a gente sabe que os jeans de Blazy já vinham se tornando um totem da nova Chanel, com uma estética que aproxima gosto elevado de uma ideia mais democrática, embora, obviamente, em preços nada democráticos. Esse é o paradoxo do luxo contemporâneo: a roupa pode parecer mais próxima da vida, mesmo continuando reservada a poucos bolsos. Mas imagem é contágio. E quando Chanel começa a parecer mais usável, mais orgânica, mais próxima de corpos reais, ela muda o campo de desejo.

Eu não preciso que Chanel lance amanhã uma placa escrita “menswear”. Talvez fosse até burocrático demais. O que Blazy parece fazer é mais inteligente: ele abre uma porta. Não anuncia revolução, porque Chanel não precisa de panfleto. Ele apenas coloca uma jaqueta ali, uma bolsa aqui, uma camisa acolá, um colar no pescoço, um casaco com proporção certa, e deixa o desejo trabalhar.

E o desejo, darling, trabalha muito bem quando não é tratado como departamento.

O Brasil entrou como brisa, não como fantasia

Desde os primeiros minutos do desfile, senti uma energia brasileira atravessando a coleção. E quero ser muito preciso aqui para ninguém sair correndo dizendo que Fábio Lage achou Brasil porque viu cor”. Nãoooo honey. A leitura é outra.

Não estou falando de tropicalismo de aeroporto. Não estou falando de carnavalização preguiçosa. Não estou falando de palmeira, arara, caipirinha ou fantasia de “exótico” para europeu bater palma. A brasilidade que senti na coleção é bem mais fina, mais ambígua e, justamente por isso, mais interessante.

Ela aparece na pele. No corpo livre. Nas fendas. Nos decotes. Nos babados. Nas rendas. Nos colares. Na fluidez. Na relação entre praia e cidade. Nas bolsas de palha e cesto. Nas cores solares. Nos azuis de mar. Nos vermelhos que aquecem. Nos verdes que surgem como choque. Nos vestidos que parecem feitos para caminhar depois do banho, mas com joia no pescoço. Nas saias com movimento de dança sem se tornarem figurino. Na sensualidade que não se desculpa, mas também não se vulgariza.

Em determinado momento, quando a música “Brazil”, de Geoff & Maria Muldaur, entrou na trilha sonora da transmissão que assisti, a percepção se acendeu de vez. A coleção já vinha abrindo essa janela, mas a música funcionou como sublinhado sonoro bem gostoso. Não como prova absoluta, mas como piscadela. O babado é certo: Blazy pode não ter “feito uma coleção sobre o Brasil”, e talvez seja justamente por isso que ela me pareceu tão brasileira em certos momentos. Porque o Brasil mais sofisticado na moda raramente é aquele que se anuncia com batuque obrigatório. É aquele que passa pela pele.

Há ainda uma imagem geopolítica deliciosa nessa leitura. O Brasil é o único país da América Latina com fronteira terrestre com a França, por meio da Guiana Francesa. A fronteira Brasil-França tem 730,4 km, segundo documento da FUNAG ligado ao governo brasileiro. Essa informação parece quase uma nota de rodapé diplomática, mas, no contexto do desfile, vira poesia fashionista. França e Brasil não se encontram apenas na fantasia cultural. Eles se tocam no mapa. E, em Biarritz, com o Atlântico ao fundo, essa ponte fica ainda mais poderosa.

Não estou dizendo que Blazy “tropicalizou” Chanel. Seria muito raso, neah? Ele fez algo mais elegante: abriu a janela para o Atlântico entrar. E o Atlântico, mon amour, carrega muita coisa… Carrega Biarritz. Carrega França. Carrega América Latina. Carrega Brasil. Carrega praia, deslocamento, desejo, comércio, colonialidade, imaginação, corpo, música, sol e contradição. Tudo isso pode estar ali, mesmo quando não está estampado em letras garrafais.

