O cabelo roubou a cena? O que a beleza da SPFW N61 revelou sobre a moda brasileira

Capa editorial do House of Models para o especial de beleza da SPFW N61, com fotografia da À La Garçonne.
A La Garçonne- SPFW N61- Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Entre tranças, cachos volumosos, penteados esculturais, peles luminosas e referências culturais, a São Paulo Fashion Week mostrou que a beleza brasileira está ampliando seu repertório. Mas será que aprendemos a celebrar as diferenças ou apenas encontramos novas maneiras de reproduzir velhos padrões?

Por Fabio Lage – House of Models

Ui ui ui, Nossa Senhora do Makeup… Depois de tantos desfiles, tantas trocas de roupa, tantas modelos atravessando passarelas e aquela quantidade quase ofensiva de informações que uma semana de moda consegue despejar sobre a cabeça de qualquer jornalista, resolvi voltar para SPFW N61 para observar algo que, durante a correria, nem sempre recebe a atenção que merece: os cabelos, as maquiagens e tudo aquilo que acontece entre o rosto de uma modelo e a identidade que uma marca deseja construir.

E não é que encontrei uma história interessantíssima?

Quem acompanha os babados da moda há tantos anos sabe que a beleza de um desfile nunca foi simplesmente uma questão de escolher uma sombra bonita, passar um batom e descobrir se o cabelo da temporada será preso, solto ou convenientemente bagunçado. Existe uma indústria inteira por trás dessas decisões, formada por maquiadores, cabeleireiros, assistentes, diretores criativos e profissionais que precisam transformar conceitos abstratos em imagens capazes de sobreviver ao olhar impiedoso das câmeras e flashs.

E, convenhamos mon petit, conseguir fazer isso enquanto dezenas de modelos atravessam um backstage em diferentes estágios de preparação não é exatamente uma atividade para principiantes.

Mas foi justamente ao rever a beleza apresentada ao longo da 61ª edição da São Paulo Fashion Week, que uma contradição começou a aparecer. Enquanto os cabelos exibiam uma variedade fascinante de volumes, texturas, tranças, ondas e construções esculturais, boa parte das maquiagens parecia conversar em um idioma relativamente semelhante, marcado por peles luminosas, blushes aquecidos, olhos discretamente definidos e lábios que procuravam preservar uma aparência toda natural.

Não estou dizendo que todas as modelos pareciam iguais, darling Lee da Silva… porque seria uma injustiça com os profissionais envolvidos e, principalmente, com as diferenças que conseguimos identificar. Também não estou decretando que a maquiagem perdeu sua capacidade de experimentar. Basta lembrar das cores e dos acabamentos apresentados em determinados desfiles para perceber que essa conclusão seria apressada.

O que me interessa é outra coisa, baby… Em uma indústria historicamente acostumada a determinar quais rostos, cabelos e corpos merecem representar determinado ideal de beleza, será que estamos finalmente aprendendo a trabalhar com as diferenças sem necessariamente tentar domesticá-las?

Ou será que o mercado apenas descobriu uma maneira mais sofisticada de vender naturalidade?

Atura ou surta, bebê, porque a resposta merece muito mais do que um tutorial de maquiagem.

Modelo da Artemisi com beleza escultural no desfile The Holy Matter da SPFW N61.

A beleza da SPFW N61 começou a contar histórias muito antes das roupas

Uma das coisas mais interessantes de observar uma semana de moda é perceber como determinadas decisões estéticas funcionam de maneiras completamente diferentes dependendo do universo criativo em que são inseridas.

Um cabelo puxado para trás pode transmitir disciplina, sensualidade, austeridade ou sofisticação. Cachos volumosos podem funcionar como elemento de liberdade, construção gráfica ou simplesmente como a valorização da textura de determinada modelo. Uma pele brilhante pode sugerir frescor, calor, suor, artificialidade ou uma personagem que acabou de atravessar o oceano… Tudo depende do contexto.

E talvez essa seja uma das razões pelas quais considero tão empobrecedora a mania de transformar cada temporada em uma lista de tendências supostamente indispensáveis. Como se bastasse reunir dez fotografias, descobrir qual produto deixou a pele iluminada e anunciar que encontramos o segredo de beleza do próximo verão.

A moda tem memória, tem linguagem, tem autoria e, quando bem construída, tem alguma coisa a dizer sobre a sociedade que a produz.

Nas dezenove apresentações que examinamos da SPFW N61, essa dimensão apareceu com especial clareza. A Santa Resistência foi buscar na Mangueira uma narrativa de cor e pertencimento. A ALUF mergulhou no imaginário das navegações e na memória das comunidades pesqueiras. A Ammi procurou reproduzir formas orgânicas por meio do trabalho artesanal. Lilly Sarti investigou o equilíbrio entre delicadeza e força. Amir Slama revisitou sua própria trajetória, enquanto a Handred encontrou no Japão uma reflexão sobre permanência e transformação. Já o Apartamento 03 colocou o tempo, a maturidade e a memória no centro da discussão.

Esses sete exemplos já seriam suficientes para mostrar a complexidade do assunto. Os outros doze ampliam a conversa, e a mesma pergunta atravessa todo o conjunto: onde termina a intenção da roupa e começa a identidade de quem a veste?

Modelo da Santa Resistência com cachos volumosos e rosa verde nos cabelos, SPFW N61.
Santa Resistencia- SPFW N61- Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Santa Resistência: quando Shakespeare encontrou a Mangueira, a beleza entrou na avenida

Comecemos por uma mulher que resolveu colocar William Shakespeare para conversar com o samba brasileiro.

Na coleção Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, Mônica Sampaio, diretora criativa da badalada Santa Resistência, partiu da tragédia Otelo, o Mouro de Veneza e de sua releitura no musical Otelo da Mangueira, de Gustavo Gasparani, para construir uma narrativa ambientada no universo da tradicional escola de samba carioca.

A proposta deslocava o drama para outro território, imaginando uma Desdêmona que não precisava permanecer aprisionada ao destino trágico escrito séculos antes. O verde e rosa da Mangueira atravessou roupas, bordados, acessórios e estampas, em uma coleção que também procurou valorizar diferentes expressões do trabalho artesanal brasileiro.

E foi nesse encontro entre teatro, samba e moda que a beleza encontrou seu espaço.

Modelo da Santa Resistência com penteado estruturado e maquiagem rosa inspirada na Mangueira.
Santa Resistencia- SPFW N61- Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Com maquiagem assinada por Chloé Gaya e cabelos sob responsabilidade de Mauricio Pina, ambos ligados ao Jacques Janine, o desfile apresentou uma combinação de luminosidade, olhos coloridos e construções capilares que dialogavam diretamente com a exuberância das roupas.

Entre as imagens mais interessantes, uma modelo aparece com os cabelos cacheados organizados em uma estrutura volumosa, coroada por uma enorme rosa verde. A flor, de aparência escultórica, parece brotar do próprio penteado, enquanto tonalidades rosadas iluminam os olhos e criam uma relação imediata com as cores da Mangueira.

O resultado poderia facilmente ter se transformado em uma fantasia excessivamente literal. Afinal, colocar uma flor enorme na cabeça de alguém e pintar os olhos de rosa não garante, por si só, nenhuma sofisticação conceitual… Mas há algo mais interessante acontecendo ali, bebê.

