Depois do silêncio da temporada anterior, Tom Martins transforma a passarela em um tributo maximalista a Margiela, Galliano, Marc Jacobs, Vivienne Westwood e McQueen. Entre máscaras, denim, rendas, reconstruções e uma quantidade quase indecente de acessórios, Fashion Tribute revela um estilista apaixonado pela história da moda, mas também nos obriga a perguntar quando a homenagem deixa espaço para a autoria.
Por Fábio Lage – House of Models
No desfile anterior, Tom Martins teve a coragem de mandar a música embora. Chamou sua coleção de Silêncio, retirou boa parte das estampas, reduziu a cartela de cores e deixou a passarela entregue às proporções, ao denim e à construção das roupas. Para um estilista que fez da mistura de referências uma característica de sua marca, aquilo era quase uma sessão de terapia em público. Sem a distração das cores, dos ornamentos e daquela deliciosa confusão visual que costuma acompanhar suas apresentações, sobrava a pergunta que todo criador deveria enfrentar de vez em quando: o que resta da minha moda quando retiro tudo aquilo que normalmente chama atenção?
Pois bem, mon amour de Xique-Xique, aparentemente Tom Martins saiu daquela experiência com vontade de recuperar todos os objetos que havia deixado do lado de fora. E ainda convidou cinco dos estilistas mais influentes das últimas décadas para participar dessa bagunça deliciosa.
Na noite de 14 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, durante a São Paulo Fashion Week N61, a Martins apresentou Fashion Tribute, uma coleção dedicada a Martin Margiela, John Galliano, Marc Jacobs, Vivienne Westwood e Alexander McQueen. Cinco criadores que, cada um à sua maneira, desafiaram convenções, deslocaram códigos de vestuário e ajudaram a redefinir o que a moda pode fazer com o corpo, a imagem e o próprio sistema que a sustenta. Uma lista respeitável, evidentemente. Mas também perigosíssima para qualquer estilista que resolva colocar todos eles dentro da mesma coleção.
E foi justamente essa disputa que mais me interessou enquanto assistia a coleção. Não apenas pelas máscaras que transformaram os rostos em superfícies ornamentais, pelas saias usadas sobre calças, pelos xadrezes que conviviam com florais ou pelas bolsas monumentais que pareciam transportar metade do acervo de um brechó phino muito bem frequentado. O que me chamou atenção foi perceber como Tom Martins alternou momentos de verdadeiro domínio da construção com outros em que a quantidade de elementos parecia disputar o protagonismo da roupa.
Há uma diferença importante entre uma coleção maximalista e uma coleção incapaz de escolher. E convenhamos, mon petit… Fashion Tribute percorreu essa fronteira em vários momentos, às vezes com resultados deliciosos.

O grunge de Marc Jacobs não era apenas uma camisa xadrez
Para entender uma das principais influências do desfile, precisamos voltar a novembro de 1992, quando Marc Jacobs, então responsável pela criação da Perry Ellis, apresentou a coleção feminina de verão 1993. O desfile levou à passarela códigos associados ao grunge, movimento cultural que havia emergido da cena musical de Seattle e conquistado uma geração acostumada a reconhecer em camisas de flanela, vestidos de aparência antiga, botas pesadas e roupas aparentemente despretensiosas uma alternativa à elegância cuidadosamente produzida dos anos anteriores.
Aquilo não foi uma provocação cultural que desafiou a ideia do que uma marca de moda sofisticada deveria apresentar. A coleção gerou resistência, contribuiu para a saída de Jacobs da Perry Ellis e, ironicamente, se tornaria um dos marcos mais importantes de sua carreira.
Na Martins, esse repertório aparece nos xadrezes sobrepostos, nas camisas de proporções generosas, nos vestidos e saias que convivem com tênis de lona, nas camisetas listradas e na recusa em combinar estampas segundo qualquer manual de boas maneiras. Só que Tom Martins acrescenta ingredientes que já pertencem ao seu próprio universo, especialmente uma estampa exuberante de frutas desenvolvida por Guilherme Queiroz e os girassóis desenhados por Henri Campeã.

