As brasileiras que chegam maiores a Paris depois de Milão SS27

Por Fábio Lage – House of Models

Milão mal fechou a porta e Paris já começou a ocupar o corredor inteirinho. Fashion month tem essa delicadeza de esteira de aeroporto: se você parar para amarrar o sapato, a próxima cidade passa por cima. Ainda assim, seria um desperdício atravessar a fronteira sem olhar direito para o que aconteceu com as brasileiras na Milan Fashion Week SS27. O quadro final ficou mais complexo, e francamente muito mais interessante, do que os releases que chegaram à redação ao longo da semana.

A planilha conta aparições… Carreira exige outra leitura… Há booking que acrescenta volume, há cliente que confirma uma relação em construção, há abertura ou fechamento que muda o peso de uma presença e há casos em que uma única passarela carrega mais informação do que uma agenda cheia. Kaia Ferreira, exclusivíssima da Prada em sua estreia internacional, é quase a caricatura perfeita dessa diferença: uma linha na tabela, um acontecimento enorme na biografia… babado!

Desde Nova York, o House of Models acompanha a SS27 tentando escapar da compulsão fashion por transformar quantidade em hierarquia. No nosso fechamento da NYFW SS27, a reconstrução dos casts levou o balanço a pelo menos 56 brasileiras e 156 participações. Milão pede o mesmo cuidado, só que com outra pergunta: quem simplesmente trabalhou bastante e quem, de fato, saiu da cidade numa posição diferente daquela em que chegou?

Luiza Perote e Thalita Ferreira chegam a Paris com musculatura de temporada

Luiza Perote atravessou Milão com a naturalidade de quem já deixou para trás a fase em que cada cliente novo precisava ser tratado como certificado de pertencimento. Vogue World Milano, Fendi, Missoni, Etro, Max Mara, The Attico e Dolce & Gabbana formam uma sequência suficientemente ampla para mostrar trânsito entre universos distintos, do institucional ao sexy italiano, do rigor comercial à imagem de moda com ambição global.

A pergunta que acompanha Luiza agora é mais sofisticada do que “até onde ela pode chegar?”. O currículo recente já respondeu que ela consegue chegar. O que passa a importar é conversão: quais dessas relações vão reaparecer em campanha, editorial, contrato, temporada seguinte? É nesse intervalo entre ser chamada e voltar a ser chamada que muita carreira grande se constrói sem fazer barulho, honey Lee.

Thalita Ferreira chega a Paris por um caminho igualmente consistente. Vogue World, Fendi, Etro, Max Mara, The Attico e Bottega Veneta em Milão vieram depois de Khaite, Simkhai e Michael Kors em Nova York e Burberry em Londres. Não houve um único momento desenhado para viralizar e resolver a narrativa sozinho; houve continuidade. E continuidade, darling Lee, é um luxo que o mercado adora apresentar como acaso quando já virou método.

Luiza e Thalita não precisam ser empurradas para um pódio imaginário. A informação relevante é outra: as duas encerraram Milão com histórico recente suficiente para serem lidas como presenças recorrentes do circuito, não como novidades que dependem da próxima foto para continuar existindo.

Mauria Caetano e a progressão que merece lupa

A babadeira Mauria Caetano começou Nova York com Tory Burch, Michael Kors, Calvin Klein, Carolina Herrera e a abertura de Ulla Johnson. Depois veio Burberry em Londres. Em Milão, Etro, Roberto Cavalli, Sportmax, Blumarine e Dolce & Gabbana.

O interesse está na amplitude dessa travessia. São clientes com códigos, públicos e exigências diferentes absorvendo a mesma modelo em três praças. Abrir Ulla Johnson já era um sinal qualitativo importante; continuar sendo chamada na Europa evita que aquele momento vire um pico isolado e começa a desenhar uma progressão mais rara, feita de repertório de cliente e não apenas de agenda cheia.

Esse é exatamente o tipo de movimento que o HOFM Intelligence quer preservar da amnésia do feed. Uma modelo pode terminar o mês com muitos desfiles e pouca transformação de posicionamento. Outra pode fazer menos e alterar radicalmente a qualidade das portas que se abrem. Mauria, até aqui, está fazendo as duas coisas ao mesmo tempo… Ui ui ui!

Sabryna Oliveira saiu de Londres com outro peso, e Milão não desfez o efeito

Sabryna Oliveira chegou de Nova York, entrou em Simone Rocha e fechou Mulberry em Londres. O fechamento importa bastante porque altera a leitura da relação com o show; não é apenas presença, bebê… é uma decisão de casting colocada no ponto de maior memória da apresentação. Em Milão vieram Fendi, Roberto Cavalli e Bottega Veneta.

A tentação editorial seria coroá-la imediatamente com alguma expressão inflada do tipo “nova top brasileira”, aquele confete que a imprensa espalha tão generosamente que já deveria ser vendido em saco de cinco quilos. Não precisamos disso, darling. A sequência é boa o bastante sem adjetivo de liquidação: fechar uma marca relevante em Londres e continuar atravessando casas fortes em Milão coloca Sabryna entre os nomes que Paris precisa testar de novo, com certeza.

