Chanel Alta Costura 2026: Matthieu Blazy transforma o conto de fadas

Na coleção Fall/Winter 2026-2027, o diretor criativo Matthieu Blazy reabre os códigos da maison Chanel com fábula, leveza, ausência da noiva tradicional e sete brasileiras no casting

Por Fabio LageHouse of Models

O maior risco da Chanel nunca foi deixar de ser reconhecida. Foi ser reconhecida rápido demais, darling Lee da Silva Jr.
Em uma maison onde quase tudo já virou código; o tweed, a camélia, a pérola, o preto, o bege, a corrente, o laço, a bolsa, Gabrielle, Cambon… o desafio de um diretor criativo não é simplesmente preservar a herança. Isso seria bem pouco… O verdadeiro desafio é impedir que essa herança se transforme em vitrine de si mesma. Em sua coleção de alta-costura Fall/Winter 2026-2027, Matthieu Blazy parece entender exatamente esse ponto: Chanel não precisava de uma fantasia decorativa. Precisava recuperar a imaginação.

A partir do universo dos contos de fadas, Blazy constrói uma coleção que não tenta infantilizar a maison nem cobrir seus códigos com açúcar. O gesto é mais sofisticado. Ele usa a fábula como método, não como tema. Cada silhueta parece funcionar como uma página, cada detalhe escondido como uma frase lateral, cada bordado como uma pista. O desfile não pergunta apenas o que Chanel foi. Pergunta o que Chanel ainda pode narrar sem virar monumento, baby.

E essa distinção pode ser essencial… Uma casa como Chanel não sofre por falta de memória. Sofre, quando sofre, pelo excesso de reverência à própria memória. Há um ponto em que o arquivo, se intocado demais, deixa de ser fonte e vira cerca. Blazy não parece interessado em pular essa cerca com barulho… Ui ui ui! Prefere abrir uma passagem. E talvez seja justamente essa calma que torne o gesto mais interessante. Ele não nega Chanel. Ele desloca Chanel alguns centímetros para fora do lugar seguro.

O resultado é uma alta-costura que troca rigidez por mobilidade, grandiloquência por narrativa e nostalgia por encantamento controlado. O conto de fadas, aqui, aparece como uma forma de reorganizar os códigos da maison. A fantasia não mascara Chanel. Ela revela uma possibilidade de Chanel menos presa ao próprio retrato oficial.

E o casting brasileiro reforça essa leitura com louvor. Com Bruna Souza, Carliane Paixão, Julia Morais, Laís Hames, Lívia Eduarda, Luiza Perote e Mariane Calazan na passarela, a presença nacional não entra como nota comemorativa, mas como dado de permanência, honey. Sete brasileiras no casting da Chanel não é detalhe de bastidor. São massa crítica. Em uma coleção sobre narrativa, gesto e continuidade, elas ajudam a sustentar uma ideia importante: o corpo brasileiro, na alta-costura contemporânea, já não circula apenas como exotismo exportável. Circula como linguagem.

O conto de fadas como método

O ponto mais delicado da coleção é que ela poderia facilmente cair no decorativo. Conto de fadas, em uma maison como Chanel, é território perigoso. Um passo em falso e tudo vira cenografia encantada para adulto rico brincar de infância com bordado Lesage. Mas Matthieu Blazy parece entender que a fantasia só interessa quando organiza uma ideia. Nesta coleção, ela não entra como açúcar, mon amour… Entra como estrutura.

A Chanel descreve a coleção como um universo em que flores desabrocham nos tweeds, vinhas sobem pelos sapatos, gralhas carregam seus tesouros nos cabelos e detalhes íntimos aparecem escondidos dentro das roupas. A maison fala em silhuetas que se desdobram como histórias, sustentadas pelo savoir-faire dos ateliês de alta-costura. Essa formulação desloca o olhar da roupa como objeto isolado para a roupa como narrativa. Cada peça parece carregar uma pequena ficção interna, um segredo costurado, uma pista deixada para quem se aproxima… Delicinha!

É uma operação muito Chanel, mas também muito Blazy. Chanel sempre foi construída sobre signos, mas nem todo signo conta uma história. Muitos apenas repetem pertencimento. O que Blazy tenta fazer aqui é devolver progressão aos códigos. O tweed se deixa contaminar por flores, por ráfia, por palha, por referências que deslocam sua leitura. A camélia não precisa gritar “arquivo”. A natureza, quando bem usada, serve para tirar os códigos do vitrificado.

