Quem é Martine Rose, a nova diretora criativa da Balenciaga?

Martine Rose sorri em retrato com camiseta branca, diante de painéis de madeira e metal.
Martine Rose, nova diretora criativa da Balenciaga, em retrato usado na capa da reportagem do House of Models.

Da Londres britânico-jamaicana à parceria com Demna, a estilista construiu uma maneira muito própria de olhar para roupas e pessoas. Agora, assume uma maison que acaba de trocar de comando outra vez. Ui ui ui… essa cadeira tem história.

Por Fabio Lage – House of Models

As análises da SPFW N61 vão precisar esperar um pouquinho, porque a madrugada desta sexta-feira, 6 de novembro, resolveu atravessar a pauta. A Kering confirmou Martine Rose como nova diretora criativa da Balenciaga, com início em 16 de novembro de 2026, logo depois de anunciar a saída de Pierpaolo Piccioli, na quinta-feira. A eterna dança das cadeiras das grifes babadeiras segue firme, aparentemente com uma disposição que anda faltando a quem precisa acompanhar todos esses comunicados.

Mas, antes de sair distribuindo previsões sobre a próxima coleção, vamos à pergunta que merece essa madrugada: afinal, quem é essa daí, papai?

Martine Rose é uma estilista britânica de origem jamaicana e inglesa, fundadora da marca que leva seu nome desde 2007 e uma das colaboradoras de Demna Gvasalia na construção do masculino da Balenciaga, entre 2015 e aproximadamente 2018. Seu trabalho mexeu com a maneira como a moda olha para ternos, uniformes, roupas esportivas e para os homens que existem dentro deles. Há bastante coisa acontecendo naquele ombro exagerado… Convém chegar mais perto, bebê.

Martine Rose sorri usando beca cinza com detalhes vermelhos e chapéu acadêmico.
Martine Rose, designer britânica de origem jamaicana e inglesa.

A Londres de Martine Rose também me diz respeito

Tenho um interesse particular nessa história porque também morei em Londres, e a cidade moldou muito do que acredito sobre moda hoje. Por isso, quando olho para o trabalho de Rose, me interessa especialmente a relação entre roupa e ambiente, entre o que alguém veste e aquilo que deseja comunicar antes mesmo de abrir a boca. Londres ocupa um lugar importante no meu repertório justamente por essa conversa entre estilo das ruas, música, comportamento e pertencimento.

É preciso ter cuidado, inclusive, com a facilidade de transformar a cidade inteira numa fantasia de rebeldia pronta para exportação. A Londres que formou Rose passa por uma família britânico-jamaicana, pelos sábados na casa da avó em Brixton, pelos primos e por uma irmã mais velha que se arrumava para sair enquanto a menina prestava atenção. Há afeto, imigração, convivência e uma educação visual sendo construída ali, muito antes de alguém pensar em chamar aquilo de referência de coleção.

Detalhe de casaco cáqui sobre camisa listrada colorida, jeans e cinto preto com fivela circular.
Sobreposições e códigos esportivos no outono/inverno 2026 de Martine Rose.

A irmã, Michelle, quinze anos mais velha, circulava por um repertório de reggae, lovers rock, Pam Hogg e Jean Paul Gaultier. O primo Darren, ligado ao acid house e às roupas Boy London, oferecia outro caminho. Em entrevistas ao longo dos anos, Rose contou que, ainda criança, saía da igreja com a avó e encontrava festas improvisadas em Clapham Common. Convenhamos que sair do culto e encontrar uma rave oferece um currículo cultural bastante mais movimentado do que muita apresentação de tendências.

O que me interessa é perceber como essas experiências continuam dentro da roupa. No outono/inverno 2019, a receita de ackee and saltfish da avó apareceu em panos de prato estampados. Em outras coleções, o vínculo se manifesta no jeito de usar uma camisa, na presença de um uniforme, na sensualidade ou na escolha de quem desfila. A origem tem consequência no trabalho; ninguém precisa transformar a mulher num pacote turístico da própria identidade para reconhecê-la.

