Shakira além de Copacabana: o legado que não cabe no palco

Deus me free estar longe de Copacabana no mês de maio… Às vésperas do megashow no Rio de Janeiro, o que mais me interessa na artista colombiana vai além do estrondoso pop que move turismo, manchete e multidão, mas a forma como ela transformou fama em escola, permanência e futuro. Sim, mon amour da Silva Ripoll… Há vida inteligente para além do telão.

Por Fábio LageHouse of Models

O babado é certo, né meus amores WakaWakanianos… Copacabana está prestes a viver mais um daqueles delírios coletivos que o Rio sabe fabricar como ninguém. Mar, areia, celular para o alto, turista em transe, hotel sorrindo com todos os dentes, ambulante fazendo conta de cabeça em velocidade olímpica e a cidade inteira operando no modo acontecimento. No caso de Shakira, esse efeito começou antes mesmo de o palco ser erguido. Segundo a Embratur, 8.477 passagens aéreas internacionais já haviam sido reservadas para a semana do show, entre 26 de abril e 2 de maio de 2026, o que representa uma alta de 80,75% em relação ao mesmo período de 2024. Antes do primeiro refrão, portanto, a artista já mobiliza fluxo, desejo, dinheiro e projeção internacional. Nada mau para quem ainda anda reduzindo mulher pop a coreografia, ex-marido e manchete de entretenimento de quinta categoria… bocejei!

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Só que parar aí seria pouco, né baby. Seria, inclusive, meio boring. E texto boring, convenhamos, até sobe, mas não fica… O mais interessante em Shakira não está apenas na artista que arrasta multidões em escala industrial, nem na máquina pop que atravessa décadas com o quadril, o carisma e a ferocidade de quem entendeu cedo o rolê do jogo. Porém, querido darling do céu de Araripe… O que realmente pede uma leitura mais interessante está em outra camada… Está na forma como ela costurou à própria imagem pública uma ideia de legado que não depende apenas de palco, hit ou histeria coletiva. Está na artista que decidiu fazer da fama uma engrenagem. Não só simbólica, que disso o star system já está cheio até o último fio de extensão do camarim… Abafa! Mas uma engrenagem real. Tijolo, escola, professor, permanência, território, futuro.

Copacabana vai ferver. Mas essa história começa bem longe do palco

Foi em 1997 que Shakira criou a Fundación Pies Descalzos. Depois, em 2003, se tornou Embaixadora da Boa Vontade do UNICEF. E, cá entre nós, bebê… isso já separa a cantora de muito colega de indústria que descobre “causas” com a mesma velocidade com que troca stylist, conceito de era e filtro de Instagram. No caso dela, o babado da educação não entrou como acessório fofo de reputação. Entrou como “uno eixo chimba” (não sabe o que é chimba? Dá um Goolgle, rs). Como projeto de longo prazo. Como algo que, gostem ou não os cínicos de plantão, passou a fazer parte concreta da biografia pública da artista e diva mor latina.

E essa diferença é tudo, bebê. Porque existe um abismo entre posar perto de uma causa e construir uma trajetória que se compromete real com ela. Uma coisa é a celebridade que abraça um tema para ficar bem na foto. Outra, bem diferente, é a mulher que decide amarrar seu nome a uma agenda estrutural, lenta, complexa, de resultados menos instagramáveis e muito mais importantes. A primeira rende engajamento. A segunda mexe na realidade. Darling Lee de Chique-Chique… percebe o abismo?

No site oficial da fundação, os números apresentados hoje já desmontam qualquer leitura preguiçosa. A Pies Descalzos afirma ter beneficiado mais de 224 mil crianças, adolescentes e jovens, capacitado mais de 12 mil docentes, acompanhado mais de 300 escolas públicas na Colômbia e construído ou intervindo em 19 colégios no país, além de dois no Haiti e um em Soweto. Ou seja, não estamos falando daquela velha filantropia de verniz chaaaaaata, aquela em que a celebridade distribui boas intenções com iluminação impecável e some na sequência. baby, estamos falando de escala. De continuidade. De musculatura institucional. Babado mais que fortíssimo, honey.

