Entre a memória do Fashion Rio, o retorno da moda carioca e os desfiles que merecem mais do que uma cobertura apressada, Fábio Lage abre o coração antes de começar a análise da temporada.
Por Fábio Lage – House of Models
Antes de começar a escrever sobre os desfiles do Rio Fashion Week para os quais fomos convidados, mapeados e recebidos pelas marcas e assessorias, eu queria bater um papo com vocês. Um papo honesto. Daqueles que a gente tem antes de abrir a garrafa, tirar o sapato apertado, soltar o cabelo e dizer: “meu bem, senta aqui, porque tem história”.
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Nesta primeira edição do Rio Fashion Week, o House of Models não optou por fazer aquela cobertura in loco no modo sirene, correria, legenda quente, post instantâneo e análise feita no susto, com o celular ainda tremendo na mão. Não porque faltou vontade… Deus me free! Pelo contrário. Faltou foi vontade de ser raso “mexxxmo”, bebê!
Diante de uma das semanas de moda mais empolgantes que vi nesses meus 25 anos imerso no mundo da moda, me pareceu mais justo com o evento, com as marcas, com os criativos, com os modelos, com os leitores e com a própria história da moda brasileira parar, respirar e escrever com mais clareza.

Porque moda, mon amour de Santa Maria Madalena, não é só roupa passando prá lá e pra cá, nãããão… Moda é atmosfera. É memória. É aquele desejo babadeiro. É mercado. É corpo plural. É casting. É trilha de bater cabelo. É direção. É tempo histórico. E convenhamos, mon petit… moda é sonho embalado em tecido, luz, suor, ego, potência e, às vezes, um leve cheiro de backstage que só quem viveu sabe. Ui ui ui!
Acho que nunca contei com a devida calma que foi no extinto Fashion Rio que, de fato, comecei minha carreira no mundo da moda. Antes de tudo virar algoritmo, reels, engajamento e “posta logo que o assunto vai esfriar”, havia uma outra liturgia. Havia espera. Havia deslocamento. Havia um certo ritual de pertencimento… sabe?
Por muitos anos, os desfiles que antes aconteciam na Semana de Moda Barra Shopping migraram para os suntuosos gramados do MAM, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, já sob a batuta do Fashion Rio e comandados pela visionária Eloisa Simão. Duas vezes ao ano, era ali que a cidade parecia entender, mesmo que por alguns dias, que moda não era frivolidade. Era linguagem com “carioquês”, bebê. Era indústria. Era poder simbólico com sal no corpo e vista para a Baía da Guanabara… Delicinha!

Foi ali que vi Gisele sendo Gisele. Simples assim, e isso já é uma entidade inteira.
Vi Carol Trentini no auge daquela fase de neo top em combustão, quando a passarela parecia obedecer ao ritmo dela. Vi Carol Ribeiro linda, grávida, desfilando oxitocina pela passarela como se o mundo inteiro tivesse ficado mais delicado por alguns segundos. Vi Walter Rodrigues, grande mestre, apresentar roupas com a solenidade de quem entendia que um vestido pode dizer mais sobre uma época do que muito tratado acadêmico engravatado.
Vi marcas incríveis desfilarem com frescor de brasilidade, com sofisticação, com identidade, com a fome e uma vontade genuína de dizer ao mundo: “olha aqui, bebê, o Brasil pensa moda, cria moda, vende moda e também sonha moda”.
E, ao mesmo tempo, sinto um luto silencioso por tantas dessas marcas e tantos desses criativos que se perderam pelo caminho nesses 20 e poucos anos. Algumas marcas desapareceram. Alguns nomes minguaram. Alguns talentos foram engolidos por um sistema que exige genialidade, mas nem sempre oferece estrutura. Babado forte, né amores? Mas necessário.
Também vi modelos poderosas, lindas, seguras de si, mulheres e homens que entendiam a passarela como território de expressão, serem pouco a pouco descartados por uma engrenagem que, muitas vezes, trata experiência como defeito e juventude despreparada como novidade. E aqui, antes que alguém venha com a plaquinha da militância errada, não estou falando de influencers e companhia limitada. A questão é muito maior. Muito mais complexa. Muito mais sistêmica, bebê.
Falo de uma cadeia inteira de profissionais que, quando não é respeitada em sua profundidade, empobrece o desfile. Darling Lee da Silva… se você acha que desfile é apenas uma fila de roupas… volte 25 casas, honey. Um desfile é construção de imagem. É dramaturgia. É coreografia de intenção. É o momento em que uma marca decide o que quer dizer ao mundo… Helloooou!
Moda sem a fábula gostosa do lúdico vira apenas roupa comercial. E roupa comercial, meu bem, a vitrine resolve bem esse caso… O desfile precisa ir além. Precisa vender, claro. Ninguém está aqui fingindo que o boleto veste Alta-Costura e se paga sozinho. Mas precisa vender um sonho. Vender uma atmosfera. Vender um desejo que a loja, sozinha, não sustenta, baby.
É por isso que uma semana de moda precisa ser observada com responsabilidade. Não dá para reduzir tudo a “gostei” ou “não gostei”, como se estivéssemos escolhendo cobertura de bolo nas deliciosas padarias do Rio… (Aliás, aqui perto de casa tem uma ícrivel… recomendo, até.) É preciso entender onde a coleção se encaixa, o que ela propõe, o que ela acerta, onde tropeça, o que comunica e o que deixa escapar pelo caminho.

