Em Paris, o tailleur perde peso, a brisa ganha função e Ashley Brokaw reúne quatro brasileiras em estágios muito diferentes: Amanda Nascimento estreia; Carol Monteiro, Gloria Maria e Luma Vitoria voltam... Ui ui ui, mon amour!
Por Fabio Lage – House of Models
O vento fez um serviço babadeiro que nenhum release conseguiria fazer pela Dior, darling Lee da Silva: mostrou onde a roupa de Jonathan Anderson realmente começava. Quando as franjas levantavam, as pétalas tremiam, as camadas quase transparentes escapavam das pernas e um blazer com vocação para reunião de conselho era obrigado a dividir o corpo com uma saia que parecia incapaz de ficar quieta, aquela coleção começava a se explicar sem legenda. E isso, para a Dior de Anderson, é uma evolução e tanto.
Porque durante algum tempo tive a sensação de que Jonathan ainda precisava nos apresentar o projeto. Aqui está o arquivo… Aqui está Christian Dior… Aqui está o Bar… Aqui está a flor… Aqui está Jonathan mexendo em tudo. Entenderam? Posso continuar?
Agora pode.
Na Dior Summer 2027, apresentada em 29 de setembro no Bassin Octogonal do Jardin des Tuileries, em Paris, Anderson parece finalmente menos interessado em demonstrar que sabe onde está e muito mais disposto a viver naquele endereço. Benjamin Bruno assina o styling dos sonhos; Ashley Brokaw, o casting majestoso; Guido Palau, o cabelo; Peter Philips, a maquiagem; Ama Quashie, as unhas. A produção ficou com Bureau Betak, Damien Quintard cuidou da música, Philippe Cerceau da luz e MJ Harper da direção de movimento. A própria Dior definiu o exercício de forma bastante precisa: trabalhar o tailleur como flou e tratar o ar quase como matéria, atravessando renda, mousseline de seda e organza… ai que delicinha!

Dior Summer 2027: Jonathan Anderson já não parece precisar do PowerPoint
Lembro da estreia feminina de Anderson na Dior, em outubro de 2025, começando com aquela pergunta gigantesca, quase ameaçadora: “Do You Dare Enter the House of Dior?”. Era um começo inteligentíssimo porque explicitava a dimensão do problema. Entrar na Dior nunca foi simplesmente assumir uma direção criativa, bebê; é entrar numa casa em que os “mortos” continuam dando opinião. Christian Dior está lá. Galliano está lá. Raf está lá. Maria Grazia está lá. O New Look está sentado num canto julgando seu quadril. O Bar jacket observa tudo. Até a flor tem currículo, mon petit.
Naquele primeiro capítulo, Anderson parecia interessado em desmontar o museu para descobrir quais objetos ainda tinham corrente elétrica. Na coleção Fall 2026, o processo já começava a relaxar. A estrutura havia sido retirada, os tecidos cediam, o movimento ganhava prioridade, e aquele era o primeiro desfile em que o estilista parecia mais à vontade dentro da Dior.

Summer 2027 avança justamente daí… Não vejo uma ruptura monumental. Vejo algo que talvez seja mais difícil: depuração.

Anderson repete ideias. Repete flores, pregas, alfaiataria, transparências, comprimentos curtos, iridescência, volumes laterais, camisas masculinas, xadrezes, listras, rendas. A própria maison reconhece que elementos do Fall 2026 retornam, enquanto os ternos diáfanos e algumas calças metálicas puxam o fio da coleção masculina Summer 2027. Isso é importante porque começa a existir uma gramática transversal babadeira. Não parece mais que cada departamento acordou com um moodboard diferente na segunda-feira.
E aqui está, para mim, o avanço real: Jonathan Anderson começa a habitar a Dior quando deixa de tratar cada referência como descoberta arqueológica, honey.
Ele não precisa desenterrar o Bar jacket toda vez que quiser nos provar que leu o arquivo… Graças a Deus.

