O House of Models começou a New York Fashion Week Spring/Summer 2027 com 36 brasileiras e 58+ bookings no radar. Depois de reconstruir castings e carreiras, chegamos a pelo menos 56 modelos, 156 participações em 49 eventos, sete openers e ao menos dois closers. A conta cresceu. A história ficou muito melhor.
Por Fabio Lage – House of Models
Se setembro tivesse um departamento de Recursos Humanos, eu já teria aberto reclamação formal babadeira, viu!
Começamos o mês com Rock in Rio, gravações, ativações, compromissos, o Rio de Janeiro inteiro aparentemente decidido a realizar todos os eventos possíveis antes que outubro chegasse, e logo depois começou a temporada internacional de moda, aquela delicadeza anual em que Nova York mal termina e Londres já bateu no vidro, Milão aparece na esquina, bombando com os desfiles e Paris espera você no final da rua com aquele olhar de quem sabe que ainda vai acabar com o resto da sua dignidade física.
E setembro ainda guardou uma delicinha pessoal: dia 28 é meu aniversário, exatamente quando termina a Semana de Moda de Milão e começa Paris. Achei fofo… A indústria poderia mandar flores, né? Mas preferiu mandar um line-up repleto de modelos brasileiras em seus castings.
No meio dessa farofa internacional, o House of Models, nosso senhorzinho de 15 aninhos com corpinho digital de 5, decidiu entrar numa manutenção e atualização quase automática justamente quando eu precisava dele sentado, quieto, funcional e emocionalmente disponível. Nosso querido site resolveu fazer botox, pilates, skincare e terapia enquanto Nova York desfilava… Fiquei acrílico, né?
E existe outro problema logístico importante, mon petit: só existe um Fabio Lage. Até o fechamento desta matéria, nenhuma startup apareceu oferecendo capital para minha clonagem, o que considero uma enorme falta de visão estratégica… risos!

Então, sim, este balanço deveria ter saído bem antes… Mas seria muito fácil colocar toda a culpa no site, no Rock in Rio, no Rio bombando de eventos, na temporada internacional ou no meu futuro aniversário trabalhando feito um condenado com um look babadeiro da Misci imaginário… A verdade é mais interessante, honey.
As brasileiras da NYFW SS27 simplesmente não paravam de aparecer. Quando começamos a contar, eram 36 modelos e 58+ bookings confirmados. Parecia uma fotografia bastante boa do que estava acontecendo… Não era.
Vieram outros castings. Vieram modelos que estavam trabalhando mais do que o primeiro radar mostrava. Vieram páginas atualizadas depois. Vieram agências (Alô assessorias). Vieram apresentações menores. Vieram nomes que estavam diante dos nossos olhos e ainda não apareciam de maneira consistente nas bases.
Trinta e seis viraram mais de 40.
Depois passaram de 50.
Os 58 bookings atravessaram 100.
Quando finalmente fechamos esta primeira fotografia editorial, tínhamos pelo menos 56 modelos brasileiras, 156 participações SS27, presença brasileira em ao menos 49 eventos, sete openers e pelo menos dois closers.
Aí o atraso virou reportagem… Porque talvez a pergunta nunca tenha sido apenas quantas brasileiras estavam em Nova York… né?
A pergunta ficou muito mais gostosa:
quantas estavam trabalhando diante dos nossos olhos sem que a cobertura em tempo real conseguisse enxergar a dimensão disso?
Ui ui ui, mon amour do Soho… Agora senta.

Quando 36 brasileiras viram 56, talvez o problema não seja a conta
Durante uma fashion week existe uma fantasia deliciosa de que estamos acompanhando tudo enquanto tudo acontece. Não estamos, bebê… Estamos acompanhando aquilo que consegue chegar até nós.
Os grandes desfiles chegam primeiro, claro. As grandes agências de modelos publicam. As modelos mais conhecidas têm fan pages, reposts, fotografias, marcações, créditos. Algumas marcas entregam casting mastigadinho. Outras parecem acreditar que identificar modelo é atividade recreativa para jornalista com insônia… Até aí, vida que segue.

O ponto de virada aconteceu quando deixamos de perguntar apenas “quais brasileiras estão neste desfile?” e começamos a perguntar “esta brasileira que apareceu aqui, onde mais esteve durante a semana?”. A diferença parece pequena… mas foi um pandemônio.
Uma modelo revelava outro desfile… Outro desfile revelava uma brasileira… Uma trajetória individual mostrava que aquela profissional estava tendo uma temporada muito maior do que parecia. E aquele primeiro mapa foi ganhando ruas que simplesmente não estavam desenhadas.