As brasileiras de Blazy: Paquitas, Nova Geração, versão alta moda

Entre as modelos brasileiras confirmadas no seleto casting da Chanel estavam Bruna Souza, Carliane Paixão, Júlia Morais, Lais Hames, Lívia Eduarda, Luiza Perote, Mariane Calazan e Victoria Blecher, segundo apuração do House of Models. Oito brasileiras atravessando a passarela da primeira Cruise de Matthieu Blazy para Chanel em Biarritz. Honey Lee de Nossa Senhora Aparecida… isso não é detalhe, tá? É chancela… Ui ui ui, adooooro!

Num momento em que a coleção flerta com praia, corpo, movimento, pele, sensualidade atlântica e uma ideia de luxo menos engessado, ver essa nova geração brasileira ocupando espaço no seleto casting da Chanel tem valor simbólico e de mercado. Não é nostalgia da era das übermodels brasileiras, embora a memória inevitavelmente dê aquela piscadinha. Não estamos falando de repetir Gisele, Isabeli, Raquel, Caroline, Fernanda ou tantas outras como se o Brasil precisasse viver preso a um álbum de glórias passadas. O momento agora é outro. Mais plural. Mais diverso. Menos dependente de um único molde de beleza exportável.

Quase dá vontade de chamar de “Paquitas, Nova Geração”, mas com a devida sagacidade editorial. Porque essas meninas não desceram de uma nave cor-de-rosa para cantar parabéns no palco. Elas entraram na Chanel, darling. Em Biarritz. Na primeira Cruise de Blazy. Vestindo uma coleção que fala de origem, corpo, praia, arquivo, desejo e futuro. Atura ou surta, bebê: isso é outro tipo de programa infantil. É formação de imagem global marcando um C no coração.

A presença delas importa porque casting, nesse nível, é pura linguagem. Chanel não escala por gentileza diplomática. Chanel escolhe rostos, corpos e presenças que ajudam a construir a narrativa visual da maison naquele momento. E quando oito brasileiras entram nessa conversa, a mensagem é clara: o Brasil voltou a aparecer como corpo relevante na alta moda internacional. Não como “beleza tropical” pasteurizada, mas como geração com rosto, repertório, diversidade e potência.

Para nós, do House of Models, que sempre olhou modelo como protagonista da indústria e não como cabide ambulante, esse detalhe é central. A moda gosta de falar de roupa e esquecer quem carrega a roupa até a história. Aqui, as brasileiras carregam Chanel. E carregam também a hipótese de um retorno simbólico do Brasil ao centro da imagem global. Babado forte, sim. Mas com fundamento, querides!

A dramaturgia do preto manifesto ao mar cristalizado

A coleção começa no preto como quem abre uma porta antiga e deixa entrar vento novo. O primeiro vestido preto, com linhas brancas convergindo no corpo, funciona como algo palpável. Depois, o preto se desdobra em alfaiataria, em vestido, em tailleur, em textura, em noite, em renda, em jaqueta curta, em calça ampla, em vestido de contas, em camadas. O preto de Blazy não é plano. Ele tem nervura, relevo, linha, peso, queda, brilho, sombra. É um preto que sabe que Chanel nasceu também da subversão social dessa cor.

O little black dress deixa de ser “ícone” no sentido cansado da palavra. Vira campo de teste. Em alguns momentos, ele é gráfico e quase geométrico. Em outros, é sensual, com decote profundo e textura. Mais adiante, reaparece em vestidos pretos de babados, contas, franjas e transparências, até chegar à monumentalidade quase fúnebre e teatral do look preto final com cabeça coberta, óculos escuros e volume de alta-costura. Esse look é a Chanel viúva do próprio mito e, ao mesmo tempo, senhora absoluta da própria ressurreição.

O duplo C aparece como assinatura, mas também como provocação visual. Há peças em que ele surge no peito, na cintura, no cinto, na touca, no maiô, na saia, na bolsa. Em outras, ele estrutura o desenho da roupa. A saia verde com logo preto nos quadris, por exemplo, é quase uma aula de como transformar branding em arquitetura deliciosa. O vestido creme com contorno vermelho e grande duplo C no peito tem um humor gráfico que conversa com praia sem perder aquela sofisticação. Os tops com recortes e medalhões no centro do peito criam uma sensualidade controlada, quase esportiva, muito Blazy.

