Fotografadas por Julien Martinez Leclerc no lendário apartamento de Gabrielle Chanel, no 31 rue Cambon, as brasileiras aparecem numa campanha que transforma patrimônio em casa cheia e confirma uma coisa que Matthieu Blazy vem dizendo sem precisar escrever no release: para rejuvenescer Chanel, não é preciso fazê-la parecer adolescente. Basta fazê-la voltar a viver, mon petit!
Por Fabio Lage | House of Models
Mon amour de Cambon e adjacências, a Chanel abriu o apartamento de Gabrielle e deixou a casa encher de mulheres, flores, bolsas, risadas, cabelos voando e até sapatos largados no tapete. Ui ui ui! Se durante décadas aquele endereço foi preservado como uma espécie de relicário onde parecia que Mademoiselle poderia voltar a qualquer momento para reorganizar os livros, conferir a posição de um leão e lançar aquele olhar que faria metade da sala corrigir a postura automaticamente, Matthieu Blazy resolveu fazer uma coisa muito mais interessante: colocou gente viva lá dentro.
E tem Brasil nessa sala, bebê.
Julia Morais e Lais Hames integram a nova campanha Chanel Fall/Winter 2026, fotografada por Julien Martinez Leclerc no apartamento de Gabrielle Chanel, no 31 rue Cambon, em Paris. E antes que a gente saque a bandeirinha, solte o velho “Brasil dominando a moda internacional” e transforme tudo em patriotada fashion de três emojis de fogo, segura esse confete porque o babado é bem melhor quando olhamos o caminho que levou essas duas brasileiras até ali.
Julia estreou internacionalmente justamente para a Chanel há seis meses e já chegou à publicidade da maison. Lais vem sendo chamada, rechamada e chamada de novo pela casa entre Nova York, Paris, Biarritz, Seul, alta-costura e agora campanha. Uma desembarcou como aposta e acelerou. A outra começou a construir uma palavra que, para modelo, vale quase tanto quanto uma bela campanha: recorrência.
Porque luxo, meus amores, também é o cliente lembrar do seu telefone.
E o mais gostoso é que tudo isso acontece justamente dentro daquele apartamento. Não num estúdio inspirado em Chanel, não numa reprodução cheia de referências cuidadosamente compradas por uma equipe de cenografia, não numa mansão parisiense escolhida porque “parecia muito Gabrielle”. É o apartamento de Gabrielle Chanel. O mesmo segundo andar do número 31 da rue Cambon, acessado pela famosa escadaria de espelhos de onde ela observava seus desfiles quase escondida, vendo tudo refletido enquanto permanecia fora do alcance completo dos olhares.
Mademoiselle não precisava disputar front row… Era dona da maison, da coleção e do melhor ângulo da casa.
Agora são outras mulheres que aparecem multiplicadas naqueles espelhos.

A Chanel encheu a casa e, graças a Deus, ninguém parece estar visitando um museu
A própria maison chamou a campanha de “Full house at 31 Rue Cambon”. Casa cheia. E talvez não exista descrição melhor porque Julien Martinez Leclerc fotografou aquilo que, durante tanto tempo, parecia um espaço condenado à reverência como se realmente houvesse uma festa acontecendo.
Tem mulher sentada no chão, encostada em sofá, subindo escada, descendo escada, conversando, sorrindo, se movimentando. Tem flor atravessando rosto, perna dobrada, cabelo fora do lugar e sapato que aparentemente desistiu da função original e foi parar no tapete. Em qualquer apartamento depois de algumas taças, absolutamente normal. Dentro do endereço mais mitológico da Chanel? Honey Lee, aí já fica divertido.
E não estamos falando de um cenário “icônico”, palavra que a moda conseguiu usar tantas vezes que daqui a pouco até porta de provador vira icônica. O apartamento e a escadaria espelhada foram classificados pelo Ministério da Cultura francês como monumentos históricos em 2013. É patrimônio protegido, história da moda, biografia transformada em espaço físico e, claro, uma das ferramentas mais poderosas da própria Chanel para manter Gabrielle presente décadas depois de sua morte.