A estrutura dos cabelos conversa com os adornos, os olhos recuperam a identidade cromática da escola e a maquiagem mantém áreas de suavidade suficientes para que o rosto não desapareça diante de tanta informação.

Em outro momento, cabelos escuros aparecem presos e polidos, acompanhando um vestido construído em camadas de elementos vermelhos, rosados e verdes. A beleza se torna mais contida justamente quando a roupa assume maior dramaticidade.

Essa alternância importa porque demonstra que uma identidade visual não exige necessariamente a repetição de um único penteado.

Beleza da Santa Resistência na SPFW N61, com cabelo elaborado e proposta em verde e rosa.
Santa Resistência – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

Os acessórios de cabeça desenvolvidos por Nelson Rico, conhecido como Rico 3D, também acrescentam uma dimensão contemporânea à narrativa, aproximando tecnologias de impressão tridimensional de referências culturais populares. É o tipo de encontro que me interessa especialmente: aqui a tradição não aparece como peça de museu, mas como matéria disponível para novas interpretações babadeiras.

Entretanto, existe uma responsabilidade quando falamos de referências culturais tão reconhecíveis…

A Mangueira não é apenas uma combinação de cores extremamente fotogênica. Existe ali uma história de comunidade, musicalidade, resistência e produção cultural que vai muito além da capacidade de uma imagem funcionar nas redes sociais.

A beleza da Santa Resistência alcança seus melhores momentos quando parece compreender essa diferença. Quando a rosa deixa de ser somente um acessório bonito e passa a integrar uma narrativa maior.

Porque, mon amour, uma coisa é vestir verde e rosa. Outra, bem diferente, é conseguir fazer essas cores contarem alguma história.

Modelo na passarela da ALUF, coleção Sorte de Pescador, SPFW N61.
ALUF — Sorte de Pescador. Foto: Gustavo Scatena / Agência Fotosite.

ALUF: a maresia encontrou os cabelos e a memória ganhou forma

Se na Santa Resistência a beleza parecia pronta para entrar na avenida, na ALUF ela dava a impressão de ter acabado de sair do mar.

Criada por Ana Luisa Fernandes, a coleção Sorte de Pescador encontrou inspiração em O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, e em Fisherman’s Luck, de Henry Van Dyke, para construir uma reflexão sobre travessia, descoberta e a capacidade de reconhecer valor no próprio percurso.

Na passarela, redes, cordas, nós, escamas e objetos associados à pesca foram transformados em superfícies têxteis, volumes e acessórios. A água aparecia como referência, mas também como metáfora de transformação.

A beleza acompanhou esse universo com cabelos de aparência molhada, fios propositalmente separados, peles luminosas e uma maquiagem que sugeria exposição ao sol sem depender daquele bronzeado artificialmente excessivo que durante tanto tempo foi vendido como sinônimo obrigatório de verão… (Deus me free)

Modelo da ALUF com cabelos de aparência molhada e beleza inspirada no universo da pesca.
Aluf- SPFW N61- Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Em um dos looks, a modelo Michellu Provensi aparece sob um chapéu de trama aberta, com mechas escuras aderindo à testa e às laterais do rosto. O blush rosado aquece as maçãs, enquanto o brilho delicado nos olhos e nos lábios completa uma imagem que parece guardar vestígios de vento, água e maresia.

Os brincos em formato de conchas espiraladas reforçam a composição, mas carregam uma história particularmente interessantíssima. A colaboração com a ARQVO utilizou conchas pertencentes ao acervo da mãe de Ana Luisa Fernandes, transformando objetos de memória familiar em adornos babadeiros.

Em outro look, pequenas tranças organizadas junto ao couro cabeludo encontram fios longos que descem sobre a frente do corpo. Uma concha lateral ocupa o lugar de ornamento capilar, enquanto a roupa clara permite que os cabelos criem um contraste gráfico bastante expressivo.

Modelo da ALUF com tranças junto ao couro cabeludo e adorno de concha, SPFW N61.
Aluf – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

A Simple Organic esteve associada à apresentação em uma colaboração com a ALUF, mas isso não identifica, por si só, a autoria individual das escolhas de cabelo e maquiagem. O que vemos no desfile, entretanto, merece ser discutido para além dos produtos utilizados.

Darling, existe uma diferença importante entre construir uma representação romântica da vida à beira-mar e reconhecer os conhecimentos de quem realmente vive desse território.

A própria coleção estabelece vínculos com a tradição dos urus, cestos utilizados no cotidiano da pesca e da mariscagem no Norte e Nordeste brasileiros. O trabalho da artesã Nêda, do Piauí, e a presença da marisqueira Regiane, do Delta do Parnaíba, ajudam a dar materialidade a essa narrativa deliciosa.

E convenhamos, mon petit… é justamente por isso que a beleza não deveria ser reduzida à expressão tão conveniente de verão praiano.

O cabelo molhado é um recurso conhecido das passarelas… A pele aparentemente beijada pelo sol também. A originalidade possível está na maneira como essas escolhas estabelecem relações com uma pesquisa mais ampla sobre território e memória.

E há uma diferença enorme entre usar a cultura de alguém como referência estética e reconhecer o valor de quem produz essa cultura.

Anna Lumiar no desfile de estreia da AMMI, na SPFW N61.
AMMI — Forma Viva. Foto: Zé Takahashi.

Ammi: quando o crochê encontrou os cachos, a textura virou protagonista

A estreia da Ammi na São Paulo Fashion Week trouxe para a passarela um universo de corais, flores, folhas, raízes e estruturas orgânicas que pareciam crescer sobre o corpo.

À frente da marca, Amanda Felisberto apresentou Forma Viva, coleção construída a partir de um trabalho artesanal que envolve aproximadamente 300 artesãs e utiliza o crochê como uma de suas principais linguagens.

É um dado que merece atenção, especialmente quando observamos a quantidade de detalhes que compõem cada peça. Existe uma diferença considerável entre produzir uma roupa ornamentada e construir uma coleção na qual o trabalho manual participa da própria arquitetura das criações. Na Ammi, o artesanato ajuda a definir volumes, superfícies e silhuetas.

Mas a beleza, assinada por Daniel Hernandez, também merece uma atenção babadeira… E não necessariamente pelos motivos mais óbvios.

Modelo da AMMI com cachos volumosos e roupa artesanal de crochê na coleção Forma Viva.
Ammi – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Em um dos looks, os cabelos crespos e cacheados aparecem com volume extraordinário, ocupando uma área generosa ao redor do rosto. Os cachos mantêm sua textura visível, enquanto algumas mechas avançam sobre a testa, produzindo uma silhueta que encontra correspondência nas formas orgânicas da coleção.

A maquiagem é relativamente contida, construída sobre uma pele luminosa, com blush quente, olhos discretamente definidos e lábios rosados.

A exuberância não está necessariamente nas cores aplicadas ao rosto… Está no encontro entre o cabelo, a pele e a gola artesanal que emoldura o pescoço.

Em outro look, longas tranças finas descem pela frente de um vestido coberto por franjas de pedrarias, estabelecendo uma relação visual especialmente interessante. As linhas verticais dos cabelos encontram as linhas das aplicações têxteis, criando uma composição na qual dois sistemas diferentes de construção convivem sobre o mesmo corpo.

