As brasileiras que chegam maiores a Paris depois de Milão SS27

Modelos nos bastidores de um desfile de moda, imagem de apoio para o balanço das brasileiras em Milão SS27
Imagem de apoio. Foto: Mihaela Claudia Puscas / Unsplash.

Por Fábio Lage – House of Models

Milão mal fechou a porta e Paris já começou a ocupar o corredor inteirinho. Fashion month tem essa delicadeza de esteira de aeroporto: se você parar para amarrar o sapato, a próxima cidade passa por cima. Ainda assim, seria um desperdício atravessar a fronteira sem olhar direito para o que aconteceu com as brasileiras na Milan Fashion Week SS27. O quadro final ficou mais complexo, e francamente muito mais interessante, do que os releases que chegaram à redação ao longo da semana.

A planilha conta aparições… Carreira exige outra leitura… Há booking que acrescenta volume, há cliente que confirma uma relação em construção, há abertura ou fechamento que muda o peso de uma presença e há casos em que uma única passarela carrega mais informação do que uma agenda cheia. Kaia Ferreira, exclusivíssima da Prada em sua estreia internacional, é quase a caricatura perfeita dessa diferença: uma linha na tabela, um acontecimento enorme na biografia… babado!

Desde Nova York, o House of Models acompanha a SS27 tentando escapar da compulsão fashion por transformar quantidade em hierarquia. No nosso fechamento da NYFW SS27, a reconstrução dos casts levou o balanço a pelo menos 56 brasileiras e 156 participações. Milão pede o mesmo cuidado, só que com outra pergunta: quem simplesmente trabalhou bastante e quem, de fato, saiu da cidade numa posição diferente daquela em que chegou?

Luiza Perote e Thalita Ferreira chegam a Paris com musculatura de temporada

Luiza Perote atravessou Milão com a naturalidade de quem já deixou para trás a fase em que cada cliente novo precisava ser tratado como certificado de pertencimento. Vogue World Milano, Fendi, Missoni, Etro, Max Mara, The Attico e Dolce & Gabbana formam uma sequência suficientemente ampla para mostrar trânsito entre universos distintos, do institucional ao sexy italiano, do rigor comercial à imagem de moda com ambição global.

A pergunta que acompanha Luiza agora é mais sofisticada do que “até onde ela pode chegar?”. O currículo recente já respondeu que ela consegue chegar. O que passa a importar é conversão: quais dessas relações vão reaparecer em campanha, editorial, contrato, temporada seguinte? É nesse intervalo entre ser chamada e voltar a ser chamada que muita carreira grande se constrói sem fazer barulho, honey Lee.

Thalita Ferreira chega a Paris por um caminho igualmente consistente. Vogue World, Fendi, Etro, Max Mara, The Attico e Bottega Veneta em Milão vieram depois de Khaite, Simkhai e Michael Kors em Nova York e Burberry em Londres. Não houve um único momento desenhado para viralizar e resolver a narrativa sozinho; houve continuidade. E continuidade, darling Lee, é um luxo que o mercado adora apresentar como acaso quando já virou método.

Luiza e Thalita não precisam ser empurradas para um pódio imaginário. A informação relevante é outra: as duas encerraram Milão com histórico recente suficiente para serem lidas como presenças recorrentes do circuito, não como novidades que dependem da próxima foto para continuar existindo.

Mauria Caetano e a progressão que merece lupa

A babadeira Mauria Caetano começou Nova York com Tory Burch, Michael Kors, Calvin Klein, Carolina Herrera e a abertura de Ulla Johnson. Depois veio Burberry em Londres. Em Milão, Etro, Roberto Cavalli, Sportmax, Blumarine e Dolce & Gabbana.

O interesse está na amplitude dessa travessia. São clientes com códigos, públicos e exigências diferentes absorvendo a mesma modelo em três praças. Abrir Ulla Johnson já era um sinal qualitativo importante; continuar sendo chamada na Europa evita que aquele momento vire um pico isolado e começa a desenhar uma progressão mais rara, feita de repertório de cliente e não apenas de agenda cheia.

Esse é exatamente o tipo de movimento que o HOFM Intelligence quer preservar da amnésia do feed. Uma modelo pode terminar o mês com muitos desfiles e pouca transformação de posicionamento. Outra pode fazer menos e alterar radicalmente a qualidade das portas que se abrem. Mauria, até aqui, está fazendo as duas coisas ao mesmo tempo… Ui ui ui!

Sabryna Oliveira saiu de Londres com outro peso, e Milão não desfez o efeito

Sabryna Oliveira chegou de Nova York, entrou em Simone Rocha e fechou Mulberry em Londres. O fechamento importa bastante porque altera a leitura da relação com o show; não é apenas presença, bebê… é uma decisão de casting colocada no ponto de maior memória da apresentação. Em Milão vieram Fendi, Roberto Cavalli e Bottega Veneta.

A tentação editorial seria coroá-la imediatamente com alguma expressão inflada do tipo “nova top brasileira”, aquele confete que a imprensa espalha tão generosamente que já deveria ser vendido em saco de cinco quilos. Não precisamos disso, darling. A sequência é boa o bastante sem adjetivo de liquidação: fechar uma marca relevante em Londres e continuar atravessando casas fortes em Milão coloca Sabryna entre os nomes que Paris precisa testar de novo, com certeza.