Tudo ali já virou código… O leão, ligado ao signo de Gabrielle. As espigas de trigo. Os cristais. Os livros. Os lustres. As esculturas. Os célebres biombos chineses de Coromandel, que atravessaram o gosto pessoal da fundadora e acabaram incorporados ao enorme dicionário visual da maison.
A Chanel fez durante décadas o que grandes casas de luxo sabem fazer muito bem: pegou a vida privada de sua fundadora e a transformou em patrimônio de marca.
Só que existe uma diferença deliciosa nesta campanha. Em vez de pedir às modelos que entrem naquele ambiente como visitantes comportadíssimas de uma exposição, Blazy deixa que elas pareçam pertencer temporariamente à casa. Ninguém está ajoelhado diante do arquivo… Aleluia fashion.
Os objetos continuam ali, a escadaria continua reconhecível, o apartamento não perdeu um centímetro de Chanelidade e nenhuma camélia entrou em crise existencial. O que mudou foi a temperatura. A casa parece menos congelada. O passado continua presente, mas deixou de exigir silêncio.
E quem acompanha o que Matthieu Blazy vem fazendo desde que chegou à Chanel talvez reconheça uma continuação bastante clara dessa conversa.
Quando escrevi sobre sua alta-costura Fall/Winter 2026, disse aqui no House que o maior risco da Chanel jamais foi deixar de ser reconhecida. O risco era ser reconhecida rápido demais, quando tweed, camélia, pérola, bege, preto, corrente e Gabrielle começam a funcionar como um checklist visual tão eficiente que a própria herança corre o perigo de virar vitrine de si mesma.
Pois bem… Dois meses depois, Blazy entrou justamente no relicário máximo da maison e colocou uma mulher descalça no tapete… Eu gosto de gente que desenvolve argumento.

Julia Morais entrou pela porta da frente e aparentemente esqueceram de mandá-la embora
Agora vamos ao nosso Brasil, porque é claro que viemos até aqui também para isso, né baby?
A trajetória de Julia Morais dentro da Chanel é curtíssima em tempo e enorme em peso. Carioca, com a Way Model Management como agência-mãe, Julia fez sua estreia internacional no desfile Fall/Winter 2026 da maison, em Paris, no dia 9 de março. Não foi simplesmente mais um nome entrando num casting gigante, honey: a bela apareceu como worldwide exclusive. Ui ui ui… Tá bom para você?
E exclusividade, principalmente numa estreia internacional, não é aquele detalhe burocrático bonitinho colocado entre parênteses para deixar currículo mais chique. É uma forma de uma casa dizer ao mercado: “por enquanto, essa aqui é nossa”… Só que a Chanel aparentemente gostou de brincar de posse.
Pouco mais de um mês depois, Julia voltou no Cruise 2026/27, apresentado em Biarritz. Em julho, reapareceu na alta-costura Fall/Winter 2026. E agora, em setembro, chega à campanha da coleção que marcou sua própria estreia internacional.
Vamos fazer a conta juntos porque a matemática, desta vez, é gostosa: seis meses.
Março: estreia internacional e exclusiva Chanel.
Abril: Cruise em Biarritz.
Julho: alta-costura.
Setembro: campanha.
Baby, isso não é uma relação de uma noite.
E aqui está justamente a diferença entre olhar uma carreira como fã e olhar uma carreira como indústria. O grande desfile provoca barulho, seguidores, repost de agência, story da tia, print no grupo da família e aquela maravilhosa enxurrada de “você merece” que todos nós amamos receber. Mas quando a mesma casa continua chamando, o sinal muda.
O primeiro booking pode ser descoberta… O segundo começa a sugerir interesse… O terceiro já pede atenção. Quando a modelo sai da passarela e entra na publicidade da mesma coleção, a conversa ganha outra camada, honey Lee… Porque desfilar uma roupa e ajudar a vender a imagem daquela roupa não são exatamente a mesma decisão.
Foi algo parecido que observamos recentemente aqui no House of Models quando Thalita Ferreira saiu da passarela da Chloé e apareceu meses depois na campanha Winter 2026 ao lado de Raquel Zimmermann. Existe um momento em que aquela modelo deixa de participar apenas da apresentação da coleção e passa a integrar sua memória comercial. Julia acaba de atravessar essa porta na Chanel… E atravessou muito rápido.