Foi dessa investigação que começou a nascer uma evolução natural do nosso trabalho no House of Models: o HOFM Intelligence, uma tentativa de entender não apenas onde a modelo apareceu, mas o que aquele booking pode estar movimentando dentro da carreira… Spoiler babadeiro? Sim… Release de startup? Deus me free.
A ideia é simples, querides: quantidade importa, mas qualidade de trajetória importa mais do que uma soma solta. Opening, closing, recorrência, progressão, tipo de cliente, conversão futura em campanha, circulação por diferentes mercados… tudo isso começa a contar quando paramos de olhar para o booking como figurinha de álbum da copa do mundo das seleções de modelos… Porque carreira de modelo não é campeonato brasileiro… E ainda bem.

Carolina Herrera: onze brasileiras. Onze.
Darling Lee de Tubiacanga… em algum momento, Carolina Herrera fez a investigação mudar de escala. Nosso levantamento reconciliado encontrou 11 brasileiras no casting, com Laura Schulze abrindo o desfile.
Onze.
Eu contei novamente… Naturalmente, né… Porque uma coisa é encontrar brasileiras dispersas pela semana. Outra é descobrir uma concentração dessa dimensão dentro de uma mesma apresentação.

E Carolina Herrera não ficou sozinha… Ulla Johnson teve oito brasileiras, com Mauria Caetano abrindo. Cult Gaia reuniu sete, e nossa diva Esther Santos abriu… PatBO também teve sete, com Dyovana Rodrigues abrindo e fechando… tá bom para você?
Aí começa a ficar muito difícil sustentar aquela leitura preguiçosa da “brasileira ocasional” no casting internacional… Havia massa; havia distribuição; havia posição. E isso, para mim, é muito mais interessante do que escrever que “o Brasil dominou Nova York”.
Dominou onde, baby?
Manhattan não foi anexada ao território brasileiro… ainda. E não precisamos colocar cílios postiços no dado. Ele já vem bonito de fábrica.
Onze brasileiras num casting como Carolina Herrera são informação suficiente… E abrir ou fechar também não deveria virar uma letrinha comportada depois do nome… convenhamos, né?
Quando Dyovana Rodrigues abre e fecha PatBO, ela carrega a primeira e a última imagem da apresentação. O começo e o fim passam pela mesma modelo… Não faz dela “vencedora” de nada; mas revela uma escolha… E escolha de casting merece leitura apuradíssima.

Erika Barletta estava tendo uma temporada enorme. Nosso radar é que ainda não sabia.
Talvez nenhuma personagem explique melhor esta matéria do que a modelo Erika Barletta.
Na primeira fotografia, ela não ocupava a posição que assumiria depois.
Quando reconstruímos a semana, Erika apareceu com sete trabalhos SS27 identificados: Heirlome, Carolina Herrera, Fforme, Magda Butrym, Altuzarra, Conner Ives e Simkhai… Sete.
Uma das sequências brasileiras mais fortes do nosso levantamento… E gosto disso porque Erika materializa algo que a internet esquece com frequência: trabalho e visibilidade não são a mesma coisa.

Uma modelo pode fazer muito barulho e poucos bookings… Outra pode trabalhar feito louca e produzir muito menos ruído… Uma pode chegar cercada de atenção… Outra pode deixar o trabalho chegar primeiro.
Nenhuma dessas situações define sozinha uma carreira, mas elas mudam completamente a maneira como deveríamos observá-la. Por isso eu não tenho interesse em transformar Erika na “campeã da NYFW”.

Primeiro porque seria brega… Segundo porque sete desfiles dizem muita coisa e, ao mesmo tempo, não dizem tudo.
O que me interessa é outra pergunta: como uma das modelos brasileiras mais ativas da temporada conseguiu ser maior no trabalho do que na nossa primeira percepção daquele trabalho?
A resposta explica boa parte desta reportagem. A indústria já sabia… Nós ainda estávamos descobrindo.

Julia, Mauria, Esther, Dyovana… agora a planilha começa a ganhar borogodó
Esther Santos aparece em nosso recorte com seis trabalhos: Cult Gaia, Monse, Prabal Gurung, Conner Ives, Luar e Thom Browne. A bela ainda abriu a apresentação da Cult Gaia.
Mauria Caetano aparece com cinco e abriu babadeiramente Ulla Johnson.
Julia Barucci fez Diane von Furstenberg, Area, Lii e Carolina Herrera… ainda abriu o desfile da Area.
Dyovana Rodrigues ficou com os dois extremos de PatBO, abrindo e fechando.
É aqui que a contagem deixa de ser contabilidade e começa a virar carreira, darling. Porque seis bookings não significam automaticamente mais do que quatro.