Quando o tailleur começa a derreter
Nas 65 looks que analisamos, o sistema aparece com uma clareza quase obsessiva. Primeiro vêm os códigos que reconhecemos de longe: risca de giz, pied-de-poule, Prince of Wales, smoking, blazer trespassado, camisa de masculina, pijama, casaco. Só que a estabilidade dura pouco… A roupa começa a ceder.
O blazer branco riscado da abertura encontra uma parte inferior quase líquida. Xadrezes aparecem em tecidos que não sustentam a autoridade visual que normalmente associamos ao xadrez. Calças metálicas recebem camisas folgadas. Alfaiataria veste transparência. Um casaco bastante sério cai sobre algo que parece ter acabado de escapar de uma camisola. Uma jaqueta conversa com uma saia coberta de pétalas rosa. A cada tentativa de organização vem alguma coisa para bagunçar a sala… Esse é o ponto em que a definição da Dior, “tailleur imagined as flou”, deixa de ser frase bonitinha de press release… É literalmente o motor da coleção, bebê!

Há uma fricção contínua entre roupa de autoridade e roupa vulnerável. Entre masculino e feminino sem transformar nenhum dos dois em caricatura. Entre superfície seca e matéria que voa. Entre roupa que exige postura e roupa que precisa de movimento para terminar de existir… Não acho que Anderson tenha eliminado a alfaiataria. Acho que ele a dissolveu babadeiramente, honey.
E há momentos excelentes nisso… O blazer sobre a calça metálica, os casacos longos sobre camadas quase transparentes, o preto rigoroso rompendo blocos de chiffon, a camisa listrada atravessando saias com movimento demais para pertencer à mesma reunião. Essa coleção funciona melhor justamente quando as duas forças permanecem brigando… Quando tudo fica leve demais, perde um pouco a tensão.
Quando tudo fica styled demais, acontece outra coisa: começamos a perceber a mão montando o look antes de perceber a mulher vestindo o look. E Anderson flerta algumas vezes com esse perigo. Camisa, xadrez, joia, bolsa, scarf, transparência, textura, floral, outra textura, outra bolsa… meu filho, às vezes a menina só queria chegar ao fim da passarela… Mas a edição melhorou e muito.

A flor saiu do laboratório e pegou vento
Na alta-costura Fall 2026, escrevi aqui no House of Models que Anderson tinha levado a flor Dior para o laboratório. Era uma flor prensada, esculpida, manipulada, amarrada, quase submetida a experimento. Summer 2027 parece retirar essa flor da bancada e colocá-la para andar.
Pétalas reaparecem como superfície; estampas florais perdem nitidez; volumes criam quadris que não precisam da velha solenidade do New Look para ocupar espaço; franjas, pregas e camadas trabalham com o ar.
E o vento, desta vez, não é imaginação de jornalista emocionado olhando árvore parisiense… Anderson declarou que estava interessado em “lightness and motion” e no que acontece com a roupa quando ela encontra a brisa. A maison também tratou a névoa e o ar como componentes da experiência.

O ar participa da coleção… e participa muito.

As roupas fotografadas paradas seriam menos interessantes. Algumas só ficam completamente compreensíveis quando perdem o controle. Barras se deslocam. Pétalas levantam. Fitas saem do lugar. A assimetria fica ainda mais assimétrica… Uma coleção que insiste em instabilidade precisava de ar para existir.
Ui ui ui… desta vez a brisa tinha crachá e tudo, baby.

E aquela coisa enorme pendurada no cabelo?
O elemento recorrente caindo lateralmente sobre os cabelos parece, num primeiro olhar, um grande ornamento floral. A Dior descreve scarves drapeados sobre o ombro e brincos em cascata como recursos de assimetria. Portanto, chamar indiscriminadamente aquilo de “flor de cabelo” seria puro cringe.
Visualmente, porém, o truque é esperto justamente porque a fronteira desaparece. Scarf, brinco e cabelo começam a formar uma coisa só; algumas versões lembram pétalas, outras folhas, outras tiras translúcidas. O rosto continua visível, o cabelo continua reconhecível, mas há sempre alguma coisa pendendo de um lado como se a própria coleção recusasse centralização… É a assimetria indo para o corpo inteiro, mon amour de Champs-Élysées.

A bolsa jamais perde o briefing
Depois existe a parte em que a poesia encontra o departamento financeiro, bebeê.
Fiz a contagem dos 65 looks… Em 62 delas há pelo menos uma bolsa claramente visível.
Sessenta e duas e três passagens aparentam escapar… Isso significa bolsa em cerca de 95% dos looks desfilados pela Dior na Semana de Moda de Paris.
Summer 2027 apresenta novas versões da Dior Double e da Dior Initial Hobo, um modelo com referências de biker e costura Cannage, bolsas de rede ornamentadas por scarves ou pétalas de georgette e até uma minaudière prateada em forma de noz wénwán. Os sapatos também recebem motivos florais e a sola do Dior Cigale assume formato de pétala de deusas.

