Na coleção The Holy Matter, Mayari Jubini transforma impressão 3D, esculturas corporais e cerca de 700 mil cristais e pedrarias em uma demonstração ambiciosa da engenharia manual brasileira. Mas, diante de roupas que exigiram milhares de horas de execução, uma contradição atravessou minha experiência na passarela: por que foi tão difícil enxergar justamente aquilo que a estilista mais queria revelar?
Por Fábio Lage – House of Models
Eu precisei assistir ao desfile da Artemisi duas vezes para compreender melhor o que Mayari Jubini havia apresentado na SPFW N61. A primeira aconteceu presencialmente, na noite de 14 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, em São Paulo. A segunda veio depois, quando pude examinar as fotografias de passarela e os registros de bastidores, descobrindo detalhes de construção, texturas e acabamentos que a iluminação havia dificultado consideravelmente enxergar ao vivo. E existe uma ironia quase irresistível nessa história, porque estamos falando de uma coleção que, segundo a marca, mobilizou mais de 20 mil horas de trabalho manual e aproximadamente 700 mil cristais e pedrarias. Imagine dedicar tanto tempo à elaboração de uma roupa e, quando chega o momento de apresentá-la, parte dessa extraordinária complexidade não conseguir se revelar plenamente aos olhos de quem está ali para observá-la.
Não estou sugerindo que um desfile precise ter a iluminação de um consultório dermatológico, muito menos que toda apresentação de moda deva abandonar a teatralidade para facilitar o trabalho de jornalistas… Deus me free! Quem acompanha a indústria há tempo suficiente sabe que algumas das imagens mais marcantes de sua história nasceram justamente da manipulação de luz, sombra, música e movimento. O espetáculo também é uma linguagem, e a Artemisi tem uma vocação evidente para ele. Entretanto, existe uma diferença entre criar uma atmosfera capaz de envolver o público e permitir que essa atmosfera comprometa a leitura de peças cuja principal qualidade está justamente no trabalho minucioso de construção. No meu caso, foi essa segunda situação que tornou a experiência particularmente frustrante.
O curioso é que, quanto mais eu examinava as imagens posteriormente, mais interessante a coleção se tornava. Apareciam soluções tridimensionais que modificavam a anatomia, estruturas que pareciam desafiar a lógica convencional da modelagem, superfícies compostas por centenas de elementos repetidos e encontros bastante sofisticados entre materiais de comportamentos diferentes. Algumas roupas me convenceram ainda mais quando pude observá-las com calma; outras, porém, perderam um pouco do encantamento inicial, porque o impacto da imagem não correspondia necessariamente à originalidade de sua construção. E foi justamente nessa diferença que encontrei o caminho para compreender The Holy Matter, coleção cujo título pode ser traduzido como A Matéria Sagrada e que pretende investigar o encontro entre alquimia, misticismo e aquilo que a criadora define como Engenharia Manual Brasileira.
A Artemisi sabe produzir imagens que impressionam. Isso já não está em discussão. O que me interessa agora é descobrir até onde Mayari Jubini consegue transformar essa habilidade em pensamento de moda, sem depender exclusivamente do espanto provocado por suas criações.

De Réquiem para o Tempo a The Holy Matter: a evolução da Artemisi na SPFW
Fundada em 2019, a Artemisi não chegou à São Paulo Fashion Week pedindo licença para experimentar. Quando Mayari Jubini, estilista capixaba natural de Cariacica, estreou no calendário da SPFW N56, em novembro de 2023, com Réquiem para o Tempo, sua pesquisa já envolvia corpetes rígidos, esculturas corporais produzidas com impressão tridimensional, superfícies manipuladas e acessórios que transformavam o rosto em uma extensão da roupa. Havia referências ao cinema, à cultura visual futurista e a uma sensualidade próxima daquela tradição de figuras femininas que parecem prontas para conquistar outro planeta, embora, convenhamos, muitas delas provavelmente tivessem problemas para atravessar a porta de um elevador convencional.