Gosto particularmente de uma composição em que o colete azul estampado com girassóis aparece sobre mangas volumosas cinzentas, enquanto uma camada de frutas multicoloridas ocupa a região inferior. Os desenhos são completamente diferentes, mas a repetição de determinados verdes e amarelos estabelece uma conversa entre eles. Existe uma intenção cromática por trás da aparente desordem.
A graça está justamente nessa mistura que não procura parecer refinada da maneira convencional. É como se uma senhora excêntrica resolvesse emprestar suas roupas favoritas a um adolescente que acabou de descobrir o armário da família e não estivesse nem um pouco interessado em devolver nada. Ui ui ui… Já gostei da confusão!
Mas também existe um risco histórico nessa operação. O grunge de Jacobs representava a entrada de uma cultura juvenil pouco interessada nas regras do luxo em um ambiente que dependia delas. Na Martins, quase 34 anos depois, o xadrez já é uma referência assimilada pela indústria e o conflito original perdeu parte de sua insolência. Portanto, misturar florais e camisas largas não reproduz automaticamente aquela ruptura. Para existir uma contribuição própria, é preciso fazer algo além de reconhecer a fotografia antiga.
E é quando Tom começa a redesenhar a construção dessas peças que a conversa fica realmente interessante.

Margiela, as máscaras e o corpo transformado em laboratório
As referências à linha Artisanal de 2014 da Maison Martin Margiela talvez sejam as mais importantes para compreender a ambição material de Fashion Tribute. Mas convém corrigir uma confusão histórica bastante comum: Martin Margiela já não estava à frente da maison naquele período. As coleções pertencem à fase posterior à saída do fundador, quando o trabalho coletivo da casa, com participação criativa de Matthieu Blazy, continuava explorando reconstruções, objetos encontrados, bordados, máscaras e transformações inesperadas de materiais.
Na passarela paulistana, a influência aparece de maneira imediata nos rostos cobertos por diferentes máscaras. Algumas lembram superfícies metálicas, outras apresentam flores tridimensionais, rendas ou tramas translúcidas. Há uma máscara vermelha intensamente texturizada, outra amarela praticamente lisa, uma azul-turquesa que permite distinguir parcialmente os traços faciais e versões florais que parecem transformar a cabeça em uma extensão da própria roupa.
O trabalho de beleza de Laura Lalaina estabeleceu uma das imagens mais fortes do desfile. Mas, depois de observar tudo de perto, uma coisa ficou bastante clara: as máscaras não produzem exatamente o mesmo efeito em todos os casos. Algumas preservam parte da expressão de quem está por trás delas. Outras praticamente anulam a individualidade do rosto.
Essa diferença é fundamental, especialmente para quem acompanha o universo das modelos e sabe o quanto uma personalidade pode transformar a percepção de uma roupa na passarela. Cobrir os rostos pode reforçar a ideia de anonimato e concentrar nossa atenção na criação. Também pode transformar o casting numa sucessão de corpos relativamente intercambiáveis, impedindo que a presença individual participe plenamente da narrativa. A coleção ganha unidade estética, mas abre mão de parte da relação humana que uma boa apresentação pode estabelecer.
E, aqui, a questão não é exigir que toda modelo seja reconhecida imediatamente. É perguntar se o anonimato acrescenta uma camada conceitual suficientemente importante para compensar aquilo que retira. A resposta fica mais convincente quando a experimentação alcança as próprias roupas.
Um vestido longo de denim esverdeado, sem alças, apresenta uma forma que se projeta lateralmente na região dos quadris antes de se prolongar até o chão. Sua silhueta parece mais próxima de um exercício arquitetônico do que de uma simples combinação de peças. Em outra composição, um torso de diferentes xadrezes recebe amarrações brancas cruzadas e encontra uma parte inferior clara, de desenho floral, cujos quadris também se expandem lateralmente. Não precisamos conhecer o processo interno de confecção para perceber que existe uma investigação de proporções em andamento.
Esses são alguns dos momentos que mais me interessaram. Porque demonstram que a Martins não depende necessariamente de estampas, acessórios e truques de apresentação para produzir roupa com identidade. Quando a modelagem aparece, o estilista ganha outra autoridade.

Galliano, Westwood e a liberdade de vestir o que quiser
Há uma energia de rua atravessando Fashion Tribute que se aproxima bastante do universo de John Galliano para a Dior no verão 2002. Naquela coleção, apresentada em 2001 e associada ao imaginário de Street Chic, Galliano misturou referências urbanas, roupas esportivas, elementos ornamentais, transparências e uma profusão de códigos culturais que desafiavam a imagem tradicionalmente associada à maison francesa.
Na Martins, essa influência aparece em combinações como a jaqueta cáqui de mangas balonê sobre uma saia azul-petróleo de aparência rendada, acompanhada de tênis de lona, ou na composição em que uma camisa floral muito ampla encontra uma saia vermelha transparente sobre tecido azul estampado.