Segundo o perfil profissional da brasileira no Models.com, esta é a primeira campanha internacional registrada em sua trajetória. Não precisamos fazer uma coroação antecipada, encomendar documentário da Netflix e anunciar “a nova Gisele” até porque Deus me free desse vício nacional de achar que toda modelo brasileira bem-sucedida precisa imediatamente se transformar na sucessora de outra mulher… Julia Morais não precisa ser a próxima ninguém.
O que está acontecendo agora já é suficientemente interessante. Ela começou sua trajetória internacional na Chanel e, seis meses depois, a Chanel continua escolhendo Julia… Isso, sozinho, já conta uma bela história.

Lais Hames descobriu outro luxo: ser chamada de novo
Com Lais Hames, o roteiro tem outra cadência, bebê… Natural de Blumenau, em Santa Catarina, Lais entrou no universo Chanel no Métiers d’Art 2026 apresentado em Nova York, em dezembro de 2025, como semi-exclusive. Depois veio o Fall/Winter 2026 em Paris, desta vez como exclusive. Em abril, ela estava em Biarritz para o Cruise babadeiro. Em maio, apareceu na reprise do Métiers d’Art em Seul. Em julho, alta-costura. Agora, campanha. Nova York… Paris… Biarritz… Seul… Paris de novo e publicidade.
Querides, tem cliente que a gente agradece quando chama… Tem cliente que, depois da quinta chamada, já merece emoji de coração no contatinho.
É exatamente por isso que colocar Julia e Lais lado a lado e tentar decidir qual das duas está “melhor” seria uma bobagem tremenda. São histórias profissionais diferentes acontecendo dentro da mesma maison.
Julia impressiona pela velocidade da conversão. Lais chama atenção pela repetição.
E repetição, neste mercado, é uma coisa deliciosamente pouco glamourosa quando explicada e maravilhosamente importante quando acontece. Porque significa que depois do fitting, do ensaio, do desfile, das horas de espera, da roupa difícil, da pressão, das trocas e de tudo aquilo que fotografia nenhuma mostra, alguém voltou para a mesa meses depois e disse: chama ela novamente… Isso é reputação sendo construída longe do Instagram, mon amour de Xique-Xique.
Lais ainda recebe na campanha uma fotografia individual particularmente bonita descendo a famosa escadaria de espelhos com tweed claro, camisa em tom vinho e uma bolsa verde que, convenhamos, honey Lee… não está ali para fazer figuração.
A composição multiplica Lais nos reflexos, mostra frente, costas e perfil enquanto mantém roupa, corpo, bolsa e arquitetura completamente legíveis. É Chanel contando sua própria história em uma fotografia e, no meio daquela história enorme, uma brasileira segura a imagem sozinha… Delicinha, né?
E existe ainda um detalhe importante aqui, bebê… Julia e Lais chegam a esse momento com uma relação internacional de luxo fortemente marcada pela Chanel. Isso não diminui absolutamente nada do que conquistaram, pelo contrário, mostra uma casa investindo repetidamente nas duas. Mas a próxima curiosidade para quem acompanha carreira será justamente observar como esse capital começa a circular.
Quais outras maisons olharão para essas meninas depois disso? Quem vai transformar esse selo babadeiro da Chanel em novo casting, editorial, campanha, repeat booking?
Porque uma casa pode acender a luz. A carreira fica realmente interessante quando outras janelas começam a acender também.
Calma, mon petit. Estamos assistindo ao começo, não escrevendo o obituário de uma trajetória já consolidada.

E então Awar colocou duas flores nos olhos e lembrou que Chanel pode sorrir
Agora preciso falar de uma das minhas imagens favoritas dessa campanha porque existe uma mulher segurando duas flores diante dos olhos e sorrindo como se ninguém tivesse avisado que publicidade de luxo passou décadas exigindo aquela cara de quem recebeu um boleto muito caro e decidiu sofrer em silêncio…
Awar Odhiang, meu amor, obrigada.
A modelo sul-sudanesa aparece com duas flores cobrindo parcialmente os olhos e um sorriso que não parece escapar da pose. O sorriso é a pose… Pode parecer um detalhe, mas não é qualquer detalhe quando lembramos de onde Awar Odhiang vem dentro da própria história recente da Chanel… Então, voltemos para outubro de 2025.
