Dos 42 castings em Londres ao poder de recusar 99% dos trabalhos, Gisele Bündchen chega à sétima capa da i-D transformando a palavra que marcou o início de sua carreira em medida de poder. E, justamente agora, reaparece de Victoria’s Secret. Ui ui ui!
Por Fabio Lage – House of Models
A palavra “não” já fez um belo embaraço na carreira de Gisele Bündchen. O detalhe delicioso é que, em algum momento dessas três décadas, ela simplesmente mudou de boca. Muito antes da übermodel capaz de escolher contratos como quem escolhe o vinho da noite, existiu uma adolescente brasileira atravessando Londres de casting em casting e ouvindo, mesmo quando ninguém pronunciava uma sílaba, que aquele corpo não correspondia ao que a moda queria. Gisele já contou à British Vogue que fez 42 castings em sua primeira temporada londrina e que muita gente nem se dava ao trabalho de olhar seu book. Era o reinado da estética heroin chic, e aquela gaúcha atlética, solar, comprida, com curvas e um nariz que já haviam considerado grande demais parecia ter recebido o convite para a festa errada. Até Alexander McQueen olhar para ela e dizer sim. Quase três décadas depois, na nova i-D Magazine nº 377, “The Mother Issue”, Gisele revela que hoje recusa cerca de 99% dos trabalhos que recebe. Mon amour de Horizontina e adjacências, a ironia às vezes chega pronta.

Gisele Bündchen não está simplesmente posando outra vez para uma revista importante, baby. Aos 46 anos, ela aparece diante das lentes de Collier Schorr, com styling babadeiro de Clare Byrne, em uma história de moda que conversa com sua biografia sem transformá-la em retrospectiva melosa. Há lingerie, couro, metal, alfaiataria oversized, hot pants, pernas nuas, músculos, pesos, rosa e uma camiseta branca com MOTHER estampado no peito. Nenhum sinal daquela maternidade editorial pasteurizada, toda em linho cru, cerâmica artesanal, pão de fermentação natural e crianças estrategicamente descalças. Graças a Deus… Gisele é mãe de três, mas a palavra estampada no corpo admite outra interpretação bastante saborosa: na gramática contemporânea da cultura, ela também é a Mother. Aquela que chegou antes, estabeleceu códigos, criou descendência estética e viu gerações inteiras aprenderem o vocabulário de modelo com sua imagem… É bebê, atura ou surta.

Gisele Bündchen na i-D 377: de garota observada a mulher que escolhe falar
Esta é a sétima capa de Gisele para a i-D, e a relação entre as duas já dura 28 anos. A primeira aconteceu em dezembro de 1998, na edição nº 182, “The Cheeky Issue”, fotografada por David Sims e com styling de Anna Cockburn. Depois vieram outras cinco antes deste reencontro de 2026. Há uma diferença entre aquela garota e esta mulher que nenhuma cronologia de capas consegue medir direito, honey: na primeira vez, Gisele sequer foi entrevistada. Falavam sobre ela… Agora, Steff Yotka passa horas em sua casa em Miami ouvindo-a falar sobre trabalho, filhos, ansiedade, disciplina, corpo, espiritualidade, escolhas e o sentido que decidiu dar ao próprio tempo. Em 1998, a instrução parecia ser: olhem para ela. Em 2026, talvez seja hora de escutá-la.

A moda, aliás, possui uma habilidade quase sobrenatural para operar pequenas cirurgias plásticas na própria memória. Depois que alguém se transforma em fenômeno, subitamente todo mundo parece ter percebido o fenômeno chegando… Não percebeu. Gisele atravessou aqueles 42 castings enquanto o padrão dominante dizia, por ação ou omissão, que havia algo errado ali. No casting de McQueen, segundo sua própria lembrança, havia garotas fazendo fila ao redor do quarteirão. Ele colocou as candidatas em sapatos praticamente impossíveis e mandou andar. Gisele entrou… Depois veio o desfile, o choro nos bastidores, o medo de que o pai visse as imagens mais reveladoras e, claro, a carreira que conhecemos. Nesse contexto, o que hoje parece destino foi, naquele momento, uma exceção dentro de uma sequência de recusas… Ui ui ui!

E aqui está a graça histórica do assunto: Gisele passou anos tentando conseguir um “sim”; hoje, grande parte de seu poder está justamente em poder responder “não”.