Modelo da AMMI com tranças longas sobre vestido de franjas e pedrarias, SPFW N61.
Ammi- SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

E é justamente nesse encontro que a beleza ganha força. As tranças acompanham o movimento das franjas, enquanto os volumes dos cabelos crespos e cacheados encontram correspondência nas formas mais expansivas do crochê. Não se trata de fazer o cabelo imitar a roupa, mon petit… mas de permitir que elementos tão diferentes compartilhem uma mesma linguagem visual.

Ao longo do desfile, cabelos soltos, lisos, ondulados, crespos e trançados estabelecem diferentes relações com as peças. Alguns acompanham a fluidez das roupas; outros acrescentam volume, movimento e presença. Hernandez parece compreender que, diante de uma coleção tão rica em texturas, não seria necessário submeter todo o elenco a um mesmo penteado para construir uma identidade de beleza.

Já na maquiagem, a história é outra, honey Lee… A luminosidade da pele, a suavidade das cores e a definição discreta dos olhos aparecem de maneira recorrente, criando uma unidade que permite às roupas ocupar o centro da atenção.

E aqui vale uma observação: uma maquiagem discreta não é, necessariamente, uma maquiagem sem intenção. Existe uma decisão estética em não acrescentar mais informação a uma composição que já reúne crochê, bordados, pedrarias, franjas e volumes generosos.

Beleza da AMMI na passarela da SPFW N61 em diálogo com as texturas artesanais das roupas.
Ammi – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Ainda assim, senti falta de um pouco mais de ousadia em determinados rostos. A coleção oferece um repertório visual tão rico que permitiria explorar outros contrastes na maquiagem sem necessariamente comprometer sua harmonia. A delicadeza funciona, mas sua repetição também acaba tornando alguns resultados previsíveis.

É nos cabelos, portanto, que encontro os momentos mais interessantes dessa proposta. Na maneira como os volumes dialogam com as roupas, como as tranças encontram as franjas e como diferentes texturas ajudam a ampliar o universo orgânico imaginado por Amanda Felisberto.

Para uma estreia na SPFW, a Ammi demonstrou ambição e uma relação consistente com o trabalho artesanal. A beleza acompanhou esse movimento, com acertos especialmente interessantes na construção das silhuetas e na valorização das texturas capilares, embora ainda exista espaço para desenvolver uma assinatura visual mais babadeira.

E, convenhamos, mon amour, quando uma coleção coloca tantas mãos para trabalhar na construção de suas peças, seria um desperdício deixar que toda essa riqueza terminasse apenas no tecido. A beleza também precisava participar dessa conversa. E, nos melhores momentos, participou muito bem.

Modelo da Lilly Sarti com fios soltos e maquiagem delicada no desfile da SPFW N61.
Lilly Sarti – Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Lilly Sarti: a sofisticação de um cabelo que não precisa obedecer

Existe uma liberdade particularmente interessante na ideia de uma mulher sofisticada que não parece ter acabado de sair de uma sessão interminável de escova…

Na coleção de inverno 2027 de Lilly Sarti, desenvolvida pelas irmãs Lilly Sarti e Renata Sarti, o encontro entre delicadeza e força apareceu como ponto central da pesquisa.

A inspiração no Ano da Cabra do calendário chinês conduziu uma reflexão sobre suavidade, romantismo, persistência e equilíbrio, enquanto tecidos estruturados, transparências, couro, cetim e padronagens associadas à alfaiataria masculina construíram diferentes interpretações dessa dualidade.

A beleza assinada pela expert Vanessa Rozan respondeu com uma proposta muito menos interessada em transformar os cabelos em esculturas.

Nos looks, observamos ondas soltas, comprimentos médios, texturas preservadas e mechas que parecem escapar de qualquer obrigação de simetria absoluta. A pele apresenta luminosidade, as maçãs recebem tonalidades suaves e os olhos permanecem discretamente definidos.

Beleza de Lilly Sarti com cabelos de textura suave e pele luminosa na SPFW N61.
Lilly Sarti – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

O cabelo parece quase despreocupado diante de uma composição bastante elaborada… E é justamente esse contraste que funciona. A roupa pode carregar estrutura, peso visual e acabamento sofisticado sem exigir que o cabelo reproduza a mesma rigidez.

No registro dos bastidores acima, a marca apresenta três modelos com texturas capilares distintas. Uma possui fios mais alinhados e alongados; outra, cachos pequenos junto ao rosto; a terceira, ondas suaves e comprimento próximo aos ombros. A maquiagem mantém uma linguagem comum, mas não apaga completamente essas diferenças.

O resultado é babadeiramente elegante, porém convém não confundir naturalidade visual com ausência de construção, baby.

Um cabelo aparentemente espontâneo pode exigir tanto trabalho quanto um coque perfeitamente polido. A diferença está na intenção do acabamento, e não necessariamente no tempo gasto para produzi-lo.

Três modelos nos bastidores da Lilly Sarti com diferentes texturas capilares, SPFW N61.
Lilly Sarti – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

Existe também uma questão comercial nessa estética… A beleza com aparência natural tornou-se um dos códigos mais recorrentes do luxo contemporâneo. Ela comunica uma sofisticação que parece não precisar demonstrar esforço, embora frequentemente dependa de produtos, técnicas, tempo e profissionais altamente especializados… É uma naturalidade cuidadosamente produzida.

E talvez o aspecto mais interessante da proposta de Vanessa Rozan esteja justamente em compreender essa linguagem sem transformá-la em uma caricatura da mulher despretensiosa… Afinal, mon amour, ninguém precisa fingir que acordou daquele jeito para convencer o mundo de que possui estilo.

Modelo na passarela de Amir Slama durante a SPFW N61.
Amir Slama — SPFW N61. Foto: Gustavo Scatena / Agência Fotosite.

Amir Slama: Carmen Miranda, Iemanjá e cabelos que transformam a praia em espetáculo

Quem esperava encontrar apenas cabelos soltos, ondas de praia e aquela velha fantasia publicitária de uma mulher eternamente bronzeada provavelmente teve uma surpresa no desfile de Amir Slama.

O estilista voltou ao seu próprio arquivo para revisitar uma apresentação histórica de 2000, quando levou a Rosa Chá à Semana de Moda de Nova York, em uma coleção que dialogava com o imaginário de Carmen Miranda.

Mais de duas décadas depois, a proposta reapareceu sob outra perspectiva, incorporando também a figura de Iemanjá e revisitando códigos da sensualidade brasileira.

Modelo do desfile Amir Slama com penteado elaborado e maquiagem luminosa, SPFW N61.
Amir Slama – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia – @agfotosite

O resultado trouxe maiôs, biquínis, recortes estratégicos, bordados, franjas e uma quantidade generosa de brilho. A sensualidade, evidentemente, continuou presente, mas não precisava depender de uma interpretação excessivamente literal da mulher na praia.

Foi nesse cenário que a beleza de Murilo Mauricio, da Casa Conceito Jardins, encontrou um território interessante de experimentação.

Em lugar de confiar exclusivamente no repertório tradicional do cabelo de verão, a apresentação trabalhou tranças geométricas, penteados estruturados, coques elaborados e ondas cuidadosamente desenhadas.

Algumas construções recuperavam uma elegância quase cinematográfica, enquanto outras apostavam em volumes e linhas mais gráficos.

A pele permanecia luminosa, inclusive no corpo, mas o cabelo assumia um protagonismo que ampliava o alcance visual da coleção.