A Osklen, por exemplo, abriu a semana de moda carioca com um desfile impecável em muitos sentidos. Um casting de aplaudir de pé. Uma força visual poderosa. Uma coleção intitulada “We Are Nature”, que trazia essa tensão entre o asfalto e o branco da areia da praia, entre a cidade e o desejo de natureza, entre o urbano e o orgânico. Tudo muito Osklen, tudo muito Rio visto por uma lente sofisticada.
Mas também causou estranheza a escolha da locação no Palácio da Cidade. Um espaço grandioso, sim. Imponente, sim. Mas talvez rígido demais para uma coleção que parecia pedir mais vento, mais corpo, mais paisagem, mais respiro. Havia ali uma apresentação rica e potente, mas de certa forma engessada pela solenidade de um palácio. E essa tensão também é crítica. Não para diminuir o desfile, mas para ampliar a conversa. Porque elogiar sem pensar é jabá emocional, darling. E aqui a gente gosta mesmo é de análise com tutano.

No segundo dia de desfiles, no qual fomos convidados, pude me deliciar com os tingimentos em degradê da babadeira Normando, com estampas que eu fiquei louco para ver no meu próprio corpo e com aquela delícia de testemunhar Marco e Emídio trazendo para a passarela carioca o que temos de mais rico, pulsante e poderoso do nosso território amazônico. Não como fantasia turística, honey. Não como souvenir para gringo bater palma… Mas como linguagem viva, contemporânea, desejável e pulsante.

Um dos pontos mais badalados do desfile foi ver o catwalk babadeiro de Sayonara Romão, de jaqueta preta com recortes muito bem trabalhados e saia vermelha. E, mon amour, não tem como não citar: “saia vermelha, camisa preta, chegou pra abalar…” Ops, me empolguei. Beijos, Gaby Amarantos. Love you!
Falando em amor, quem nunca se arrumou para encontrar um amor e ficou com aquela toalha enrolada na cabeça para secar melhor o cabelo? Quem nunca, meu bem? Quem nunca viveu esse momento pré encontro, pré beijo, pré ilusão, pré humilhação também, porque a vida é chique, mas não é fácil… né?

Foi com esse charme íntimo, cotidiano e deliciosamente carioca que a Salinas voltou a desfilar em solo carioca. A marca trouxe uma coleção com aquela atmosfera praiana que reconhecemos no nosso dia a dia, não como clichê de cartão postal, mas como estado de espírito. A praia, no Rio bebê… é perfeitamente uma tecnologia social. É onde corpo, desejo, vaidade, suor, afeto e economia se encontram sem pedir licença… of course!
Embalada pela voz “goxtosa” de Agnes Nunes, a Salinas saiu do óbvio e apresentou também sua linha fitness, com básicos do guarda-roupa esportivo e do activewear, como leggings, tops, shorts e jaquetas, todos trabalhados com cortes, cores e modelagens alinhados às tendências do momento. Tinha leve volume inflado, microcomprimentos, efeitos acetinados e aquela vontade de sair da academia direto para um brunch, depois para a praia, depois para um date, depois para a própria ilusão amorosa, porque o look aguenta, bebê.

