Por Fábio Lage – House of Models
Darling Lee do céu purpurinado do meu Rio de Janeiro… eu cheguei em Ipanema com aquela sensação clássica do Rio de Janeiro, que é uma mistura indecente de beleza e provocação. O céu fazendo pose, a maresia tentando entrar pela gola da camisa, o calor dando seu recado sem pedir licença. A Rua Garcia D’Ávila, nesse horário, não é só uma rua, meu bem. É um verdadeiro corredor de status. Um metro quadrado de poder onde cada vitrine tenta sussurrar como no filme “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom” , mas no Rio de Janeiro… “eu sou o centro do mundo” enquanto o mundo passa, compra, fotografa, ignora, volta, compra de novo. E foi ali, nesse palco fixo, que a loja Misci Ipanema apareceu como quem não está pedindo espaço, está ocupando com opulência.
Antes de ver qualquer roupa, eu vi intenção. Vi um tipo de silêncio caro, aquele silêncio que não é vazio, é curadoria. Vi textura. Vi o Rio sendo tratado como capital, não como cenário. E aí, mon amour, a coisa muda de figura. Porque quando uma marca escolhe a Garcia D’Ávila, ela não está só abrindo porta. Ela está assinando um contrato simbólico com a cidade, com o turismo, com a imprensa, com o imaginário. Está dizendo, com todas as letras, que o Rio não é apenas uma legenda bonita em campanha de verão. É tabuleiro, bebê!
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O fato duro que ninguém consegue maquiar
A MISCI inaugurou loja no Rio em janeiro desse ano e isso, por si só, já seria notícia. Só que a notícia veio com um segundo golpe, mais estratégico, mais cirúrgico, mais delicioso de acompanhar. A MISCI confirma presença na Rio Fashion Week no dia 18 de abril, às 10h. Airon Martin não desfilava em semana de moda desde 2022, quando apresentou “Jerimum” na SPFW. Agora, escolhe o Rio de Janeiro para marcar o retorno. E quando uma marca troca a gravidade de uma praça pela outra, não é só logística. É recado, darling!
A chegada da MISCI ao Rio com loja e desfile é sintoma e aposta. É o Rio, de novo, sendo tratado como peça central na geopolítica da moda brasileira, justo no momento em que o calendário oficial da moda brasileira está sendo reorganizado para colocar Rio em abril e São Paulo no segundo semestre. Isso não é detalhe, baby. Isso é arquitetura de poder… Ui ui ui!
O Rio Fashion Week 2026 está marcado para 15 a 18 de abril de 2026, no Píer Mauá, com produção da IMM e direção criativa de badalado Paulo Borges. A expectativa divulgada para o evento cita impacto econômico acima de R$ 200 milhões e cerca de 8 mil postos de trabalho diretos e indiretos. A MISCI desfila no dia 18, às 10h. Em termos narrativos, é quase uma assinatura no rodapé do evento. Em termos de mercado, é a marca dizendo: eu não vim para passear, eu vim para posicionar… Atura ou surta, bebê!

Misci, Airon Martin e o Brasil que não precisa se fantasiar para ser lido
Airon Martin é um designer que entende uma coisa que muitos ainda fingem não perceber. Brasilidade não é fantasia. Brasilidade não é excesso. Brasilidade não é caricatura de aeroporto. A MISCI, desde que foi lançada em 2018, vem construindo uma ideia de “brasilidade contemporânea” que prefere o caminho mais difícil. O caminho de transformar referências culturais em linguagem e não em estampa. O caminho de fazer roupa com intenção de forma, material, corte, presença. O caminho de não depender do óbvio para virar desejável.
A trajetória recente da marca ajuda a explicar por que esse movimento no Rio tem densidade. A MISCI abriu loja em São Paulo, em Pinheiros, em agosto de 2020. Agora expande para o Rio em 2026, escolhendo um endereço que é quase uma frase completa: Rua Garcia D’Ávila 77, Ipanema, Rio de Janeiro. Não é “Rio genérico”. É Rio premium, Rio de vitrine internacional, Rio com passaporte carimbado todo dia na calçada… tá bom para você?
E aí, quando você cola isso no fato do desfile na Rio Fashion Week 2026, fica difícil tratar como coincidência. A marca está desenhando uma ponte entre varejo e calendário. Entre desejo e ritual. Entre o que se vende e o que se conta. É assim que o luxo se sustenta. Luxo não é só preço. Luxo é narrativa que não cai com o vento.