Ou seja, merchandising aqui não é um intruso que apareceu no meio do poema. Está dentro da métrica… E não tenho qualquer problema com isso. Dior não é residência artística financiada por edital municipal, honey. É uma das maiores máquinas de luxo desse planeta. A questão interessante nunca foi fingir que a bolsa não precisa vender. É observar se a necessidade de vender destrói a imagem ou se a imagem consegue carregar o produto sem parecer catálogo… e Anderson consegue em boa parte do desfile.
Mas 62 bolsas em 65 looks também merecem a anotação no caderninho: aparentemente até a leveza precisa carregar alguma coisa.
Honey Lee, poesia também tem SKU… não sabe o que é? Da um Google, darling!

Ashley Brokaw não escolheu rostos para preencher 65 looks
Existe uma segunda coleção acontecendo dentro da coleção de Jonathan Anderson, e ela não é feita de organza, tweed ou bolsas suficientes para resolver o PIB de um pequeno país. É feita de gente.
Ashley Brokaw assinou o casting da Dior Summer 2027 e talvez seja justamente aí que apareça uma das pistas mais interessantes sobre esta Dior que começa a se estabilizar. Anderson repete códigos, desloca peças, recupera ideias de coleções anteriores e muda a maneira como elas retornam; Brokaw parece trabalhar com lógica semelhante quando constrói o corpo humano que vai carregar tudo isso. Há estreias, evidentemente, mas existe também um núcleo de modelos que volta, atravessa Couture, Resort, ready-to-wear, reaparece alguns meses depois e começa, sem grande anúncio, a fazer parte da memória visual desta nova fase da maison.

Quem abriu o desfile foi a holandesa Kate van Berne, entregando logo no primeiro look aquilo que Anderson passaria os outros 64 tentando desmontar e remontar: blazer claro risca de giz, camisa listrada, uma certa memória de guarda-roupa masculino e, embaixo, a leveza quase insolente de uma parte inferior que se recusa a obedecer à seriedade do paletó. No outro extremo, Mica Argañaraz fechou a apresentação sem vestido de princesa, sem apoteose de couture, sem aquela velha obrigação de encerrar desfile como quem apaga as luzes de um baile. O último look volta aos xadrezes, à camisa, à alfaiataria sobreposta, quase devolvendo a coleção ao ponto de partida. Não fecha exatamente uma porta; faz o caminho dar a volta.
Mica, aliás, não é uma escolha neutra dentro da história de Jonathan Anderson. A argentina atravessa há anos o circuito das grandes casas e pertence àquela categoria de modelo cuja presença não precisa gritar “celebridade” para carregar memória de moda. Colocá-la no fechamento ajuda a explicar o casting inteiro: existe juventude, existe descoberta, mas existe também experiência. Brokaw não parece interessada em construir uma fileira de rostos intercambiáveis sob a desculpa de uma “mulher Dior” abstrata. Cada uma chega com uma temperatura diferente, e Peter Philips e Guido Palau tiveram a inteligência de não apagar isso em nome de uma beleza militarmente uniforme… Deus me free!
É aí que as brasileiras começam a ficar realmente interessantes… Amanda Nascimento, Carol Monteiro, Gloria Maria e Luma Vitoria não estão nesta passarela pela mesma razão histórica, nem ocupam o mesmo ponto de carreira dentro da Dior. E ainda bem, né… O nacionalismo fashion adora empacotar quatro mulheres num “Brasil brilhou em Paris”, colocar bandeirinha, soltar confete e considerar o serviço encerrado. Só que o casting de Brokaw conta uma história muito mais sofisticada quando se olha individualmente para elas.

