Adriana Lima e a Victoria’s Secret: 21 desfiles e uma história de poder

Da adolescente descoberta em Salvador à mulher que encerrou seu 21º desfile em Los Angeles, a brasileira atravessou três décadas de transformações da Victoria’s Secret sem deixar que uma única marca contasse toda a sua história.

Por Fabio Lage – House of Models

O cenário poderia ter sido inventado por um diretor de televisão obcecado em produzir um final memorável. Em 18 de outubro de 2026, sob as luzes do Victoria’s Secret Fashion Show, em Los Angeles, Adriana Lima reapareceu de branco, com um conjunto luminoso e asas que pareciam querer ocupar o palco inteiro. Era a última travessia da noite e, durante aqueles poucos segundos, a marca colocava diante das câmeras a imagem de uma mulher que ajudou a transformar suas campanhas em memória afetiva de milhões de pessoas. O público via uma supermodelo encerrando um desfile; a indústria, se estivesse prestando atenção, via uma negociação de poder que começou quando a internet ainda nem sabia o que fazer com um vídeo de passarela.

A baiana tinha 45 anos e completava sua 21ª participação no espetáculo, número que importa menos pela matemática isolada do que pelo que carrega. Vinte e uma participações não significam vinte e um anos consecutivos, muito menos uma carreira limitada à Victoria’s Secret. Significam uma trajetória que atravessou o auge televisivo das Angels, uma despedida pública em 2018, a interrupção do formato tradicional do desfile, o retorno em 2024 e mais duas edições. E, antes que alguém venha anunciar a descoberta revolucionária de que mulheres com mais de 40 anos podem trabalhar, convém avisar: Adriana Lima nunca precisou dessa aula.

O mais curioso é que a passarela de 2026 não foi sua única grande entrada naquele mês. Pouco mais de duas semanas antes, ela havia aberto a apresentação de alta joalheria da Messika em Paris; em setembro, circulara pelo Vogue World em Milão e pelo desfile de Thom Browne em Nova York. Depois do evento de Los Angeles, ainda surgiu em um projeto editorial que a levou, entre outras cenas, para o jardim de sua casa nos Hamptons. Ui ui ui… para quem gosta de tratar longevidade profissional como um presente concedido pela indústria, a agenda de Adriana Lima é um belo inconveniente.

Adriana Lima no Victoria’s Secret Fashion Show 2026, em Los Angeles

Antes de virar Angel, Adriana já tinha aprendido a sair de Salvador para o mundo

Não existe história de Adriana Lima que comece honestamente numa asa. A primeira cena está em Salvador, Bahia, onde nasceu em 12 de junho de 1981, muito antes de qualquer departamento de publicidade transformar seu olhar em patrimônio visual. A entrada na profissão não foi consequência de um projeto de infância cuidadosamente planejado para conquistar Nova York. Ela acabou participando de uma seleção de modelos depois de acompanhar uma amiga que não queria ir sozinha; venceu o concurso Supermodel of Brazil, da Ford, aos 15 anos, e ficou em segundo lugar no Supermodel of the World, em 1996.

A partir daí, veio a mudança para Nova York, em 1997, a entrada no circuito de agências internacionais e a estreia numa passarela de Anna Sui em setembro daquele ano. Em 1998, a brasileira já fotografava capas, incluindo uma edição da Marie Claire brasileira. A máquina da moda ainda seguia um roteiro reconhecível: agência, testes, fotógrafos, temporadas, campanhas e revistas capazes de apresentar um rosto ao mundo. Era um sistema cheio de portas difíceis e de filtros que o público raramente via. Adriana Lima conseguiu atravessá-lo antes de virar sinônimo de lingerie.

Seu relacionamento profissional com a Victoria’s Secret começou em 1998; a primeira participação no Fashion Show foi em 1999; o vínculo como Angel veio em 2000. Parece preciosismo distinguir as três datas, mas a moda passa boa parte do tempo confundindo contrato, campanha, convite de desfile e fama, como se fossem o mesmo acontecimento. Não são. Uma modelo pode trabalhar com a empresa sem integrar o elenco do espetáculo; pode entrar na passarela sem ter o contrato promocional que, historicamente, identificava uma Angel. No caso de Adriana, essa sequência mostra como a relação foi se aprofundando até transformar uma profissional em um dos símbolos mais reconhecíveis da companhia.