Lulu Yu já ficou maior desde Nova York

Lulu Yu vinha de uma Nova York com Tommy Hilfiger, Michael Kors, Simkhai, Khaite, Ulla Johnson, FFORME e Carolina Herrera. Em Milão, Max Mara ganhou a companhia de Dolce & Gabbana. O primeiro desfile italiano, portanto, deixou de ser uma curiosidade isolada e passou a integrar uma primeira temporada internacional que circula por clientes muito diferentes entre si.

Essa diferença parece detalhe para quem trabalha no ritmo do release. Para quem acompanha desenvolvimento de modelo, é a história inteira. Paris agora funciona como terceira prova: continuidade ali ampliaria de novo a leitura de momentum; uma pausa também seria informação. Carreira se entende melhor quando a gente resiste à vontade de escrever o final no primeiro capítulo.

Kaia Ferreira e o dia em que um desfile valeu mais do que uma contagem inteira

O House of Models já contou a história de Kaia Ferreira, de Queimados à estreia internacional na Prada. Ela segue sendo o melhor antídoto contra qualquer ranking construído apenas pela quantidade de shows.

Até este fechamento, Kaia tem um único crédito internacional documentado na SS27: Prada. Só que entrou como exclusiva. Em uma estreia, esse tipo de acordo produz outra lógica de circulação e posicionamento; a ausência das demais passarelas deixa de significar falta de trabalho e passa a fazer parte do próprio booking.

Na planilha, Kaia aparece pequena… Na carreira, aconteceu o contrário. O próximo dado importante virá depois: campanha, editorial, retorno à maison, abertura de outras relações. A exclusividade não garante nenhum desses desdobramentos, mas muda completamente a qualidade da pergunta.

Mavi Garcez, Mayne Filipak e os nomes que uma cobertura apressada perderia

Mavi Garcez entrou na Gucci SS27, no momento em que Demna apresentou uma visão mais consolidada da casa dentro do chamado Store Show. Um único cliente não autoriza profecia, mas Gucci adiciona imediatamente um tipo específico de peso ao currículo e coloca Mavi num radar que merece continuidade.

Mayne Filipak fechou Genny. Mariane Calazan apareceu em Bottega Veneta. Isabel Alves fez Moschino e Blumarine. Angel Galego passou por Diesel e Blumarine. Bruna Souza entrou em Sportmax. Lara Menezes e Ana Beatriz Cortes integraram Alberta Ferretti. Erika Barletta fez Alberta Ferretti e The Attico. Julia Barucci também apareceu em Blumarine. Ana Clara Falconi voltou a surgir em Alberta Ferretti depois de já ter circulado por Nova York e Londres.

Não estou montando um “top 10 de brasileiras em Milão”… Ainda bem. Ranking preguiçoso costuma revelar mais sobre a necessidade de empilhar nomes do que sobre o mercado que supostamente está sendo analisado.

Essas participações cumprem funções diferentes. Algumas reforçam uma temporada volumosa, outras inauguram relações, outras acrescentam uma casa estratégica a um currículo ainda em formação. Colocar tudo na mesma coluna e ordenar do maior para o menor seria organizar a informação até ela perder justamente aquilo que tinha de interessante.

O Brasil não “dominou Milão”, e a história fica melhor assim

Seria fácil fechar esta matéria dizendo que as brasileiras “dominaram” a cidade. A expressão é sedutora, verde-amarela e pronta para um card de Instagram. Também é frouxa…

Milão mostrou algo mais valioso: uma distribuição de brasileiras por posições bastante diferentes do mercado. Há nomes consolidados em volume, modelos em aceleração evidente, estreias absolutas, exclusividade, closers e profissionais que aparecem pontualmente em casas capazes de alterar a próxima etapa da carreira. A força não está concentrada numa estrela que carrega o país inteiro nas costas; está espalhada, e talvez essa seja a mudança mais interessante desta geração.

Depois do pente-fino fechado em 29 de setembro, o placar mínimo de Milão mudou de escala: 32 brasileiras, 72 bookings confirmados e presença nacional em 26 desfiles ou eventos de passarela, considerando o Vogue World Milano e apresentações relevantes documentadas no período. É um número mínimo verificável, não um teto: casts, fichas de modelo e créditos de agência continuam sendo documentos vivos, e atualizações tardias ainda podem ampliar a conta. O HOFM Intelligence reconcilia show por show, confirma nacionalidade separadamente e trata opener, closer, exclusividade e correções tardias como camadas distintas da mesma informação.

O pente-fino: 32 brasileiras, 72 bookings e 26 passarelas

Atualização de 29 de setembro de 2026: a primeira versão desta matéria foi publicada ainda na transição entre Milão e Paris e destacava 17 brasileiras. Reabrimos os casts, confrontamos fichas individuais, registros de agências e créditos públicos de desfile e acrescentamos outros 15 nomes ao banco. O resultado é um piso documental bem maior: 32 modelos brasileiras, 72 participações confirmadas e presença em 26 desfiles ou eventos de passarela dentro do recorte milanês.