O cenário do Grand Palais reforça essa operação. A coleção foi apresentada dentro de uma atmosfera de fábula escura, com o espaço transformado em jardim narrativo, quase uma floresta simbólica de abalar Bangu e adjacências. O risco de um cenário desse porte é sempre engolir a roupa, mas aqui ele ajuda a criar uma gramática babadeira. A passarela funciona como prólogo. Antes mesmo do primeiro look ser lido em detalhe, o ambiente já estabelece uma pergunta: que tipo de história Chanel quer contar agora?

A resposta não está em abandonar a tradição… Deus me free! Está em permitir que a tradição se mova. Matthieu Blazy não parece interessado em fazer Chanel parecer jovem por decreto, nem moderna por truque de styling. O gesto é mais sofisticado, bebê: ele usa o imaginário do conto para lembrar que toda maison vive de transformação. O arquivo, quando bem tratado, não é uma sala fechada. É uma floresta. Tem caminho, sombra, risco, repetição, beleza e, de vez em quando, uma armadilha vestida de bom gosto.

É por isso que a coleção funciona melhor quando a fantasia não aparece como tema, mas como método de leitura. O conto de fadas aqui não infantiliza Chanel. Ele devolve ambiguidade à maison. E Chanel, quando fica ambígua, fica imediatamente mais interessante.

O tailleur atravessado pela fábula

O teste mais difícil para qualquer diretor criativo da Chanel talvez não esteja no vestido de noite, nem no cenário, nem na última saída. Está no tailleur. É ali que a maison se torna mais reconhecível e, por isso mesmo, mais vulnerável. Um tailleur Chanel pode ser renovado, citado, homenageado, suavizado, desmontado, alongado, encurtado, ironizado. Mas não pode ser tratado como fantasia sem consequência. O risco é imediato: virar figurino de arquivo com preço de patrimônio.

Matthieu Blazy parece entender essa armadilha… Nesta coleção, o tailleur não aparece em nada como relíquia intocável, nem como peça sacrificada em nome da novidade… Ele permanece reconhecível, mas atravessado por pequenos deslocamentos narrativos. A Chanel destaca, entre os trabalhos de alta-costura da temporada, um tailleur em que a ráfia é manipulada para parecer palha, o tweed azul tecido pela Lesage sugere denim, uma trança delicada de penas amarelas contorna a jaqueta, e botões de joia acompanham a vida de um girassol, da semente ao botão e à flor. A maison associa essa construção ao Espantalho de O Mágico de Oz, referência que poderia soar literal demais se não estivesse submetida ao rigor do ateliê.

É uma operação de alto risco porque mexe com dois terrenos igualmente perigosos: o código Chanel e a infância cultural. O Espantalho, a palha, o girassol, a fábula, tudo poderia escorregar para o teatral fácil. Mas o que interessa aqui é justamente a recusa do óbvio. Blazy não coloca fantasia sobre o tailleur. Ele injeta narrativa dentro da estrutura. O tailleur continua sendo tailleur, mas passa a carregar uma pequena história nas bordas, nos botões, na matéria, no acabamento. É quase uma fábula costurada em linguagem de ateliê, mon petit.

Esse gesto diz muito sobre sua relação com Chanel. Ele não tenta provar inteligência destruindo o que existe. Essa ansiedade de “quebrar códigos” costuma render manchetes rápidas e roupas cansadas. Blazy parece mais interessado em deslocar por dentro. Em vez de arrancar o tailleur do altar, ele muda a luz do altar. O objeto permanece reconhecível, mas a leitura já não é a mesma. Isso exige mais precisão do que choque. E, em Chanel, precisão vale mais do que barulho.

Há também uma camada contemporânea nessa operação. Quando o tweed sugere denim, quando a ráfia simula palha, quando o detalhe precioso imita matéria humilde, a coleção aproxima mundos que a alta-costura costuma separar: o nobre e o cotidiano, o artesanal e o imaginário popular, o ícone de luxo e a memória infantil. Essa aproximação não diminui Chanel. Pelo contrário, darling Lee de Xique-Xique… devolve fricção a uma maison que corre sempre o risco de ser lida como pura superfície de distinção.