O casting babadeiro, assinado por Alexandre Queiroz, trouxe para a passarela um verdadeiro exército de modelos poderosas e new faces que estamos adorando conhecer. Entre elas, Natália Machado, que quase voou pela passarela com seu biquíni poderoso bordado com pássaros. Um daqueles momentos que fazem qualquer fashionista suspirar e pensar: “pronto, agora quero morar dentro desse styling”.
A linha resort foi daquelas que inflam tudo e deixam fluir. O tecido, o corpo, o desejo e até aquele ego borocoxô que a gente finge que não tem, mas tem. Atura ou surta, bebê!
Quanto à Aluf e à parceria entre Piet e Pool, a gente deixa para contar em outros posts. Afinal, aqui no House of Models, a gente fala primeiro de quem convida. Release e transmissão morna a gente deixa para o fim da fila. Não por vingança, que isso seria muito pequeno. Mas por critério editorial. Por respeito ao nosso tempo, ao nosso olhar e à nossa história.
E voltando ao foco, porque eu já estou ansioso para escrever sobre os desfiles e acabei dando alguns spoilers delicinhas, este texto é antes de tudo uma explicação… Uma conversa. Uma carta aberta aos nossos leitores.
Depois de tantos anos no front row dessa moda tupiniquim que amamos, temos um orgulho imenso e uma paixão avassaladora por poder assistir de perto e narrar não apenas aquilo que chamamos de moda nacional, mas a grandeza de testemunhar a história da moda brasileira acontecendo diante dos nossos olhos.
Como jornalista, meu dever é ir além do que é mostrado na passarela. Ir além do casting babadeiro. Ir além da celebridade X sentada na fila A. Ir além da foto bonita. Ir além da legenda fácil… Ufa!
Vivemos um tempo em que a informação circula na velocidade da luz, mas nem toda velocidade produz entendimento. Às vezes, produz apenas ruído. Parar, respirar e escrever com mais clareza, coesão e respeito é uma forma de resistência. Respeito ao leitor brasileiro, americano, francês, chinês, a quem acompanha moda como consumidor, pesquisador, profissional ou curioso. E respeito também a uma indústria gigante, complexa, que emprega milhares de profissionais nas mais diversas áreas.

Seria pequeno da minha parte, como jornalista, apurar uma coleção apenas no calor de sua apresentação. Não estou aqui querendo competir com portais gigantes, dinossauros da notícia instantânea, já competindo. Cada um com seu cada um. O House of Models nasceu de outro lugar. Nasceu do olhar, da memória, da provocação, do afeto e da vontade de escrever moda como quem escreve cultura, comportamento, poder e desejo.
Depois que a gente aprende com Gisele Bündchen a se colocar na terceira pessoa, tudo fica mais leve. Fabio Lage observa. Fabio Lage comenta. Fabio Lage se diverte. Fabio Lage também se emociona. E talvez seja isso que me mantém tão apaixonado por esse ofício.
Aprendi lendo minhas editoras e musas favoritas, como Regina Guerreiro, Costanza Pascolato, Erika Palomino e Maria Prata, que é possível escrever além do óbvio sem perder a leveza. É possível ser crítico sem ser amargo. É possível ser culto sem ser insuportável. É possível deixar um sorriso no rosto de quem lê e, ao mesmo tempo, plantar uma pulguinha fashionista atrás da orelha… risos.
É muito gratificante para mim, não apenas como jornalista e empreendedor, mas como alguém que há mais de 15 anos conseguiu construir uma identidade com borogodó, perceber que tudo o que aprendi ao longo da minha trajetória na moda continua vivo aqui. No texto. No olhar. No jeito de provocar. No modo como o House of Models insiste em não virar mais um site com cara de release requentado.
Lembro do jovem Fabio, lá em 2007, fazendo um pequeno estágio em Londres com a lendária Jillie Murphy, a editora inglesa que deu o primeiro trabalho na moda para uma jovem chamada Anna Wintour. Hoje, poder contribuir com um pouco do que aprendi nesses anos todos é algo que me nutre como combustível orgânico.