Matthieu Blazy fazia sua estreia na maison com a coleção Spring/Summer 2026 no Grand Palais. Expectativa monstruosa, cenário gigantesco, sistema solar flutuando sobre a passarela, indústria inteira examinando cada costura para decidir em aproximadamente sete minutos se uma das maiores nomeações criativas da década havia funcionado… E quem roubou um pedaço da cena no final?
Awar, obvious.
Ela fechou o desfile e, durante a fila final, abandonou por alguns segundos aquele protocolo quase militar do catwalk, girou, bateu palmas, levantou a saia, dançou e terminou abraçando Blazy. A plateia reagiu imediatamente… Internet quebrou de tanto amor.
Dois dias depois, ela contou à Vogue que aquilo havia sido espontâneo. Blazy tinha dito para aproveitar o momento e ser ela mesma. E ela foi… E foi muito.
A cena ainda carregava um dado histórico nada pequeno: Awar Odhiang se tornou apenas a terceira mulher negra a fechar um desfile da Chanel em 115 anos, depois de Alek Wek e Adut Akech.
Então aquela alegria que parecia apenas um gesto bonito no Grand Palais também ocupava um espaço onde pouquíssimas mulheres negras haviam chegado antes dela.
É por isso que vê-la agora na campanha, sorrindo e brincando com flores dentro do apartamento de Gabrielle Chanel, me interessa tanto profundamente.
Não porque eu vá inventar uma reunião criativa secreta dizendo que as flores foram pensadas como continuação daquele giro, porque aí já estaríamos entrando no território da fanfic e sou jornalista de moda, não médium de casting.
O interessante está diante dos nossos olhos. A Chanel viu personalidade… E não pediu que ela diminuísse.
Em uma indústria que passou décadas treinando modelos para serem telas perfeitas sobre as quais marcas projetariam qualquer personagem, reconhecer personalidade como parte daquilo que se compra é uma mudança bastante gostosa de se ver.
E acredite, baby Lee, Awar não voltou apenas porque veste Chanel bem… Aquela energia passou a fazer sentido dentro da Chanel que Blazy está construindo.
E isso talvez explique muita coisa sobre esta campanha.

Anita Bitton e aquele detalhe que o público quase nunca vê: alguém precisa lembrar de você
O casting é assinado por Anita Bitton, um daqueles nomes que quem acompanha modelos precisa aprender a observar porque carreiras não são construídas apenas entre modelo e estilista. Existe uma enorme rede de profissionais decidindo quem entra, quem volta, quem combina com qual universo e, principalmente, quem permanece na memória depois que o desfile termina.
A campanha reúne Anne Vyalitsyna, Awar Odhiang, Bhavitha Mandava, Julia Morais, Lais Hames, Noor Khan, Stephanie Cavalli, Trinidad Castaño e Xiuli Jiang… Nove mulheres.
Tem modelo experiente, tem carreira em ascensão, tem rosto que já circulava por outros capítulos da Chanel de Blazy e tem justamente essa sensação de que o elenco foi construído menos como catálogo de tipos e mais como um grupo de mulheres que poderia, de alguma maneira muito Chanel e muito cara, ter sido convidado para aquela casa.
Claro que não existe inocência publicitária por aqui, honey. Chanel continua sendo Chanel e campanha continua sendo campanha.
A bolsa aparece linda… O sapato aparece lindo… O tweed aparece lindo… A joia aparece linda. Ninguém tropeçou numa flor e deixou o produto fora de quadro.
Parece festa, mas é uma festa com orçamento, equipe, aprovação, distribuição internacional e produto estrategicamente posicionado em lugares que uma diretora de marketing certamente aprovaria com bastante tranquilidade.
A espontaneidade no luxo, darling Lee, costuma chegar de carro com motorista.
Mas justamente por isso o trabalho de Julien Martinez Leclerc funciona tão bem. A campanha parece vivida sem fingir que deixou de vender.
Bolsa vai para o sofá. Bolsa desce escada. Bolsa acompanha corpo. Roupa se movimenta. Acessório entra na conversa. Em vez de separar produto e vida, Chanel tenta fazer com que você imagine o produto dentro da vida.