Amanda Nascimento chega pela primeira vez à Dior. É uma estreia, e estreia tem um peso próprio: é o primeiro ingresso numa máquina que poderá ou não telefonar novamente. Carol está no extremo oposto. Summer 2027 marca seu quinto desfile documentado para a maison em 2026, depois de Haute Couture Spring, Fall ready-to-wear, Resort e Haute Couture Fall. Cinco chamadas no mesmo ano começam a desenhar algo que nenhuma frase promocional precisa inflar. Gloria Maria e Luma Vitoria ocupam outra posição: ambas construíram a sequência Resort 2027, Haute Couture Fall 2026 e Summer 2027, três convocações consecutivas atravessando diferentes categorias da casa… Percebe como fica mais interessante quando a bandeira sai da frente?
Uma estreia, uma relação que já chega ao quinto desfile e duas modelos que atravessam Resort, Couture e ready-to-wear em sequência. Quatro brasileiras, quatro momentos profissionais diferentes dentro do mesmo casting babadeiro.
E talvez esse seja um dos dados mais reveladores da Dior de Anderson agora. Uma maison não constrói identidade apenas escolhendo quais roupas repetir; ela também decide quais pessoas deseja rever dentro delas. Não sabemos por que uma modelo recebe o segundo, o terceiro ou o quinto telefonema, e seria uma arrogância deliciosa fingir que sabemos, honey Lee. Mas o telefonema aconteceu. A repetição existe. E, numa indústria em que tanta carreira cabe exatamente na distância entre uma primeira convocação e a próxima, voltar nunca é apenas estar de novo.

O segundo telefonema é onde a carreira começa a falar
E é justamente aí que a presença dessas quatro brasileiras fica interessante de verdade. O primeiro booking abre uma porta; o que acontece depois começa a mostrar como uma carreira circula dentro da indústria. Algumas relações nascem naquele instante, outras já chegam carregando memória, e há aquelas que escapam da maison e reaparecem em outros trabalhos com as mesmas pessoas envolvidas. É nesse desenho que Amanda Nascimento, Carol Monteiro, Gloria Maria e Luma Vitoria deixam de formar um “quarteto brasileiro” muito conveniente para legenda de Instagram e voltam a ser aquilo que realmente são: quatro modelos construindo trajetórias diferentes.
Amanda vem de Irecê, na Bahia, e chega à Dior justamente pelo lugar mais simples de explicar e talvez o mais difícil de conquistar: o grande debut. Não existe passado com a maison para ornamentar sua história, nenhuma sequência anterior para transformar em argumento. Existe um casting de Ashley Brokaw, um desfile de Jonathan Anderson e uma porta que se abriu. O próximo movimento pertence ao futuro e, por isso mesmo, não precisamos inventá-lo. Na moda, a estreia já carrega tensão suficiente sem que alguém venha colocar violino embaixo.

Carol Monteiro vive quase o movimento inverso. Sua relação profissional com Jonathan Anderson começou antes dessa sequência na Dior: ela já havia cruzado a passarela da JW Anderson em Londres, em 2024, na temporada internacional que apresentou seu rosto ao circuito europeu, e voltou ao universo do estilista em 2026 no projeto JW Anderson x Diadora, com Benjamin Bruno no styling. Quando Anderson chega à Dior e Carol passa a aparecer repetidamente nos castings da maison, existe aí uma linha profissional que antecede o endereço da Avenue Montaigne, mon amour.
Talvez por isso uma pequena cena de backstage seja tão boa. Em conversa com a Vogue, Carol tentou lembrar se aquele era seu quinto ou sexto desfile para Dior. Não lembrou. Eu acho maravilhoso. Em determinado ponto, a recorrência fica tão incorporada à rotina que até a modelo começa a perder a planilha. O fashion journalist, evidentemente, não pode perder. Para isso existimos, mon petit.
Gloria Maria desenha outra geografia. Antes de chegar a Paris, sua SS27 já havia passado pela Calvin Klein em Nova York, depois por Blumarine e Dolce & Gabbana em Milão. O detalhe que me interessa está em Nova York: o casting da Calvin Klein também levou a assinatura de Ashley Brokaw. Não significa preferência, promessa, favoritismo ou qualquer fanfic corporativa que alguém esteja disposto a publicar depois de três cafés. Significa apenas que Gloria reaparece, dentro da mesma temporada, em trabalhos conduzidos pela mesma casting director para casas diferentes… E isso diz bastante sobre circulação.
Casting internacional não funciona como álbum de figurinha em que uma marca “possui” determinada modelo. Há diretores de casting, stylists, fotógrafos, designers e equipes que cruzam cidades, clientes e temporadas levando repertórios humanos com eles. Um rosto pode aparecer na Calvin Klein em Nova York, surgir semanas depois na Dior em Paris e, visto de fora, parecer apenas coincidência de calendário. Quando começamos a observar quem está montando essas equipes, a indústria deixa de parecer uma sucessão de desfiles independentes e começa a revelar sua rede.
É justamente esse tipo de circulação que o HOFM Intelligence acompanha ao longo da temporada.

