Na coleção “Natureza Morta”, Marco Normando e Emídio Contente transformaram látex, banana podre, folhas, bronze oxidado e memória amazônica em uma das leituras mais inteligentes do tempo na passarela carioca… ui ui ui, mon petit!
Por Fábio Lage – House of Models
Toda natureza-morta é uma mentira elegante
Honey Lee de Bangu e adjacências… toda natureza-morta é uma mentira elegante… neah? A fruta parece parada, mas está apodrecendo. A folha parece decorativa, mas está esperando a umidade certa para voltar. O bronze parece monumental, mas basta o tempo encostar para ele começar a respirar em verde. E mon amour; foi nesse intervalo perigoso, entre a beleza e a decomposição, que Marco Normando e Emídio Contente colocaram a Normando na badalada passarela do Rio Fashion Week.
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E euzinho estava lá e vi com esses olhos de Téo Pereira (bjs, Paulo Betti). Primeira fila, olho grudado na roupa, celular em modo sobrevivência fashion e aquela sensação que só quem já viu muitos desfiles ao vivo entende, bebê: algumas coleções chegam gritando conceito; outras entram em silêncio e, quando você percebe, já estão reorganizando sua cabeça. A Normando fez a segunda coisa… Não pediu licença… Entrou pela fresta.
Da primeira fila, o que se via não era uma coleção “inspirada na Amazônia”, essa frase perigosa que muitas vezes serve para embalar preguiça tropical em papel de seda. O que se via era uma coleção sobre matéria. Matéria que corta, escorre, coagula, apodrece, oxida, amarra, cobre, revela e, sobretudo, volta. A Amazônia da Normando não era cenário, não era postal, não era moodboard exótico para impressionar gente que acha que Brasil profundo começa no filtro verde do Instagram. Era método, baby. Era força. Era tempo… Adoron!
A coleção “Natureza Morta” chegou ao Rio Fashion Week com 35 looks oficiais, femininos e masculinos, construídos a partir de materiais como lã, seda, algodão pima, liocel e látex, com styling visionário de Guilherme Alef e direção babadeira de Ed Benini. Mas reduzir o desfile a essa informação técnica seria como olhar uma cuia indígena e enxergar apenas um recipiente vazio. A pergunta da Normando era outra: o que uma coisa contém quando parece vazia? O que uma fruta diz quando já passou do ponto? O que uma floresta faz quando a cidade acha que conseguiu domesticá-la?
Spoiler, mon amour: ela volta.

A primeira fresta já dizia tudo
O primeiro look apareceu em preto, seco, cortado, quase severo. Uma camisa sem mangas com gola fechada e ombros estruturados, combinada a uma saia na altura do joelho, ambas atravessadas por fendas verticais. De longe, poderia parecer grafismo. De perto, bebê… era mais interessante: a roupa parecia aberta por dentro, como se a superfície tivesse sido ferida com precisão. A pele surgia sem essa sensualidade fácil, mas como consequência de uma matéria que foi atravessada.
Esse começo foi inteligente porque a Normando recusou o óbvio, né, amore… Nada de abrir com verde exuberante, folha cenográfica e “olhem, somos amazônicos”. O primeiro look era urbano, escuro, quase clerical. A Amazônia ainda não estava na cor; estava na estrutura. Estava na fresta, na nervura, na pele que aparecia entre linhas, no corpo tratado como território.
Logo depois, o branco entrou como contraponto. Um vestido-camisa com recortes e pequenos módulos aplicados parecia uma superfície limpa atacada por interrupções. O branco, ali, era campo de intervenção. E isso é uma das coisas mais sofisticadas do desfile: a Normando entendeu que a roupa pode ser amazônica sem precisar ilustrar a floresta a cada cinco segundos, Deus me FREE! Às vezes, a floresta está no modo como a peça respira.
As camisas brancas recortadas, vistas de perto, eram especialmente interessantes. O acabamento dos cortes verticais, as tiras que criavam ritmo, as aberturas nas mangas e na barra revelavam uma construção gráfica muito precisa. Havia ali uma conversa direta com as folhas largas do Tambatajá e do Tajá, referências citadas pela própria marca como superfícies usadas para embrulhar, cobrir e transportar. Ou seja darling Lee de Ipanema: aquilo não era só corte para fazer bonito em foto alheia… Era roupa pensando superfície como abrigo, como plano, como fresta e como corpo… atura ou surta, baby!