O apartamento entrega exclusividade absoluta. As mulheres trazem proximidade. A fotografia amolece a distância entre as duas coisas. O preço, evidentemente, não participou desse processo de democratização… Não vamos também abusar da ficção.

Gabrielle Chanel continua em todos os lugares, mesmo sem aparecer em nenhum
Existe algo quase engraçado em fotografar uma casa tão associada a uma pessoa que já não está nela… mas Gabrielle está em todo lugar.
No leão… Na espiga… Nos cristais… Nos livros… Nos biombos… Na escada… Nos espelhos.
Na maneira como aquele apartamento foi preservado, fotografado, explicado, transformado em documentário, joia, perfume, exposição e conteúdo institucional durante décadas.
Até a ausência dela virou patrimônio.
E isso sempre me interessou na Chanel porque poucas maisons foram tão eficientes em transformar biografia em linguagem comercial. Gabrielle Chanel deixou uma quantidade impressionante de símbolos pessoais e a empresa passou o século seguinte administrando aquilo como uma espécie de vocabulário infinito.
O problema surge quando o vocabulário começa a repetir a mesma frase… Foi exatamente esse risco que pairou sobre a Chanel nos últimos anos. Não faltavam códigos, faltava às vezes tensão entre código e presente. Você reconhecia tudo. Talvez reconhecesse até demais.
Blazy parece interessado em outra relação… Ele não está queimando o arquivo.
Também não está fingindo que pode existir Chanel sem Chanel, aquela rebeldia criativa bastante juvenil que geralmente dura até a planilha de vendas chegar… Ele está mexendo na maneira como o presente se comporta diante do passado.
Isso apareceu em sua estreia… Apareceu em Biarritz… Apareceu na alta-costura e aparece de maneira quase didática nesta campanha.
A escada continua a mesma… Quem usa a escada mudou. Os espelhos continuam os mesmos. As mulheres diante deles não precisam se comportar como Gabrielle.
Os biombos continuam ali, carregando inclusive uma história muito maior de circulação de objetos chineses pelo mercado europeu de luxo, colecionismo, desejo e apropriação estética que não deveria ser reduzida simplesmente a “Coco tinha um gosto maravilhoso”. Arquivo de verdade nunca é feito apenas de beleza. Tem comércio, poder, deslocamento, contradição e contexto dentro dele também.
Mas isso pode coexistir com a imagem… Não precisamos abrir uma CPI dos biombos no meio da sala para reconhecer que história não é aromatizador de ambiente. E talvez seja justamente por conhecer o peso desses objetos que a leveza das mulheres funciona.

O tailleur finalmente saiu para se divertir
Quando assisti ao Cruise 2026/27 em Biarritz, escrevi aqui que Blazy estava me conquistando porque parecia compreender algo que o luxo às vezes esquece enquanto fica ocupado demais produzindo conteúdo: Chanel precisa provocar desejo… Desejo físico mesmo… sabe?
De querer vestir… querer tocar e sentir a textura… de querer entrar naquela roupa babadeira… E nessa campanha, vejo uma continuação daquilo.
O tailleur não desapareceu. O tweed não foi aposentado compulsoriamente porque algum consultor decidiu que “Gen Z não conecta”. A bolsa não precisou ganhar meme. A camélia não foi substituída por um emoji…
Ainda bem.
Seria constrangedor para todos os envolvidos. A juventude aparece de outro jeito… As mulheres se mexem. Elas parecem conversar… Sorriem. Sentam no chão. Soltam o corpo. O ambiente tem ar e a roupa acompanha, meu bem.
E é aqui que talvez esteja a melhor resposta de Blazy para uma pergunta que persegue qualquer diretor criativo que assume uma maison gigantesca: como rejuvenvenescer uma marca histórica sem fazê-la parecer uma senhora de 90 anos tentando usar gíria adolescente no grupo da família?
Não tentando parecer jovem.
Parece óbvio quando escrevemos, mas várias campanhas multimilionárias passaram ao largo dessa revelação.
Existe aquele tipo de marca patrimonial que protege tanto o passado que começa a cheirar conceitualmente a móvel fechado. E existe aquela que entra em pânico, chama reunião de “cultura”, aprende duas palavras do TikTok, escala a celebridade do momento e reaparece três semanas depois falando de “comunidade” como um executivo recém-convertido à internet… Que preguiçaaaaa.