Dos 42 castings ao 1%: quando o poder de Gisele passa a ser a escolha
Na conversa para a i-D, Gisele explica que rejeita aproximadamente 99% das propostas porque passou a calcular trabalho com outra matemática. A questão já não é somente cachê, cliente, fotógrafo, exposição ou prestígio. O trabalho vale perder o jogo de vôlei da filha? Vale deixar de ir ao parque com o filho? Vale abrir mão de alguma coisa que não poderá ser refeita na terça-feira seguinte por uma equipe de produção?

É uma virada fascinante para alguém cuja primeira juventude profissional foi construída sobre disponibilidade quase absoluta. Ela recorda um período em que trabalhava perto de 360 dias por ano, tentando entregar tudo, sempre, porque sentia que não podia desperdiçar oportunidade. Naquele mercado, dizer não podia significar que o telefone simplesmente não tocaria novamente. Gisele aprendeu cedo a transformar disciplina em sobrevivência. Hoje, transformou seleção em luxo. Não porque abandonou a moda, tampouco porque “trocou a carreira pela maternidade”, simplificação preguiçosa que faria esta história perder justamente o que ela tem de melhor. Gisele reorganizou sua hierarquia de valor… É outra coisa, darling Lee.

Até a lembrança de Tóquio, para onde foi aos 15 anos sem falar japonês ou inglês, ganha outra temperatura quando vista assim. A adolescente telefonava para a família por cartão internacional, em aparelho fixo, a cada duas semanas; perdia-se no metrô e, segundo conta à i-D, sentia que estava verdadeiramente experimentando a vida. Hoje, depois de construir um grau de controle sobre a própria carreira que pouquíssimas modelos conheceram, ela diz querer recuperar justamente um pouco daquela sensação. Há algo belíssimo na mulher que passou décadas dominando o mapa sentir saudade da menina que ainda podia se perder. Seu celular agora permanece no silencioso. O telefone de 1995 servia para alcançar quem estava longe. O de 2026 parece cumprir melhor sua função quando o mundo não consegue alcançá-la.

Também por isso as fotografias de Collier Schorr funcionam tão bem. O corpo de Gisele não está ali como peça de museu muito bem conservada dos anos 2000, e seria um desperdício escrever sobre “como ela continua incrível aos 46”. Preguiçaaaaa. O corpo aparece em uso, cheio de presença. Ela fala de musculação, pilates, yoga, jiu-jitsu, surf, stand-up paddle e comemora conseguir fazer barras pela primeira vez. Schorr responde com peso, músculo, lingerie, couro, pernas, humor. Não parece haver obsessão em preservar a garota. O interesse está na mulher que descobriu novas maneiras de habitar o próprio corpo.

O vidro no sapato, a NYFW SS27 e a profissão que Gisele encontrou
Talvez seja justamente por isso que uma velha história de backstage tenha voltado a parecer tão estranha agora. Em 2024, a top poderosa Isabeli Fontana contou que Gisele encontrou vidro dentro do sapato antes de um desfile da Versace, em 1999, e chegou a se cortar. Isabeli disse que Gisele sabia quem havia feito aquilo, mas não revelou o nome. Nesta semana, uma nova versão voltou às redes e foi publicada pelo Metrópoles, atribuindo o episódio a Carmen Kass a partir de um comentário reproduzido por uma influenciadora e creditado a um booker. A reportagem afirma que teria sido uma “brincadeira infeliz” entre amigas. Até aqui, porém, não há uma confirmação primária publicamente acessível de Gisele que nos permita transformar essa atribuição em fato. Portanto, ninguém precisa de uma vilã estoniana para esta história funcionar… né?
O episódio é mais revelador quando olhamos para o ambiente que o tornou possível. Se colocar vidro no sapato de uma colega podia circular décadas depois na categoria de “brincadeira”, talvez o problema seja um pouquinho maior do que quem segurou a taça, convenhamos. Aquela geração trabalhou em uma indústria na qual resistência, silêncio, competição, corpos levados ao limite e pouca proteção institucional eram frequentemente embalados como profissionalismo. Você chegava, aguentava, fazia o trabalho e voltava para casa. Se possível sem reclamar, porque sempre havia outra garota esperando do lado de fora.