Na apresentação seguinte, Into the High, durante a SPFW N58, em outubro de 2024, a estilista aprofundou a investigação do movimento, chegando a desenvolver uma criação com estrutura motorizada. A coleção também utilizava impressões tridimensionais, efeitos de pintura e aplicações manuais, consolidando um vocabulário que já não dependia apenas da novidade tecnológica. A marca começava a demonstrar que sua principal obsessão estava na possibilidade de fazer o vestuário ultrapassar os limites da anatomia humana, produzindo corpos que pareciam pertencer simultaneamente à moda, ao figurino e à escultura.

Esse histórico é importante porque não seria particularmente rigoroso anunciar, em 2026, que a Artemisi acaba de descobrir a impressão 3D. A técnica já faz parte de sua identidade há anos, e seria até injusto com a própria trajetória da criadora reduzir seu desenvolvimento a essa novidade. O avanço apresentado em The Holy Matter está na ampliação das possibilidades de aplicação da tecnologia, agora utilizada também na construção de vestidos completos, máscaras e acessórios, e sobretudo na importância atribuída às etapas manuais que transformam os elementos produzidos digitalmente em peças acabadas.
Uma estrutura impressa não sai necessariamente pronta para entrar na passarela. Dependendo do projeto, pode exigir preparação da superfície, aplicação de massas, lixamento, polimento, pintura e diferentes sistemas de acabamento. É nesse território que a proposta de Mayari Jubini ganha consistência, porque desloca a discussão do equipamento para o conhecimento necessário à execução. A tecnologia participa do processo, mas não elimina a inteligência de quem desenvolve soluções para tornar uma ideia materialmente possível.
A marca utiliza a expressão alta moda brasileira para definir esse trabalho, posicionamento que considero interessante justamente porque permite discutir a sofisticação técnica fora de uma dependência simbólica permanente da tradição francesa. Evidentemente, a expressão não corresponde automaticamente à classificação institucional de haute couture, submetida a critérios próprios na França. Mas seria bastante provinciano imaginar que a qualidade de uma construção brasileira depende de um carimbo parisiense para existir. A questão é outra: quais soluções efetivamente justificam essa ambição?
Ao examinar a coleção, percebo uma criadora que amadureceu sua capacidade de construir superfícies e manipular formas, mas que também precisa enfrentar um desafio comum a muitos estilistas de personalidade exuberante. Depois que uma linguagem se torna reconhecível, como continuar surpreendendo sem transformar seus códigos mais famosos em uma fórmula?

Engenharia Manual Brasileira: quando a tecnologia realmente constrói a roupa
Uma das criações mais interessantes da coleção reúne um peitoral espelhado, que reproduz parcialmente a anatomia do busto, e uma enorme estrutura inferior prateada, formada por superfícies onduladas que se expandem horizontalmente a partir da cintura. O desenho altera radicalmente as proporções do corpo, criando curvas que avançam para além dos quadris e espaços vazios entre camadas sobrepostas. A superfície apresenta linhas finas e paralelas que acompanham as ondulações, reforçando a percepção de movimento mesmo quando a peça está aparentemente estática.
Gosto especialmente dessa construção porque sua força não depende de uma máscara gigantesca, de uma quantidade extraordinária de pedrarias ou de algum acessório destinado a garantir uma fotografia impactante. A arquitetura da própria roupa sustenta a imagem. As ondulações não estão ali para decorar uma saia convencional, mas para estabelecer sua forma, reorganizando a relação entre cintura, quadris e espaço ao redor do corpo. É uma diferença importante, porque demonstra como a pesquisa material pode produzir uma silhueta que dificilmente seria alcançada pelos procedimentos habituais da modelagem.
Foi também uma das peças cuja complexidade se revelou melhor nas imagens de bastidor. Ali, a luz permite perceber a profundidade das camadas, os intervalos entre os volumes e a relação com o peitoral brilhante. Não é possível determina a composição exata de cada elemento ou o sistema interno de sustentação, mas é possível reconhecer uma organização construtiva que merece atenção muito além do efeito escultórico imediato.