Depende de quais.
Depende de onde.
Depende de como.
Depende do que acontece depois.

Uma modelo pode fazer sete trabalhos e não repetir nenhum cliente. Outra pode fazer três e transformar um deles numa campanha. Uma pode atravessar várias estéticas. Outra pode entrar num núcleo de casting muito específico. Uma pode abrir uma marca importante. Outra pode fechar uma coleção decisiva. Esse é o borogodó que uma lista não entrega… E é justamente aí que o House of Models quer aprofundar sua leitura.
Eu já contei muito desfile nessa vida; agora quero entender o que o desfile está dizendo sobre aquela carreira… Abalou Bangu? Sim… Mas com planilha, baby.

Sete openers brasileiras, e nenhuma necessidade de inventar patriotada
Nosso primeiro levantamento enxergava duas brasileiras abrindo apresentações. Depois da reconciliação, chegamos a pelo menos sete: Esther Santos em Cult Gaia, Paula Soares em Diane von Furstenberg, Lara Menezes em TWP, Julia Barucci em Area, Mauria Caetano em Ulla Johnson, Laura Schulze em Carolina Herrera e Dyovana Rodrigues em PatBO.

Entre os closings confirmados no nosso corpus aparecem pelo menos Dyovana, em PatBO, e Ingryd Marins, em Zaldy… Isso é relevante.
Não precisamos transformar em “brasileiras dominaram os openings”… Aliás, tenho cada vez menos paciência para essas manchetes em que qualquer grupo com mais de três pessoas já está “dominando” alguma coisa.

Sete marcas colocaram brasileiras no primeiro look… Isso é um fato bom… mas um fato bom não precisa de purpurina estatística, baby. A informação forte é justamente o que ela sugere: em sete momentos diferentes, profissionais brasileiras receberam a responsabilidade de apresentar a primeira imagem de uma coleção. Isso não é pouca coisa e também não é Copa do Mundo… Equilíbrio, honey Lee.

O Brasil que mora onde o holofote ilumina menos
Conner Ives foi um daqueles casos que ajudaram a desmontar nosso primeiro mapa.
Quando reconstruímos o casting, apareceram brasileiras como Esther Santos, Erika Barletta, Livia Eduarda e Mariane Calazan, entre outros nomes que exigiram conferência durante o processo babadeiro… e demorado, aff... E aí ficou muito claro que existe uma segunda camada da fashion week acontecendo fora dos maiores refletores.
Grandes marcas são fáceis de acompanhar… tudo chega. Já nas menores, a coisa muda.
Às vezes existe menos fotografia, menos cobertura, menos crédito, menos repost.
Só que a modelo trabalhou do mesmo jeito… E é justamente nesse território que uma publicação especializada precisa servir para alguma coisa.
O House of Models não tem mais de 15 anos para disputar com o Instagram quem publica primeiro a foto de uma modelo mundialmente conhecida descendo uma passarela que já está em 700 stories.
Isso seria uma batalha meio patética, convenhamos… Nosso valor está em identificar trajetória.
Registrar.
Conectar.
Guardar memória.
Perceber quando uma carreira começou a se mexer antes de a narrativa ao redor dela alcançar esse movimento… E isso vale particularmente para novas modelos.
Valéria de Morais, por exemplo, apareceu em Diotima e Heirlome, mas exigiu reconciliação porque diferentes bases não traziam a mesma completude de informação… É o tipo de detalhe que parece burocrático até lembrarmos que uma new face pode estar trabalhando internacionalmente antes mesmo que sua biografia digital esteja pronta.
Primeiro a moda descobre a menina… Depois nós descobrimos que a moda descobriu a menina… Modernidade belíssima, ui ui ui.

Adriana Lima está na mesma história, mas em outro relógio
Na outra ponta aparece the Queen Adriana Lima, poderosíssima em Thom Browne… E gosto de Adriana aqui justamente sem colocá-la no centro.
Seria fácil usar seu nome como chamariz, mas ela funciona melhor como medida de tempo.
Enquanto algumas modelos do nosso levantamento estão começando a construir seus primeiros sinais internacionais, Adriana carrega décadas de moda, publicidade e cultura pop.