A coincidência com a New York Fashion Week SS27, acontecendo justamente agora, é difícil de ignorar. Enquanto uma nova geração de brasileiras atravessa castings e passarelas em Nova York, o estado já opera sob o Fashion Workers Act, em vigor desde 19 de junho de 2025. A legislação estabeleceu obrigações para empresas de management e clientes relacionadas a segurança, remuneração, deal memos, assédio, condições de trabalho e consentimento para réplicas digitais; desde dezembro de 2025, empresas de management abrangidas pela lei também precisam se registrar junto ao Departamento do Trabalho de Nova York. Não, evidentemente a legislação nova-iorquina não tem relação jurídica com um episódio ocorrido décadas antes e fora dos Estados Unidos. A comparação é cultural, honey. Demorou, mas alguém resolveu formalizar uma ideia quase revolucionária para uma indústria que adora chamar todo mundo de family: modelo é trabalhadora. Chocante, eu sei.
A pergunta interessante para quem acompanha as brasileiras da SS27, portanto, é outra: que profissão essa nova geração herdou da geração de Gisele? Certamente uma ainda imperfeita, competitiva e cheia de zonas cinzentas, mas na qual proteção, pagamento, consentimento e abuso já conseguem entrar oficialmente na conversa. Isso, por si só, muda muita coisa.

Gisele Bündchen e Victoria’s Secret: o que cabe naquele misterioso 1%?
A matéria poderia terminar lindamente em Miami, com filhos, mar, celular no silencioso e 99% dos trabalhos seguindo educadamente para alguma pasta imaginária chamada “obrigada, mas passo”. Só que a moda, inconveniente como sempre, deixou uma fagulha deliciosa no cenário.
No editorial da i-D, Gisele Bündchen volta a vestir Victoria’s Secret. Não uma relíquia retirada do arquivo para produzir nostalgia Y2K, mas lingerie contemporânea da marca. A linha Very Sexy Envy, inclusive, está atualmente no catálogo da Victoria’s Secret. E a própria VS repercutiu Gisele em seu Instagram. Ui ui ui! Calma, não precisa procurar as asas no depósito ainda: não há qualquer confirmação de que Gisele esteja no Victoria’s Secret Fashion Show 2026. Sou jornalista, não cartomante, embora às vezes a moda se esforce bastante para confundir as profissões… (risos)
O reencontro visual, porém, possui memória… Em 2023, Gisele voltou oficialmente à Victoria’s Secret para a campanha The Icon, fotografada por Mikael Jansson, em um elenco que reuniu Naomi Campbell, Adriana Lima, Candice Swanepoel, Adut Akech, Paloma Elsesser, Hailey Bieber, Emily Ratajkowski e outros nomes. Em 2024, o TMZ noticiou, citando fontes próximas à situação, que a marca tentou levá-la de volta ao fashion show e recebeu uma recusa de sua equipe. Informação atribuída, portanto, não declaração da própria Gisele.

Agora corta para setembro de 2026, baby. A Victoria’s Secret já marcou seu próximo fashion show para 18 de outubro, ao vivo de Los Angeles, e informa oficialmente que o casting ainda está sendo revelado. Gisele aparece na i-D de lingerie VS, a marca compartilha sua imagem e, na mesma entrevista, ela nos informa que rejeita 99% dos trabalhos que chegam até ela. Não existe notícia de retorno. Não existe anúncio escondido. Não existe informação privilegiada. Existe, entretanto, uma pergunta irresistível.
Durante muito tempo, o futuro de Gisele Bündchen dependeu de alguém do outro lado de uma sala olhar para ela e dizer sim. Alexander McQueen disse. Steven Meisel percebeu. A indústria, depois de alguns nãos constrangedores, acabou entendendo o que tinha diante dos olhos. Hoje, a dinâmica se inverteu. É Gisele quem recebe as propostas, compara trabalho com vida e decide se alguma delas merece atravessar a porta daquele minúsculo 1%.

E então a Victoria’s Secret veste Gisele novamente enquanto prepara uma passarela… Não sabemos se houve convite. Não sabemos se existe conversa. Não sabemos sequer se ela considera a possibilidade.
Mas depois de uma carreira inteira atravessada pela palavra “não”, confesse: dá uma curiosidade danada imaginar qual trabalho ainda seria capaz de arrancar de Gisele Bündchen um “sim”.
Se for aquela runway… Bom… sonhar ainda não é informação privilegiada. Né, mon amour?
Foto: Collier Schorr
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