A pesquisa sobre a anatomia aparece novamente em duas criações que, embora compartilhem uma mesma família visual, demonstram soluções bastante diferentes. Na primeira, um corpete curto azul-metálico utiliza relevos, aberturas e estruturas curvas para redesenhar o busto, estreitar visualmente a cintura e ampliar os quadris. A máscara acompanha essa arquitetura, cobrindo o rosto com um desenho de aparência quase biomecânica, enquanto os vazados deixam a pele participar da composição. O resultado lembra um exoesqueleto ornamental, uma espécie de segunda anatomia que parece ter sido construída ao redor do corpo.
Em outra peça, agora num azul-claro quase leitoso, a superfície se torna contínua, lisa e brilhante. O busto aparece moldado diretamente no material, a cintura é bastante marcada e os quadris se projetam lateralmente em volumes arredondados, criando uma silhueta próxima das antigas estruturas utilizadas para ampliar saias, mas reinterpretada como uma peça única de aparência rígida. A máscara coordenada, com recortes simétricos, mantém o rosto integrado ao desenho, enquanto a parte inferior do corpo aparece coberta por uma peça ajustada e flexível.

A oposição entre esses dois trabalhos diz bastante sobre o potencial da Artemisi. No primeiro, a forma nasce da articulação entre matéria, relevos e espaços vazios; no segundo, da continuidade de uma superfície modelada. Nenhuma das duas soluções precisa ser mais complexa para ser superior. O que importa é perceber como cada uma organiza o corpo e como a escolha construtiva modifica o resultado.
Essa discussão também merece um pouco de memória histórica. A moda modifica artificialmente as proporções humanas há séculos, dos corpetes e armações que ampliavam quadris às experiências escultóricas de criadores como Thierry Mugler e Iris van Herpen, cada qual em seu contexto e com recursos próprios. Aproximar a Artemisi desse universo de investigação formal é legítimo, desde que a comparação não se transforme naquela mania de identificar qualquer superfície futurista como se fosse uma reprodução de algo já apresentado por outra pessoa. O verdadeiro exercício crítico é descobrir como Mayari Jubini desenvolve sua própria gramática, e não procurar uma etiqueta internacional para explicar tudo o que aparece na passarela brasileira.
Outro look merece atenção especial pela relação entre uma estrutura rígida vermelha, com recortes orgânicos sobre o torso, e uma saia monumental composta por módulos curvos e sobrepostos. As extensões laterais podem ser elevadas pelas mãos, fazendo com que o gesto participe da composição e altere sua proporção. O registro de bastidor mostra melhor a profundidade desses módulos, que se acumulam em camadas até formar uma coluna volumosa próxima ao chão. Existe uma inteligência interessante nesse encontro entre superfície rígida e massa têxtil, porque as duas partes possuem comportamentos visuais diferentes e, ainda assim, constroem uma imagem coerente.
A modelo, nesse caso, não funciona apenas como suporte imóvel da criação. Sua posição altera a leitura da roupa, fazendo com que a arquitetura dependa também da relação entre corpo, objeto e gesto. A construção oferece uma possibilidade expressiva que merece ser reconhecida.
E há ainda os leques metálicos utilizados ao lado da cintura em outra composição, combinados com um corpete de aparência escultural e uma saia escura de textura semelhante a plumas. Eles ampliam lateralmente a silhueta sem que todo esse volume precise estar incorporado à roupa. É uma solução visualmente interessante, embora exista uma diferença construtiva fundamental entre desenhar uma peça que sustenta suas próprias projeções e obter o mesmo efeito com acessórios segurados pelas mãos. As duas estratégias podem funcionar, evidentemente, mas produzem experiências distintas de vestuário.
Quando a Artemisi explora essas relações com precisão, a tecnologia não funciona como certificado de modernidade. Ela permite que a roupa adquira uma forma que efetivamente justifica seu emprego. E esse, para mim, é o território em que Mayari Jubini demonstra maior força como criadora.