Beto Goes, a validação do bastidor e o Rio como vitrine para o mundo
Toda reportagem boa tem aquele personagem que, sem perceber, te entrega o ângulo que faltava. No evento de abertura, segundo apuração do House of Models no evento, fomos recebidos por Beto Goes, Gerente de Vendas, que afirmou algo crucial para traduzir a estratégia por trás da operação carioca. Segundo ele, a loja do Rio opera sob um “modelo de loja internacional”, voltado ao alto fluxo turístico da cidade e pensado para funcionar como vitrine da marca para um público global.
Quando se fala em “modelo de loja internacional”, não se trata de dizer que a MISCI está fora do Brasil. Se trata de padrão, de régua, de vocação. Se trata de uma loja concebida para funcionar como se estivesse numa capital global de consumo, com experiência, atendimento e linguagem espacial pensados para uma clientela que circula o mundo e exige que a marca se explique sem legenda, sem folclore e sem teatro.
O que a loja comunica antes da roupa é simples e sofisticado. Existe uma vontade de construir brasilidade sem folclore. Uma brasilidade que conversa com textura, material, atmosfera. Eu entrei e tive aquela sensação de que a arquitetura, a curadoria e o desenho do espaço foram pensados para não gritar. O grito ficou do lado de fora, na buzina, no calor, na selfie. Lá dentro, a marca tenta te colocar num estado de atenção.

E isso, num Rio que vive sendo reduzido a imagem, é um gesto político. Porque abrir uma loja em Ipanema não é um ato inocente. É uma declaração de que existe mercado para uma marca brasileira autoral operar com a régua do luxo brasileiro contemporâneo, sem pedir licença para o Norte global e sem virar souvenir de brasilidade.
O dado objetivo está aí, inegociável, sem poesia e sem retoque. A loja da MISCI no Rio fica na Rua Garcia D’Ávila, uma das ruas mais badaladas do famoso bairro Ipanema. Quem abre ali está dizendo: eu quero o consumidor local, sim, mas eu também quero o turista que vem com o cartão em moeda forte e o olhar treinado por vitrines internacionais. Eu quero ser lido por quem já viu tudo. E eu quero que essa leitura aconteça em português, com sotaque carioca, sem pedir desculpa, meu bem.
De acordo com a marca, o desfile na Rio Fashion Week com a nova coleção da Misci deve contar a trajetória de alguém que sai do interior do Brasil para frequentar o Píer de Ipanema nos anos 1970, explorando referências culturais e estéticas desse percurso. Repara no desenho babadeiro, mon petit de Xique-Xique… Ipanema aparece como mito e como estratégia. O Píer como memória cultural. A Garcia D’Ávila como metro quadrado de poder. A marca transforma bairro em eixo simbólico, e isso é muito mais sofisticado do que citar “Rio” de forma genérica para ganhar curtida… Abalou Bangu e adjacências!

Artesanato e capital cultura
Eu preciso falar de artesanato porque, honestamente, este é o ponto onde a moda brasileira costuma se perder entre o sublime e o oportunista. Segundo observação presencial do House of Models no evento, havia destaque para obras associadas ao artesanato e à arte popular brasileira, com menção às cabeças da Mestra Cida Lima, de Belo Jardim, Pernambuco. E se você conhece minimamente o circuito de saberes do Brasil profundo, você entende o peso simbólico disso. Não é só decoração… É capital cultural fortíssimo.
Mestra Cida Lima carrega uma tradição que não nasce em moodboard. Nasce em território, em técnica, em memória, em repetição e risco. Belo Jardim não é “inspiração”. É geografia de mão. E o mundo, hoje, está faminto por isso, mesmo que finja que não. O luxo global está obcecado por craft luxury porque craft é uma forma de legitimação. O feito à mão, quando verdadeiro, não é enfeite. É prova de valor. É o tipo de coisa que nenhuma campanha paga substitui.