E tudo que a gente nutre, um dia cresce, vira passarinho e quer voar, né?
Hoje, 16 anos depois de fundar o site e todo o universo House of Models, tenho orgulho de dizer que nada disso seria possível sem somar forças com profissionais que acreditam no potencial do House of Models além do Fabio Lage.
Arthur Hilário, meu sócio, parceiro, assistente, câmera man e minha “Emily” particular, risos, é o brasileiro-americano mais cool do planeta. Deixou o Comércio Exterior descansando um pouco para se dedicar a uma de suas paixões. A moda, claro. Porque ninguém troca planilha internacional por backstage se não tiver um coração minimamente fashionista.
No marketing digital, temos o babadeiro Edu Caldeira, que lá do Rio Grande do Sul vem ajudando o House of Models a ficar mais potente como site, marca e ecossistema. Porque hoje, darling, não basta ter conteúdo. Tem que ter estratégia. Tem que ter presença. Tem que ter leitura de plataforma, de público, de timing e de narrativa.
De São Paulo vem meu irmão e parceiro Hedras Graf, com seu talento nato para trazer o que existe de mais delicioso nos bastidores da vida. Hedras tem aquela energia babadeira que envolve os entrevistados, abre sorrisos, desarma poses e faz as pessoas entregarem um pouco mais do que pretendiam. E sim, tem muita entrevista babadeira da cobertura do Rio Fashion Week para sair. Estou muito animado, mal posso esperar! Parafraseando Luciana Gimenez, adoro!
E como tudo que nutrimos cresce nessa vida, quem acabou de adentrar o time House of Models é a badalada jornalista e assessora de imprensa Camila Novo, da CasNovo Assessoria. Ao longo dos anos, Camila acumulou uma bagatela de clientes importantes da indústria da moda tupiniquim e do audiovisual. Ela chega para somar com sua visão de mercado, sua sagacidade paulistana e aquele molho extremamente necessário nesse tempero houseriano… atura ou surta logo, baby!
E como ninguém constrói nada sozinho, faço questão de agradecer também à Rede Vivax, emissora de TV que tem apoiado o House of Models nessa nova fase com carinho, confiança e visão de futuro. Em um momento em que a moda precisa circular por múltiplas telas, vozes e plataformas, ter ao nosso lado uma emissora que acredita na potência da imagem, da narrativa e da cultura brasileira é um presente daqueles. A Rede Vivax chega junto para somar, amplificar e ajudar esse passarinho houseriano a voar ainda mais longe. Babado bom a gente não guarda na gaveta, mon amour. A gente compartilha com quem acredita no voo.

Acredito que para mim o Rio Fashion Week funciona como um reencontro com uma parte da minha própria história. É como ver uma cidade que já foi palco de tantos sonhos fashionistas voltar a reivindicar seu lugar na conversa nacional. E talvez internacional também, se soubermos olhar com ambição, estratégia e menos complexo de vira-lata… é claro!
O Rio tem corpo. Tem praia. Tem rua. Tem noite. Tem luxo possível. Tem caos. Tem beleza. Tem contradição. Tem desejo. Tem uma luz que nenhuma cenografia no mundo consegue reproduzir. E quando a moda brasileira entende isso, quando deixa de tentar parecer outra coisa e assume sua própria força, o resultado pode ser deslumbrante Maravilhoso.
Por isso, antes de correr para publicar tudo, preferimos respirar.
Porque algumas coleções merecem mais do que pressa…
Algumas marcas merecem mais do que legenda…
Alguns desfiles merecem análise…
E algumas histórias, mon amour de Petrópolis, merecem ser contadas com tempo, memória, humor, crítica, afeto e um pouco de veneno elegante. Porque sem isso, a moda fica muito comportada. E moda comportada demais, convenhamos, dá sono…

Então sim, vamos falar dos desfiles…
Vamos falar de Osklen, de Normando, de Salinas, de Aluf, de Piet + Pool e de tudo aquilo que vimos, sentimos, estranhamos, amamos, questionamos e queremos dividir com vocês.
Mas vamos falar do nosso jeito…
Com calma… Com repertório…. Com borogodó… Com respeito… E, claro, com aquele tempero House of Models que não pede licença para entrar na sala.
Porque o babado é certo…
E agora ele vai só vai começar, bebê!
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