A mesma NYFW comportou esses dois extremos… Isso desmonta outra facilidade editorial: chamar todo mundo de “nova geração brasileira”.
Não é uma geração bebê… São várias fases de carreira atravessando a mesma cidade. E isso deixa tudo muito mais interessante.
A menina começando.
A modelo crescendo.
A profissional consolidada.
Aquela tentando mudar de lugar.
Aquela que já atravessou eras inteiras da indústria.
Uma temporada não precisa de uma narrativa única… Às vezes a riqueza está justamente no excesso de histórias…
Esse trabalho invisível produziu uma vantagem babadeira: hoje podemos dizer pelo menos 56 brasileiras e pelo menos 156 bookings sabendo exatamente por que usamos “pelo menos”… Não é medo, baby; é rigor.

Então quem ganhou Nova York? Honey Lee, carreira de modelo não é campeonato de pontos corridos
Depois de semanas mergulhado nessa apuração, seria muito fácil pegar a planilha, ordenar uma coluna do maior para o menor e anunciar alguma brasileira como “a grande vencedora de Nova York”. Erika Barletta apareceu com sete trabalhos no nosso recorte, Esther Santos com seis, Mauria Caetano com cinco e a abertura de Ulla Johnson, Julia Barucci reuniu quatro bookings e abriu Area, enquanto Dyovana Rodrigues ficou com uma posição ainda mais curiosa dentro da PatBO: entrou com o primeiro look e voltou para entregar o último. Está tudo ali, bonitinho, esperando alguém transformar carreira em pódio. Primeiro lugar, segundo lugar, medalhinha, card para Instagram e pronto… fechamos a NYFW como se estivéssemos atualizando a tabela do Brasileirão. Tentador? Muito. Inteligente? Nem tanto, mon amour.

O que começou a me interessar justamente quando esses números foram crescendo foi perceber que nenhuma brasileira conseguiu, ou precisou, monopolizar a narrativa da temporada. Erika chama atenção pelo volume e pelo fato de sua semana ter se revelado muito maior quando reconstruímos os bookings. Esther combina quantidade com uma posição importante ao abrir Cult Gaia. Mauria faz cinco e inaugura Ulla Johnson. Julia atravessa castings diferentes e ganha o primeiro look de Area. Dyovana, em PatBO, literalmente segura as duas pontas da apresentação. Quando colocamos essas trajetórias lado a lado, elas não formam uma escadinha muito obediente em direção a uma campeã. Contam histórias profissionais diferentes acontecendo ao mesmo tempo. E, para quem acompanha modelo há tempo suficiente, é justamente aí que a coisa começa a ficar deliciosa.

Darling, uma temporada forte não precisa necessariamente produzir aquela figura única em torno da qual toda a imprensa passa a orbitar. Às vezes o sinal mais interessante está espalhado. E foi o que Nova York mostrou. Havia brasileiras concentradas em castings enormes, como Carolina Herrera; havia outras circulando por marcas menores e mais autorais; havia new faces começando a aparecer no mapa internacional, modelos em clara aceleração e nomes estabelecidos convivendo na mesma semana. Algumas chamavam atenção pela quantidade, outras pela posição que receberam no desfile, outras pelo tipo de cliente que começaram a acumular. O Brasil não apareceu em Nova York como um solo de guitarra. Apareceu quase como banda completa… e, graças a Deus, sem necessidade de alguém quebrar o instrumento no final para provar que o show aconteceu.

Essa distribuição muda bastante a conversa sobre o mercado brasileiro. Quando toda a percepção internacional de um país fica concentrada em uma única superestrela, existe um fenômeno, às vezes gigantesco, mas existe também dependência. Conhecemos muito bem essa história porque o Brasil já viveu uma geração tão excepcional que, décadas depois, ainda existe gente tentando resolver qualquer jovem modelo brasileira perguntando se ela será “a próxima Gisele”. Coitada da Gisele, coitada da menina e coitada da pauta. O que me parece mais saudável em Nova York é justamente outra coisa: várias carreiras ocupando lugares diferentes dentro da engrenagem internacional, sem que uma precise carregar sozinha o CEP inteiro do Brasil nas costas… babado!

E é aqui que aqueles 56+ nomes começam a ganhar um significado maior do que simplesmente “muitas brasileiras”. Uma new face entrando em dois castings interessantes pode estar vivendo uma temporada profissionalmente tão decisiva quanto outra modelo que fez cinco. Uma abertura pode dizer algo que a simples soma não diz. Um cliente que volta pode valer mais do que três clientes que nunca reaparecem. Uma campanha seis meses depois talvez reescreva completamente a importância daquele runway que hoje parece apenas mais uma linha na planilha. É exatamente por isso que o nosso novo olhar para os bookings precisa acompanhar o que acontece depois da semana de moda, porque carreira não termina quando a modelo sai da passarela e o fotógrafo abaixa a câmera… né, mon amour.