Cabelo de construção geométrica na beleza do desfile Amir Slama na SPFW N61.
Amir Slama – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

Existe uma inteligência nessa escolha… Quando um desfile revisita a própria história, repetir exatamente a imagem do passado talvez seja o caminho mais previsível. A beleza pode funcionar como instrumento de atualização, aproximando referências conhecidas de novas formas de construir feminilidade, sensualidade e presença.

E Amir Slama possui um repertório suficientemente reconhecível para permitir esse tipo de diálogo.

A referência a Carmen Miranda, entretanto, merece atenção. Durante décadas, a imagem da mulher brasileira foi frequentemente resumida, sobretudo no exterior, a uma combinação de exotismo, sensualidade tropical e exuberância festiva.

Modelo de Amir Slama com cabelos estruturados e visual de passarela na SPFW N61.
Amir Slama – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

Revisitar esse imaginário em 2026 também significa confrontar os limites dessa representação… Há diferença entre reivindicar uma herança estética e continuar vendendo a mesma fantasia de brasilidade para o mercado internacional.

O trabalho de Murilo Mauricio se torna relevante porque ajuda a deslocar a coleção de uma leitura puramente nostálgica. Os cabelos participam da atualização visual de um arquivo que carrega tanto conquistas quanto contradições.

E, convenhamos, seria um desperdício revisitar uma história tão rica para concluir que a mulher brasileira continua existindo apenas para parecer recém-saída de uma praia paradisíaca.

Modelos da Handred na coleção Vapor em Curso, com beleza contida, na SPFW N61.
Handred – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

Handred: a beleza também sabe fazer silêncio

Preciso confessar uma coisa… O desfile da Handred foi um daqueles momentos da SPFW N61 que ficaram atravessados em mim. Daqueles que provocam arrepio, fazem a cabeça viajar e lembram por que, depois de tantos anos, ainda existe alguma coisa profundamente emocionante em assistir à moda quando ela consegue ultrapassar a função imediata da roupa.

A coleção Vapor em Curso, de André Namitala, nasceu de uma viagem ao Japão e de uma investigação sobre tradição, transformação, arquitetura, artesanato e as diferentes formas de perceber o tempo.

Apresentada no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, com a força sonora dos tambores japoneses, a coleção explorou referências que iam das casas de banho tradicionais ao movimento Mingei, valorizando o trabalho manual e os objetos cotidianos. Sedas, organzas, bordados, estruturas amplas e proporções cuidadosamente estudadas construíram uma atmosfera de contemplação e movimento.

Modelo da Handred com cabelos polidos e maquiagem suave durante a SPFW N61.
Handred – SPFW N61 – Foto: Lou Alves/ @agfotosite

E a beleza assinada por Carla Biriba seguiu um caminho particularmente interessante: em vez de disputar protagonismo com toda aquela construção visual, preferiu trabalhar a contenção.

Nos looks que analisamos, cabelos puxados para trás, acabamentos polidos e rostos pouco carregados de maquiagem criam uma sensação de disciplina visual. Em outros momentos, chapéus e acessórios assumem parte da composição, estabelecendo novas relações entre a cabeça, a roupa e a silhueta.

O styling de Antonio Frajado contribui para essa leitura, enquanto a beleza procura preservar uma espécie de equilíbrio entre o corpo e as proporções da coleção.

Há uma elegância em não precisar transformar tudo em espetáculo… E talvez essa seja uma das razões pelas quais considero o resultado tão interessante.

Modelo da Handred com acessório de cabeça e acabamento discreto de beleza.
Handred – SPFW N6 1- Foto: Zé Takahashi/ @agfotosite

Depois de uma sequência de looks que apostavam no brilho, no volume e na ornamentação, a Handred mostrou que uma beleza relativamente silenciosa também pode possuir enorme força expressiva.

A contenção, porém, não deve ser confundida com ausência de conceito… Ao contrário, exige compreender o momento em que determinado elemento visual precisa recuar para permitir que outro assuma o protagonismo.

Na apresentação, essa decisão também alcançou os rostos masculinos, frequentemente tratados pela indústria com uma espécie de invisibilidade estética, como se o trabalho de maquiagem para homens fosse menos importante justamente quando se torna menos perceptível.

Beleza da Handred na SPFW N61 com penteado e acessórios de proporções elaboradas.
Handred- SPFW N61 – Foto: Zé Takahashi/ @agfotosite

A beleza masculina merece a mesma atenção crítica destinada à feminina, inclusive quando a proposta consiste em preservar textura de pele, controlar brilho ou estabelecer um acabamento visual discreto.

E aqui encontramos outra contradição interessante: enquanto a moda discute liberdade de expressão e novas masculinidades, ainda existe uma tendência a interpretar o rosto masculino supostamente natural como ausência de intervenção… Não é necessariamente assim na vida real, hohey. A beleza pode trabalhar precisamente para que o trabalho não apareça.

Na Handred, o encontro entre a contenção dos rostos e a complexidade das roupas contribuiu para a atmosfera de uma apresentação que parecia compreender o valor do silêncio.

E, mon amour, depois de tantos anos ouvindo a indústria anunciar que cada novidade precisa ser maior, mais intensa e mais extravagante do que a anterior, talvez exista alguma coisa deliciosamente subversiva em saber quando não acrescentar mais nada.

Modelo do Apartamento 03 no desfile Atempo, com pele luminosa e beleza suave.
Apartamento 03 – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena – @agfotosite

Apartamento 03: o tempo também tem rosto, e a beleza não precisa apagá-lo

A moda adora revisitar seus arquivos, celebrar décadas passadas e transformar a nostalgia em objeto de desejo. Curiosamente, nem sempre demonstra o mesmo entusiasmo quando o assunto é reconhecer a passagem do tempo no rosto das pessoas que vestem suas criações.

Foi justamente nesse território que Luiz Claudio Silva, à frente da Apartamento 03, decidiu entrar com Atempo, coleção apresentada no encerramento da SPFW N61.

A proposta abordou memória, envelhecimento, permanência e as marcas que acumulamos ao longo da vida. E não ficou restrita ao discurso. Na passarela, diferentes gerações dividiram espaço, incluindo veteranas da moda brasileira, como Indyra Carvalho e a babadeira Erika Hilton, em um elenco que ampliou a própria representação de quem pode ocupar aquele lugar.

Beleza do Apartamento 03 com cabelo polido e rosto de maquiagem delicada, SPFW N61.
Apartamento 03 – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena – @agfotosite

Nas roupas, o tempo aparecia nas sobras de tecidos reaproveitadas, nos bordados construídos a partir de materiais descartados e nos acessórios elaborados com fragmentos de louças quebradas, em uma referência à técnica japonesa do kintsugi.

Mas havia outro elemento importante nessa narrativa: os rostos.

A beleza, assinada por Helder Rodrigues, com parceria da L’Oréal Professionnel nos cabelos, encontrou caminhos diferentes para acompanhar um elenco que não parecia interessado em obedecer a um único padrão de imagem.

Cabelos puxados para trás, com acabamento brilhante e rigorosamente polido, conviviam com tranças desenhadas próximas ao couro cabeludo e volumes crespos exuberantes. Em determinados looks, os penteados acrescentavam uma dimensão gráfica à composição; em outros, permitiam que o movimento e a textura natural dos fios participassem da construção da silhueta.