A fantasia não aparece como fuga espetacular, mas como forma de reorganizar o que já parecia conhecido. Em vez de levar Chanel para um mundo distante, Blazy parece perguntar se o extraordinário ainda pode nascer do gesto diário: uma jaqueta, um bolso, uma trança, uma flor, uma textura inesperada.

Nesse sentido, o tailleur deixa de ser apenas monumento da maison e volta a ser roupa em transformação. Esse é o ponto delicado. Chanel não precisa provar que tem arquivo. Todo mundo sabe, bebê… O que uma coleção como esta tenta provar é que o arquivo ainda pode produzir movimento. E, quando o tailleur se permite atravessar pela fábula sem perder sua arquitetura, a maison encontra uma forma rara de atualização: não parecer nova, mas parecer novamente viva… Aleluia!

O corpo liberado

Se a Schiaparelli de Daniel Roseberry olhou para o corpo como território de mutação, a Chanel de Matthieu Blazy parece tomar outra direção. Menos armadura e mais gesto. Menos deformação e mais deslocamento. Menos corpo tensionado pela roupa e coloca aí mais corpo liberado dentro dela. Essa diferença impede a temporada de alta-costura de ser lida como um único movimento. Enquanto algumas maisons investigaram o corpo pela via da escultura, da prótese ou da perturbação, Blazy escolheu uma radicalidade mais silenciosa: a da leveza.

Essa leitura fabulosa de Blazy aproxima a coleção de uma questão histórica da própria Gabrielle Chanel, que desafiou parte da moda de seu tempo justamente ao propor uma relação menos punitiva entre roupa e corpo. Aqui, Blazy não cita essa liberdade como legenda de museu. Ele tenta recolocá-la em movimento.

Em Chanel, libertar o corpo não significa necessariamente fazer barulho. Pode significar permitir que a roupa respire alguns centímetros a mais. Pode estar na cintura baixa, na mão no bolso, na saia que se move sem pedir licença, na transparência que não precisa gritar sedução, no tailleur que deixa de funcionar como armadura social para se aproximar de uma atitude. O gesto parece pequeno, mas dentro de uma maison tão codificada, pequenos deslocamentos podem ter efeito estrutural.

É aqui que Blazy encontra uma forma muito precisa de contemporaneidade. E convenhamos, baby… ele não precisa arrancar Chanel do passado. Precisa impedir que o passado endureça o presente. Ao liberar o corpo, ele libera também a leitura da maison. A roupa ainda é Chanel, mas não parece obrigada a atuar como Chanel o tempo inteiro. Há espaço para gesto, para pausa, para respiração, para uma mulher que não está apenas sendo olhada, mas habitando a própria imagem.

Essa escolha também conversa com uma tendência mais ampla da temporada, sabe? A alta-costura Fall 2026 discutiu intensamente o corpo, ora por meio de corsets, volumes extremos e construções quase prostéticas, ora pela leveza, pelo wrap, pela transparência e pela ideia de roupas menos coercitivas.

Mas, na Chanel, o ponto não é aderir a uma tendência, honey. É reposicionar uma herança. Gabrielle Chanel ajudou a construir seu mito ao propor uma mulher que se movia de outra maneira. Blazy parece entender que esse mito só continua útil se puder ser atualizado como experiência corporal, e não apenas como imagem de arquivo empoeirada. A mulher Chanel não pode ser apenas lembrada… Precisa andar.

E talvez por isso a coleção funcione quando troca o espetáculo do corpo transformado pela inteligência do corpo disponível. Disponível ao movimento, à narrativa, ao bolso, à fábula, ao detalhe escondido, à leveza que não pede desculpas por não parecer grandiosa. Em um sistema que frequentemente confunde alta-costura com contenção física e monumento visual, a Alta Costura de Blazy sugere que a liberdade também pode ser um gesto couture.

Não é pouca coisa, darling… Soltar uma silhueta dentro de Chanel pode ser mais arriscado do que deformá-la em outro lugar. Porque o código da maison, quando mal administrado, tem peso de mármore. Blazy parece tentar justamente o contrário: transformar esse mármore em tecido. E, quando consegue, Chanel deixa de parecer uma instituição sendo preservada e volta a parecer uma mulher em movimento.