E havia outro currículo acontecendo simultaneamente. Adriana Lima desfilou para casas como Prada, Christian Dior, Fendi, Givenchy, Louis Vuitton e Valentino, participou de campanhas para marcas que não precisavam de asas para vender suas próprias fantasias e trabalhou com fotógrafos como Steven Meisel, Peter Lindbergh e a dupla Inez & Vinoodh. A associação com a Maybelline, iniciada em 2003, ampliou ainda mais essa presença comercial. A Victoria’s Secret foi decisiva para seu reconhecimento diante de um público gigantesco, mas jamais teve o monopólio de seu talento.

Três Fantasy Bras e uma fábrica de celebridades que sabia exatamente o que estava vendendo

Nos anos 2000, o Fashion Show não era simplesmente uma apresentação de lingerie. Era entretenimento televisivo embalado como acontecimento global, com artistas no palco, uma quantidade quase antieconômica de brilho e uma seleção de modelos tratadas como personagens recorrentes de uma série em que cada temporada precisava superar a anterior. A marca percebeu cedo que podia vender muito mais do que um sutiã: vendia pertencimento, reconhecimento imediato e aquela ideia de fantasia aspiracional construída à base de publicidade, música e corpos transformados em espetáculo.

Foi nesse sistema que Adriana Lima se tornou um rosto indispensável. Não apenas porque era bonita, definição que explica muito pouco sobre uma supermodelo, mas pela maneira como encarava a câmera, sustentava o olhar e comandava uma passarela construída para transformar poucos passos em imagem de grande circulação. A marca dava a ela uma audiência difícil de reproduzir nos circuitos especializados; Adriana devolvia uma assinatura que o público identificava antes mesmo de ouvir o nome. A relação era comercial, naturalmente. Mas, ao longo do tempo, tornou-se também cultural.

O exemplo mais extravagante talvez esteja nos Fantasy Bras, peças de joalheria publicitária que ajudaram a transformar o desfile numa competição informal de cifras e carisma. Adriana Lima vestiu três deles: em 2008, o Black Diamond Fantasy Miracle Bra, avaliado em US$ 5 milhões; em 2010, o Bombshell Fantasy Bra, de US$ 2 milhões, com diamantes, safiras e topázios; e em 2014, um dos dois Dream Angels Fantasy Bras, também de US$ 2 milhões cada, apresentados ao lado de Alessandra Ambrósio. Um par de brasileiras, duas criações milionárias e uma empresa capaz de transformar pedras preciosas em notícia mundial. Atura ou surta, bebê.

Esses valores eram estimativas promocionais das peças, não cachês pagos às modelos, e convém fazer a diferença antes que alguém imagine uma transferência bancária com tantos zeros. O Fantasy Bra funcionava como um instrumento de publicidade: quanto mais extraordinária a peça, maior a chance de o espetáculo ganhar espaço fora dos veículos de moda. Estar no centro dessa operação dizia muito sobre o prestígio de quem a vestia e sobre o quanto a Victoria’s Secret dependia de certas figuras para fazer aquela fantasia parecer desejável.

Adriana Lima em traje verde e asas florais no Victoria’s Secret Fashion Show 2026

2018: a despedida que parecia definitiva, e as lágrimas que a câmera não conseguiu fabricar

Em novembro de 2018, a cena mudou de temperatura. Adriana Lima, então com 37 anos, despediu-se do desfile em Nova York num momento preparado para ser histórico. Houve homenagem em vídeo, uma caminhada individual, aplausos e uma emoção visível que desmontava por instantes a rigidez daquele espetáculo milimetricamente produzido. Ela levou as mãos ao peito e chorou. Para quem havia passado quase duas décadas associada à empresa, a despedida não era somente o fim de um contrato diante das câmeras; parecia o encerramento público de um período de vida.

A mensagem compartilhada pela própria modelo era de gratidão à marca, à qual atribuía o papel de lhe mostrar o mundo e ensiná-la a voar. A frase é bonita justamente porque permite outra leitura tantos anos depois. Adriana Lima agradecia pelas asas recebidas, mas a mulher que saiu daquela passarela não deixou ali sua capacidade de continuar voando. Seus trabalhos editoriais, campanhas e aparições internacionais continuaram, embora o espetáculo que havia ajudado a torná-la célebre entrasse numa crise de identidade que nenhuma despedida emocionante conseguiria resolver sozinha.