Modelo do Apartamento 03 com penteado marcado durante a coleção Atempo.
Apartamento 03 – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

A maquiagem seguia uma linguagem relativamente discreta. Peles luminosas, tonalidades quentes, olhos suavemente definidos e lábios rosados criavam uma continuidade visual sem exigir que todas as modelos apresentassem exatamente a mesma aparência.

E aqui está o aspecto que mais me interessa nessa proposta… Quando uma coleção decide falar sobre envelhecimento, a presença de mulheres maduras deixa de ser apenas uma escolha de casting e passa a participar do significado do desfile. As experiências que cada rosto carrega acrescentam uma dimensão que nenhuma roupa, por mais elaborada que seja, consegue produzir sozinha.

A beleza não precisava transformar essas mulheres em versões mais jovens de si mesmas para que continuassem pertencendo àquela passarela. Tampouco precisava abandonar a maquiagem, o brilho ou a sofisticação para demonstrar respeito pela maturidade.

Modelo do Apartamento 03 na SPFW N61 com cabelo e maquiagem em diálogo com a coleção.
Apartamento 03 – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia – @agfotosite

Eis uma distinção importante, mon amour: valorizar os sinais do tempo não significa transformar o envelhecimento em obrigação estética. Uma mulher pode desejar suavizar uma marca, destacar outra, mudar completamente sua aparência ou simplesmente não fazer absolutamente nada. O problema nunca deveria ser a escolha individual, mas a ideia de que existe uma idade a partir da qual a beleza precisa pedir autorização para continuar existindo.

Na Apartamento 03, a direção de beleza encontrou sua melhor expressão justamente na convivência entre diferentes rostos, texturas e gerações.

Beleza do desfile Atempo da Apartamento 03, que investigou memória e passagem do tempo.
Apartamento 03 – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Isso não significa que tenha apresentado uma proposta revolucionária de maquiagem. As peles luminosas e as tonalidades suaves já fazem parte de um repertório bastante conhecido das passarelas. O interesse estava menos na inovação dos produtos ou dos acabamentos e mais na relação entre essa beleza e as pessoas escolhidas para representar a coleção.

E talvez esteja aí um dos acertos mais interessantes de Atempo… Luiz Claudio Silva colocou a passagem dos anos no centro de sua narrativa, enquanto Helder Rodrigues desenvolveu uma beleza que não precisava competir com essa ideia.

No fim das contas, envelhecer não deveria ser o contrário de permanecer belo. E uma passarela que se propõe a celebrar o tempo tem muito mais a ganhar quando permite que ele também apareça nos rostos de quem a atravessa.

Modelo da Artemisi com criação escultural e maquiagem dramática na coleção The Holy Matter.
Artemisi – SPFW N6 1- Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

O rosto como território de invenção: máscaras, metal e rebeldia

Se o primeiro grupo de desfiles ofereceu uma leitura sobre textura, memória e naturalidade construída, outros preferiram desmontar a própria ideia de rosto. E aqui a maquiagem deixou de ser coadjuvante para se transformar em linguagem, às vezes chegando ao ponto de esconder a pessoa que a indústria da moda, em tese, foi contratada para mostrar.

Artemisi: quando a beleza veste uma armadura

Na Artemisi, a coleção The Holy Matter, de Mayari Jubini, levou impressão 3D, construções escultóricas, cristais e metal à passarela. A beleza assinada por Helder Rodrigues acompanhou essa ambição por meio de olhos carregados, superfícies de aparência polida, cabelos presos ou aderidos à cabeça e intervenções que chegavam a ultrapassar os limites convencionais da maquiagem. Máscaras, mantilhas, correntes e estruturas que lembravam halos modificavam o contorno do rosto. A personagem parecia existir em algum lugar entre o corpo humano, a escultura e uma entidade saída de uma liturgia futurista.

Criação da Artemisi apresentada na coleção The Holy Matter durante a SPFW N61.
Artemisi – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

O efeito tem força porque não depende apenas de um produto ou de um penteado babadeiro. É a soma de maquiagem, cabelo, figurino e acessórios que cria aquela figura. Existe, porém, uma tensão essencial: a mesma máscara que dá personalidade a uma coleção pode apagar a identidade de quem a veste. Na Artemisi, essa fricção faz parte da proposta e merece ser lida como tal. Há também uma ironia que não posso ignorar: um desfile dedicado à transformação da matéria perde parte de sua potência quando a iluminação não nos permite ver com precisão tudo aquilo que tantas mãos construíram. O detalhe, afinal, não foi feito para viver eternamente no escuro.

Martins: a máscara como homenagem e como provocação

Modelo de rosto coberto por máscara na coleção Fashion Tribute, da Martins, na SPFW N61.
Martins — Fashion Tribute. Foto: Gabriel Cappelletti / Agência Fotosite.

Em Fashion Tribute, Tom Martins reuniu referências que vão de Martin Margiela a John Galliano, passando por Vivienne Westwood, Marc Jacobs e Alexander McQueen. A beleza de Laura Lalaina levou a colagem para a cabeça. Rostos apareceram cobertos por malhas transparentes ou opacas, superfícies florais e máscaras em tons escuros, turquesa e dourado. Onde a maquiagem permanecia visível, olhos acinzentados ou azulados, manchas avermelhadas e lábios escurecidos reforçavam uma teatralidade propositalmente imperfeita.

Não se trata de escolher uma beleza agradável, darling… Se trata de recusar a obrigação de agradar. Sob a malha, os olhos continuam presentes, mas a leitura do rosto muda; a maquiagem é percebida por filtros materiais, e não apenas por pigmentos. Essa operação tem uma relação direta com o interesse histórico de Margiela pela anonimização da modelo, mas também deixa uma questão para a própria Martins: quando toda referência é tão reconhecível, o que permanece como assinatura autoral? A pergunta vale para a roupa, para o styling e para a beleza. Homenagem não é licença para desligar o senso crítico, mon amour.

FORCA Studio: o olhar não pede licença

Look da coleção Forca X, da FORCA Studio, apresentado na SPFW N61.
FORCA Studio — Forca X. Foto: Zé Takahashi.

A FORCA Studio respondeu à delicadeza que atravessou outras apresentações com uma boa dose de insolência. Na coleção Forca X, a beleza de Maxima Naomi Weber Lira apostou em olhos pretos intensos, esfumados de matriz grunge, cabelos espetados, tranças tensionadas, fios descoloridos e desenhos verticais que prolongavam a cabeça. Maquiagem expressiva em rostos masculinos e femininos reforçava uma atitude que não precisava pedir autorização para existir.

A linguagem dialoga com o couro, as proporções deslocadas e a ideia de armadura explorada pela marca. O que vejo aqui não é um simples retorno da estética punk, rótulo que a indústria adora ressuscitar sempre que alguém passa um lápis preto com convicção. É a decisão de permitir que o rosto participe da fricção que a roupa provoca. A maquiagem não pretende suavizar o corpo. Ela amplia a sua presença babadeira.

Beleza gráfica da À La Garçonne com maquiagem de cores intensas na SPFW N61.

A maquiagem voltou a falar em cores, mas cada marca escolheu um idioma

A recorrência de peles luminosas não significou uma temporada monocraticamente boring. Em alguns desfiles, o pigmento invadiu áreas pouco convencionais do rosto; em outros, a cor se concentrou em um único ponto. E é justamente aí que se percebe a diferença entre reproduzir uma tendência e construir uma personagem de “catiguria”.