A noiva que não veio

Na alta-costura, o encerramento com a noiva costuma funcionar como uma grande cerimônia ultra aguardada. É o último gesto, a imagem de consagração, o momento em que o ateliê entrega sua fantasia máxima de pureza, desejo, virtuosismo e espetáculo. Mas, na Chanel de Matthieu Blazy, a noiva não veio. E sua ausência talvez diga mais do que qualquer véu por aí.

Encerrar a coleção com um vestido preto, em vez da tradicional noiva couture, é uma decisão pequena apenas na aparência. Dentro de Chanel, o preto nunca foi ausência simples. É código, ruptura, disciplina, luto, elegância, síntese, recusa e muito poder, honey. Ao deslocar o final da coleção para essa imagem, Blazy contorna uma convenção da alta-costura e devolve à maison uma pergunta sobre autonomia feminina, mito e destino.

A leitura é ainda mais precisa porque Gabrielle Chanel nunca precisou ocupar o lugar da noiva para se tornar instituição. Sua força histórica não veio da entrada cerimonial em um sistema de legitimação matrimonial, mas justamente da construção de uma vida pública, estética e empresarial que escapava de muitas expectativas impostas às mulheres de seu tempo. Terminar sem noiva, portanto, não é negar romance. É negar a obrigação simbólica de que toda narrativa feminina precise encontrar sua conclusão em um altar.

Essa escolha conversa diretamente com o que Blazy parece perseguir nesta coleção: uma Chanel menos aprisionada à repetição ritual e mais interessada em reabrir seus próprios códigos. O desfile poderia terminar com um vestido branco impecável, bordado, fotogênico, pronto para ocupar o lugar esperado no imaginário da couture. Seria correto. Talvez até bonito. Mas beleza correta, em Chanel, pode ser justamente o problema. A maison não precisa provar que sabe cumprir cerimônias. Precisa provar que ainda sabe deslocá-las.

O vestido preto final funciona como uma espécie de anticlímax sofisticado, sabe? Não há explosão de bridal fantasy. Não há pureza performática. Não há a promessa dócil de um final feliz. Há uma mulher vestida de preto, carregando em si uma memória de independência, mistério e controle da própria narrativa. Em vez da noiva, surge a personagem que escreve o próprio desfecho.

É nesse gesto que o conto de fadas de Blazy ganha uma ambiguidade adulta deliciosa. Toda fábula tradicional costuma caminhar para uma resolução: casamento, reino, recompensa, retorno à ordem. Mas Chanel, quando é Chanel de verdade, nunca pertenceu inteiramente à ordem. Sua história foi construída por uma mulher que reorganizou a roupa feminina porque entendeu que mobilidade, economia de gesto e autonomia também podiam ser luxo. O final em preto recoloca essa tensão no centro do desfile.

Há algo de muito contemporâneo nisso também. A mulher Chanel de Matthieu Blazy não parece pedir licença para existir dentro do conto. Ela não espera ser escolhida para validar a própria imagem. Ela atravessa a fábula, visita seus símbolos, usa suas flores, seus pássaros, suas vinhas e seus segredos, mas não se entrega ao final previsível. A noiva ausente talvez seja a melhor personagem da coleção justamente porque nunca entra em cena.

Essa ausência também impede que a fantasia escorregue para o sentimentalismo. O conto de fadas, sem esse desvio, poderia terminar domesticado demais. Com o preto, Blazy corta o açúcar. A coleção permanece encantada, mas não ingênua. E essa combinação é profundamente Chanel: beleza com distância, feminilidade sem submissão, delicadeza com uma lâmina escondida dentro do forro.

No fim, a noiva que não veio talvez seja o gesto mais eloquente da coleção. Porque uma maison tão cheia de rituais só se mantém viva quando ainda consegue quebrar um deles sem fazer alarde. Blazy não encerra com rebeldia barulhenta. Encerra com uma ausência calculada. E, em Chanel, às vezes o que não aparece é exatamente o que mais fala.

Casting brasileiro como permanência

Em uma coleção construída sobre fábula, leveza e reencantamento dos códigos da Chanel, o casting não funciona como lista de presenças. Funciona como continuidade de linguagem. A maison não precisava apenas de modelos capazes de vestir alta-costura. Precisava de presenças capazes de carregar gesto, delicadeza, narrativa e precisão sem transformar a coleção em espetáculo excessivo. Na Alta Costura de Matthieu Blazy, a força do corpo está menos na imposição e mais na capacidade de sustentar atmosfera.