Rio Fashion Week 2026: calendário, ambição e o peso simbólico de uma marca como Misci
O Rio Fashion Week estreia com data, local e promessa de impacto. De 15 a 18 de abril de 2026, no Píer Mauá, com produção da IMM e direção criativa de Paulo Borges. A expectativa divulgada fala em impacto econômico acima de R$ 200 milhões e cerca de 8 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Isso não é uma nota de rodapé, querides… Isso é a moda se apresentando como economia, cultura e cidade… babado!
E dentro desse tabuleiro, a MISCI confirmando presença no dia 18, às 10h, ganha peso simbólico imediato. É uma marca autoral, com linguagem muito própria, voltando ao sistema depois de um hiato desde 2022.
“O Rio de Janeiro é a vitrine cultural do Brasil e acredito no poder do coletivo para mostrar a moda brasileira de hoje”, afirma Airon Martin.
Essa frase tem duas camadas. Uma é afeto e identidade, claro. A outra é estratégia. Vitrine cultural não é só elogio. É entendimento de que a cidade tem potência simbólica para amplificar marca, discurso e imagem. E “poder do coletivo” sugere algo além do desfile isolado. Sugere cena, circuito, movimento, presença de cidade. É o Rio voltando a fazer sentido como plataforma.
Aí a coisa fica mais interessante. O Rio Fashion Week não volta sozinho. Ele volta dentro de uma reorganização maior, onde o Rio ocupa abril e São Paulo se consolida no segundo semestre. Isso, no papel, parece simples. Na prática, é uma tentativa de construir um circuito brasileiro que não seja cópia do hemisfério norte. Um país tropical e continental precisa de um calendário que respeite a sua lógica de consumo, clima, turismo e energia cultural. O Rio, com magnetismo internacional, é ferramenta óbvia para isso. O problema é que o óbvio, no Brasil, quase sempre é sabotado por falta de consistência. Então, sim, há aposta e há risco. Só que, desta vez, a aposta vem com infraestrutura, com discurso e com a cidade alinhada como ativo.

Economia e estratégia: moda é PIB, moda é emprego e o Rio sabe disso quando quer
Eu gosto de poesia, mas eu amo um número bem colocado… Nesse caso, número é lâmina, bebê. A ABIT informa faturamento do setor têxtil e de confecção de R$ 203,9 bilhões em 2023 e estimativa de R$ 215 bilhões em 2024. Estamos falando de cerca de 25,3 mil empresas com mais de cinco funcionários e cerca de 1,3 milhão de empregos diretos. Isso não é perfumaria. Isso é base produtiva. Isso é gente trabalhando… Inshallah!
A FIRJAN diz que a economia criativa representa 3,59% do PIB brasileiro em 2023, o equivalente a R$ 393,3 bilhões, e que o Rio de Janeiro tem participação de 5,2% no PIB criativo estadual, com base RAIS 2023. Esse dado é fundamental porque ele explica o que o Rio tem de diferente e vai além do consumo. O Rio é cultura estruturada como economia. A moda, quando funciona aqui, não é só varejo. É evento, é imagem, é turismo, é serviço, é mídia, é desejo.
E tem um ponto que muita gente finge não ver. O Rio é um aeroporto emocional do Brasil. Todo mundo passa por aqui em algum momento. Para morar, para visitar, para sonhar, para odiar, para voltar. Quando a moda acerta o tom com essa cidade, ela ganha uma plataforma natural de visibilidade. Não é sorte, meus amores… É geografia simbólica.
A ApexBrasil, em dado público, aponta que uma rodada ou programa de moda praia movimentou mais de R$ 13,6 milhões em negócios. Isso reforça algo que o mundo inteiro já intui. O Rio tem autoridade natural em segmentos associados a corpo, verão, praia, lifestyle. A diferença entre ficar preso ao estereótipo e transformar isso em potência está na sofisticação da linguagem. E é aqui que o luxo brasileiro contemporâneo precisa ser inteligente. O Rio é forte em signos. O desafio é transformar signo em sistema.