Gosto especialmente da maneira como a renda vermelha modifica a percepção da roupa que aparece por baixo. A transparência não funciona apenas como detalhe decorativo: altera a relação entre os tecidos, criando uma terceira imagem que não existiria se as peças fossem observadas separadamente.
Já a referência ao masculino inverno 2016 de Vivienne Westwood se manifesta na liberdade com que Tom desloca roupas historicamente associadas a diferentes gêneros. Naquela apresentação, Westwood colocou vestidos, saias, proporções exageradas e alfaiataria de comportamento pouco convencional dentro de um contexto masculino, questionando a rigidez das categorias de vestuário.
A Martins absorve essa atitude em composições que misturam camisas estruturadas, coletes, saias, calças largas, rendas e silhuetas que não parecem interessadas em anunciar se pertencem ao guarda-roupa masculino ou feminino. E ainda bem, mon amour. Já temos regras demais na vida para precisar de uma autorização especial antes de vestir uma saia sobre uma calça.
O interessante é observar que, em determinadas entradas, essa liberdade produz soluções visualmente precisas. Um vestido-camisa claro, de listras discretíssimas, ganha uma aplicação preta de franjas organizada geometricamente sobre o peito. A gola tradicional permanece reconhecível, os volumes são bem distribuídos e o conjunto conserva uma elegância inesperada, apesar das camadas de xadrez que aparecem na parte inferior.
É um dos momentos em que o excesso encontra sua melhor edição. A roupa continua irreverente, mas não precisa competir consigo mesma.

McQueen, o pied-de-coq e o perigo da citação muito reconhecível
Se algumas referências exigem atenção para serem percebidas, a homenagem a Alexander McQueen praticamente anuncia sua presença antes de a roupa completar a primeira passada.
O ponto de partida é The Horn of Plenty, coleção de inverno 2009 em que McQueen revisitou padrões clássicos, exagerou proporções, recuperou elementos de seu próprio repertório e construiu um espetáculo atravessado por uma visão crítica do consumo, do descarte e da própria indústria da moda.
O pied-de-coq preto e branco, ampliado até quase se transformar em abstração gráfica, tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis daquela apresentação.
Na Martins, o padrão surge em diferentes escalas, acompanhado de versões vermelhas e pretas, inscrições que identificam a marca e combinações com peças estampadas, camisetas gráficas e mangas de múltiplas padronagens. Há uma composição em que o desenho aparece numa peça longa semelhante a um avental, enquanto outra amplia tanto a escala do padrão que ele praticamente domina a silhueta inteira.

O impacto visual funciona… Não há como ignorar aquelas roupas. Mas é justamente aí que a comparação histórica se torna mais exigente. McQueen não utilizou a padronagem apenas porque ela produzia uma imagem poderosa. O desfile de 2009 também examinava o excesso de uma indústria fascinada por novidade, consumo e acumulação. E essa contradição é deliciosamente pertinente quando observamos uma coleção que reúne tantas referências, materiais e ornamentações.
Será que a Martins está refletindo sobre esse excesso ou simplesmente celebrando a possibilidade de produzir ainda mais dele? Não considero uma pergunta injusta. Pelo contrário, acho que é a mais interessante que o próprio desfile nos oferece.
A homenagem também se torna literal nos pequenos escapulários com retratos dos estilistas, incorporados aos colares que atravessam as composições. Quando observei de perto, o nome de McQueen aparece sobre a roupa alaranjada; em outra, o retrato de Westwood acompanha uma camiseta estampada com um felino e ornamentações de inspiração punk.
Essas peças funcionam como pequenos relicários da história da moda, objetos que transformam admiração em ornamento. Há humor nessa ideia, embora sua repetição também possa contribuir para a saturação visual de algumas composições. Porque reverenciar referências é uma coisa. Pendurar todas elas no pescoço, literalmente, é outra bem mais divertida. E possivelmente mais pesada.