Martine Rose apoia o rosto na mão, sentada à mesa com uma caneca vermelha e materiais de trabalho.
Martine Rose em seu ambiente de trabalho. Foto: Ekua King.

Dez camisas, contas para pagar e uma ideia teimosa

Rose passou pelo curso preparatório da Camberwell College of Arts, formou-se em moda na Middlesex University, em 2002, e criou a etiqueta de camisetas LMNOP com Tamara Rothstein, que seguiria ao seu lado como colaboradora. Sua marca própria começou em 2007 com dez camisas apresentadas no Blacks, no Soho, e um empréstimo de 1.500 libras do Prince’s Trust. Lulu Kennedy, do Fashion East, foi uma das pessoas que reconheceram o trabalho e ajudaram a abrir caminho.

Até aqui, já dá para aposentar aquela fantasia conveniente de que todo estilista aparece no mundo com um ateliê luminoso, um investidor compreensivo e alguém cuidando do aluguel. Rose trabalhou em bares enquanto desenhava, teve dificuldades para sustentar a marca e, para a primavera/verão 2015, apresentou um único look porque o dinheiro estava curto. A moda posteriormente achou aquilo interessantíssimo. O boleto, como costuma acontecer, tinha chegado antes da interpretação.

A trajetória avançou, mon petit de Xique-Xique… Rose foi semifinalista do LVMH Prize em 2017 e venceu o prêmio britânico de moda masculina nos Fashion Awards de 2023. Em 2021, a Tomorrow adquiriu 60% de sua empresa, oferecendo uma estrutura para ampliar o negócio. A marca manteve uma autoria muito reconhecível enquanto passava a conviver com investimento externo. Existe uma diferença importante entre ter uma ideia própria e conseguir pagar tudo o que essa ideia exige para continuar existindo.

Modelo com jaqueta rosa de textura longa, camisa estampada e calça cinza posa ao lado de um espelho.
Jaqueta de textura rosa e alfaiataria no lookbook de outono/inverno 2026 de Martine Rose.

O homem de Martine Rose tem alguma coisa fora do lugar

É justamente aí que sua roupa começa a ficar deliciosa de observar. No outono/inverno 2017, Rose levou banqueiros, trabalhadores de escritório e motoristas de ônibus para o centro da sua investigação, apresentando a coleção num mercado da comunidade latino-americana de Tottenham. Vieram camisas de cetim, gravatas estreitas, ombros exagerados e calças muito amplas. O sujeito parecia reconhecer perfeitamente o uniforme que vestia, enquanto a proporção fazia aquele uniforme perder um pouco da compostura.

Adoro quando a moda consegue fazer isso com a alfaiataria, porque o terno carrega uma quantidade considerável de autoridade presumida. Basta acertar a gravata e muita gente já acredita que ganhou competência para conduzir a reunião. Rose mexe no ombro, altera a cintura, desloca o volume, e aquela segurança toda começa a adquirir alguma graça. Há técnica, desejo e uma pequena sabotagem no mesmo cabide.

Modelo com camisa verde, gravata azul, colete preto com detalhes laranja e calça vinho desfila entre espectadores.
Martine Rose, outono/inverno 2017, em Londres. Foto: © Catwalking.com.

Na primavera/verão 2019, apresentada em junho de 2018, apareceram jeans com argolas metálicas, encontros entre denim e calça esportiva e sapatos de bico quadrado, atravessados por referências à rave, ao drum and bass e ao UK garage. Já no outono/inverno 2026, o repertório aproximou os retratos de Hans Holbein do universo do boxe, usando corseteria num blazer masculino e volumes de gibões renascentistas em jaquetas esportivas.

Quem resume tudo a roupa larga perde uma parte muito boa da conversa. Rose trabalha o corpo que a peça sugere, a postura que ela provoca e a masculinidade que parecia tão estável antes de experimentar outra silhueta. Seu humor aparece nesse ajuste ligeiramente inconveniente. Um homem pode estar elegante, sensual e um pouco deslocado ao mesmo tempo. Graças a Deus, porque já temos roupa suficiente tentando organizar todo mundo na mesma pose.