Blazy está fazendo outra coisa… Ele mantém o patrimônio e troca a temperatura. Mantém o código e muda o gesto. Mantém o apartamento e abre a janela, ainda que metaforicamente porque não quero descobrir agora se Gabrielle deixava aquela janela aberta.
A Chanel não está se fantasiando de adolescente, bebê… Está parecendo menos imóvel. E existe uma diferença gigantesca entre as duas coisas.

Duas brasileiras dentro da imagem mais privada da Chanel
Voltamos então para Julia e Lais porque, depois de toda essa volta pela casa, talvez o tamanho daquele booking fique ainda mais claro.
Não é apenas “duas brasileiras numa campanha da Chanel”… Não é pouco, evidentemente. Seria notícia por si só… Mas a parte interessante está no que veio antes.
Julia Morais chega ao apartamento carregando uma história de aceleração brutal. Seis meses atrás, estreava internacionalmente como exclusiva mundial da maison. Agora seu nome está na publicidade.
Lais Hames chega carregando outra espécie de confirmação. Desde dezembro, Chanel continua encontrando espaço para ela em cidades, coleções e contextos diferentes. Semi-exclusive, exclusive, Cruise, reprise, Couture, campanha.
E adoro que as duas estejam justamente na mesma história porque elas ajudam a explicar algo que cobrimos muito aqui no House of Models: carreira não se lê apenas contando trabalhos… Você precisa olhar a sequência.
Qual trabalho veio depois de qual?
Quem voltou?
Quem deixou de voltar?
Quem saiu da passarela para campanha?
Que casa está criando relação?
Que casting continua lembrando daquele rosto?
Quem aparece numa temporada e quem começa a atravessar temporadas?
É ali que a história profissional fica realmente interessante, honey Lee… Porque causar uma vez é maravilhoso. Ser lembrada outra vez é carreira.
E numa indústria que produz rostos novos com uma velocidade quase industrial, ser lembrada talvez seja uma das formas mais silenciosas de poder.

Uma casa cheia para uma Chanel que não quer mais falar baixinho
No fim, talvez “Full house” diga muito mais sobre a Chanel atual do que parecia à primeira vista… A casa cheia significa que o espaço não existe apenas para preservar quem saiu… Existe também para receber quem chegou.
Gabrielle Chanel continua absolutamente presente naquele apartamento, e seria absurdo fingir o contrário. Sua personalidade foi incorporada aos móveis, às paredes, aos símbolos e à maneira como a própria maison conta sua história. Mas, desta vez, há outras mulheres ocupando o enquadramento sem precisar atuar como sacerdotisas diante de um altar.
Awar ri… Lais desce a escada… Julia entra numa campanha apenas seis meses depois de estrear internacionalmente para a casa. As outras mulheres conversam, ocupam sofá, chão, espelho, corredor… e Matthieu Blazy começa a encontrar uma maneira bastante inteligente de lidar com a enorme sombra de Chanel: em vez de tentar apagá-la, permite que outras pessoas façam barulho ao redor dela.
Pode parecer pouco? Não é… Casas históricas morrem criativamente quando passam tempo demais preservando a prova de que um dia estiveram vivas. Chanel não precisa esquecer Gabrielle… Precisa continuar criando razões para que a gente se interesse pelo que acontece depois dela.
Julia Morais e Lais Hames agora fazem parte desse capítulo. Não como “as brasileiras” usadas como souvenir verde e amarelo para nossa torcida doméstica, mas como duas modelos em momentos profissionais específicos que foram escolhidas, repetidas e finalmente incorporadas à imagem comercial de uma das maiores casas de luxo do mundo.
E tem algo especialmente bonito em isso acontecer justamente naquela escadaria. Durante décadas, Gabrielle Chanel ficou famosa por ocupar o alto dos degraus e acompanhar seus desfiles pelos reflexos, vendo as mulheres passarem enquanto permanecia parcialmente escondida.
Agora os espelhos devolvem outras mulheres… Muitas… Diferentes… Vivas. O mito continua lá, bebê; só não está mais sozinho.
Atura ou surta mon petit: alguém finalmente voltou a fazer barulho no apartamento de Mademoiselle.
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