Setecentos mil cristais: o trabalho manual também precisa justificar o excesso
Agora precisamos conversar sobre os números, porque a Artemisi apresentou uma quantidade de trabalho que merece respeito, mas não deveria funcionar como argumento capaz de encerrar qualquer discussão estética. Segundo a marca, The Holy Matter reuniu mais de 20 mil horas de execução manual e aproximadamente 700 mil cristais e pedrarias aplicados e bordados. Algumas peças exigiram mais de 1.200 horas, enquanto determinadas criações receberam mais de 100 mil elementos individualmente.
Ui ui ui, mon amour de Uberaba… Só de imaginar a concentração necessária para aplicar uma quantidade dessas de pedrarias, minha coluna já começou a pedir férias remuneradas. Mas, passada a primeira reação, a pergunta que realmente interessa é outra: o que todo esse trabalho acrescentou à roupa?
Há momentos em que a resposta é bastante convincente… Um vestido longo praticamente recoberto por elementos dourados e claros transforma a superfície numa composição de relevos e pontos luminosos. A ornamentação avança até a máscara, eliminando a expressão facial e envolvendo a cabeça numa estrutura radial. O tecido-base praticamente desaparece sob a concentração de aplicações, e o resultado produz uma imagem cuja riqueza depende da maneira como a luz encontra os pequenos volumes. A construção revela uma dedicação impressionante ao revestimento, mas também demonstra como a ornamentação pode se tornar tão dominante que a modelagem da roupa passa a ocupar uma posição secundária.
Esse fenômeno reaparece numa composição de mangas compridas e calças largas, também trabalhada com aplicações douradas, distribuídas de maneira mais intensa na região superior e progressivamente espaçadas em direção às pernas. A superfície parece concentrar uma energia visual sobre os ombros e o peito, criando uma hierarquia que organiza o olhar. É uma solução mais interessante do que simplesmente preencher todos os espaços disponíveis, porque a distribuição do ornamento participa da leitura da silhueta.
Em outros momentos, porém, o excesso se aproxima de uma linguagem ornamental já bastante conhecida. Os vestidos de plumas vermelhas, por exemplo, demonstram domínio de corseteria, proporção e composição cromática, mas também transitam por um repertório amplamente explorado na moda de espetáculo. Um deles apresenta o torso rigidamente marcado, com amarrações frontais e grandes projeções de penas sobre os ombros, enquanto uma saia longa concentra ainda mais volume na região inferior. Outro utiliza transparências, bordados e plumas distribuídas a partir das pernas, revelando boa parte da estrutura do corpete e criando um contraste entre contenção e exuberância.

São roupas que possuem presença, mas não necessariamente a mesma originalidade construtiva das peças anatômicas ou das grandes ondulações prateadas. E não existe nenhum problema em reconhecer essa diferença. Uma coleção não precisa reinventar a história do vestuário a cada entrada, mas também não podemos colocar no mesmo patamar uma solução formal particularmente inventiva e outra cuja principal qualidade está na execução minuciosa de códigos conhecidos.
O que me interessa especialmente é perceber como a Artemisi trabalha com materiais que parecem transformar sua própria natureza. Um conjunto branco de jaqueta e calça recebe intervenções vermelhas que atravessam os ombros, descem sobre o torso e reaparecem na parte inferior das pernas. As ramificações babadeiras possuem relevos e irregularidades que fazem a roupa parecer tomada por alguma substância em expansão. Existe uma relação convincente com o conceito de alquimia, porque a transformação é percebida diretamente na superfície, independentemente de qualquer explicação sobre símbolos místicos… Ui ui ui!
Outro caminho aparece nos conjuntos produzidos com pequenas estruturas metálicas repetidas. Um top prateado com capuz, acompanhado de minissaia e uma faixa de elos sobre os olhos, apresenta uma superfície de aparência articulada, bastante diferente das placas rígidas usadas nas esculturas corporais. Em outra criação, componentes vermelhos e prateados formam uma composição que aproxima bordado, joalheria e vestuário, com pequenas correntes pendentes sobre os braços, os quadris e a região do rosto.
