Ao escalar uma Industry Icon para inaugurar o novo ciclo da moda carioca, a marca de Oskar Metsavaht apresenta, na prática, uma tese sobre luxo brasileiro, autoridade cultural e permanência num mercado viciado em barulho, mas carente de sentido… Ui ui ui!
Por Fábio Lage – House of Models
Tem marca que desfila para mostrar roupa. E tem marca que desfila para prestar contas à própria história.
Mon amour da Silva… a badalada Osklen entra na abertura da Rio Fashion Week justamente nesse lugar mais delicado, mais sofisticado e, sejamos francos, né? Bem mais gostoso de analisar. Não se trata apenas de ser a primeira no line-up, darling. Trata-se de ser a escolhida para dar a largada num evento que quer recolocar o Rio de Janeiro no mapa da moda com ambição de calendário, impacto econômico, reverberação internacional e recuperação simbólica de uma cidade que nunca deixou de produzir desejo, mas que há tempos andava merecendo uma moldura à altura da própria vocação… Deu até um calor…
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E aí vem o golpe de mestre. Ou o risco calculado, que na moda muitas vezes dá na mesma. Para abrir esse primeiro ato, a Osklen coloca Carol Trentini na passarela.
Babado? Sim… e daqueles que amamos!
Mas não porque Carol seja apenas uma supermodelo; bebê… Isso seria leitura de superfície, e aqui a gente não trabalha na superfície, querides. Carol entra como selo. Como certificação. Como linguagem. Como um corpo que não precisa gritar novidade para impor relevância. Em um mercado que vive de juventude performada, histeria de algoritmo e culto à próxima sensação de quinze minutos, colocar Carol na largada é um gesto quase insolente de tão inteligente. A mensagem é clara, honey: a abertura do Rio não será feita com espuma. Será feita com lastro.
E lastro, mon amour de Xique-Xique, é uma palavra que anda em falta no mercado.
Sao Paulo, Brasil – xx/10/2012 – Desfile da Osklen durante o SPFW – Inverno 2013. Foto : Ze Takahashi/ Agência Fotosite
Não é só um desfile. É uma tomada de posição
A volta da Rio Fashion Week não está sendo tratada como eventinho para socialite tirar foto no backdrop e depois postar “fashion night” com taça na mão. O projeto nasce com números grandes, discurso institucional robusto e uma promessa clara de movimentação econômica, turismo, imagem e negócios. Quando um evento chega já embalado por expectativa de centenas de milhões em impacto, milhares de empregos e uma ambição quase diplomática de recolocar o Rio como capital global de lifestyle, a marca que abre essa semana não abre apenas uma agenda. Abre um discurso, bebê!
É exatamente por isso que essa escolha importa tanto.
A Osklen não foi colocada ali por acaso. Ela foi colocada ali porque, goste-se ou não, poucas marcas brasileiras conseguiram articular com tanta consistência uma ideia de Brasil que não dependesse do folclore fácil, da caricatura tropical ou da preguiça exótica que tantos ainda confundem com identidade nacional. A Osklen passou décadas vendendo a possibilidade de um Brasil sofisticado, urbano, solar, ecológico, sensual e cosmopolita ao mesmo tempo. Um Brasil que não precisava pedir licença para ser luxo. Um Brasil que não precisava imitar a Europa para parecer premium. Um Brasil que podia, sim, falar com o mundo em seu próprio idioma estético.
Isso é enorme… E isso também cobra caro.
Porque quando uma marca passa anos ocupando esse lugar simbólico, ela deixa de ser avaliada só pelo look. Ela passa a ser cobrada pela coerência. Pelo pulso. Pela capacidade de continuar significando alguma coisa em meio a um mercado que anda confundindo reposicionamento com maquiagem, branding com barulho e sustentabilidade com textinho bonito de site.
O luxo cansou de ser só caro
A verdade é que a escolha da Osklen para abrir a Rio Fashion Week dialoga com uma tensão muito maior do que a moda brasileira. O luxo global inteiro está vivendo uma espécie de crise de recalibração. O consumidor está mais exigente, mais cético, mais cansado de pagar por aura sem substância. Já não basta inflacionar preço, fazer collab ruidosa, chamar celebridade estratégica e esperar que o desejo se resolva sozinho. O desejo, hoje, quer argumento. Quer densidade. Quer experiência. Quer história. Quer alma… quer pertencimento. Chique, né? Pois é. Demorou, mas o mercado finalmente lembrou que etiqueta, sozinha, não sustenta tesão eterno.
E convenhamos mon petit, nesse contexto, a Osklen aparece na abertura da Rio Fashion Week como uma marca sendo convidada a provar que ainda sabe sustentar aquilo que ajudou a construir: um luxo brasileiro que se quer contemporâneo, consciente, sensorial e culturalmente relevante.