A roupa precisa respirar, até quando a proposta é maximalista
A Martins apresentou uma quantidade considerável de soluções têxteis. O denim aparece em peças amplas, coletes ajustados, superfícies com aplicações e construções que alteram o desenho tradicional do corpo. Jacquards ornamentais convivem com rendas, tecidos de aparência metálica, transparências, bordados, plumas e materiais de diferentes pesos.
Uma peça verde-menta com desenhos dourados, vestida sobre camisa de listras finas, merece atenção especial. Vista de corpo inteiro, poderia ser interpretada como apenas mais um colete decorativo. Mas a aproximação revela volumes laterais que alteram seu contorno, além de uma superfície ornamental complexa. A roupa tem intenção própria e não depende inteiramente das outras peças para se justificar.
Outro acerto aparece numa criação envolvente em verde-claro acinzentado, cujos volumes largos e linhas diagonais transformam os braços e ombros em parte de uma estrutura quase escultórica. A superfície, com motivos florais e brilhos discretos, acompanha a forma em vez de disputar com ela.
E há uma peça sem mangas cuja frente foi praticamente tomada por um mosaico de contas, flores, pingentes e elementos ornamentais coloridos. A densidade é enorme, mas a informação visual está concentrada numa única superfície. O resultado possui uma coerência que nem sempre encontramos nas combinações formadas por múltiplas roupas independentes.
É uma diferença fundamental… Em outros momentos, a coleção parece acreditar que uma composição interessante pode ficar ainda melhor se receber mais um cinto, mais uma cauda sintética, mais alguns colares, uma bolsa monumental e, quem sabe, uma camada adicional de tecido estampado. Nem sempre pode, bebê.
Os cintos compridos de ilhoses, as franjas que praticamente alcançam o chão e os elementos pendentes semelhantes a rabos de raposa sintéticos aparecem tantas vezes que deixam de funcionar apenas como surpresas e passam a constituir uma fórmula de apresentação. A repetição cria identidade, evidentemente, mas também diminui o impacto de cada aparição.
O trabalho de Cacau Francisco e Anuro Anuro no styling ajuda a estabelecer a personalidade exuberante do desfile, aproximando peças que provavelmente não seriam imaginadas juntas numa composição tradicional. Há inteligência nessa operação. Entretanto, nas entradas mais carregadas, o olhar acaba procurando um lugar de descanso. E algumas roupas mereciam esse descanso. Não para se tornarem minimalistas, mas para que sua construção pudesse ser percebida sem tantos concorrentes.

As bolsas são quase outra coleção
A parceria com Denise Gerassi merece uma conversa à parte, honey Lee… Especializada em acessórios de couro de pirarucu, a marca desenvolveu para Fashion Tribute diferentes versões de bolsas que combinam superfícies escamosas, recortes, franjas, estampas animais e acabamentos volumosos.
Uma das mais interessantes apresenta corpo preto de aparência escamosa, superfície estruturada e uma enorme aplicação laranja de aspecto felpudo. Vista de perto, a relação entre as texturas é muito mais elaborada do que parece à distância. A superfície do couro estabelece uma geometria quase rígida, enquanto o acabamento laranja desorganiza deliberadamente seus limites.
Em outras versões, as longas franjas pretas criam linhas verticais que acompanham o corpo em movimento, aproximando a bolsa de um elemento da própria silhueta. O problema é que, em determinadas composições, esses acessórios se tornam tão grandes que passam a competir diretamente com as peças centrais.

Isso não diminui o mérito do desenvolvimento… Pelo contrário, demonstra que as bolsas possuem personalidade suficiente para existir fora da passarela. Mas talvez algumas delas ganhassem ainda mais força acompanhadas de roupas menos disputadas visualmente.
Também há uma discussão sobre a presença de materiais reaproveitados. Tom descreve o uso de peças garimpadas em brechós, tecidos de estoque e fragmentos reconstruídos, uma prática coerente com a proposta de colagem da coleção. No desfile, observei painéis de denim, misturas de padronagens e intervenções que sugerem a reunião de materiais diferentes. O que não posso fazer é transformar automaticamente essa aparência em certificação de sustentabilidade.
Utilizar materiais já existentes pode representar uma decisão importante de criação e gestão de recursos, mas seu impacto depende de fatores que vão além da imagem, como origem, quantidade, desperdício, durabilidade e processos produtivos. A narrativa do reaproveitamento é bem interessante, mas merece ser acompanhada por informações concretas, uma questão que também atravessou nossa leitura da À La Garçonne na SPFW N61.