Lulu Yu já ficou maior desde Nova York

Lulu Yu vinha de uma Nova York com Tommy Hilfiger, Michael Kors, Simkhai, Khaite, Ulla Johnson, FFORME e Carolina Herrera. Em Milão, Max Mara ganhou a companhia de Dolce & Gabbana. O primeiro desfile italiano, portanto, deixou de ser uma curiosidade isolada e passou a integrar uma primeira temporada internacional que circula por clientes muito diferentes entre si.

Essa diferença parece detalhe para quem trabalha no ritmo do release. Para quem acompanha desenvolvimento de modelo, é a história inteira. Paris agora funciona como terceira prova: continuidade ali ampliaria de novo a leitura de momentum; uma pausa também seria informação. Carreira se entende melhor quando a gente resiste à vontade de escrever o final no primeiro capítulo.

Kaia Ferreira e o dia em que um desfile valeu mais do que uma contagem inteira

O House of Models já contou a história de Kaia Ferreira, de Queimados à estreia internacional na Prada. Ela segue sendo o melhor antídoto contra qualquer ranking construído apenas pela quantidade de shows.

Até este fechamento, Kaia tem um único crédito internacional documentado na SS27: Prada. Só que entrou como exclusiva. Em uma estreia, esse tipo de acordo produz outra lógica de circulação e posicionamento; a ausência das demais passarelas deixa de significar falta de trabalho e passa a fazer parte do próprio booking.

Na planilha, Kaia aparece pequena… Na carreira, aconteceu o contrário. O próximo dado importante virá depois: campanha, editorial, retorno à maison, abertura de outras relações. A exclusividade não garante nenhum desses desdobramentos, mas muda completamente a qualidade da pergunta.

Mavi Garcez, Mayne Filipak e os nomes que uma cobertura apressada perderia

Mavi Garcez entrou na Gucci SS27, no momento em que Demna apresentou uma visão mais consolidada da casa dentro do chamado Store Show. Um único cliente não autoriza profecia, mas Gucci adiciona imediatamente um tipo específico de peso ao currículo e coloca Mavi num radar que merece continuidade.

Mayne Filipak fechou Genny. Mariane Calazan apareceu em Bottega Veneta. Isabel Alves fez Moschino e Blumarine. Angel Galego passou por Diesel e Blumarine. Bruna Souza entrou em Sportmax. Lara Menezes e Ana Beatriz Cortes integraram Alberta Ferretti. Erika Barletta fez Alberta Ferretti e The Attico. Julia Barucci também apareceu em Blumarine. Ana Clara Falconi voltou a surgir em Alberta Ferretti depois de já ter circulado por Nova York e Londres.

Não estou montando um “top 10 de brasileiras em Milão”… Ainda bem. Ranking preguiçoso costuma revelar mais sobre a necessidade de empilhar nomes do que sobre o mercado que supostamente está sendo analisado.

Essas participações cumprem funções diferentes. Algumas reforçam uma temporada volumosa, outras inauguram relações, outras acrescentam uma casa estratégica a um currículo ainda em formação. Colocar tudo na mesma coluna e ordenar do maior para o menor seria organizar a informação até ela perder justamente aquilo que tinha de interessante.

O Brasil não “dominou Milão”, e a história fica melhor assim

Seria fácil fechar esta matéria dizendo que as brasileiras “dominaram” a cidade. A expressão é sedutora, verde-amarela e pronta para um card de Instagram. Também é frouxa…

Milão mostrou algo mais valioso: uma distribuição de brasileiras por posições bastante diferentes do mercado. Há nomes consolidados em volume, modelos em aceleração evidente, estreias absolutas, exclusividade, closers e profissionais que aparecem pontualmente em casas capazes de alterar a próxima etapa da carreira. A força não está concentrada numa estrela que carrega o país inteiro nas costas; está espalhada, e talvez essa seja a mudança mais interessante desta geração.

Contabilizamos em 26 de setembro, 68 brasileiras com pelo menos um show registrado na SS27 somando as quatro grandes capitais até aquele momento. É uma fotografia útil do tamanho da presença nacional, mas não equivale ao nosso placar final de Milão: os recortes e a metodologia são diferentes. O HOFM Intelligence reconcilia show por show, confirma nacionalidade separadamente e trata opener, closer, exclusividade e correções tardias como camadas distintas da mesma informação.

Paris será o teste de estresse

É em Paris que parte dessas histórias ganhará corpo e parte delas mudará de direção. Uma modelo que chega carregando Nova York, Londres e Milão e continua entrando em casas relevantes na última praça produz um sinal diferente daquela que concentrou força em uma única cidade. Nenhuma dessas trajetórias precisa ser julgada como fracasso ou sucesso instantâneo; precisa ser lida no contexto certo.

O mercado de modelos sempre foi obcecado por velocidade e novidade. O feed tornou a ansiedade mensurável. A nossa função, aqui, é um pouco menos histérica: guardar as informações, lembrar o que aconteceu antes, comparar relações e reconhecer quando uma carreira realmente se mexeu.

Milão terminou… A SS27 ainda está escrevendo o resto.

O HOFM Intelligence seguirá atualizando o mapa das brasileiras em Paris, cruzando bookings, abertura e fechamento de desfiles, exclusividades, recorrência de clientes e progressão entre as quatro capitais.

Apuração: House of Models / HOFM Intelligence. Créditos de passarela confrontados com Models.com e registros públicos disponíveis até 28 de setembro de 2026. O banco permanece em atualização à medida que fichas e casts são consolidados.

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.