Talvez essa seja, afinal, a fotografia brasileira mais interessante que Nova York nos entregou: Profundidade. Não uma única menina fazendo tanto barulho que todas as outras desaparecem ao redor dela, mas uma quantidade relevante de modelos ocupando posições diferentes, em momentos diferentes de carreira e dentro de castings muito distintos. Ainda é cedo para dizer quanto disso vai se converter em recorrência, campanhas, Milão, Paris ou temporadas seguintes… e quem lê o House of Models sabe que eu prefiro uma boa dúvida sustentada por fatos a uma profecia fashion feita depois de três desfiles.
Agora, se essa largura continuar aparecendo nas próximas cidades e, principalmente, começar a se converter em clientes que retornam e campanhas que chegam depois do runway, aí teremos outra conversa… E essa, darling Lee, pode ficar bem mais babadeira.

“O Brasil voltou”? Amor, voltou de onde?
Há uma manchete rondando qualquer temporada em que muitas brasileiras começam a aparecer novamente nos grandes castings internacionais: “O Brasil está de volta.” É irresistível. Tem nostalgia, orgulho nacional, uma memória afetiva imediata dos anos em que modelo brasileira virou praticamente categoria própria dentro da indústria e ainda economiza um trabalhão de contextualização. Você escreve “voltou”, coloca meia dúzia de nomes, procura uma foto bonita e pronto… temos narrativa. O único problema é que, quando começo a pensar dois minutos sobre ela, já fico com preguiça antes mesmo do ponto final. Voltou de onde, mon amour? Em que momento exatamente as brasileiras fizeram as malas, entregaram a chave na portaria e desapareceram das passarelas internacionais sem que ninguém me avisasse?
Elas não desapareceram, bebê… O que mudou, e mudou muito, foi a maneira como o talento brasileiro passou a ocupar o mercado. Houve períodos de maior volume, outros de menor concentração de nomes com projeção global, mudanças na presença publicitária, na força editorial, no tipo de contrato, na relação entre runway e campanha e até na capacidade de uma modelo ultrapassar as fronteiras da própria moda para virar celebridade reconhecida por quem jamais abriu uma Vogue na vida. Quando olhamos para a famosa explosão brasileira dos anos 1990 e 2000, estamos olhando também para uma indústria completamente diferente dessa de 2026. E esquecer isso em nome da nostalgia é delicioso para um especial de “bons tempos”, mas meio desastroso para entender o que está acontecendo agora.
Naquela virada de século, a relação entre revistas, campanhas, grandes fotógrafos, casas de moda e imagem pública obedecia a outra arquitetura. O casting tinha outro peso midiático, a publicidade movimentava a construção de imagem de uma maneira diferente e a ideia de supermodelo ainda carregava uma capacidade de concentração cultural que hoje está pulverizada entre redes sociais, celebridades, influenciadores, atores, músicos e um universo de personagens disputando os mesmos segundos de atenção. Comparar uma menina que começa a carreira internacional em 2026 diretamente com aquele momento e perguntar se ela será “a próxima Gisele” é quase como colocar um iPhone ao lado de um fax e avaliar qual deles toca mais bonito. O problema não está necessariamente nos personagens… Mudou o sistema inteiro ao redor deles.

É exatamente por isso que esta temporada me deixa muito mais interessado numa palavra menos glamourosa do que “retorno”, mas talvez bem mais importante: densidade. O que vimos em Nova York não foi uma única brasileira fazendo tanto barulho que todo o resto da fotografia desapareceu ao redor dela. Vimos volume distribuído entre diferentes carreiras, modelos em estágios profissionais distintos, concentrações brasileiras em castings importantes, openings, closings, new faces começando a construir repertório e profissionais mais estabelecidas ocupando a mesma temporada sem precisar disputar entre si o título de “a brasileira do momento”. Isso não produz uma manchete tão cinematográfica quanto “Brazil is back”, é, eu sei. Mas pode revelar algo muito mais saudável para a indústria brasileira de modelos: uma base internacional mais larga.
E antes que alguém pegue essa frase, coloque num card verde-amarelo e declare inaugurada a nova Era de Ouro das Modelos Brasileiras… calma, Honey Lee. Nova York é uma cidade dentro de uma temporada, não uma escritura passada em cartório. Para saber se estamos realmente diante de uma mudança mais estrutural, teremos que observar quem atravessou Londres, quem ganha força em Milão, quem chega a Paris, quem repete clientes, quem transforma runway em campanha, quem reaparece na próxima estação e, igualmente importante, quem não reaparece. Porque carreira também é feita de silêncio, intervalo, mudança de rota e cliente que não liga novamente.
Nem todo bom setembro vira um ótimo fevereiro.
Talvez, portanto, a pergunta certa não seja “o Brasil voltou?”, mas “o mercado internacional está voltando a absorver talento brasileiro com maior profundidade, variedade e continuidade?”. Nova York nos entregou sinais suficientes para que essa pergunta deixe de ser mero desejo patriótico e passe a merecer acompanhamento sério. Ainda não nos entregou a resposta definitiva, e eu gosto disso. Depois de duas décadas cobrindo moda, aprendi a desconfiar profundamente de qualquer “nova era” que consiga ser proclamada antes de terminar a primeira temporada.
Se Londres, Milão e Paris continuarem ampliando esse desenho e, nos meses seguintes, algumas dessas passarelas começarem a reaparecer em campanhas, recorrências e relações mais duradouras com as marcas, aí sim teremos outro tipo de conversa.
E pode preparar o borogodó, darling Lee, porque essa conversa eu adoraria ter.