Os registros de bastidor permitem observar melhor essas diferenças de construção, especialmente a repetição dos elos metálicos e a organização dos elementos ornamentais. São soluções relevantes porque demonstram que a investigação da marca não se limita à impressão tridimensional, alcançando também superfícies que parecem trabalhar com articulação e flexibilidade incrível.
Essa diversidade, entretanto, não elimina a necessidade de edição. Ao longo da coleção, determinados recursos retornam com frequência: corseteria acentuada, quadris ampliados, máscaras ornamentadas, adornos de cabeça radiais, plumas e superfícies densamente revestidas. A repetição pode ser o caminho legítimo para consolidar uma identidade, mas começa a perder força quando diferentes roupas apresentam variações de uma mesma ideia sem acrescentar uma nova questão ao conjunto.
Nem sempre multiplicar aplicações significa aprofundar a pesquisa. Às vezes, a solução mais sofisticada está justamente em saber quando parar.

A Artemisi também sabe fazer roupas que não precisam parecer esculturas
Curiosamente, alguns dos momentos que mais me fizeram reconsiderar a coleção apareceram quando Mayari Jubini se aproximou de categorias reconhecíveis de vestuário. Um casaco longo, preto e brilhante, com gola elevada que cobre parte do rosto, mantém uma silhueta relativamente convencional, mas recebe inúmeros elementos lineares ornamentados que descem pelo torso, pelas mangas e pela região inferior. A superfície parece produzir prolongamentos próprios, como se a matéria estivesse se desenvolvendo para além dos limites do tecido.
É uma peça que permite compreender a experimentação de maneira diferente daquela oferecida pelas grandes estruturas corporais. A base permanece identificável como casaco, enquanto a intervenção modifica sua presença sem destruir completamente sua lógica de vestuário. Não conhecemos o peso exato, os mecanismos de fixação ou a resistência desses prolongamentos, portanto seria precipitado tratá-la como uma demonstração de funcionalidade. Mas a ideia merece atenção justamente porque desloca a pesquisa para uma relação mais próxima com a roupa convencional.
Outro conjunto, em tonalidade vinho, trabalha com jaqueta ampla, calças compridas, luvas, gola alta e uma quantidade considerável de ilhoses, correntes e detalhes metálicos. A superfície brilhante produz uma aparência quase industrial, reforçada pelas linhas verticais e horizontais que organizam a construção. Não é uma proposta especialmente inédita dentro do repertório da moda, que conhece bem as relações entre ferragens, roupas de proteção, cultura noturna e estética fetichista. Entretanto, revela uma possibilidade importante para a Artemisi: transformar uma peça reconhecível por meio de uma elaboração técnica consistente, sem depender da ampliação monumental de suas proporções.

A mesma discussão aparece num minivestido preto de corseteria estruturada, acompanhado de gola ornamentada, luvas longas e botas de amarração. O conjunto tem uma linguagem mais diretamente ligada à sensualidade e ao vestuário de inspiração fetichista, território já explorado por inúmeras marcas. Sua força está menos na invenção de um código novo e mais na coordenação entre os elementos, especialmente nas amarrações que atravessam diferentes partes do corpo.
Essas peças ajudam a compreender uma particularidade do negócio da Artemisi, dedicado à criação sob medida e a um público que procura roupas de forte personalidade visual. Sua presença no guarda-roupa de artistas e em apresentações de palco demonstra que existe uma aplicação concreta para parte desse repertório espetacular. A marca já vestiu nomes badalados como Katy Perry, Demi Lovato e Anitta, e sua linguagem parece especialmente adequada a situações nas quais o figurino precisa estabelecer uma imagem imediatamente reconhecível.
Mas considero importante preservar uma diferença: uma roupa criada para sustentar uma personagem sobre o palco pode cumprir perfeitamente sua função sem necessariamente apresentar o mesmo tipo de investigação exigido de uma coleção de moda autoral. São campos que conversam, frequentemente se contaminam e podem produzir trabalhos extraordinários, mas não precisam ser tratados como equivalentes.