E as modelos, Tom?
Há outro aspecto que não pode escapar da nossa análise: a relação entre a coleção e os profissionais que a apresentaram. A direção do desfile ficou sob responsabilidade do badalado Ed Benini, enquanto o casting reuniu profissionais de diferentes agências e apresentações de gênero, compartilhando um guarda-roupa que deliberadamente atravessa categorias tradicionais.
A variedade de silhuetas e a maneira como peças semelhantes aparecem em corpos distintos ajudam a comunicar essa ausência de fronteiras. Mas as máscaras estabelecem um filtro bastante particular sobre o trabalho das modelos.
Quem acompanha moda sabe que existe uma enorme diferença entre simplesmente caminhar e interpretar uma roupa. A postura, o ritmo, a maneira de sustentar um volume, a relação dos braços com uma bolsa ou com um vestido amplo e até a expressão facial podem transformar completamente a imagem apresentada.
Quando o rosto desaparece, parte dessa interpretação também se torna menos perceptível. Algumas máscaras preservam olhos e expressões; outras apagam quase tudo. E justamente por isso a direção de passarela precisaria explorar ainda mais as possibilidades do corpo e do movimento.
Não é uma condenação ao recurso… A história da moda oferece exemplos extraordinários de anonimato como linguagem. Mas o efeito precisa ser analisado para além da beleza da fotografia. Uma apresentação que homenageia criadores conhecidos por questionar convenções também pode nos convidar a pensar sobre quem recebe o direito de ser reconhecido dentro daquela imagem. O House of Models acompanhou esse protagonismo em outra frente ao investigar as modelos que mais desfilaram na SPFW N61.

Depois do silêncio, a Martins precisa aprender a escolher
O contraste entre Silêncio e Fashion Tribute talvez seja a descoberta mais importante dessa investigação. Na temporada anterior, Tom Martins mostrou que conseguia construir uma apresentação interessante retirando quase todos os elementos que normalmente caracterizam seu trabalho. Nesta, recuperou essas referências e acrescentou outras tantas, demonstrando domínio de uma linguagem exuberante e um repertório histórico bastante amplo.
Os melhores resultados aparecem justamente quando essas duas experiências se encontram. O vestido verde de quadris expandidos, a camisa clara com aplicação geométrica de franjas, a peça de denim ajustada com mangas volumosas em xadrez, a construção assimétrica de torso amarrado e saia clara, o casaco verde-petróleo de superfície trabalhada e a criação inteiramente coberta por pequenos ornamentos são exemplos de roupas que possuem personalidade além da soma de suas referências.
Elas mostram um estilista capaz de pensar em forma, material, proporção e imagem. Já os momentos mais previsíveis surgem quando camisetas gráficas, jeans amplos, cintos exagerados, pingentes e bolsas de franjas retornam em combinações semelhantes. São elementos legítimos do vocabulário da marca, mas a repetição reduz parte da surpresa que uma coleção desse porte deveria proporcionar.
Existe, portanto, uma autoria reconhecível na Martins. Seria extremamente injusto afirmar que Tom Martins simplesmente reproduziu cinco grandes criadores. Sua maneira de combinar tecidos, ampliar proporções, misturar códigos urbanos e ornamentações e inserir humor nas roupas já possui características próprias, honey.

O desafio é outro, bebê: fazer com que essa identidade continue evidente quando as referências históricas estão mais próximas da superfície. Porque uma boa homenagem não exige que o homenageado seja reconhecido em cada detalhe. Às vezes, o maior sinal de influência acontece justamente quando o criador deixa de repetir aquilo que admira e começa a produzir algo que jamais teria existido sem aquela experiência.
Fashion Tribute alcança essa condição em alguns de seus melhores momentos. Em outros, parece tão encantada com a possibilidade de mostrar tudo que conhece que se esquece de oferecer tempo para observar o que efetivamente criou. E não há problema em amar a história da moda, mon amour. Eu também amo. O problema começa quando o desfile se transforma numa festa tão lotada que o anfitrião mal consegue aparecer.
Depois de assistir à Martins experimentar o silêncio e agora recuperar praticamente todos os seus ruídos, fico com a impressão de que o próximo capítulo não precisa ser nem mais contido nem mais barulhento. Precisa apenas ser mais preciso.
Porque Tom Martins já demonstrou que tem repertório, imaginação e disposição para arriscar. Também mostrou, nas construções mais interessantes desta temporada, que consegue desenvolver peças capazes de sustentar uma narrativa sem depender de tantos acessórios para chamar atenção. Agora seria delicioso vê-lo confiar ainda mais nessa capacidade.
Afinal, bebê, cinco gigantes podem até entrar no seu ateliê. Mas, quando a luz da passarela acende, quem precisa sair de lá com a própria assinatura é você. Atura ou surta, mon amour.
Leia também: a crítica de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61 e a análise do desfile da FORCA X.
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