A edição de 2018 foi a última antes da suspensão do formato tradicional. A Victoria’s Secret enfrentava críticas crescentes ao padrão estreito de beleza que ajudara a consagrar, à pouca diversidade de seus elencos e ao discurso de antigos dirigentes sobre quais corpos teriam lugar naquela fantasia. Tratar tudo isso como simples implicância de uma geração mais jovem seria conveniência publicitária. A marca construiu imagens poderosas; também ajudou a normalizar expectativas que mereciam ser questionadas. E uma reportagem interessada em história precisa suportar as duas verdades ao mesmo tempo.

Há uma diferença, evidentemente, entre reconhecer a participação das modelos na imagem de uma empresa e atribuir individualmente a elas cada decisão tomada em seus escritórios. Adriana Lima foi personagem central daquela era, não autora solitária de suas regras. Seu legado não precisa ser apagado para que as limitações do sistema sejam discutidas; tampouco deve ser protegido de toda crítica em nome da saudade. Aliás, se o jornalismo servir apenas para repetir o que as campanhas gostariam de ouvir, podemos fechar a redação e distribuir releases com laço de cetim.

Adriana Lima durante sua despedida do Victoria’s Secret Fashion Show em 2018

A volta não aconteceu em 2026. A história recomeçou antes, e continuou fora das asas

Quando a Victoria’s Secret recuperou o formato tradicional de seu Fashion Show em 2024, reuniu veteranas e novos rostos numa tentativa de atualizar o espetáculo para um mercado que já não aceitava tão facilmente a fantasia da década anterior. Adriana Lima estava entre os grandes retornos. Reapareceu em 2025 e confirmou uma terceira participação consecutiva nessa nova fase em 2026. Não foi, portanto, uma reaparição súbita depois de oito anos de silêncio: houve retomada, continuidade e um esforço da marca para reunir as peças do próprio passado em outra configuração cultural.

Mais interessante ainda é olhar o que acontecia ao redor. Em 2026, antes de voltar à passarela da Victoria’s Secret, Adriana participou da apresentação de Spring/Summer 2027 de Thom Browne, esteve no Vogue World de Milão e abriu, em 1º de outubro, o desfile de alta joalheria Terres de Contrastes da Messika, no Grand Palais, em Paris. Fora da passarela, somou campanhas, capas e produções editoriais, incluindo trabalhos para Donna Karan e Harper’s Bazaar España. O registro dessas atividades importa por uma razão simples: uma indústria habituada a classificar mulheres pela idade muitas vezes chama de “retorno” aquilo que é apenas trabalho em andamento.

Em 21 de outubro, três dias depois do desfile de Los Angeles, o Models.com publicou um projeto audiovisual intitulado The Simple Life with Adriana Lima, dirigido por Columbine Goldsmith. A proposta era quase uma brincadeira com as expectativas que cercam a vida de uma supermodelo: a mulher que acabara de encerrar um espetáculo gigantesco aparecia cuidando de hortênsias no jardim de sua casa nos Hamptons e praticando tênis. Pode parecer uma curiosidade leve diante de números tão monumentais, mas há algo revelador nessa mudança de cenário. Uma celebridade com décadas de projeção também consegue construir imagens que não dependem de estar fantasiada como criatura celestial.

É importante não transformar essa sequência em prova de que um desfile gera outro trabalho. As datas não autorizam essa conclusão, e os contratos são negociados em calendários que o público normalmente desconhece. O que se pode afirmar é que Adriana Lima permanece ativa em circuitos distintos, da alta joalheria ao entretenimento pop, e que seu valor profissional não ficou congelado na despedida de 2018. Isso já é suficientemente interessante sem precisarmos inventar causa e efeito, mon amour.

Adriana Lima em sua participação de 2026 no desfile da Victoria’s Secret

Em Los Angeles, o verde abriu caminho para o branco. E o encerramento não foi um detalhe

Na edição de 18 de outubro, Adriana Lima fez duas entradas que contavam histórias visuais bem diferentes. Na primeira, surgiu de verde vibrante, numa composição rendada acompanhada de asas florais rosadas, integrando aquele excesso de cor e fantasia que sempre foi parte do vocabulário da grife. Depois, no encerramento, veio o branco luminoso, as grandes asas ornamentadas e a última imagem da noite. Em televisão e em transmissões digitais, a ordem importa: quem entra por último frequentemente determina a memória que o espetáculo deixa.