Não era verde. (Não era?) Era umidade, umidade, umidade.
Quando o degradê verde começou a aparecer, primeiro em camisas e depois em vestidos, o desfile mudou de temperatura de uma forma deliciosa. O verde chegou como contaminação. Parecia musgo subindo pela roupa, água acumulada, sombra de mata, limo, umidade. Um casaco de mangas volumosas em tons de branco e verde se movia com uma leveza estranha, quase como se o tecido tivesse sido mergulhado numa margem de rio e voltasse carregando a memória da água.
O vestido tomara que caia em degradê, amplo e silencioso, foi um desses momentos em que a simplicidade fez mais do que muito look cheio de intenção. A peça caminhava com calma, deixando a cor trabalhar por ela. A parte escura moldava o colo, o branco respirava no centro e o verde reaparecia na barra, praticamente como se a roupa tivesse tocado o chão úmido antes de entrar na passarela… Sabe? Ao vivo, esse tipo de efeito é decisivo. Foto congela, mas a passarela mostra a temperatura da peça. E ali a roupa tinha temperatura. Fria, úmida, um pouco fantasmática, da forma que amamos.
Então veio a folha verde monumental. E aí, honey, não tinha mais como fugir da imagem. Um grande volume em forma de folha cobria o tronco do modelo, com nervuras discretas desenhadas sobre a superfície. O risco do literal estava ali, sorrindo na beira da passarela. Mas a peça se sustentava porque a base preta limpava o gesto e porque a construção tinha escala de símbolo, não de fantasia. Era teatral sem virar alegoria. E olha que, no Brasil, todo mundo acha que sabe lidar com teatralidade até aparecer uma roupa grande no caminho e virar carro abre-alas de shopping. Aqui não, bebê. Aqui a folha funcionava como escudo, corpo e cartaz vegetal babadeiro da coleção.
Esse foi um dos primeiros sinais de que a Normando queria transformar a natureza em estrutura, não em ornamento basiquinho… A folha não estava “aplicada” sobre a roupa; Ela era a roupa, mon petit. Ela reorganizava a proporção do corpo. O modelo deixava de ser apenas modelo e se tornava uma simbiose orgânica de uma forma botânica. Atura ou surta, bebê… isso é para poucos!

O matapi, o açaizeiro e a geometria antes do PowerPoint
Uma das passagens mais bonitas da coleção está na referência ao matapi, armadilha de pesca usada para capturar camarão nos rios amazônicos, trançada em palha pelos povos indígenas. A Normando lê esse objeto como uma geometria rigorosa, uma espiral funcional, um módulo que o Art Déco nativista brasileiro teria tentado reinventar por décadas.
Isso é muito mais interessante do que “referência artesanal”, essa expressão que a moda usa e abusa até virar etiqueta de loja conceitual em aeroporto. O matapi aparece como inteligência construtiva. Forma que nasceu da necessidade, da mão, do sustento, do rio. E, quando isso entra na roupa, muda tudo… babadeiramente falando, ok?

As folhas do açaizeiro emaranhadas sobre blazers, vestidos e saias, ficaram muito evidentes nos looks com tiras verdes atravessando o corpo. Em um blazer preto, essas tiras cruzavam os ombros e o peito como uma amarra vegetal. Ao vivo, era possível perceber que elas não estavam ali só para “dar cor”, bebê… Elas criavam ritmo, volume e contenção. Pareciam cipó, laço, armadura e ornamento ao mesmo tempo… Bem phino!
E com toda certeza dada a mim, por Nossa Senhora Diana Vreeland… esse detalhe é uma das chaves da coleção. A natureza não desfila por aí como estampa educadinha. Ela amarra a alfaiataria; interrompe o blazer e invade a roupa formal… essa instituição ocidental toda engomadinha, e diz: “segura aqui, darling, agora quem manda sou eu”.
O styling de Guilherme Alef foi decisivo para manter essa tensão no lugar certinho. Havia risco de excesso? Obvioussss. Quando se trabalha com folha, látex, banana, pátina, bronze, renda, transparência, alfaiataria e objeto, o risco de virar salada conceitual é real. Mas o desfile tinha uma organização visual clara. Preto, branco, verde, vermelho, ferrugem e cinza oxidado apareciam como capítulos de uma mesma história, não como gritos soltos pedindo atenção por aí…