Depois o salão começa a virar praia. Aparecem toucas de natação com CC, óculos escuros, bodies, shorts, sandálias, peças que lembram maiôs, botas altas quase absurdas em diálogo com roupa de banho, saias de ráfia, cestos, bolsas listradas, acessórios marítimos, colares grandes, conchas imaginárias, estrelas-do-mar bordadas ou sugeridas, franjas que parecem algas, paetês que parecem escamas. Mas nada cai na caricatura náutica. Mesmo quando a referência é explícita, há uma inteligência de proporção que segura o look… Força na peruca, neah!

Os tailleurs relaxados são um capítulo à parte. Há tweeds clássicos com novas texturas, conjuntos em rosa, vermelho, preto, branco, creme, dourado, azul, burgundy, listras e padronagens que misturam disciplina e praia. As saias aparecem com fendas, barras irregulares, franjas, recortes e coloca movimento nisso. As jaquetas ora são curtas e quadradas, ora alongadas, ora quase casacos de viagem. O tailoring não quer aprisionar o corpo… Quer acompanhar o corpo. E essa é uma diferença enorme, baby.

A lona de algodão lavada aparece como antídoto contra o excesso de preciosismo. Ela dá à Chanel uma aparência de uso, de viagem, de roupa que saiu do salão e viu a luz do dia. A seda foulard, por sua vez, constrói os momentos mais fluidos e gráficos da coleção: vestidos de listras, conjuntos soltos, camisas com lenços, amarrações, saias que parecem pareôs sofisticados. A ráfia entra como som. Sim, som. Porque uma saia de ráfia não apenas se vê; ela sussurra no movimento.

O bloco das estampas coloridas intensifica a hipótese atlântica. Listras em vermelho, preto, creme, azul e verde atravessam vestidos, camisas, bolsas e saias. Há looks que lembram guarda-sol, toalha de praia, barco, mercado de verão, hotel antigo, cartão-postal fragmentado. Em alguns, o corpo parece envolto por foulards; em outros, por painéis gráficos que flutuam. O uso do vermelho é especialmente interessante porque aquece a coleção sem vulgarizar. O azul, quando surge, muda a respiração. O verde, usado em sapatos, saias e detalhes, funciona como choque de frescor.

O jornal é um dos grandes achados narrativos dessa coleção. Ele aparece em peças mais leves, em casacos, vestidos e, no final, em um vestido de gala monumental. O terno com estampa de jornal trazia manchetes relacionadas ao tempo de Chanel em Biarritz e conectou a referência ao espírito radical da fundadora. Visualmente, o jornal é brilhante porque transforma imprensa em roupa, memória em superfície, arquivo em desejo. Chanel sempre foi notícia e Blazy veste essa notícia… Que desbunde delicioso!

O vestido de gala em estampa de jornal, já no final, é uma das imagens mais fortes da coleção. Saia ampla, volumes quase couture, páginas impressas transformadas em arquitetura. É como se a maison dissesse: minha história pública também é matéria-prima. E isso tem uma ironia deliciosa para quem trabalha com moda e imprensa. A roupa vira jornal, o jornal vira vestido, o vestido vira notícia. O babado fecha o ciclo.

Os looks mais comerciais estão nos tailleurs de tweed reconfigurados, nas jaquetas curtas, nas camisas listradas, nas bolsas grandes, nos cestos, nos sapatos bicolores com variações com toque pop, nos vestidos brancos com viés preto, nos conjuntos de saia e jaqueta, nos tricôs com logo, nos tops de praia reinterpretados, nas calças amplas e nos acessórios. Já os looks mais editoriais explodem no vestido de jornal, no preto monumental, no conjunto fogo em laranja e dourado, no vestido turquesa de paetês, nos florais aplicados, nas rendas vazadas, nos volumes de ráfia, nos chapéus e toucas que criam verdadeiros personagens contemporâneos.