Quando celebridade deixa de ser verniz e vira estrutura

É aqui que a história ganha densidade de verdade, bebê… Porque Shakira não parece interessada em praticar o tipo de caridade de vitrine que o capitalismo ama vender como sensibilidade. Aquelas cenas que emocionam por doze segundos, circulam em looping e depois evaporam com a mesma velocidade de uma trend mal coreografada no TikTok. O que ela construiu com a Pies Descalzos opera em outra lógica. Em balanço divulgado pela própria fundação, 2024 terminou com atuação em 24 municípios colombianos, contribuição para a educação de mais de 28 mil crianças e jovens e atendimento a 6.700 estudantes matriculados em colégios vinculados à organização. Isso não é perfumaria moral, darling. Isso é engrenagem funcionando… e muito bem, obrigado!

E há um detalhe especialmente delicioso nessa história, mon petit de Barranquilla. A fundação não enxerga escola como prédio. Enxerga como ecossistema. Em texto publicado no fim de 2025, a organização explica que seu modelo de construção parte de diagnóstico comunitário e de uma leitura social, cultural, climática e pedagógica de cada território. A própria fundação também informa que cerca de 80% das pessoas contratadas durante as obras pertencem à comunidade local. Traduzindo sem rodeio e sem paetê conceitual para você: não basta erguer parede, querides… É preciso fazer com que a escola converse com o lugar, com a vida e com quem vai ocupá-la.

Isso é sofisticado porque desafia uma obsessão muito latino-americana pela fantasia da inauguração. Aqui, ama-se uma fita cortada, uma placa nova, uma fala emocionada, um flash de autoridade com cara compenetrada e uma legenda sobre futuro. Depois, meu amor, cada um que lute com infiltração, evasão e abandono. O modelo da Pies Descalzos aponta para outra conversa. E essa conversa é muito mais chique e bem interessante. Ela sugere que a escola não pode ser tratada como embalagem. O espaço também ensina. O entorno também comunica. A arquitetura também diz à criança se ela foi realmente pensada ou apenas encaixada num projeto genérico feito para cumprir tabela e render coletiva de imprensa.

A escola como obra, território e permanência

Um dos exemplos mais eloquentes dessa visão está em Cartagena. Em maio de 2024, a fundação inaugurou o colégio Pies Descalzos Villas de Aranjuez, que acolhe 960 estudantes em jornada única, do pré-escolar ao ensino médio, numa área historicamente vulnerável da cidade. Na página dedicada à unidade, a organização detalha 26 novas salas, biblioteca, laboratório, aulas de bilinguismo, quadras, sala de tecnologia, refeitório, áreas recreativas e baterias sanitárias, dentro da lógica de “escola de portas abertas”, pensada como centro de desenvolvimento para a comunidade.

E aqui está o ponto que realmente me fisga no coração. Não se trata apenas de colocar aluno para dentro da sala e tchau… Vai alêm; construindo um espaço que o convide a permanecer. Que o respeite. Que o reconheça. Que diga sem palavras, mas com concreto, luz, ventilação, circulação e acesso, que aquele corpo importa. A diferença entre uma escola pensada e uma escola improvisada é brutal. Uma acolhe. A outra administra presença. Uma projeta futuro. A outra só empilha matrícula. Atura ou surta, bebê, porque esse é o tipo de detalhe que separa discurso social genérico de intervenção com inteligência.

Quando uma artista global associa seu nome a esse tipo de projeto, ela faz algo raro. Ela desloca o sentido da própria fama. Mostra que celebridade não precisa ser apenas máquina de reverberação, consumo e espetáculo. Pode ser também um canal de infraestrutura social babadeiro. E isso é mais ousado do que parece, porque exige justamente o que a cultura pop costuma detestar: continuidade… Exige paciência. Exige insistência. Exige topar uma agenda que não rende sempre a catarse imediata do glamour. Em resumo, exige maturidade. E maturidade, no show business, às vezes parece artigo de luxo mais escasso do que primeira fila bem preenchida.

O que Shakira entendeu sobre legado que muita estrela ainda não entendeu

Talvez a grande sacada de Shakira esteja justamente aí. Ela entendeu que fama sem consequência social corre o risco de virar apenas barulho caro com ótima iluminação. Pode render milhões, trends, capas, premiações, gifs eternos e discursos de agradecimento cheios de emoção performada. Mas não necessariamente deixa algo em pé quando o som abaixa. Ao amarrar sua imagem à educação, a loba escolheu uma agenda estrutural, lenta e difícil. Quase uma heresia num tempo em que tudo precisa virar clipe, corte, frase destacada ou polêmica de sete horas.