Látex: o brilho preto não era nada inocente
A parte mais sedutora e, ao mesmo tempo, mais política do desfile estava no brilho preto. Casacos, jaquetas, calças e superfícies envernizadas atravessaram a passarela como se a luz tivesse sido capturada por uma matéria líquida. Da primeira fila, esse brilho não parecia simplesmente “chique”. Parecia molhado. Parecia seiva. Parecia borracha. Parecia algo que ainda lembrava o corte da árvore… orgânico, neah, meus amores!
E convenhamos, honey Lee do céu de brigadeiro… aqui a coleção arrasa e muito. A Normando é direta ao lembrar que o látex das seringueiras amazônicas construiu fortunas e destruiu povos. Ou seja: aqui o látex não aparece como matéria meramente inocente, baby. Não é “material sustentável bonitinho” para fazer render legenda consciente. É matéria com memória. Matéria que carrega exploração, desejo, economia, violência, floresta sangrada e moda tentando transformar tudo isso em roupa.
Um trench preto brilhante, longo, usado sobre camisa clara com leve toque esverdeado, tinha força de imagem imediata. Era urbano, cinematográfico, quase fetichista. Mas, dentro da narrativa, ele ia além da sedução… Ele convertia o látex em armadura. Já o look masculino com uma grande placa preta envernizada atravessando o torso parecia uma escultura líquida. O corpo virava bloco, o brilho virava pele, a roupa virava objeto. Não era fácil. Ainda bem… Ui ui ui, que delicinha de coleção, meninos!
A jaqueta preta brilhante com saia vermelha, desfilada pela top alagoana Sayonara Romão, merece um parágrafo próprio. Porque quando ela cruzou a passarela, a Gaby Amarantos que mora em mim levantou do sofá interno e cantou baixinho: “saia vermelha, camisa preta, chegou pra abalar”. E abalou mesmo. Mas aqui o abalo não vinha só do contraste cromático irresistível, quase tecnobrega em estado de alta-costura amazônica. Vinha da tensão entre o preto envernizado, que carregava a memória do látex, da seringueira, da floresta sangrada, e o vermelho quente da saia, que parecia fruta madura, urucum, ferrugem, desejo e alerta. Era pop, era sofisticado, era perigosamente fotografável. E era Normando entendendo que uma roupa pode carregar história sem perder a capacidade de botar a passarela para dançar por dentro… Treeeeeme!
Sayonara Romão, aliás, deu ao look a presença exata e cirúrgica. A roupa precisava de corpo, de andar, de segurança, de uma beleza que não pedisse desculpa. Ela entregou tudo, bebê. E esse tipo de casamento entre modelo e roupa é o que muita crítica apressada ignora. Casting não é detalhe. Casting é leitura de imagem. Um look muda dependendo de quem o veste. E nesse caso, honey Lee de Maceió, o encontro lacrou.