Luma Vitoria oferece talvez o desenho mais amplo desse movimento nesta temporada. Seu SS27 passou por Calvin Klein, COS, Ulla Johnson e Carolina Herrera em Nova York; Alberta Ferretti em Milão; depois Dior, Balmain e Carven em Paris. Há variedade de escala, estética e posicionamento suficiente aí para perceber uma modelo sendo utilizada de maneiras muito diferentes, sem precisar recorrer àquele vocabulário preguiçoso de “versatilidade” que as agências adoram imprimir em press release.
Ela também esteve no Calvin Klein de Ashley Brokaw antes de reaparecer no casting da Dior. Novamente, o fato importante não é tentar descobrir o que Brokaw “vê” em Luma. Eu não tenho bola de cristal, baby, ela não me mandou áudio e esse artigo não é sessão espírita. O que podemos observar é a repetição objetiva dentro de dois clientes importantes na mesma temporada, somada a uma agenda que atravessa três capitais e casas com linguagens bastante diferentes.

Quando se coloca as quatro lado a lado, portanto, a nacionalidade vira quase o dado menos interessante. Amanda mostra o instante em que uma relação começa. Carol carrega um histórico que atravessa o universo de Jonathan Anderson antes mesmo da Dior. Gloria reaparece dentro do circuito profissional de Ashley Brokaw em clientes diferentes. Luma combina essa recorrência com uma temporada particularmente extensa.
É aí que “quatro brasileiras na Dior” deixa de ser manchete pronta e vira informação de indústria… Porque carreira não é simplesmente chegar à passarela certa. É entender quem continua ligando depois, em que contexto esse telefone toca e quantas portas diferentes começam a se conectar.
E, convenhamos, os clientes já fizeram o trabalho pesado dos adjetivos. Eu não preciso escrever que ninguém está “bombando”. A agenda fala e anda sozinha, darling.

Prata nos olhos, vento no cabelo
Depois de tanta roupa que parece precisar do movimento para terminar de acontecer, seria estranho colocar sobre essas mulheres uma beleza rígida, plastificada, daquelas que chegam cinco minutos antes da modelo e só vão embora depois dela.
Peter Philips foi pelo caminho oposto. A direção recebida de Jonathan Anderson passava por frescor, surf, liberdade; nos olhos, porém, aparece um pequeno curto-circuito futurista: prata aplicada ora como superfície quase metálica, ora como glitter, criando pontos de luz que parecem ter sido colados no rosto. O restante fica muito menos interessado em transformação. Pele é pele. Boca não entra em competição. O rosto continua existindo embaixo da ideia.

Guido Palau faz algo semelhante com o cabelo. Há ondas, textura, cachos, fios com aspecto molhado, outros muito mais secos e naturais; não existe aquela necessidade quase militar da passarela de convencer cinquenta mulheres de que todas acordaram com exatamente o mesmo cabelo às seis e quinze da manhã. Ainda bem, né… Ninguém acredita mesmo, honey Lee.
E Ama Quashie completa a pequena desobediência nas unhas: burgundy nas mãos, ruby nos pés, depois da sugestão de Benjamin Bruno de que não havia motivo algum para fazer tudo combinar perfeitamente. Parece detalhe, mas talvez esteja justamente aí uma das melhores chaves para entender a coleção inteira.

Porque quase nada nesta Dior quer encaixar bonitinho.
O xadrez encontra transparência. O paletó encontra pétala. A camisa masculina desemboca em saia que voa. O olho recebe uma lâmina prateada enquanto o cabelo parece ter acabado de encontrar umidade, vento, praia, vida real, qualquer coisa menos uma escova disciplinadora.
Existe conceito, evidentemente. Só não existe aquela ansiedade de fazer cada centímetro da mulher repetir a mesma frase… E isso faz diferença. Anderson já colocou informação suficiente na roupa; se maquiagem e cabelo também começassem a berrar o conceito, alguém precisaria pedir silêncio na sala.

O último look não fecha a porta
Provavelmente a solução mais inteligente de Dior Summer 2027 esteja justamente nos segundos finais, quando Jonathan Anderson poderia ter convocado um grande vestido, uma aparição espetacular, qualquer uma dessas imagens criadas para avisar ao público que chegou a hora de levantar o celular mais alto… Ele faz quase o contrário.
Depois de 65 looks atravessando pétalas, lingerie, prata, renda, xadrez, transparências, tricôs, volumes que inflam com o vento e uma quantidade de bolsas que já deveria ter direito a participação nos lucros, a coleção volta para casa.