A Artemisi parece alcançar seus resultados mais maduros quando compreende essa distinção e consegue fazer com que a peça tenha uma lógica formal interessante mesmo fora da narrativa de espetáculo que a acompanha. É uma ambição diferente de tornar toda criação comercialmente acessível ou reproduzível, e não estou sugerindo que a marca deva abandonar sua vocação experimental. Ao contrário, acho que suas melhores roupas demonstram justamente o quanto essa vocação pode crescer quando o desenho não precisa disputar atenção com todos os recursos disponíveis ao mesmo tempo.

Máscaras, misticismo e a identidade dos modelos na passarela
As máscaras talvez sejam o elemento mais imediatamente reconhecível de The Holy Matter. Elas aparecem em estruturas rígidas de aparência metálica, composições inteiramente revestidas de pedrarias, formas radiais que transformam a cabeça em uma espécie de disco luminoso e coberturas que substituem o rosto por superfícies ornamentais. Em outros momentos, a ocultação acontece por meio de véus, golas elevadas e faixas semelhantes a malhas metálicas, demonstrando que a investigação vai além da construção de um único tipo de acessório.
A relação com a ideia junguiana de persona, apresentada pela marca, oferece uma interpretação possível para esse repertório, especialmente porque as roupas parecem interessadas em modificar não apenas a anatomia, mas também a maneira como cada figura se apresenta ao mundo. Entretanto, o conceito ganha força quando encontra uma correspondência convincente entre rosto e vestuário, não simplesmente quando uma máscara muito elaborada é posicionada sobre uma roupa que poderia existir independentemente dela.
Uma composição escura, acompanhada por uma máscara circular prateada e numerosas extensões brilhantes que descem da região dos quadris, estabelece uma unidade interessante entre a organização radial da cabeça e a verticalidade do vestido. O rosto desaparece, mas a roupa inteira participa da transformação. Em outro extremo, um vestido longo de renda preta utiliza transparências e uma cobertura facial ornamentada para manter a figura parcialmente visível, criando uma relação mais ambígua entre revelar e esconder.
Há ainda um conjunto em tonalidade malva, com corseteria aparente, bordados escuros, grandes volumes laterais e um véu que desce sobre a cabeça a partir de uma estrutura semicircular. A composição possui uma evidente teatralidade cerimonial, embora não seja necessário atribuir a ela uma referência religiosa específica para reconhecer sua força visual. O interesse está na maneira como o véu altera a percepção do corpo e como os volumes posteriores ampliam a silhueta sem eliminar completamente a estrutura que a sustenta.

Essa recorrência de máscaras também me leva a uma questão que considero particularmente importante para quem acompanha o universo dos modelos. Quando a roupa transforma uma pessoa numa figura abstrata, o rosto deixa de ocupar o lugar de reconhecimento imediato, mas isso não significa que o trabalho de quem desfila tenha desaparecido. O corpo continua negociando proporções, deslocamento, equilíbrio e interpretação. Mesmo nas imagens em que o rosto está completamente coberto, a presença profissional de quem veste a criação permanece fundamental.
O styling de Daniel Ueda contribui para essa construção de personagens, enquanto a beleza de Helder Rodrigues alterna rostos marcados, cabelos organizados em diferentes desenhos e caracterizações que participam da linguagem visual. A direção de desfile ficou sob responsabilidade do babadeiro Augusto Mariotti, com trilha sonora de Max Blum. São partes importantes de uma apresentação concebida para produzir atmosfera, embora a existência dessa proposta coletiva não elimine a necessidade de examinar sua eficácia.
Não seria rigoroso transformar os looks disponíveis em uma avaliação completa da caminhada individual dos modelos, assim como não seria correto associar nomes às imagens sem documentação que comprovasse cada participação. Mas existe uma questão editorial relevante nesse desfile: uma coleção que discute identidade através da ocultação precisa reconhecer que, por trás de cada personagem construída, há um profissional cuja autoria corporal também participa da obra.