A banana podre de Ferreira Gullar entrou na sala
A coleção muda de novo quando entram as bananas. E sim, eu sei: escrever “quando entram as bananas” em uma crítica de moda parece pedir deboche automático. Mas calma, mon amour do deboche… Aqui o buraco era mais embaixo, ou melhor, a fruta estava mais passada.
A Normando convoca Ferreira Gullar e suas bananas podres para pensar o apodrecimento não como falha, mas como tema. A natureza-morta, afinal, sempre soube disso. A fruta parada na tela não está preservada; ela está testemunhando o tempo. A banana apodrece na cesta, no poema, na estampa, na roupa e na nossa ideia de beleza. E foi justamente essa honestidade com o tempo que deu sentido aos looks com estampa de casca escurecida, tons de marrom, preto, ferrugem e amarelo queimado.
O vestido longo estampado com essa matéria oxidada foi um dos melhores momentos do desfile. A estampa caía pelo corpo como casca, madeira queimada, fruta em decomposição, superfície atacada pelo tempo. A fenda frontal dava ar, a manga longa dava severidade, e o painel lateral criava drama sem precisar implorar por aplausos de graça. De perto, a peça tinha uma força pictórica. Era quase uma tela em movimento, mas sem virar fantasia de museu.
O casaco na mesma estampa, usado aberto sobre o torso nu, trazia outra temperatura: mais sensual, mais editorial, mais capa de animal, mais pele externa. Já a saia com camisa branca mostrava a inteligência comercial da coleção. Separadas, as peças funcionam no guarda-roupa. Juntas, contam a história. E isso é um ponto importante porque conceito sem produto é só palestra com luz bonita, darling. A Normando, na maior parte do desfile, soube equilibrar desejo e pensamento.
O look com top amarelo e bananas aplicadas no busto foi o momento mais arriscado dessa conversa. Visto de lado, a banana-objeto se projetava para fora do corpo como uma prótese pop, quase surrealista, quase piada, quase manifesto. Esse é o tipo de peça que pode dividir a sala. E que bom. Moda que não divide nada geralmente também não soma muito.
E convenhamos, mon amour de Itapecerica da Serra… a banana estava perigosamente perto do gimmick. Mas, sustentada pelo conceito de Gullar, pela natureza-morta e pela própria sequência do desfile, ela escapa do meme barato. Era humor, sim. Era imagem pop, sim. Mas também era uma pergunta sobre representação, alimento, desejo e banalidade. Afinal, o que acontece quando um elemento cotidiano, quase ridículo de tão comum, vira escultura sobre o corpo? A resposta da Normando foi: acontece moda. Ou, pelo menos, acontece conversa. E conversa boa, darling, já é metade do babado.

Bronze oxidado: quando Belém encontra o Rio pela pátina
O capítulo final da coleção foi dominado por uma superfície cinza-esverdeada, mineral, oxidada. A Normando fala do bronze oxidado, da pátina, do verdigris, dessa camada que cobre monumentos e edifícios Art Déco quando a umidade decide que a escultura já ficou quieta tempo demais. Essa referência é muito poderosa porque aproxima Belém e Rio de Janeiro por uma via menos óbvia: não pela praia, não pela floresta, não pelo cartão-postal, mas pelo tempo.
O Rio é uma cidade de umidade, de ruína bonita, de fachada que descasca, de bronze que esverdeia, de memória que insiste em aparecer mesmo quando a especulação tenta passar massa corrida por cima. Quando a Normando traz o bronze oxidado para o encerramento do desfile, ela traz a Amazônia pro centro da conversa. Assim como ela também está lendo também a cidade onde desfila. E isso é muito fino.
A jaqueta cinza oxidada, com volume arredondado e quase inflado, parecia uma couraça desgastada. A calça preta com aplicações circulares nos joelhos reforçava a sensação de remendo, proteção, cicatriz material. Depois veio a camisa branca com um torso cinza impresso ou aplicado, criando a ilusão de corpo fossilizado, corpo mineral, corpo como vestígio. A boca coberta por uma placa foi uma das imagens mais inquietantes do desfile. Silêncio, objeto, ritual, censura, máscara, cuia, dente, armadilha. Tudo ali cabia. E nada precisava ser explicado demais.

Esse é o tipo de gesto que separa uma coleção decorativa de uma coleção com pensamento critico afiado. A roupa não era apenas “bonita”, bebê. Ela estava criando figura. Criando personagem. Criando incômodo. A boca coberta, vista de perto, era pura declaração.
O vestido curto cinza oxidado, com busto moldado, assimetria e superfície quase metálica, retomava a sensualidade da coleção em chave mineral. O corpo parecia blindado e exposto ao mesmo tempo. Já o look final, com vestido curto na frente e cauda longa atrás, ombros estruturados e textura de bronze consumido pelo tempo, fechou a narrativa com impacto perfeito. A frente mostrava o presente caminhando. A cauda arrastava memória. Meu Deus, às vezes a moda acerta uma metáfora sem precisar colocar legenda em caixa alta.
E ali, no encerramento, ficou bem claro para mim: a Normando não queria terminar com floresta verdejante… Queria terminar com vestígio. Com pátina. Com aquilo que sobra quando o tempo passa e a natureza recupera a autoria.