O final é quase elemental, meu caro Watson. Jornal, preto, branco, flor, fogo, água. O vestido preto monumental traz o drama. O conjunto laranja e dourado parece fogo líquido, mas sem virar fantasia carnavalesca. O vestido turquesa final, coberto por aplicações brilhantes, parece mar cristalizado no corpo… Uma inspiração que vem de sereias em um mural art déco no farol de Biarritz, cujas caudas entrelaçadas formariam algo semelhante ao duplo C. É um fecho perfeito: Chanel volta à origem, atravessa arquivo, praia, corpo e termina no mito aquático.

Cor, matéria e tato: uma Chanel que se sente antes de tocar

A cartela de cores faz a coleção caminhar do salão para a praia. O preto abre como algo palpável. O branco entra como respiro, pele, luz e contorno. O bege e os tons de areia criam continuidade com a arquitetura, com a praia, com a ideia de roupa lavada pelo tempo. O rosa aparece como doçura tensionada por estrutura. O vermelho aquece e dramatiza. O azul traz mar e horizonte. O turquesa final cristaliza a água. O verde, quando surge, injeta vida quase inesperada. As estampas vibrantes quebram a solenidade e fazem Chanel parecer menos intocável.

Mas talvez a maior força esteja na matéria. Blazy tem uma inteligência tátil rara. A seda foulard não está ali apenas para parecer leve; ela carrega gesto. A ráfia faz barulho visual. A lona lavada tira a roupa do pedestal. O tweed aparece menos como uniforme de cliente Chanel e mais como terreno de experimentação. A renda mostra pele sem pedir desculpa. O denim, inclusive em versões brilhantes e lavadas, conversa com uma Chanel mais cotidiana. Os bordados, paetês, franjas, babados e aplicações constroem superfície como emoção latina.

Essa materialidade é fundamental para o reposicionamento de Blazy. Ele deixa de apenas desenhar silhuetas bonitas e passa a reconstruir a relação entre Chanel e o corpo por meio da textura. Uma roupa pode ser reconhecível à distância, mas precisa fazer sentido de perto. Precisa ter toque imaginado. Precisa criar aquela vontade quase infantil de passar a mão, aproximar o rosto, sentir o peso, entender a costura. Luxo sem tato é PowerPoint caro.

Styling: quando o acessório ajuda a roupa a viver

O styling é decisivo nessa coleção. Os colares grandes, muitas vezes quase esculturais, dão peso ao pescoço e transformam o corpo em território de autoridade. As bolsas aparecem em múltiplas escalas: pequenas, rígidas, lúdicas, de corrente, em cesto, listradas, macias, alongadas, enormes. Algumas parecem prontas para praia. Outras para viagem. Outras para noite. Outras para vida real de cliente que precisa carregar mais do que um batom e um cartão corporativo.

Os sapatos bicolores ganham humor com pontas coloridas, materiais brilhantes, variações de sandália, escarpim, slingback e construção quase esportiva. As toucas de natação com CC são talvez um dos recursos mais fotogênicos do desfile, porque misturam arquivo, praia, corpo e logo com uma insolência visual deliciosa. Os óculos escuros criam distância, personagem e mistério. Os lenços, laços e amarrações fazem a roupa parecer em trânsito.

O melhor é que o styling atualiza Chanel sem transformá-la em paródia de si mesma. Esse seria o verdadeiro risco. Um pouco mais de logo, um pouco mais de concha, um pouco mais de estrela-do-mar, um pouco mais de bolsa-cesto, e tudo poderia virar souvenir de luxo. Blazy segura. Ele flerta com o kitsch sem se entregar a ele. Ele entende que Chanel pode brincar, mas precisa manter coluna vertebral bem fime.