Imagem de coleção com quatro adultos, um bebê e um carrinho, reunindo alfaiataria cinza, roupas esportivas e casaco marrom.
Alfaiataria e roupa esportiva em uma imagem de coleção da Balenciaga durante a direção de Demna.

Demna chegou depois

Em 2015, quando assumiu a Balenciaga, Demna chamou Rose para colaborar como consultora do masculino. A parceria durou cerca de três anos e teve um efeito decisivo sobre as condições em que ela trabalhava: trouxe segurança financeira, permitiu reinvestir na marca própria e ampliou o reconhecimento de um trabalho que já vinha sendo desenvolvido havia anos.

Existe uma passagem especialmente saborosa dessa colaboração, honey… Para a primeira passarela masculina da casa, em junho de 2016, referente à primavera/verão 2017, os dois buscaram damascos e rendas litúrgicas autênticos. Rose foi comprar tecidos de um fornecedor da Santa Sé em Paris. A estilista das referências de clube estava ajudando a levar materiais religiosos para o masculino de uma maison histórica. O repertório de uma pessoa costuma ser bem mais interessante do que a gaveta em que o mercado tenta guardá-la.

Aqui vale arrumar a ordem dessa história: a marca Martine Rose já existia havia oito anos quando Demna a convidou. Ela chega agora com uma produção anterior à parceria, uma linguagem própria e conhecimento da casa. O retorno pode aproximar fios daquela experiência, mas o que me desperta curiosidade é o espaço que terá para desenvolver suas escolhas. Já conhecemos a força do nome Demna. Está mais do que na hora de olhar para Rose com a atenção que sua autoria merece.

Modelo com jaqueta azul e vinho, blusa amarela, jeans e botas pretas posa diante de um espelho.
Cor, denim e proporção no lookbook de outono/inverno 2026 de Martine Rose.

Quem veste a roupa também escreve a história

E agora chegamos a uma parte que me interessa especialmente: o casting. Quem apresenta uma coleção interfere na maneira como ela será entendida. Idade, postura, movimento, expressão e presença mudam a roupa. Colocar um corpo na passarela envolve uma decisão de imagem muito maior do que encontrar alguém que caiba na peça.

No outono/inverno 2023, como convidada do Pitti Uomo, Rose apresentou seu trabalho no Mercato Nuovo, em Florença, reunindo parte de sua rede londrina e um elenco majoritariamente encontrado na cidade. Havia trabalhadores de bares e restaurantes e jogadores de Calcio Fiorentino, muitos sem experiência anterior de passarela. A música aproximava Londres e a Itália, enquanto as roupas atravessavam o Italo disco, o lurex, o denim de cintura baixa e jaquetas amplas. As pessoas participavam da pesquisa, em vez de simplesmente ilustrar um cenário.

Na colaboração com a Nike, também em 2023, sua alfaiataria e os Shox Mule MR 4 foram usados pela seleção feminina dos Estados Unidos na chegada ao primeiro jogo do Mundial. A proposta ampliava a conversa sobre o terno, sobre a apresentação pública de atletas e sobre quem pode ocupar aquele lugar de poder visual.

Atura ou surta, bebê: uma coleção pode mudar bastante dependendo de quem ganha o direito de representá-la. É por isso que vou prestar atenção ao casting dessa próxima Balenciaga. O histórico de Rose oferece motivos para curiosidade, mas as escolhas ainda precisam acontecer. Prometer uma revolução de representação antes do primeiro desfile seria escrever a campanha antes de conhecer a coleção.

Modelo desfila com vestido rosa de grande volume e textura de plumas, com os braços cruzados diante do rosto.
Um dos looks da Balenciaga sob a direção criativa de Pierpaolo Piccioli.

A Balenciaga que Rose encontra depois de Piccioli

Pierpaolo Piccioli foi anunciado em maio de 2025, começou em 10 de julho e teve a saída comunicada em 5 de novembro de 2026. Cerca de dezesseis meses. Quem acompanha o HoM lembra das expectativas que cercaram sua chegada à Balenciaga, com toda a experiência de alta-costura construída na Valentino. Pois é, mon amour… algumas apostas mal terminam de desembalar o arquivo e o mercado já está discutindo a próxima.