Esse ponto fica ainda mais forte quando se observa o cenário internacional. A UNESCO informa que, em 2024, havia 273 milhões de crianças e jovens fora da escola no mundo. É um número obsceno. E talvez o mais obsceno seja o fato de ele já não escandalizar tanto quanto deveria. A tragédia da exclusão educacional quase virou paisagem. Quase virou ruído de fundo. Quase virou aquele tipo de horror administrável que as elites aprendem a aceitar desde que ele permaneça longe das janelas, dos aeroportos e dos bairros onde circula o dinheiro.

Nesse contexto, o trabalho de Shakira deixa de ser um detalhe simpático de biografia e passa a conversar com algo muito maior. A Pies Descalzos não resolve sozinha o colapso educacional do continente, evidentemente. Não estamos aqui para cair no conto da salvadora pop com capa invisível. Deus me free desse tipo de simplificação. Mas ela ajuda a tensionar a conversa pública e a mostrar que educação não é um luxo conceitual para mesas redondas bem iluminadas. Educação é a espinha de qualquer projeto minimamente sério de mobilidade, dignidade e futuro.

O brilho do palco e a ética do depois

Agora vem a parte mais gostosa dessa história. A mesma mulher que decidiu se comprometer com essa agenda é também a artista celebrada pelo Rock & Roll Hall of Fame, com mais de 125 milhões de discos vendidos, quatro Grammys, quinze Latin Grammys e o reconhecimento, em 2025, de ter realizado a turnê mundial de maior bilheteria de todos os tempos entre artistas latinos, segundo o perfil oficial do Hall. Ou seja bebê, estamos falando de uma potência pop industrial de escala planetária. Uma máquina de acúmulo simbólico e financeiro. Uma artista que não apenas joga o jogo, mas muitas vezes redefine as regras da rodada.

E não, essas duas dimensões não brigam entre si. Elas se alimentam… Te explico, baby: Em fevereiro de 2025, a fundação anunciou que 4 mil crianças, adolescentes e jovens das comunidades atendidas em Barranquilla, Cartagena, La Guajira e Chocó tiveram a oportunidade de assistir ao show de Shakira em Barranquilla. O gesto é simbólico sem ser bobo. O palco encontra o território. A estrela encontra a base. O espetáculo encontra a vida concreta. E isso é bonito justamente porque não soa como esmola afetiva. Soa como coerência.

Convenhamos, é muito mais interessante olhar para uma artista que entende o show não apenas como performance, mas como plataforma de redistribuição de impacto, do que ficar mastigando a velha cobertura preguiçosa da diva que “vai parar a cidade”. Sim, ela vai parar a cidade. Obrigado, óbvio. Mas isso é só a camada mais superficial da história. O mais sofisticado está no que sobra depois. No que permanece. No que continua de pé quando os refletores se apagam, os stories vencem e o povo volta para casa com areia no pé e vídeo tremido no celular.

No fim, o maior show talvez seja o que continua depois do aplauso

O show em Copacabana será gigantesco “mexxxxxmo”. Vai movimentar a economia, a imprensa, o turismo, as redes e o imaginário coletivo. Vai render imagens lindas, catarse de massa e aquela sensação embriagada de que o Rio sabe transformar espetáculo em paisagem como poucos lugares no planeta. Mas talvez o mais elegante seja justamente não parar aí. Talvez o mais inteligente seja usar esse momento para olhar para a artista que decidiu não deixar sua biografia parada no próprio reflexo.

Existe uma Shakira para além da loba pop, da hitmaker, da potência latina, da mulher que lota praias e quebra recordes. Existe a artista que entendeu que reputação sem lastro vira pura espuma. Que sucesso sem consequência social pode até render fortuna, mas não necessariamente constrói relevância de verdade. Que o verdadeiro luxo, hoje, talvez esteja menos na ostentação da fama e mais na capacidade de convertê-la em algo que permaneça.

E honey Lee de Caruaru e adjacências… É essa camada que me interessa. Não a artista que apenas canta para milhões, mas a que decidiu construir para milhares. Não a que vive só de aplauso, mas a que entendeu o valor do depois. Não a que brilha apenas quando o palco acende, mas a que continua relevante quando a luz apaga.

E isso, meu amor, é o tipo de poder que não cabe no telão.

Foto: Divulgação

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