Mercado e branding: Biarritz como estratégia, não nostalgia

Honey, do ponto de vista de branding, apresentar a primeira Cruise de Matthieu Blazy em Biarritz é um golpe muito inteligente. Chanel comunica origem e futuro ao mesmo tempo. Diz ao cliente tradicional: “eu sei de onde venho”. Diz ao consumidor novo: “eu não estou presa lá”. Diz ao mercado: “Blazy não é uma troca de nome, é uma nova respiração”. Diz aos homens que desejam Chanel: “talvez haja lugar para vocês sem que eu precise anunciar isso em outdoor”. Diz à América Latina e ao Brasil: “eu posso falar com vocês pelo Atlântico, não pelo clichê”.

Parece que os destination shows funcionam como uma espécie de Champions League das supermarcas, capazes de comprar não apenas market share, mas mind share, dominando a atenção global por mais tempo do que um desfile tradicional de semana de moda. Chanel sabe jogar esse jogo melhor do que quase todo mundo. Mas, para funcionar, o espetáculo precisa ter sentido. E Biarritz, mon amour… tem.

Há ainda o timing perfeito… Depois de anos em que Chanel viveu entre a memória monumental de Karl Lagerfeld e a continuidade discreta de Virginie Viard, Blazy chega com a responsabilidade ingrata de mexer em uma das marcas mais simbólicas do planeta sem quebrar o brinquedo mais caro da indústria. Ele não pode ser tímido demais, porque Chanel precisa de desejo. Mas também não pode ser voluntarioso demais, porque Chanel não é laboratório de ego criativo.

Nesta Cruise, ele encontra um caminho. Continua Gabrielle na liberdade do corpo, no esporte, na roupa prática, no preto deslocado, no diálogo com o masculino. Continua Karl na inteligência do espetáculo, no uso pop do logo, no senso de imagem e na capacidade de transformar referência em cena. Dialoga com Virginie na intimidade, na leveza e em certa suavidade, mas limpa parte da sensação de hesitação que marcou alguns momentos de sua era. Blazy oxigena.

Ele parece menos interessado em fazer “a Chanel de Matthieu” e mais interessado em fazer Chanel voltar a parecer inevitável. Isso é raro. E, no luxo, raridade ainda conta, bebê.

A Chanel Cruise 2026/27 é um gesto de reposicionamento simbólico

Ao voltar a Biarritz, Matthieu Blazy não presta apenas homenagem ao lugar onde o estilo Chanel tomou forma. Ele reabre a janela da maison para o mar, para o corpo, para a leveza, para a matéria, para o homem que deseja Chanel sem pedir autorização e para uma brasilidade fina que aparece como brisa, não como fantasia. Ele entende que Chanel precisa continuar sendo sonho, mas um sonho que se veste, caminha, pesa no ombro, balança na saia, risca o chão com a barra, molha a memória e se deixa desejar.

A coleção tem problemas? Claro que podemos discutir excessos de logo aqui e ali, alguns momentos em que o styling quase encosta no souvenir, um ou outro look em que o peso simbólico talvez seja maior que a roupa. Chanel não é santa e Blazy não precisa ser tratado como messias. Mas o saldo é forte… E Muito forte. Há visão. Há pesquisa. Há produto. Há imagem. Há mercado. Há desejo. E há, sobretudo, uma sensação de que a maison voltou a respirar com pulmão próprio.

O desfile começa com o preto. Passa pela praia. Atravessa o jornal. Flerta com o Brasil. Abre espaço para homens. Celebra modelos brasileiras. Brinca com logo. Toca na ráfia. Lava a lona. Amarra seda. Borda o mar. E termina em água cristalizada.

Não sei se Blazy tropicalizou a Chanel. Acho que não. E ainda bem. O que ele fez foi mais fino, darling: abriu a janela. O Atlântico entrou. Biarritz respirou. O Brasil soprou de leve. E Chanel, que às vezes parecia confortável demais dentro de seu próprio mito, voltou a provocar aquela coisa perigosa, cara, irracional e absolutamente necessária para qualquer maison que se preze.

Sonho.

E quando Chanel volta a vender sonho com corpo, tecido, sal, desejo e alma, mon amour, o babado não é só certo.

É histórico.

Foto: Divulgação – Chanel

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