Escolher Adriana para essa posição é uma decisão estética, mas também uma operação de significado. A empresa poderia ter terminado com uma estreante, privilegiando o discurso de renovação. Preferiu encerrar com uma mulher que atravessou as diferentes fases de sua história e que, aos 45 anos, continua reconhecível para espectadores que talvez não saibam citar uma única campanha sua fora da marca. Há muito a discutir nesse gesto. Ele sugere que, na tentativa de fabricar futuro, a Victoria’s Secret ainda precisa recorrer a personagens que ajudaram a inventar seu passado.

Isso não torna a noite uma vitória pessoal mensurável em dinheiro. As transmissões monitoradas alcançaram um pico estimado de 3,64 milhões de espectadores simultâneos, indicador relevante da dimensão do evento, mas muito diferente do número de pessoas únicas que assistiram ao desfile. Não sabemos quantos decidiram acompanhar a apresentação especificamente por Adriana, qual foi o efeito de sua caminhada nas vendas ou que condições comerciais foram negociadas. Fingir o contrário seria transformar métricas de audiência numa espécie de astrologia empresarial com maquiagem glossy.

Há, entretanto, uma mensagem pública que dispensa uma planilha inventada. Uma mulher de 45 anos pode ocupar o lugar de imagem final de um espetáculo historicamente obcecado pela juventude. Isso não significa que todos os problemas de representação tenham sido resolvidos nem que um único desfile redesenhe a economia da profissão. Significa que a experiência também pode ser apresentada como desejo, valor e reconhecimento. Talvez o avanço mais interessante seja justamente não precisar fingir que Adriana Lima continua com a mesma idade da sua estreia em 1999.

Adriana Lima em branco e com asas ornamentadas no encerramento do Victoria’s Secret Fashion Show 2026

Entre Gabi, Carol e Adriana, quem realmente detém o poder da passarela?

É aqui que esta trilogia do House of Models encontra seu ponto mais interessante. Gabi Moura chega ao Fashion Show carregando uma audiência construída muito antes de entrar no universo da Victoria’s Secret. Carol Trentini volta depois de 17 anos, levando consigo uma reputação editorial e uma autoridade de passarela consolidadas longe da marca. Adriana Lima, por sua vez, ocupa uma posição quase impossível de reproduzir: foi simultaneamente produto e protagonista da máquina que ajudou a transformar um desfile de lingerie em acontecimento de cultura pop. Três histórias brasileiras, três modalidades diferentes de prestígio, uma mesma vitrine.

Seria fácil transformar essas trajetórias numa disputa artificial. A influenciadora contra a modelo de alta moda. A veterana contra a estreante. A Angel histórica contra uma geração que não precisa da televisão para conquistar milhões de seguidores. Só que essa competição explicaria muito pouco. O casting de 2026 revela, na verdade, uma indústria que precisa negociar audiência, legitimidade editorial, memória, técnica e comunidade ao mesmo tempo. E nenhuma dessas dimensões funciona de maneira isolada, por mais que as redes adorem coroar vencedoras antes de entender o jogo.

A pergunta do título, portanto, não admite uma resposta preguiçosa. Adriana Lima ajudou a Victoria’s Secret a construir uma identidade visual tão forte que sua presença ainda organiza a narrativa do espetáculo quase três décadas depois da primeira parceria. A empresa, por sua vez, ampliou a circulação de sua imagem numa escala que poucos veículos de moda conseguiriam reproduzir. Mas aquela jovem de Salvador que entrou num concurso de modelos por acompanhar uma amiga tornou-se muito maior do que uma coleção de asas. Esse é o ponto que a publicidade prefere celebrar sem necessariamente explicar.

O encerramento de Los Angeles foi grande, sim. Mas houve algo ainda mais importante entre a estreia de 1999 e a caminhada de 2026: uma mulher construiu uma carreira capaz de atravessar mudanças de mercado, convenções de beleza, campanhas, maternidade, despedidas e novas convocações sem perder o direito de continuar contando a própria história. No fim, as asas pertencem à Victoria’s Secret. O legado de Adriana Lima pertence, antes de tudo, a Adriana Lima. Ui ui ui… e essa é uma conta que não se fecha no caixa de nenhuma loja.

Na série especial do House of Models, leia também os capítulos sobre Carol Trentini, 17 anos depois de sua última participação no desfile, e Gabi Moura, a brasileira que chegou ao espetáculo com uma comunidade digital própria. Veja ainda a reportagem sobre Luíza Perote, estreante brasileira no Fashion Show de 2026.

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.