À La Garçonne: uma beleza que atravessa o limite dos olhos

Modelo da À La Garçonne com pigmentos coloridos no rosto e cabelo de atitude na SPFW N61.

Em À La Garçonne, a beleza de Celso Kamura fez do rosto uma superfície gráfica de respeito. Nos rostos, pigmentos laranja-avermelhados, verdes luminosos e rosas escapam da pálpebra e avançam por têmporas e maçãs. Cabelos curtos, fios desfiados e estruturas presas completam uma imagem mais interessada em atitude do que em correção. O resultado parece responder à própria lógica da marca, que prefere provocar encontros improváveis entre códigos de roupa e períodos históricos.

Há algo bastante revelador nessa liberdade… Uma sombra não precisa permanecer obedientemente dentro do espaço que a indústria cosmética reservou para ela. Quando a cor se desloca, muda também nossa percepção sobre o que constitui um rosto pronto para ser fotografado. Não é preciso chamar isso de revolução para reconhecer a experiência visual.

Alexandre Herchcovitch: a diferença não cabe numa única cabeça

Look de Alexandre Herchcovitch apresentado na SPFW N61, fotografia de passarela.
Herchcovitch; Alexandre — SPFW N61. Foto: Zé Takahashi.

Também assinada por Celso Kamura, a beleza do desfile de Alexandre Herchcovitch trabalhou uma variedade de cabelos e aparências. Entre os registros analisados, aparecem cortes muito curtos, fios crespos, texturas distintas e até um cabelo raspado em tom verde. Alguns rostos surgem com maquiagem discreta, enquanto outros registros e informações da apresentação apontam olhos coloridos e lábios brilhantes. O contraste impede que o desfile seja reduzido a uma única receita de beleza.

É coerente com uma coleção em que couro, renda, sensualidade e construções de forte presença se encontravam sem a obrigação de produzir uma figura única. A identidade de uma apresentação pode existir também na variação, desde que exista uma intenção capaz de sustentar o conjunto. A indústria ainda parece desconfiar desse princípio, talvez porque seja mais fácil vender uma fórmula do que explicar um repertório.

Cria Costura: o batom tomou a palavra

Modelo da Cria Costura com maquiagem de lábios gráficos e pele suave na SPFW N61.
Cria Costura – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Na Cria Costura, novamente com beleza de Helder Rodrigues, o elemento que mais me chamou a atenção foi a boca; mostrando pigmentações vinho e verde-azuladas, com contornos gráficos que interrompem a aparente neutralidade da pele. Cabelos puxados e polidos convivem com ondas mais largas, enquanto o restante da maquiagem frequentemente recua para permitir que os lábios sustentem a imagem.

É uma escolha simples apenas na aparência, honey… Destacar a boca modifica o centro de atenção da fotografia, interfere na expressão e introduz uma dimensão quase performática. O rosto não parece querer reproduzir um ideal de perfeição silenciosa. Ele tem alguma coisa a dizer. E, para uma apresentação que carrega a palavra criação no próprio nome, existe pertinência em não deixar essa fala restrita à roupa.

Modelo da Catarina Mina com roupa e acessórios artesanais na SPFW N61.
Catarina Mina – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena/ @agfotosite

A cabeça também guarda território, trabalho e memória

Há uma linha de força especialmente brasileira atravessando a temporada: tramas, fibras, artesanato, acessórios e referências culturais que deixam de existir somente nas roupas e passam a organizar a imagem inteira. O risco é sempre o mesmo: transformar o conhecimento de comunidades e trabalhadores em ornamento anônimo. O mérito está em lembrar que toda técnica tem autoria e que toda referência possui história.

Catarina Mina: o detalhe que aproxima o rosto da mão

Modelo de cabelos brancos com vestido de faixas multicoloridas no desfile de Catarina Mina.
Catarina Mina — Bonito pra Chover. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite.

Na coleção Bonito pra Chover, da Catarina Mina, a beleza de Helder Rodrigues escolheu um caminho atento à relação entre cabelo, pele e materialidade. Cachos próximos ao rosto, pequenos fios cuidadosamente posicionados e texturas capilares diferentes aparecem ao lado de brincos artesanais, colares e tramas que prolongam o trabalho têxtil em direção à cabeça. A maquiagem não tenta competir com esse repertório; privilegia a leitura do rosto.

Beleza da Catarina Mina na coleção Bonito pra Chover, com texturas de cabelo e crochê.
Catarina Mina – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Ainda me recordo da modelo de cabelos brancos na passarela, lembrando que uma coleção sobre saberes e continuidade ganha outra densidade quando o elenco não pretende simular uma única etapa da vida. Não significa que a presença de uma pessoa mais velha resolva o etarismo da moda. Significa que a escolha do casting também participa da discussão de beleza. Na Catarina Mina, o artesanato pede atenção ao trabalho das mãos. A imagem de moda precisa estar à altura desse pedido.

Dendezeiro: um elenco não precisa se comportar como uniforme

Modelo da Dendezeiro na SPFW N61 com cabelo e visual de moda contemporânea.
Dendezeiro – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

A Dendezeiro apresentou um universo em que peças amplas, vestidos ajustados, sobreposições e referências de rua circulavam entre corpos e expressões diferentes. Bonés de crochê e gorros altos dividem espaço com cabelos soltos, longos, trançados e cacheados. Alguns rostos recebem olhos marcados e outros parecem trabalhar uma luminosidade mais contida. O resultado não procura a uniformidade como prova de organização estética.

Modelo da Dendezeiro com composição de roupa, cabelo e acessórios na SPFW N61.
Dendezeiro – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

Com beleza e cabelo assinado por Gotham; o que interessa visualmente é que a maquiagem acompanha a liberdade com que a marca desloca códigos de gênero e de vestuário. É uma observação particularmente útil em um mercado que gosta de anunciar inclusão enquanto continua esperando que todos os modelos caibam no mesmo retrato.

Foz: cor, identidade e a imagem em trânsito

Modelo da Foz com maquiagem de cor intensa e trabalho de cabelo na SPFW N61.
Foz – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

Na Foz, os looks analisados revelam sombras lilases e violetas, pele luminosa, lábios discretos e um repertório capilar que passa por tranças geométricas, cortes curtos e cachos. Em um dos visuais, um adereço vermelho de estrutura vertical e fibras claras altera completamente a altura e o contorno da cabeça. O acessório se torna protagonista sem exigir que o rosto desapareça.

Modelo da Foz na SPFW N61 com acessório de cabeça e beleza de forte presença.
Foz – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

O peso de um olhar e o direito de não ser transformado em personagem

Nem toda intervenção precisa dominar a cabeça. Em algumas propostas, o cabelo trabalha para preservar o movimento, enquanto a maquiagem reorganiza as feições com poucas decisões precisas. A sobriedade não é ausência de linguagem; muitas vezes, é uma escolha mais arriscada justamente porque não permite esconder uma ideia frágil atrás de um espetáculo de efeitos.

Hisha: a beleza que não exige cabelos domesticados

Modelo da Hisha com volume capilar e maquiagem expressiva na SPFW N61.
Hisha – SPFW N61 – Foto: Danilo Grimaldi/ @agfotosite

Na Hisha, a beleza assinada por Vinícius Vilas Boas fez conviver esfumados em tons de marrom, cinza e preto com peles luminosas, cabelos cacheados volumosos, ondas, tranças mais soltas e fios com textura visível. O resultado guarda uma atmosfera de liberdade construída, próxima de certa sensibilidade boho, sem exigir que todos os cabelos sejam penteados para parecer a mesma pessoa.