Setembro ainda nem terminou, baby
Quando finalmente comecei a fechar este texto, Londres já estava se despedindo e eu ainda tinha uma parte de mim estacionada em Nova York, olhando para nomes, castings e anotações como quem insiste em conferir a bolsa antes de sair de casa porque tem certeza de que esqueceu alguma coisa. Milão já está sequência, Paris começa no dia 28 de setembro, exatamente no meu aniversário e no mesmo dia em que a temporada italiana termina, porque aparentemente o calendário internacional de moda descobriu a data em que eu nasci e decidiu transformar aquilo numa performance conceitual sobre exaustão. Poderia estar escrito “parabéns, Fábio”. Está praticamente escrito “boa sorte, mon amour… atura ou surta”.
Infelizmente não vou passar parte do dia respondendo “obrigadoooo” no WhatsApp entre um casting e outro, tentando descobrir quem abriu algum desfile enquanto alguém pergunta se vou comemorar, como se acompanhar Paris Fashion Week no próprio aniversário não fosse uma espécie muito específica de comemoração para quem resolveu dedicar mais de duas décadas da vida a essa indústria. Depois de Rock in Rio, do Rio de Janeiro vivendo aquele momento em que todo evento decide acontecer na mesma semana, de Nova York, Londres, Milão, do House of Models entrando em manutenção automática com seus 15 aninhos e corpinho digital de 5 e dessa planilha brasileira desenvolvendo uma personalidade própria, acho que setembro já pode entrar no meu currículo como experiência profissional… Mas, olhando agora para trás, eu não trocaria esse atraso por uma matéria mais rápida.

Se tivéssemos fechado Nova York quando nosso primeiro radar mostrava 36 brasileiras e 58+ bookings, teríamos publicado antes, participado do fluxo de notícias enquanto todo mundo ainda estava falando da cidade e provavelmente cumprido com eficiência aquela obrigação silenciosa das redações de moda de correr para não parecer atrasadas. Só que teríamos contado uma história muito menor. Quando decidimos continuar olhando, aquela fotografia cresceu para pelo menos 56 modelos brasileiras, 156 participações SS27, presença em ao menos 49 eventos, sete openers e pelo menos dois closers. E, mais importante do que a mudança dos números, começaram a aparecer as diferenças entre volume e relevância, entre presença e posição, entre aquilo que o feed mostra e aquilo que uma carreira realmente está construindo.
Eu não sei se foi um record histórico de brasileiras em Nova York. Não tenho uma série histórica suficientemente sólida para bancar essa manchete e, depois de tantos anos cobrindo moda, já vi superlativo demais morrer antes da próxima estação. Também não vou proclamar uma “nova era de ouro brasileira” só porque setembro ficou bonito na planilha. Era de ouro é coisa que normalmente a história reconhece depois; quando a imprensa tenta inaugurar uma no release, desconfie. O que posso dizer com segurança é que havia muito mais trabalho brasileiro acontecendo do que nossa primeira leitura da temporada conseguiu enxergar, e isso talvez seja a descoberta mais valiosa de toda esta apuração… Porque também muda alguma coisa aqui dentro.