A concentração também conta uma história. Blumarine reuniu oito brasileiras no nosso banco; Vogue World Milano e Dolce & Gabbana, seis cada; Etro, cinco; Max Mara, Sportmax, Diesel e Alberta Ferretti, quatro cada. No volume individual, Luiza Perote lidera com sete bookings, seguida por Thalita Ferreira, com seis, Mauria Caetano, com cinco, e Leticia Hall, com quatro.

Mas o número sozinho continua sem receber coroa, faixa e carro alegórico. Kaia Ferreira fez uma única passarela porque estreou internacionalmente como exclusiva da Prada. Laura Schulze abriu e fechou Giorgio Armani. Laiza de Moura abriu Elisabetta Franchi. Mayne Filipak fechou Genny. São sinais diferentes do mesmo mercado, e justamente por isso entram separados da mera soma de shows.

Todas as brasileiras confirmadas até 29 de setembro

ModeloMilão SS27Bookings / sinal
Luiza PeroteVogue World Milano; Fendi; Missoni; Etro; Max Mara; The Attico; Dolce & Gabbana7
Thalita FerreiraVogue World Milano; Fendi; Etro; Max Mara; The Attico; Bottega Veneta6
Mauria CaetanoEtro; Roberto Cavalli; Sportmax; Blumarine; Dolce & Gabbana5
Leticia HallVogue World Milano; Etro; Max Mara; Dolce & Gabbana4
Sabryna OliveiraFendi; Roberto Cavalli; Bottega Veneta3
Jennifer MatiasSportmax; Blumarine; Moschino3
Isa ChagasDiesel; Francesco Murano; Ermanno Scervino3
Laiza de MouraElisabetta Franchi; MSGM; Giorgio Armani3 · abriu Elisabetta Franchi
Luana GuimarãesErmanno Scervino; Elisabetta Franchi; Blumarine3
Lulu YuMax Mara; Dolce & Gabbana2
Mayne FilipakJ.Salinas; Genny2 · fechou Genny
Isabel AlvesMoschino; Blumarine2
Angel GalegoDiesel; Blumarine2
Lara MenezesVogue World Milano; Alberta Ferretti2
Ana Beatriz CortesVogue World Milano; Alberta Ferretti2
Erika BarlettaAlberta Ferretti; The Attico2
Josefa SantosSportmax; Dolce & Gabbana2
Gloria MariaBlumarine; Dolce & Gabbana2
Iasmin ReisEtro; Roberto Cavalli2
Lais GarciaDiesel; Blumarine2
Katia AndrePeserico; Giorgio Armani2
Kaia FerreiraPrada1 · exclusiva Prada
Mavi GarcezGucci1
Mariane CalazanBottega Veneta1
Bruna SouzaSportmax1
Julia BarucciBlumarine1
Ana Clara FalconiAlberta Ferretti1
Daiane SodreVogue World Milano1
Carliane PaixaoDiesel1
Laura SchulzeGiorgio Armani1 · abriu e fechou Giorgio Armani
Mayara MorenoNeithan Herbert1
Livia EduardaMM6 Maison Margiela1

Metodologia. O HOFM Intelligence cruzou o calendário da Camera Nazionale della Moda Italiana, referente à semana de 22 a 28 de setembro de 2026, com fichas e créditos do Models.com, registros de agências e informações públicas de cast. Contamos uma participação por modelo por show; lookbooks e editoriais ficam fora da conta; o Vogue World Milano entra como evento de passarela; e opener, closer e exclusividade são registrados como sinais qualitativos separados. O total funciona como piso auditável em 29 de setembro, sujeito a correções tardias quando casts e fichas forem atualizados.

Paris será o teste de estresse

É em Paris que parte dessas histórias ganhará corpo e parte delas mudará de direção. Uma modelo que chega carregando Nova York, Londres e Milão e continua entrando em casas relevantes na última praça produz um sinal diferente daquela que concentrou força em uma única cidade. Nenhuma dessas trajetórias precisa ser julgada como fracasso ou sucesso instantâneo; precisa ser lida no contexto certo.

O mercado de modelos sempre foi obcecado por velocidade e novidade. O feed tornou a ansiedade mensurável. A nossa função, aqui, é um pouco menos histérica: guardar as informações, lembrar o que aconteceu antes, comparar relações e reconhecer quando uma carreira realmente se mexeu.

Milão terminou… A SS27 ainda está escrevendo o resto.

Foto: Divulgação

O HOFM Intelligence seguirá atualizando o mapa das brasileiras em Paris, cruzando bookings, abertura e fechamento de desfiles, exclusividades, recorrência de clientes e progressão entre as quatro capitais.

Apuração: House of Models / HOFM Intelligence. Créditos de passarela confrontados com Models.com e registros públicos disponíveis até 28 de setembro de 2026. O banco permanece em atualização à medida que fichas e casts são consolidados.

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.