E isso nos leva a uma última dimensão do trabalho manual… Quando a Artemisi reivindica a valorização da inteligência das mãos brasileiras, considero legítimo perguntar quem são os profissionais que tornam essa engenharia possível. O material de apresentação informa os principais responsáveis pela criação e pela produção, mas não individualiza os artesãos e técnicos envolvidos nas diferentes etapas de execução. Isso não autoriza concluir que não tenham recebido reconhecimento em outros contextos, mas abre uma oportunidade importante de aprofundamento. Se milhares de horas são fundamentais para explicar a coleção, conhecer as especializações e contribuições das pessoas responsáveis por elas também deveria fazer parte dessa narrativa.
Afinal, uma técnica não se torna valiosa apenas porque demora. Ela adquire significado quando compreendemos o conhecimento necessário para executá-la.

O que a iluminação da Artemisi na SPFW N61 não me deixou enxergar?
Talvez a pergunta mais incômoda desta crítica seja também a mais simples. Uma apresentação dedicada à transformação da matéria pode ser considerada plenamente bem-sucedida quando parte de suas soluções mais interessantes se revela melhor nas fotografias posteriores do que na experiência presencial?
Minha resposta parte necessariamente daquilo que vivi. Não disponho de medições de iluminação, informações técnicas sobre o projeto cenográfico ou registros suficientes para determinar se houve algum problema operacional. Não pretendo inventar essas explicações aqui… O que posso afirmar é que tive dificuldade considerável para observar as roupas ao vivo, especialmente detalhes de superfícies, acabamentos e estruturas cuja complexidade se tornou evidente quando examinei as imagens posteriormente.
Essa diferença é extremamente importante porque o desfile é uma experiência temporal. A roupa atravessa o espaço, recebe a luz disponível e precisa comunicar sua imagem enquanto está diante do público. A fotografia funciona de outra maneira: registra um instante, permite aproximações, favorece determinados reflexos e conserva uma informação visual que podemos examinar durante muito mais tempo. É possível que a câmera revele detalhes que nossos olhos não conseguiram perceber durante a passagem da modelo, e isso não significa que alguém tenha cometido um erro fotográfico ou cenográfico.
Entretanto, tampouco podemos utilizar a beleza das imagens profissionais para invalidar a experiência de quem estava presente.

Em algumas fotografias, as superfícies pretas revelam bordados, correntes e pequenas aplicações que dependem bastante da incidência luminosa para serem compreendidos. Em outras, o brilho dos cristais e dos materiais metalizados produz áreas de reflexão intensa, enquanto detalhes próximos permanecem visualmente menos definidos. A grande capa prateada composta por pequenas unidades semelhantes a escamas, por exemplo, ganha uma aparência extraordinária quando a luz encontra suas diferentes inclinações. Mas a organização de cada componente exige uma observação mais cuidadosa, algo difícil de realizar durante uma passagem rápida diante da plateia.
As imagens de bastidor ajudaram especialmente na compreensão das grandes ondulações prateadas, dos módulos volumosos de uma criação vinho e das peças construídas com correntes e elementos metálicos repetidos. Em condições de luz diferentes, consegui perceber melhor as relações entre estrutura, revestimento e volume. São informações que ampliam a interpretação da coleção e que, em alguns casos, modificaram minha avaliação inicial das roupas, darling.
Não tenho qualquer objeção à teatralidade. Aliás, eu vim do teatro e gosto de uma boa dose de espetáculo, sobretudo quando a criadora compreende sua importância para construir uma imagem própria. O que questiono é a hierarquia estabelecida entre atmosfera e vestuário. Quando uma coleção utiliza milhares de horas de trabalho como argumento de valor, sua apresentação deveria encontrar maneiras de permitir que esse trabalho fosse percebido com clareza suficiente para justificar a própria narrativa.
Se o conceito exige mistério, ótimo… Mas mistério não precisa significar ausência de informação visual. É possível construir dramaticidade sem transformar detalhes fundamentais em descobertas reservadas à fotografia posterior.
E talvez seja justamente aí que The Holy Matter encontre sua contradição mais interessante. A Artemisi dedica enorme energia à transformação dos materiais e à construção de superfícies que parecem pertencer a outro universo, mas parte dessa inteligência técnica ficou menos acessível durante a apresentação do que deveria. O espetáculo pretendia valorizar a obra, enquanto, na minha experiência, também dificultou a percepção de algumas de suas qualidades.