Ao longo de 15 anos, o House of Models contou muita história de modelo. Vimos meninas chegarem, explodirem, sumirem, voltarem, mudarem de agência, trocarem de mercado, conquistarem campanhas, perderem clientes, abrirem portas e, às vezes, simplesmente entenderem que existia outra vida possível fora dessa loucura toda. Sempre tivemos fascínio pelo booking, claro. Eu continuo achando uma delicinha descobrir quem está onde antes de todo mundo. Mas este levantamento me deixou ainda mais interessado no que acontece entre um booking e outro. Na recorrência. Na progressão. No cliente que chama novamente. No desfile que parece pequeno e, meses depois, ganha outro significado. Na campanha que transforma uma boa temporada numa mudança de patamar. Na ausência que também começa a falar… Talvez seja exatamente aí que o próximo capítulo do House of Models esteja começando.
Longe de substituir jornalismo por ranking, muito menos em transformar carreira de modelo numa cotação de bolsa, embora eu não duvide que alguém no Vale do Silício esteja neste exato momento preparando um pitch deck chamado Runway Metrics AI e cobrando 29 dólares por mês para explicar que fechar Chanel é bom para a carreira. Fiquei todo acrílico só de imaginar… ui ui ui.

O que queremos fazer é acompanhar melhor aquilo que sempre esteve diante de nós: movimento. Entender quando uma sequência de trabalhos começa a formar trajetória, quando o barulho encontra substância, quando uma new face deixa de ser apenas promessa, quando a recorrência começa a dizer que determinada relação profissional não foi acaso. O HOFM Intelligence nasce um pouco dessa inquietação, dessa vontade de observar carreira com mais profundidade e menos ansiedade por coroar alguém antes que a própria indústria termine de decidir o que está acontecendo… E talvez tenha sido por isso que Nova York se recusou tanto a acabar para mim.
A cidade já tinha apagado suas passarelas. Londres já tinha finalizado. Milão entrava à porta. Paris já aparecia no horizonte do meu aniversário. Mas aquelas brasileiras continuavam produzindo informação muito depois do último look: em quem apareceu novamente, em quem abriu, em quem fechou, em quem estava trabalhando mais do que parecia, em quem começou discretamente a construir alguma coisa que talvez só vamos compreender direito meses daqui para frente.
No fim, talvez essa matéria atrasada tenha me recordado justamente por que, depois de tantos anos, eu ainda gosto tanto de escrever sobre modelos. Não é pela urgência de ser o primeiro a dizer quem estava naquele casting, nem pela satisfação quase infantil de acertar um nome antes de todo mundo. O que continua me interessando é perceber o momento em que uma presença deixa de ser apenas presença e começa a ganhar sentido dentro de uma carreira, às vezes imediatamente, às vezes meses depois, quando um cliente retorna, uma campanha aparece ou aquele booking que parecia pequeno se revela parte de uma história muito maior.