Houve, porém, trabalho naquele intervalo… Na estreia para a primavera/verão 2026, Piccioli retomou o vestido-saco de 1957, os volumes e a cor. Depois, colaborou com Sam Levinson numa apresentação de atmosfera mais escura, estreou na alta-costura da maison em julho de 2026 e, para a primavera/verão 2027, aplicou técnicas de construção a camisas, camisetas e jeans cortados no viés. A aproximação entre roupa cotidiana e alta-costura também estava na mesa dele.

Martine Rose sorri de pé, com camiseta branca estampada e calça preta, diante de painéis de madeira e metal.
Martine Rose foi nomeada diretora criativa da Balenciaga em 6 de novembro de 2026.

Isso torna a sucessão mais interessante do que uma simples troca entre romantismo e roupa de clube. Cristóbal Balenciaga construiu parte de sua força investigando o espaço entre corpo e tecido, a modelagem, o volume que se afasta da figura. Há uma conversa possível com a maneira como Rose altera silhuetas. A curiosidade está em ver o que seu olhar poderá fazer dentro de um ateliê com outros conhecimentos, recursos e exigências.

Os comunicados não explicam por que Piccioli saiu. Sua passagem curta permite discutir o tempo oferecido a um criador, mas não autoriza inventar um diagnóstico financeiro ou uma briga de bastidor. A moda já produz ficção suficiente nas campanhas; a reportagem pode preservar a diferença entre o que sabemos e aquilo que gostaríamos de descobrir.

Detalhe de uma bolsa marrom com inscrição Rose Martine, carregada por uma pessoa vestida de preto.
Detalhe de bolsa em imagem de outono/inverno 2026 da marca Martine Rose.

Alguém avisa ao luxo que criar leva tempo?

A Kering vem movimentando esse tabuleiro desde a nomeação de Louise Trotter para a Bottega Veneta, em dezembro de 2024, passando pelo anúncio da ida de Demna para a Gucci, em março de 2025, até as saídas de Anthony Vaccarello, da Saint Laurent, e de Seán McGirr, da Alexander McQueen, em outubro de 2026. Agora, chega a vez da Balenciaga outra vez. Daqui a pouco, o crachá de diretor criativo vai precisar vir com velcro.

A pressão empresarial está documentada… No terceiro trimestre de 2026, o grupo registrou 3,345 bilhões de euros de receita, estável em valores reportados e 1% menor em base comparável. Para a Balenciaga, apontou resiliência na marroquinaria e dificuldades em roupas e calçados, sem publicar ali uma receita individual da marca. Os números ajudam a compreender o ambiente em que a escolha acontece; não explicam sozinhos a contratação de uma pessoa.

Modelo com jaqueta cinza, camisa xadrez e calça cinza desfila diante de uma parede de escalada e do público.
Martine Rose, primavera/verão 2018, em Londres. Foto: © Catwalking.com.

Ao anunciar Rose, Luca de Meo, CEO da Kering, destacou sua ligação com a cultura contemporânea e as novas gerações. Entendo o interesse. Uma empresa pode contratar uma equipe para estudar uma comunidade, enquanto uma criadora passa a vida construindo relações com aquele universo. Há um repertório acumulado ali que o luxo deseja trazer para perto. O teste começa quando esse repertório precisa conviver com metas, escala e a expectativa de produzir desejo para muita gente ao mesmo tempo.

E é nesse ponto que volto à mulher que começou com dez camisas e precisou trabalhar em bares para continuar desenhando. Rose desenvolveu uma maneira de prestar atenção às pessoas, às roupas e aos códigos que as aproximam. Essa capacidade a trouxe até uma cadeira com poder sobre o que será criado e sobre quem será visto usando aquilo. A Kering já marcou o dia em que ela começa. Agora quero ver quanto tempo vai lhe dar para construir alguma coisa que mereça ficar.

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Fabio Lage
Fabio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.