Casting não é rodapé, mon amour!
Uma crítica de moda que ignora casting está olhando metade do desfile com o olho fechado. Na Normando, os corpos ajudaram a contar a história. A marca trouxe nomes como Anick Chan, Deusa Mandolinde, Lulu Yu, Julia Barucci, Marcelle Bittar, Daiane Conterato, Fernando Schnerocke, Noah Alef, Flavia Fontanetti e Carol Ribeiro, e a presença de Sayonara Romão na passarela ampliou esse jogo entre roupa, imagem e personalidade. O casting tinha diversidade de corpos, gêneros, tipos de beleza e atitudes, mas sem transformar isso em cartaz moralista. Funcionava porque a roupa precisava dessa variação.
Os cabelos, em muitos momentos, vinham com aspecto úmido, colados, ou em ondas que pareciam carregar a água da própria narrativa. A beleza não competia com as peças. Acompanhava lado a lado. Em alguns rostos, o verde nos olhos aparecia como um eco cromático da coleção, sem virar maquiagem temática de festa à fantasia. A pele tinha brilho controlado, suficiente para conversar com látex, seiva e umidade. Os acessórios, especialmente as peças douradas, funcionavam como fragmentos de cuia, metal, objeto ritual, quase relíquias deslocadas… que delicia de coleção!
Nos bastidores, esses acessórios crescem. O bracelete dourado usado com as camisas recortadas e os vestidos oxidados, os brincos grandes em looks de ombro exposto, a peça dourada no look branco e preto assimétrico, tudo isso ajudava a construir uma ideia de ornamento que não é apenas luxo por luxo, darling… É objeto. É memória manual. É brilho com função simbólica babadeira.
E aqui vale dizer: a direção de Ed Benini manteve o desfile com ritmo suficiente para que os looks respirassem. Algumas peças precisavam de tempo para serem lidas. O público, com celulares erguidos dos dois lados da passarela, reagia especialmente aos volumes vegetais, ao brilho preto, às bananas e aos bronzes oxidados. Mas a coleção não dependia apenas do impacto imediato. Ela ia acumulando sentido.

O que funcionou, o que quase escapou e por que isso importa
A força da Normando em “Natureza Morta” está em transformar território em linguagem. Essa frase parece simples, mas não é. Muita marca brasileira ainda trata identidade como decoração: uma estampa aqui, uma referência cultural ali, uma música regional acolá e pronto, “celebramos nossas raízes”. A Normando foi mais longe. Marco Normando e Emídio Contente construíram uma coleção em que a Amazônia opera como pensamento visual.
O que funcionou melhor foi justamente essa transformação da natureza em ação. A natureza corta a camisaria. Amarra o blazer. Escorre no látex. Apodrece na banana. Oxida no bronze. Silencia a boca. Vira folha, mas também vira pátina. Vira fruta, mas também vira pergunta. Vira luxo, mas um luxo Desconfortavelmente confortável, úmido, com cheiro de tempo.

Os melhores looks foram aqueles em que a ideia se fundiu à construção da roupa. As camisas brancas recortadas, o blazer com tiras verdes de açaizeiro, os pretos envernizados, o look de Sayonara, o vestido longo de estampa oxidada, a camisa branca com saia de banana apodrecida, o torso mineral com boca coberta e o look final de bronze oxidado são roupas que sustentam texto, foto e memória.
Os momentos mais frágeis aparecem quando o símbolo chega perto demais do literal. A banana aplicada no busto, por exemplo, caminha numa corda bamba. Mas, sinceramente, eu prefiro uma coleção que arrisca uma banana perigosa a uma coleção inteira de vestidos corretos morrendo de medo de virar assunto. Tá na Disney quem acha que moda autoral se faz sem risco. Risco é parte do jogo. O problema é quando o risco não tem repertório. Aqui tinha, bebê!
Do ponto de vista de mercado, “Natureza Morta” também mostra maturidade. Existem peças de passarela, peças de imagem, peças de tese. Mas existem também produtos desejáveis: jaquetas, camisas, vestidos, saias, tops, casacos e peças de alfaiataria que podem sair do discurso e entrar no armário de uma cliente ou um cliente com repertório. E é obviousss que isso importa, mon petit da Silva. A moda tupiniquim não pode ficar aprisionada entre o artesanato romantizado e o produto básico sem alma. A Normando aponta um terceiro caminho: roupa com pensamento, mas com desejo.