Essa abertura funciona quase como uma auditoria estética e simbólica em tempo real. Não é apenas “o que a Osklen vai mostrar”. É “o que a Osklen ainda representa”. Parece a mesma pergunta, mas não é. A primeira interessa ao calendário. A segunda interessa à história.
Carol Trentini não entra como casting, baby. Entra como certificado de permanência
Carol Trentini abrir esse desfile não é nostalgia. Não é fan service fashionista. Não é truque de casting para gerar manchete preguiçosa do tipo “top brasileira rouba a cena”. Francamente, isso seria pouco. Muito pouco…
Carol carrega uma coisa que o mercado respeita mais do que novidade: permanência.
Há mais de duas décadas ela ocupa um lugar que poucas conseguem sustentar por tanto tempo sem virar apenas memória afetiva de indústria. Carol não sobreviveu ao sistema. Carol permaneceu relevante dentro dele. Isso é outra categoria de força. Há carreira longa que vira museu. A dela virou autoridade babadeira.
Por isso sua presença na abertura da Osklen não deve ser lida como ornamento glamouroso, mas como escolha conceitual. Ela é a mulher certa para um momento em que a marca também precisa reafirmar permanência, consistência e estatura. Carol não entra ali para provar frescor, darling Lee do céu… Entra para validar densidade.
E existe ainda uma beleza silenciosa nessa repetição de rota. Carol e Osklen já se cruzaram em outros momentos importantes da moda brasileira. Há memória entre as duas. Há rastro. Há histórico. O reencontro agora, na abertura de uma semana que quer simbolizar a retomada do Rio, não soa nadinha improvisado. Soa como narrativa bem montada. E narrativa bem montada vale ouro num mercado que anda tropeçando no excesso de presente e na falta de memória.
Oskar Metsavaht, a ferida corporativa e a luta para recuperar a própria voz
Se Carol simboliza permanência, Oskar Metsavaht simboliza outra camada ainda mais espinhosa e fascinante: autoria.
E convenhamos people… autoria, no universo da moda, é uma palavra que fica linda em palestra, mas vira guerra quando entra na estrutura empresarial. A trajetória recente da Osklen passou justamente por esse atrito entre identidade criativa e lógica corporativa. Houve mudança de controle, reorganização empresarial, recalibração de rota e, depois, um retorno mais assertivo de Oskar ao eixo estratégico da marca. Em entrevistas recentes, ele foi muito claro ao reconhecer que entregar o controle da Osklen a uma estrutura maior teve custo cultural. Traduzindo para o português sem perfume: quando a moda passa a ser comandada por quem entende planilha, mas não entende linguagem, o produto até continua existindo, mas o significado emagrece.
E uma marca como a Osklen não pode emagrecer de significado.
Ela pode ajustar operação, rever distribuição, reordenar liderança, corrigir estratégia digital, crescer menos, crescer mais, fechar, abrir, repensar. Tudo isso faz parte do jogo. O que ela não pode perder é aquilo que a fez ser lida como algo maior do que roupa. Porque a Osklen nunca foi apenas roupa. Ela sempre vendeu imaginário. Vendeu uma espécie de síntese entre natureza, cidade, design, comportamento, consciência ambiental e erotismo civilizado. Um luxo com pé na areia, mas sem cabeça oca. Um luxo que queria respirar Brasil sem cair no pandeiro conceitual de aeroporto. Quando isso funciona, vira assinatura. Quando falha, vira branding de resort.
A abertura na Rio Fashion Week, portanto, também coloca Oskar diante de um espelho. E não digo isso com maldade. Digo com alegria jornalística, que é um sentimento lindíssimo quando a pauta entrega. Porque o desfile se torna uma chance concreta de provar, na prática, que a marca não está só administrando legado, mas reativando potência… não fui convidado, mas conto tudo depois, babys!
Os números ajudam. Mas não salvam ninguém sozinhos
A Osklen chega a esse momento com operação relevante, presença multicanal, dezenas de lojas, musculatura digital em crescimento e um discurso de sustentabilidade que, ao contrário do que muita marca adora performar, não nasceu ontem para agradar conselho de administração. Há décadas a empresa constrói uma narrativa ligada a matérias-primas de menor impacto, cadeia prioritariamente nacional, preservação de floresta em pé, desenvolvimento de e-fabrics e projetos urbanos de regeneração ambiental. Em números, isso é expressivo. Em branding, isso é valioso. Em reputação, isso é raro… isso gera pertencimento.
Mas aqui vai a parte divertida, porque nem tudo é spa conceitual com aroma de mata atlântica. Número nenhum salva marca sem desejo. Dado nenhum substitui pulso cultural. Relatório nenhum resolve sozinho o problema central do luxo contemporâneo: continuar fazendo o consumidor sentir que está diante de algo vivo, necessário e simbólica ou emocionalmente superior.