No look levado por Mica Argañaraz ao fim da passarela reaparecem camisa, xadrez, risca de giz, alfaiataria, sobreposição; aquele mesmo vocabulário masculino que já estava rondando a abertura, agora devolvido em outra combinação, mais escura, mais carregada, como se Anderson tivesse passado o desfile inteiro desmontando uma frase para descobrir quantas maneiras existiam de pronunciá-la.
Não há princesa Dior descendo a passarela para colocar ponto final e também não há aquele velho truque do último look monumental pedindo aplauso antes mesmo de a modelo completar o percurso.
O que existe é retorno… E talvez seja justamente isso que diferencia esta coleção dos primeiros movimentos de Jonathan Anderson dentro da maison. No começo, havia algo compreensivelmente demonstrativo em sua Dior, aquela necessidade de tocar no arquivo, deslocar o Bar, cutucar Christian Dior, experimentar a flor, testar volumes, mostrar que sabia perfeitamente em qual casa havia entrado.

Agora parece menos interessado em pedir autorização para mexer nas coisas… Ele já está mexendo, bebê… Alguns móveis continuam exatamente onde faz sentido deixá-los. Outros mudaram de cômodo. Uma flor que antes parecia peça de laboratório encontra vento. O tailoring perde rigidez sem desaparecer. A masculinidade da camisa permanece, mas o corpo embaixo dela muda completamente. Uma ideia atravessa womenswear e menswear. Um rosto retorna ao casting; outro aparece fazendo seu debut triunfal. Uma bolsa volta com outra construção porque, evidentemente, até a revolução precisa passar pelo caixa antes de ir embora.
Nada disso exige que Dior finja nascer novamente a cada seis meses… e talvez esse seja o ponto que mais me interessa em Summer 2027.
Durante anos, moda de luxo se acostumou a vender novidade como se memória fosse uma espécie de defeito. Todo desfile precisava inaugurar era, virar página, quebrar código, redefinir alguma coisa, anunciar revolução até quando a grande transformação consistia numa saia dois centímetros mais curta e numa bolsa disponível em seis novas cores. Chega uma hora em que até o futuro fica cansado de ser lançado.

Jonathan Anderson parece começar a compreender uma coisa mais sofisticada: identidade não nasce somente daquilo que você inventa. Nasce também daquilo que escolhe repetir… mas repetir exige edição.
Você precisa saber o que permanece vivo, o que virou decoração, o que merece voltar, o que pode ser deformado e o que deveria continuar trancado naquele armário da família que ninguém abre desde 1957 porque, provavelmente, existe uma razão.

É por isso que o movimento circular desta coleção funciona tão bem. O último look olha para o primeiro sem copiá-lo. A roupa reconhece de onde veio, mas não retorna obedientemente ao mesmo lugar.
E o desfile inteiro, pensando bem, faz isso: Jonathan Anderson entrou na Dior perguntando se ousávamos entrar naquela casa… Um ano depois, a pergunta já parece outra e ele não está mais diante da porta… Está lá dentro, de janela aberta, deixando o vento bagunçar as cortinas, mudando os móveis de lugar e descobrindo quais fantasmas ainda merecem um quarto.
E os outros, mon amour de Magherafelt, que procurem um apartamento.

MATRIZ FACTUAL DAS QUATRO BRASILEIRAS
| Modelo | Dior documentadas | Histórico Dior confirmado | Jonathan Anderson fora da Dior | Outros casts Ashley Brokaw localizados | Classificação |
|---|---|---|---|---|---|
| Amanda Nascimento | 1 | Summer 2027 | Nenhum anterior localizado nesta auditoria | Dior SS27 | Estreia |
| Carol Monteiro | 5 | HC Spring 2026 → FW26 → Resort 2027 → HC Fall 2026 → Summer 2027 | JW Anderson SS25; JW Anderson x Diadora 2026 | Cinco Dior sob Brokaw | Recorrência forte / sequência de 5 |
| Gloria Maria | 3 | Resort 2027 → HC Fall 2026 → Summer 2027 | Nenhum anterior localizado nesta auditoria | Calvin Klein SS27 + três Dior | Recorrência / sequência de 3 |
| Luma Vitoria | 3 | Resort 2027 → HC Fall 2026 → Summer 2027 | Nenhum anterior localizado nesta auditoria | Calvin Klein SS27 + três Dior | Recorrência / sequência de 3 |
Foto: Divulgação – Dior
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