Bruna Souza, Carliane Paixão, Julia Morais, Laís Hames, Lívia Eduarda, Luiza Perote e Mariane Calazan integraram o casting da Chanel Haute Couture Fall 2026. Sete brasileiras em uma coleção de alta-costura da Chanel não são detalhe de bastidor, bebê… São massa crítica. São dado de mercado. São sintoma de permanência babadeira.

A diferença em relação à Schiaparelli é importante. Na Schiaparelli, as brasileiras atravessaram o abismo, o artifício, o corpo tensionado e o surrealismo como perturbação. Na Chanel, elas atravessam outra gramática: fábula, leveza, código, gesto e continuidade. Não é uma função menor. Pelo contrário. Segurar Chanel exige um tipo de presença difícil, porque o excesso facilmente desloca a roupa, e a neutralidade excessiva transforma a modelo em manequim de arquivo. O equilíbrio está entre parecer parte da história e não desaparecer dentro dela, querides.

Luiza Perote e Mariane Calazan aparecem como eixos mais evidentes de continuidade. Em uma temporada na qual Luiza já vinha acumulando presença em casas relevantes da alta-costura, sua entrada na Chanel reforça uma ideia de trânsito amplo entre narrativas distintas. Ela pode sustentar a estranheza da Schiaparelli e, quase sem ruído, entrar na fábula disciplinada da Chanel. Isso é bem raro… Não se trata apenas de beleza ou medida, honey Lee da Silva. Trata-se de inteligência corporal, adaptabilidade e densidade de imagem.

Mariane Calazan, por sua vez, reforça outro ponto importante: a Chanel tem demonstrado interesse recorrente por brasileiras capazes de habitar seus códigos sem caricatura. A bela entra porque sua imagem conversa com uma ideia de elegância, presença e continuidade que a Chanel parece disposta a cultivar. Em uma casa tão dependente de repetição simbólica, ser chamada mais de uma vez pesa mais do que uma aparição explosiva, mon petit!

Bruna Souza, Carliane Paixão, Julia Morais, Laís Hames e Lívia Eduarda ampliam esse quadro. Elas indicam que a presença brasileira na Chanel não está concentrada em uma única imagem, uma única agência simbólica ou um único tipo de beleza exportável. O que aparece é uma variedade de corpos, rostos, gestos e temperaturas editoriais sendo absorvida por uma maison que opera com altíssimo controle visual e diferentes possibilidades de Brasil dentro da narrativa Chanel.

Durante muito tempo, a indústria internacional tratou a modelo brasileira a partir de uma prateleira bastante previsível: solar, sensual, comercial, esportiva, saudável, desejável, quase sempre embrulhada no velho celofane da “beleza tropical”. Essa imagem foi poderosa, sim, mas também limitadora. Na alta-costura contemporânea, o Brasil que aparece na Chanel é menos cartão-postal e mais gramática visual. Menos clichê exportável e mais repertório de presença babadeira.

Na Chanel, isso ganha uma camada ainda mais interessante porque a maison não trabalha com estranhamento agressivo. Diferente da Schiaparelli, que exige uma presença capaz de sustentar tensão visual, Chanel pede outra competência: segurar leveza sem evaporar. Parecer natural dentro de uma construção altamente artificial. Carregar roupa, cenário, história e mito sem deixar que tudo vire pose educada. É quase uma arte do controle invisível… Ui ui ui!

Por isso, sete brasileiras na Chanel devem ser lidas como sinal de permanência, não como fogos de artifício, honey. Quando uma maison dessa escala absorve tantas modelos brasileiras em uma coleção de alta-costura, ela está dizendo algo sobre quem consegue habitar seus códigos hoje. E, talvez mais importante, está mostrando que a modelo brasileira contemporânea já não precisa ser chamada apenas para representar excesso, calor ou impacto imediato. Ela também pode representar silêncio, fábula, precisão, gesto e continuidade.

Casting é uma das formas mais discretas e poderosas pelas quais a moda escreve o futuro. Antes de uma campanha, antes de uma capa, antes de um contrato maior, há uma sucessão de escolhas que educa o olhar da indústria. Quem entra repetidamente nas casas certas começa a formar uma memória. E memória, em moda, é capital simbólico, mon petit.