A moda tem pressa… O último look sai, as luzes apagam, o feed corre para a próxima cidade e todo mundo age como se a história tivesse terminado ali. Eu prefiro olhar mais um pouco. Porque modelo não se constrói nos oito minutos em que a passarela está iluminada, mas no que continua acontecendo depois que o público foi embora, o backstage desmontou e o barulho diminuiu. Talvez seja justamente aí que o House of Models deva continuar estando: naquele instante em que todo mundo já correu para a próxima novidade e a carreira, finalmente sem o ruído em volta, começa a mostrar o que realmente está construindo.
No fim das contas, baby, passarela é luz. Carreira é o que ainda dá para enxergar depois que ela apaga.
As brasileiras que encontramos na NYFW SS27
Depois de tanta planilha, casting, atualização tardia e algumas pequenas crises existenciais diante do botão refresh, chegamos ao nosso mapa das brasileiras identificadas na temporada nova-iorquina. Abaixo, reunimos os nomes e os trabalhos SS27 localizados ao longo da apuração do House of Models. (O) indica abertura de desfile e (C), fechamento.
Como sempre fazemos nas temporadas, este registro funciona também como arquivo: castings podem receber atualizações posteriores, e qualquer correção documental relevante será incorporada ao levantamento do HOFM Intelligence. Porque, como esta reportagem inteira acabou demonstrando, mon amour, aparentemente até contar quem desfilou exige pós-graduação.
Adriana Lima — Thom Browne
Ana Beatriz Cortes — Michael Kors Collection
Ana Clara Falconi — Proenza Schouler · Ulla Johnson · Carolina Herrera
Angel Galego — Ulla Johnson · Heirlome
Bianca Martinello — Threeasfour
Bianca Redmerski — Cult Gaia · Ashlyn · Diotima · PatBO
Bruna Souza — Ralph Lauren
Camila Rodrigues — PatBO · Frederick Anderson · Dauphinette · Sergio Hudson
Camila Scopel — Elena Velez
Carliane Paixão — Cult Gaia · Proenza Schouler · Michael Kors Collection · Campillo · Diotima
Carol Monteiro — 7 For All Mankind
Dyovana Rodrigues — Cult Gaia · PatBO (O/C)
Ellen Borges — Diane von Furstenberg · PatBO
Erika Barletta — Simkhai · Conner Ives · Altuzarra · Magda Butrym · FFORME · Carolina Herrera · Heirlome
Esther Santos — Cult Gaia (O) · Monse · Conner Ives · Prabal Gurung · Luar · Thom Browne
Gloria Maria — Calvin Klein Collection
Iasmin Reis — Ralph Lauren · Michael Kors Collection · Calvin Klein Collection · Ulla Johnson · Carolina Herrera
Ingryd Marins — Wiederhoeft · Frederick Anderson · PatBO · Zaldy (C)
Isa Chagas — Coach · Ashlyn · Area · Lii
Isabel Alves — Coach · Diane von Furstenberg · Carolina Herrera
Isadora Ribeiro — Jane Wade · Eckhaus Latta · Threeasfour · Ashlyn · Brandon Maxwell · Collina Strada
Jadi Wegener — Coach · 7 For All Mankind · Heirlome
Jennifer Matias — TWP · Brandon Maxwell · Ulla Johnson
Josefa Santos — Calvin Klein Collection · Altuzarra · Khaite · Magda Butrym
Julia Barucci — Diane von Furstenberg · Area (O) · Lii · Carolina Herrera
Katia Andre — LaQuan Smith · Sabyasachi
Lais Garcia — Conner Ives
Lais Hames — Cult Gaia · Ashlyn
Laiza de Moura — TWP · Tibi · Diotima
Lara Menezes — TWP (O) · Michael Kors Collection · Ulla Johnson
Larissa Almeida — Pamella Roland · Bibhu Mohapatra · PatBO
Larissa Marchiori — Christian Siriano · Sergio Hudson · The Blonds
Laura Schulze — FFORME · Carolina Herrera (O) · Aaron Esh
Layla Nesteruc — Cult Gaia
Leticia Hall — TWP · 7 For All Mankind · Brandon Maxwell · Heirlome · Thom Browne
Livia Eduarda — TWP · Conner Ives · Carolina Herrera · Heirlome
Louyse Mateus — Christian Siriano
Luiza Perote — Ralph Lauren · Michael Kors Collection · Simkhai · Khaite · 7 For All Mankind
Luma Vitoria — Calvin Klein Collection · Carolina Herrera
Lulu Yu — Tommy Hilfiger · Michael Kors Collection · Simkhai · Khaite · Ulla Johnson · FFORME · Carolina Herrera
Marcela Ohio — Christian Siriano · Sergio Hudson · The Blonds
Maria Eduarda — Andrew Kwon
Mariane Calazan — Cult Gaia · Conner Ives · Ashlyn · Diotima · Heirlome
Mauria Caetano — Tory Burch · Michael Kors Collection · Calvin Klein Collection · Ulla Johnson (O) · Carolina Herrera
Mayne Filipak — Libertine · Diane von Furstenberg · Kallmeyer · Zankov · Collina Strada
Natalie Kuckenburg — Christian Siriano · LaQuan Smith
Paula Soares — Diane von Furstenberg (O) · Brandon Maxwell
Rayssa Medeiros — Ulla Johnson · Carolina Herrera
Rayssa Ricardo — Thom Browne
Sabryna Oliveira — Coach · Tommy Hilfiger · Altuzarra · Carolina Herrera
Sheila Bawar — 7 For All Mankind
Thalita Ferreira — Ralph Lauren · Tommy Hilfiger · Michael Kors Collection · Simkhai · Khaite
Valentina Sampaio — Conner Ives · Luar · Collina Strada
Valéria de Morais — Diotima · Heirlome
Victoria Blecher — Ralph Lauren
Vitoria Rodrigues — Wiederhoeft · The Blonds*
*O registro de Vitoria Rodrigues apresentou divergência de classificação entre bases durante a auditoria. O House of Models preserva o crédito dos trabalhos identificados, mantendo a observação metodológica em seu banco.
Legenda: (O) opener · (C) closer.
Levantamento HOFM Intelligence a partir dos castings e registros reconciliados durante a NYFW SS27. O recorte acima considera trabalhos Spring/Summer 2027 em Nova York; apresentações de outras estações realizadas na mesma janela, como COS F/W 2026 e Retrofête F/W 2026, não entram nesta relação.
Foto: Divulgação
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