Beleza da Hisha na SPFW N61, com cabelo de textura aparente e olhos marcados.

É um ponto importante. O mercado durante muito tempo confundiu cabelo bem produzido com cabelo disciplinado; depois passou a comercializar a aparência de rebeldia como se ela própria não dependesse de uma equipe. Aqui, o mais interessante é a negociação entre acabamento e individualidade. A produção existe, mas não precisa apagar todo vestígio de movimento.

Modelo da UÓ por Marcelo Sommer com beleza contida na passarela da SPFW N61.
Uó por Marcelo Sommer – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

UÓ por Marcelo Sommer: conter também é uma decisão estética

Na apresentação de Marcelo Sommer, identificada como UÓ, a beleza creditada a Robert Estevão alternou cabelos de acabamento polido com volumes mais livres, enquanto a maquiagem sustentava uma aparência luminosa e discreta. São escolhas que ajudam a deixar a roupa falar, sem confundir contenção com desatenção.

Cabelo e maquiagem discretos na coleção da UÓ por Marcelo Sommer, SPFW N61.
Uó por Marcelo Sommer – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Há momentos em que o trabalho mais inteligente de beleza é perceber que a informação visual já está sendo produzida em outra parte do corpo. Quando isso acontece, um rosto pode servir de ponto de equilíbrio. A questão não é medir o valor criativo em gramas de pigmento, embora a indústria cosmética certamente adorasse encontrar uma forma de cobrar por essa métrica.

Normando: o desenho das sobrancelhas muda tudo

Modelo da Normando com maquiagem gráfica escura desenhada sobre olhos e sobrancelhas.
Normando – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia – @agfotosite

Em Ismael, da Normando, a maquiagem aparece como uma intervenção gráfica concentrada no olhar. Sombras escuras expandem o desenho das sobrancelhas, alcançam a parte superior do nariz e produzem círculos ou alongamentos que variam entre os rostos. Os cabelos, por sua vez, podem surgir longos e soltos, repartidos ao meio, com textura aparente ou penteados para trás. A combinação estabelece uma tensão: a roupa experimenta formas e superfícies, enquanto o rosto recebe quase uma nova arquitetura.

É um dos exemplos mais eloquentes de como a maquiagem pode alterar a expressão sem recorrer a um disfarce integral. A apresentação teve participação da Mantecorp Skincare e Daniel Hernandez assinando a beleza.

Modelo da Dendezeiro na SPFW N61 em composição de cabelos e moda urbana.
Dendezeiro – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

A diversidade chegou aos cabelos. Mas até onde chegou aos rostos?

Depois de revisitar dezenove apresentações, uma imagem coletiva começa a se formar, embora os contrastes entre elas impeçam qualquer diagnóstico simplista, darling Lee.

Os cabelos apareceram como um território particularmente expressivo da SPFW N61. Encontramos cachos volumosos, tranças longas, penteados geométricos, fios polidos, ondas aparentemente espontâneas e efeitos molhados, além de acessórios capazes de transformar a cabeça em uma verdadeira extensão da roupa.

São construções muito diferentes, associadas a contextos culturais e propostas criativas igualmente distintos… Mas, quando deslocamos o olhar para a maquiagem, encontramos uma recorrência que merece atenção.

Modelo da Santa Resistência com ornamentação de cabeça nas cores da Mangueira, SPFW N61.
Santa Resistencia – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi – @agfotosite

Peles luminosas, blushes em tons quentes, lábios rosados ou próximos da tonalidade natural e olhos frequentemente definidos com relativa delicadeza apareceram em boa parte dos desfiles selecionados.

A Santa Resistência, À La Garçonne, Cria Costura e Foz, por caminhos diferentes, exploraram pigmentos de maior presença; Forca Studio e Artemisi preferiram o drama dos olhos e das intervenções, enquanto a Martins fez da cobertura do rosto parte da própria narrativa.

Ainda assim, a preferência pela luminosidade e pela aparência de frescor atravessou diferentes desfiles… e não há nada intrinsecamente errado nisso.

Modelo da Foz com maquiagem colorida durante a SPFW N61.
Foz – SPFW N61 – Foto: Gustavo Scatena / @agfotosite

A maquiagem não precisa reinventar o rosto humano a cada temporada, e seria absurdo exigir extravagância simplesmente para justificar uma análise editorial.

A pergunta é outra, bebê: quando celebramos a diversidade de beleza nas passarelas, estamos falando de uma ampliação real das possibilidades de representação ou apenas da capacidade de trabalhar diferentes tipos de cabelo dentro de um mesmo ideal de rosto?

A valorização de cabelos crespos, cacheados e trançados representa uma mudança importante diante de uma história na qual determinadas texturas foram frequentemente submetidas à obrigação de parecer mais próximas de padrões eurocêntricos.

Mas a presença dessas texturas em uma passarela não encerra a discussão.

Quem desenvolve os penteados? Quem conhece suas técnicas? Quem recebe crédito pelo trabalho? Quais modelos conseguem construir carreiras duradouras sem precisar modificar características consideradas menos comerciais? E como essas escolhas se transformam quando deixam o universo das apresentações e entram nas campanhas publicitárias, nos contratos e nas decisões de mercado?

Modelo da Dendezeiro na SPFW N61 com beleza e elementos de identidade urbana.
Dendezeiro – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

É nesse ponto que a discussão sobre beleza encontra a discussão sobre poder.

Porque uma indústria pode celebrar a diversidade durante quinze minutos de desfile e continuar reproduzindo padrões bastante restritos nas decisões que realmente determinam oportunidades profissionais.

Também é preciso reconhecer que essa leitura nasce de um recorte editorial de dezenove desfiles, e não de um levantamento estatístico exaustivo de toda a programação. A amostra permite identificar aproximações e contrastes, mas não autoriza transformar escolhas de imagem em percentuais ou tendências universais.

O que identificamos aqui é um movimento visual relevante dentro do recorte de beleza, apresentado na SPFW N61, não uma sentença definitiva sobre toda a temporada, baby.

Ainda assim, ele revela alguma coisa importante sobre os códigos que estamos aprendendo a reconhecer como contemporâneos… E, talvez, sobre aqueles que continuamos reproduzindo sem perceber.

Modelo da Foz na SPFW N61 com cabelo elaborado e proposta de maquiagem expressiva.
Foz – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia – @agfotosite

Quem assina a beleza também merece ocupar o centro da conversa

Podemos discutir durante páginas inteiras a inspiração de uma coleção, a trajetória de um estilista, a construção de determinado tecido e a relevância histórica de uma referência cultural. Mas, quando chega o momento de falar da beleza, muitas vezes tudo se resume a uma frase mencionando pele iluminada e cabelo natural.

Como se essas decisões surgissem espontaneamente, sem pesquisa, técnica, repertório e autoria… Não surgem.

Chloé Gaya e Mauricio Pina, na Santa Resistência, ajudam a mostrar como cabelo e maquiagem podem construir uma identidade cultural sem reduzir uma coleção a fantasia. Vanessa Rozan, em Lilly Sarti, e Carla Biriba, na Handred, demonstram como a contenção também exige precisão. Murilo Mauricio transporta a sensualidade de Amir Slama para penteados de outra escala, enquanto Daniel Hernandez acompanha a investigação de texturas e formas da Ammi.