Não basta contar quantas brasileiras desfilaram… É preciso entender o tipo de narrativa que elas foram chamadas a sustentar. Na Chanel de Blazy, elas aparecem como parte da estrutura de imagem de uma coleção que tenta devolver movimento a uma maison profundamente codificada.

Essa Chanel importa…

A importância desta coleção não está apenas no cenário de fábula, nos bordados, nos tweeds trabalhados, nas flores, nas vinhas ou na delicadeza de um imaginário cuidadosamente construído. Está no gesto mais difícil: fazer Chanel respirar sem precisar negar Chanel.

Matthieu Blazy parece entender que a maison não precisa de uma revolução barulhenta. Chanel já sobreviveu a revoluções suficientes para saber que nem todo ruído é avanço. O desafio é outro: devolver mobilidade a códigos que se tornaram tão reconhecíveis que correm sempre o risco de virar monumento. E monumento, por mais bonito que seja, não anda, darling.

Ao transformar o conto de fadas em um verdadeiro método, Blazy não infantiliza a maison nem transforma a alta-costura em fantasia decorativa. Ele usa a fábula como ferramenta para reabrir narrativas. O que poderia ser apenas encantamento vira estrutura. O que poderia ser apenas cenário vira atmosfera. O que poderia ser apenas citação de arquivo vira movimento.

A Chanel que aparece aqui não está tentando parecer jovem por ansiedade de mercado, nem moderna por truque de styling… Ela está tentando recuperar uma qualidade mais rara: a capacidade de contar histórias sem perder precisão. Em um sistema de luxo cada vez mais pressionado por performance, viralização e reconhecimento imediato, essa escolha tem peso. Blazy parece sugerir que a Chanel não precisa disputar atenção com grito. Pode disputar permanência com construção.

Também por isso o corpo ganha certa centralidade… Ao evitar uma couture de rigidez punitiva, a coleção recoloca em circulação uma pergunta histórica da própria maison: que tipo de mulher a roupa permite existir? Gabrielle Chanel ajudou a desmontar uma ideia de elegância baseada no aprisionamento do corpo. Blazy, sem transformar isso em manifesto raso, parece atualizar essa herança por meio de gesto, leveza, bolso, movimento e uma certa recusa da pose excessivamente cerimonial.

E convenhamos baby, o final sem noiva reforça essa leitura babadeira. Ao encerrar com preto, e não com o ritual esperado da bridal couture, Blazy desloca uma convenção sem precisar fazer espetáculo de rebeldia. A ausência da noiva funciona como uma frase silenciosa, mas firme. Chanel não precisa terminar em altar para parecer completa. A mulher Chanel, quando bem compreendida, não espera validação externa para sustentar sua própria narrativa.

Nesse sentido, a coleção é menos sobre encanto do que sobre autonomia. O conto de fadas não conduz a uma princesa domesticada, mas a uma mulher que atravessa símbolos, códigos e rituais sem se deixar capturar inteiramente por eles. É uma diferença sutil, mas fundamental. A fantasia, aqui, não serve para prender a mulher em um imaginário antigo. Serve para devolver a ela um campo de movimento único.

No fim, a Chanel de Matthieu Blazy não tenta resolver sua herança com ruptura fácil. Ela escolhe uma via mais exigente: mexer por dentro. Reencantar sem fantasiar demais. Atualizar sem apagar. Tocar o arquivo sem transformá-lo em relíquia intocável. Dar leveza a uma maison pesada de história sem fingir que essa história não existe.

É uma coleção de deslocamentos pequenos, mas estratégicos. E talvez esse seja o ponto, honey. Em Chanel, um centímetro pode ser um acontecimento. Um bolso pode dizer mais do que um manifesto. Uma noiva ausente pode reorganizar o final de uma narrativa inteira. Um conto de fadas pode ser menos fuga e mais método.

Matthieu Blazy não tenta fazer Chanel parecer outra coisa… Ele tenta fazer Chanel lembrar que ainda pode se transformar. E, quando uma maison desse tamanho todo consegue se mover sem perder a própria sombra, a alta-costura deixa de ser apenas exercício de preservação e volta a ser linguagem viva.

Foto: Chanel

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