Como os gringos leem o Brasil e por que a Misci pode oferecer Brasil linguagem, não Brasil cartão postal
O olhar internacional sobre o Brasil é uma mistura de fascínio e vício. Fascínio pelo corpo, pela cor, pela música, pela exuberância. Vício em reduzir tudo isso a cartão postal. Muitas vezes, quando o Brasil vira pauta lá fora, vem junto aquele pacote preguiçoso que eu chamo de carnavalização automática. É bonito, é vendável, é fácil, é raso.
Uma marca como a MISCI tem a chance de tensionar isso com um Brasil que é linguagem, não fantasia. Um Brasil que é design, não souvenir. Um Brasil que entende artesanato brasileiro no luxo não como exotização, mas como cultura material. Um Brasil que pega referências e as transforma em estrutura, em construção de produto, em presença.
A trajetória de alguém que sai do interior do Brasil e vai frequentar o Píer de Ipanema nos anos 1970 é mais inteligente do que parece à primeira vista. Ela fala de deslocamento e desejo, fala de rito de passagem, fala de cidade como promessa. O mundo entende rebeldia. O mundo entende juventude. O mundo entende cidade. O mundo entende mito.
Vou dizer o óbvio que poucos têm coragem de dizer. O Brasil não precisa ser exótico para ser desejado. Precisa ser bem feito. Precisa ser consistente. Precisa ser verdadeiro no crédito e no dinheiro quando convoca o artesanato. Precisa ser inteligente na comunicação. Precisa ser adulto.

O Rio não quer voltar para participar, quer voltar para mandar
Eu saí da loja com uma certeza incômoda, daquelas que dão vontade de mandar áudio para metade do mercado. O Rio de Janeiro sempre esteve no imaginário da moda. O que faltava era o Rio estar no sistema de novo. E sistema é calendário, varejo, evento, economia, mídia, infraestrutura e ambição. O Rio Fashion Week 2026 volta com data, local, produção e discurso de impacto. A MISCI chega com loja na Rua Garcia D’Ávila e confirma desfile no dia 18 de abril, às 10h. A marca, lançada em 2018, com loja em São Paulo desde agosto de 2020, escolhe expandir para o Rio em 2026 e amarrar varejo com passarela. Isso é puro reposicionamento. Isso é geopolítica da moda brasileira, mon amour de Madureira.
Eu não vou romantizar, viu… Vai ter gente torcendo contra. Vai ter disputa de atenção. Vai ter orçamento curto. Vai ter marca que não aguenta duas praças. Vai ter mídia que finge que o Rio é sempre “o depois”. Só que, desta vez, há sinais concretos de que a cidade está recuperando centralidade no tabuleiro. E quando uma marca como a MISCI escolhe o Rio para operar sob um modelo de loja internacional, segundo apuração do House of Models no evento, ela está dizendo algo que não cabe em release. Ela está dizendo que o Rio é vitrine e é laboratório. E isso, meu bem, é como se diz poder em linguagem de varejo.

Se o Brasil quiser mesmo construir um calendário oficial da moda brasileira que faça sentido para um país tropical, continental, com consumo próprio e imaginação global, ele precisa parar de pedir licença para o hemisfério norte e começar a se organizar como centro. O Rio, em abril, pode ser o palco do desejo e da cultura. São Paulo, no segundo semestre, pode ser o motor de indústria, business e estrutura. Juntos, podem criar um circuito que não imita ninguém. Mas isso só funciona se as marcas entrarem com coragem e consistência. E se o Rio assumir que sua beleza não é suficiente. Precisa de estratégia.
A MISCI, neste capítulo, é caso exemplar. Não porque seja perfeita, mas porque está jogando o jogo certo. Loja, calendário, linguagem, Brasil sem caricatura, ambição de leitura global. Agora, o resto do mercado que escolha. Ou acompanha, ou assiste da calçada. E calçada na Garcia D’Ávila é ótima para observar, mas péssima para mandar.
Beijinhos…
Foto: Divulgação
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