Modelo da À La Garçonne com pigmentos de maquiagem gráfica na SPFW N61.
A Là Garçonne – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Há ainda profissionais cuja presença atravessou mais de uma proposta. Helder Rodrigues assina a beleza de Apartamento 03, Artemisi, Catarina Mina e Cria Costura; Celso Kamura responde pelas imagens de Alexandre Herchcovitch e À La Garçonne. Maxima Naomi Weber Lira, na FORCA Studio, Laura Lalaina, na Martins, Vinícius Vilas Boas, na Hisha, e Robert Estevão, na UÓ por Marcelo Sommer, mostram o quanto cabe dentro da expressão direção de beleza. Na Dendezeiro, a beleza fica a cargo de Gotham.

Cada um, dentro de seu trabalho, participa de decisões que influenciam a maneira como uma coleção será percebida, fotografada, reproduzida e lembrada.

Há uma diferença enorme entre executar uma maquiagem corretamente e compreender a função daquela maquiagem dentro de uma narrativa de moda.

O mesmo vale para os cabelos… Um penteado pode modificar a proporção de uma roupa, alterar a leitura de um decote, estabelecer uma referência histórica ou transformar completamente a maneira como determinado rosto se relaciona com a câmera.

A beleza também é direção de imagem babadeira, mon amour de Xique-Xique… E seus profissionais precisam ser reconhecidos como autores de parte importante daquilo que chamamos de desfile, não apenas como responsáveis pela preparação das modelos antes de sua entrada na passarela.

Também precisamos abandonar a ideia de que uma maquiagem discreta exige menos competência do que uma construção extravagante. Em muitos casos, justamente o contrário… Fazer com que uma pele pareça naturalmente luminosa sob a iluminação de um desfile, preservando características individuais e mantendo consistência visual entre diferentes rostos, pode ser um desafio considerável.

A sofisticação nem sempre está na quantidade de produto aplicado. Às vezes, está na capacidade de compreender o que não precisa ser acrescentado.

Handred na SPFW N61: beleza discreta acompanha roupas da coleção Vapor em Curso.
Handred – SPFW N61 – Foto: Gabriel Cappelletti – @agfotosite

A beleza brasileira não precisa de um único rosto

Volto à pergunta que me fez passar horas revendo fotografias e vídeos: o cabelo roubou a cena? Em muitos dos dezenove desfiles analisados, sim. E não porque a maquiagem tenha perdido importância, mas porque a cabeça se transformou em um território de invenção particularmente eloquente. A verde e rosa da Santa Resistência dependia dos cachos que a sustentavam. O efeito de maresia da ALUF aproximou o corpo de uma travessia imaginária; o volume e as tranças da Ammi conversaram com as tramas de uma coleção feita por muitas mãos. Lilly Sarti encontrou sofisticação em fios menos disciplinados, Amir Slama trabalhou penteados que ajudavam a atualizar seu próprio arquivo e a Handred provou que a contenção pode ser tão expressiva quanto a extravagância. No Apartamento 03, falar de beleza significou também enfrentar a maneira como a moda escolhe enxergar a passagem do tempo.

Modelo da Artemisi com cabelo e maquiagem escultóricos em The Holy Matter, SPFW N61.
Artemisi – SPFW N61 – Foto: Ze Takahashi/ @agfotosite

Mas seria uma injustiça encerrar a história nesses exemplos. A Artemisi levou máscaras e estruturas esculturais ao ponto em que o rosto quase se confunde com a roupa; a Martins preferiu a colagem, a referência e o anonimato; a FORCA Studio fez dos olhos escuros uma afirmação de presença. À La Garçonne e Alexandre Herchcovitch, sob uma mesma assinatura de beleza, chegaram a imagens muito diferentes. A Cria Costura recorreu a bocas gráficas, enquanto a Catarina Mina trouxe o trabalho artesanal e a própria ideia de continuidade para junto dos cabelos. Dendezeiro, Foz, Hisha, UÓ por Marcelo Sommer e Normando ampliaram esse repertório com diferentes combinações de volume, cor, intervenção e silêncio. O conjunto não oferece uma tendência única. Oferece a prova de que o rosto não precisa ter uma só função dentro de um desfile.

Também seria ingênuo confundir variedade visual com transformação estrutural. Uma trança não se torna automaticamente um gesto de representatividade apenas porque aparece na passarela; cabelos crespos não precisam receber autorização sazonal para existir e uma modelo de cabelos brancos não resolve, sozinha, décadas de etarismo. Da mesma forma, a pele aparentemente natural não significa necessariamente que a indústria tenha abandonado os filtros invisíveis que continuam definindo quais traços são considerados desejáveis. A imagem pode abrir espaço para outras possibilidades, mas esse espaço precisa sobreviver ao encerramento do espetáculo. Precisa chegar às campanhas, aos contratos, ao casting e à remuneração de quem constrói a beleza que o público vê.

Existe ainda um detalhe que me parece decisivo: a autoria. Quando um desfile recebe aplausos por sua identidade visual, a equipe de beleza não pode ser tratada como uma nota de rodapé. Maquiadores, cabeleireiros e seus assistentes pesquisam, experimentam, adaptam e muitas vezes precisam refazer decisões em minutos, diante de dezenas de rostos e cabelos diferentes. Reconhecer esse trabalho não significa reduzir a reportagem a uma ficha técnica, mas compreender que o conceito de uma coleção também é desenhado na pele, no cabelo e na maneira como uma pessoa ocupa a fotografia.

Beleza conceitual da Artemisi com acessórios e maquiagem de forte impacto na SPFW N61.
Artemisi – SPFW N61 – Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite

Depois de mais de duas décadas acompanhando essa indústria, desconfio um pouco da velocidade com que ela anuncia o nascimento de uma nova era. A moda possui um talento admirável para transformar avanços importantes em tendências passageiras, vendê-las como descoberta e descartá-las assim que outra novidade se apresenta. Não pretendo declarar que a SPFW N61 resolveu a questão da diversidade, tampouco que dezenove desfiles representam estatisticamente toda a temporada. O que esses registros oferecem é uma conversa mais interessante sobre imagem e poder: quem pode aparecer como é, quem precisa ser transformado para caber na narrativa e quem recebe o devido reconhecimento por essa transformação.

Talvez o verdadeiro avanço esteja em abandonar a ansiedade por um único penteado dominante, por uma boca da temporada ou por uma fórmula de rosto perfeito. A beleza brasileira já existe em muitas texturas, idades, cores, histórias e maneiras de ocupar espaço; não nasceu agora, no momento em que a passarela resolveu fotografá-la. Quando a moda compreende isso, a beleza deixa de funcionar como uma moldura e passa a participar da própria história. Ui ui ui, mon amour, e que história.

Porque cabelo cresce, maquiagem sai com demaquilante e tendência muda numa velocidade que faria qualquer equipe de backstage pedir férias. Mas a maneira como uma indústria escolhe enxergar as pessoas deixa marcas muito mais profundas. E essas não desaparecem com uma boa lavagem. Atura ou surta, bebê… A beleza brasileira nunca precisou caber em um único espelho.

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Fabio Lage
Fabio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.