O que realmente fica de The Holy Matter para a moda brasileira?
Depois de examinar a coleção, não tenho dúvidas de que Mayari Jubini desenvolveu uma identidade extremamente reconhecível. A Artemisi possui um repertório próprio de formas corporais alteradas, superfícies ornamentadas, acessórios escultóricos e personagens que transitam entre a moda e a fantasia. Sua pesquisa com impressão tridimensional já apresenta continuidade histórica, e a ampliação dos procedimentos manuais revela uma ambição técnica que merece atenção dentro da indústria tupiniquim.
Também considero importante reconhecer que a marca não precisa transformar todas as suas peças em produtos convencionais para justificar sua existência babadeira. Há espaço para roupas únicas, criações sob medida, objetos de moda experimental e construções destinadas a situações excepcionais. A sofisticação da moda brasileira não pode ser medida exclusivamente por critérios de escala industrial ou pela facilidade com que uma roupa se transforma em mercadoria.
Mas seria igualmente equivocado confundir liberdade criativa com ausência de critérios. Algumas das peças mais ornamentadas de The Holy Matter impressionam pela quantidade de trabalho, sem necessariamente apresentar soluções formais tão interessantes quanto as construções em que a engenharia transforma a própria anatomia. A repetição de máscaras, corseterias, plumas e adornos cerimoniais também revela momentos em que a coleção poderia ter sido mais rigorosamente editada, preservando aquilo que cada criação oferece de particular.
Os melhores resultados aparecem quando a matéria não está apenas revestindo uma ideia, mas determinando sua existência. É o caso das grandes ondulações prateadas, dos corpetes anatômicos de superfícies contrastantes, das composições que articulam pequenos elementos metálicos e de determinadas peças em que o volume nasce de uma lógica construtiva reconhecível. Nesses momentos, a Artemisi não depende de um discurso sobre o futuro para parecer contemporânea. Sua pesquisa se manifesta na própria roupa.
E essa, para mim, é a diferença entre uma criadora capaz de produzir imagens espetaculares e uma estilista que possui condições de desenvolver uma contribuição duradoura para a moda. A primeira habilidade Mayari Jubini já demonstrou dominar. A segunda continua sendo construída, coleção após coleção, na maneira como transforma recursos técnicos em decisões de desenho cada vez mais precisas.

Saí da apresentação com a sensação de que não havia conseguido observar tudo o que gostaria. Depois, diante das fotografias e vídeo, descobri razões adicionais para admirar algumas peças e elementos suficientes para questionar outras. Essa diferença não enfraquece minha experiência presencial. Pelo contrário, tornou a crítica mais necessária, porque me obrigou a separar o encantamento produzido pelo espetáculo da qualidade efetiva daquilo que havia sido construído.
A Artemisi tem ambição, pesquisa e uma capacidade impressionante de mobilizar diferentes processos para criar roupas que parecem desafiar a anatomia. Também tem excessos, repetições e uma relação com o espetáculo que precisa ser administrada com o mesmo rigor dedicado à execução das peças. Seu futuro não depende de acrescentar mais cristais, aumentar as máscaras ou multiplicar indefinidamente as horas de trabalho. Depende de aprofundar a inteligência que torna suas melhores criações tão particulares.
Quanto àquela noite na SPFW N61, continuo achando curioso que uma coleção tão interessada em revelar a capacidade transformadora das mãos humanas tenha exigido tanto esforço posterior para que eu conseguisse compreender parte de seus resultados.
Mayari Jubini já demonstrou que consegue transformar matéria em formas extraordinárias. Seu próximo desafio talvez seja fazer com que a inteligência dessas formas se imponha com a mesma intensidade de sua imagem.
Porque, mon amour, depois de 20 mil horas de trabalho, o mínimo que uma roupa merece é ser vista.
E, dessa vez, não estou falando de aparecer bonitah numa fotografia.
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