É por isso que eu acho que esse desfile importa tanto…
Porque ele não será lido apenas como coleção. Ele será lido como termômetro. Como síntese. Como resposta. Como gesto. E, claro, como teste de nervo. A pergunta real é simples e cruel: a Osklen ainda consegue transformar conceito em vontade? Ainda consegue converter discurso em imagem memorável? Ainda consegue fazer o Brasil parecer sofisticado sem virar catálogo turístico premium? Ainda consegue ocupar o lugar de marca que não apenas vende roupa, mas ajuda a formular uma ideia de país?
Se a resposta for sim, a abertura da Rio Fashion Week ganha espessura histórica. Se for morna, a passarela vira só cerimônia. E cerimônia, convenhamos, o mercado já tem demais.
O Rio não precisava apenas de uma semana de moda, mon amour de Araripe… Precisava de uma boa dose de narrativa. Esse talvez seja o ponto mais importante de todos.
A Rio Fashion Week não volta apenas para oferecer desfiles bonitos em cenários isntagramáveis. Ela volta para disputar uma narrativa sobre o Rio de Janeiro. E o Rio, quando entra nesse jogo, nunca entra pequeno. A cidade não vende somente infraestrutura. Vende atmosfera. Vende imaginário. Vende corpo, luz, música, arquitetura emocional, sensualidade, turismo, comportamento e fantasia coletiva, honey. O problema é que durante muito tempo essa potência simbólica ficou maior do que sua estrutura de articulação no calendário de moda.
Agora há uma tentativa de alinhar as duas coisas.
E abrir isso com a Osklen faz sentido porque a marca é uma das poucas que historicamente souberam metabolizar o Rio sem banalizá-lo. A cidade, na Osklen, não aparece como cartão-postal preguiçoso. Aparece como código de vida acontecendo. Como matéria de linguagem. Como ideia de mundo. Isso é muito mais sofisticado. E, justamente por isso, muito mais difícil de sustentar ao longo do tempo.
O verdadeiro luxo não escolhe apenas quem senta. Escolhe quem interpreta
Há ainda uma camada que me interessa particularmente, porque toca num ponto sensível da indústria sem precisar cair em ressentimento performático, esse esporte tão feio e tão comum. No mercado contemporâneo, front row física continua tendo valor, claro. Mas o jogo mais refinado já não se decide só por quem foi convidado a entrar. Se decide também por quem é capaz de interpretar o que está acontecendo com profundidade, contexto e inteligência de indústria.
Osklen
São Paulo Fashion Week – Verão 2016 – Abril/2015 – foto: Zé Takahashi/Agencia Fotosite
Luxo de verdade não é apenas exclusão. Luxo de verdade é seleção de interlocução.
E uma marca que pretende ser culturalmente relevante precisa entender que sua autoridade não é construída apenas no casting, na cenografia ou na lista de convidados. Ela também é construída na forma como sua história é lida, disputada, tensionada e reposicionada no espaço editorial. Quem acha que imprensa serve apenas para reproduzir release em bela formatação talvez ainda esteja preso num modelo muito antigo de prestígio. E esse modelo, honey, está fazendo hora extra.
Carol Trentini abrindo a Osklen na abertura da Rio Fashion Week é uma imagem poderosa, sim. Linda, elegante, estratégica, visualmente eficiente e simbolicamente bem pensada. Mas o que torna essa imagem realmente relevante é o que ela carrega por baixo. Ali não está apenas uma supermodelo iniciando um desfile. Está uma marca tentando reafirmar seu lugar num mercado em crise de sentido. Está um fundador tentando mostrar que cultura não pode ser subproduto da gestão. Está uma cidade tentando recuperar protagonismo com musculatura e ambição. Está um evento tentando nascer grande. Está o Brasil, mais uma vez, testando sua capacidade de transformar identidade em valor sem pedir chancela estrangeira para existir… Inshallah!
Não é pouca coisa, bebê…
Por isso essa abertura vale mais do que o primeiro look babadeiro.
Ela vale como leitura de momento. Como documento de mercado. Como termômetro de marca. Como ensaio de poder. Como sintoma. E, se der muito certo, como lembrança de que a moda brasileira ainda pode produzir cenas em que imagem, inteligência, negócio e cultura caminham de mãos dadas sem parecer powerpoint de consultoria criativa.
Atura ou surta, bebê.
Porque quando o Rio volta querendo falar alto, quando a Osklen entra para abrir esse discurso e quando Carol Trentini coloca o corpo a serviço dessa tese, a passarela deixa de ser só passarela e vira argumento.
E argumento, quando é bom de verdade, não precisa pedir atenção.