A Normando no Rio: a floresta contra o monumento
Há algo especialmente interessante em ver essa coleção no Rio Fashion Week. O Rio, com sua própria história de glória, abandono, retorno e reinvenção, é uma cidade que entende de natureza retomando espaço. Basta olhar um muro, uma calçada, uma fachada esquecida, um prédio antigo, uma pedra, uma árvore insistente. A cidade vive em disputa permanente entre projeto urbano e força natural Maravitchosa!
Por isso, quando a Normando fala de bronze oxidado, Art Déco, pátina e natureza retomando aquilo que parecia monumento, o desfile ganha uma camada carioca inesperada. Belém encontra o Rio pela umidade. A Amazônia encontra o Píer Mauá pelo tempo. A floresta conversa com a cidade não como paisagem, mas como destino fiel. Tudo que é construído um dia encontra o ar, a água, o fungo, a ferrugem, o abandono, a volta.

Marco Normando, formado em Moda pela Universidade da Amazônia, e Emídio Contente, artista visual e publicitário, ambos de Belém do Pará, carregam para a marca uma pesquisa que não soa importada. E convenhamos meus querides, a Normando não parece estar “usando” a Amazônia. Parece estar falando a partir dela. Isso muda tudo de uma maneira tão fantástica… A marca já vinha sendo observada por gente séria, inclusive tendo sido celebrada no Vogue Celebra em 2022, mas este desfile no Rio Fashion Week reforça uma ambição maior: ocupar o sistema nacional com uma linguagem própria, sem pedir tradução para agradar eixo nenhum.
E digo isso porque a moda brasileira precisa urgentemente parar de tratar criadores fora do circuito Rio-São Paulo como “descobertas”. Descoberta para quem, darling? Belém não nasceu quando a Faria Lima olhou para o mapa. A Amazônia não começou a existir quando virou pauta ESG. O Brasil profundo não precisa de autorização do centro para ser sofisticado. A Normando prova isso com roupa, e roupa é argumento difícil de rebater quando entra bem na passarela.

No fim, até a decomposição sabia desfilar
Saí do desfile com a sensação de ter visto uma coleção que não tentou agradar pela facilidade. E isso, hoje, já é quase um ato de resistência. “Natureza Morta” poderia ter sido uma coleção bonita sobre Amazônia. Seria mais simples, mais vendável no papel, mais domesticada. Mas a Normando escolheu falar do tempo. E tempo é assunto perigoso porque ele não obedece styling.
O tempo apodrece a fruta, oxida o bronze, coagula o látex, mancha a superfície, abre frestas, transforma objeto em memória e memória em roupa. O tempo também revela quando uma marca tem pesquisa de verdade ou quando está apenas fantasiada de conceito para atravessar a temporada. No caso da Normando, o que se viu ao vivo foi uma coleção com pensamento, risco, produto, imagem e uma noção muito clara de que território não precisa virar folclore para ser reconhecível.

E que bom que não foi um desfile perfeito… Ainda bem! Perfeição demais às vezes é só medo bem passado. A coleção teve seus excessos, suas literalidades perigosas, seus momentos em que a imagem quase encostou no abismo do óbvio. Mas preferiu o abismo ao chão seguro. E, quando uma marca brasileira escolhe entrar na passarela com banana podre, látex sangrado, bronze oxidado, folha gigante, boca silenciada e ainda consegue fazer roupa desejável no meio disso tudo, o mínimo que se pode dizer é: o babado é certíssimo, bebê!
A Normando mostrou que a natureza, quando morre, não desaparece. Ela muda de textura, vira mancha, vira memória, vira objeto, vira roupa. E, nas mãos certas, mon amour, até a decomposição sabe desfilar.
Foto: AG Fotosite
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