Thalita Ferreira na Loewe: a brasileira que já não cabe na etiqueta de revelação

Capa do House of Models para a matéria sobre Thalita Ferreira na campanha Loewe Primavera-Verão 2027.

Fotografada por Talia Chetrit nas ruas de Madri, a modelo paulista integra a campanha Primavera-Verão 2027 da Loewe e transforma uma estreia arrebatadora nas passarelas em uma sequência de conquistas que começa a desenhar algo muito mais importante do que uma temporada de sucesso: uma carreira.

Por Fabio Lage – House of Models

A indústria da moda tem uma relação curiosa com a palavra revelação… né? Adora descobrir um rosto, transformá-lo no assunto da temporada, colocá-lo em meia dúzia de desfiles importantes e anunciar, com aquele entusiasmo típico de quem acredita ter inventado a roda, que encontrou sua próxima estrela. O problema é que, passado o frenesi das primeiras aparições, começa uma etapa muito menos espetaculosa e infinitamente mais difícil: convencer esse mesmo mercado a continuar interessado. E é justamente por isso, mon amour, que a presença de Thalita Ferreira na nova campanha da Loewe merece uma atenção que vai muito além da satisfação de encontrar outra brasileira estampando uma publicidade internacional.

Fotografada por Talia Chetrit em Madri, a campanha da pré-coleção Primavera-Verão 2027 apresenta o universo criativo que Jack McCollough e Lazaro Hernandez, conhecidos pelo trabalho à frente da badalada Proenza Schouler, vêm desenvolvendo desde que assumiram a direção artística da casa espanhola. Thalita integra um elenco que também reúne a modelo Frauke Nijs, os atores Diego Calva, Victoria Luengo e Kristine Frøseth, além do embaixador Jiang Qiming. Baby, não se trata, portanto, de uma campanha exclusivamente dedicada à brasileira, mas de algo bastante significativo para uma modelo que iniciou sua trajetória internacional há tão pouco tempo: sua imagem começa a fazer parte da comunicação de uma das marcas mais influentes do luxo contemporâneo.

Thalita Ferreira na campanha da pré-coleção Primavera-Verão 2027 da Loewe, fotografada em Madri por Talia Chetrit.

E, olhando as fotografias, fica fácil compreender por que sua presença funciona tão bem nessa proposta. A Loewe resolveu regressar visualmente à cidade onde nasceu, em 1846, quando ainda era uma oficina coletiva de artesãos especializados em couro. Mas esqueça aquela Madri cuidadosamente embalada para turistas, com monumentos reconhecíveis e uma atmosfera de postal de férias. A capital espanhola que aparece diante da câmera de Talia Chetrit é construída a partir de mercados populares, fachadas comerciais, bares revestidos de azulejos, veículos estacionados e estruturas modernistas que poderiam passar despercebidas numa caminhada apressada. A cidade não funciona apenas como cenário básico, mas como uma espécie de personagem que interfere nas cores, nas proporções e na própria maneira como as roupas são percebidas.

Em uma das imagens, Thalita aparece usando uma polo amarela combinada com uma calça escura e uma bolsa de padronagem xadrez azul. A composição acontece diante de um veículo cuja lataria reflete a arquitetura ao redor, enquanto o amarelo intenso da peça estabelece um contraste deliberado com a paisagem urbana. Em outra fotografia, surge com um vestido curto de construção assimétrica, também amarelo, num corredor comercial de portas metálicas fechadas. O braço elevado acima da cabeça, a postura firme e o olhar dirigido à câmera transformam uma situação aparentemente banal numa imagem de moda que não precisa de um cenário monumental para funcionar. Há ainda uma fotografia em que o roxo de sua roupa disputa espaço com a estrutura de uma via elevada, numa composição que aproveita o movimento da cidade para construir profundidade e tensão visual.

O interessante é observar como a coleção trabalha essa ideia de deslocamento sem transformar suas roupas em fantasias conceituais. A dupla criativa investe em combinações entre alfaiataria, referências esportivas e experimentações de construção, aproximando elementos que normalmente pertenceriam a categorias distintas do guarda-roupa. Camisas se fundem a malhas, proporções são alteradas e superfícies tradicionais ganham novas interpretações. Nos acessórios, a Amazona 180 reaparece como parte dessa reorganização da identidade da marca, enquanto a nova Flamenco Flap atualiza uma família de bolsas profundamente associada ao repertório da Loewe. Tudo isso acontece num momento em que Jack McCollough e Lazaro Hernandez precisam afirmar sua própria linguagem depois do período de Jonathan Anderson, responsável por transformar a casa num dos grandes laboratórios de experimentação estética do luxo na última década.

Thalita Ferreira veste criação da Loewe na campanha Primavera-Verão 2027, realizada em Madri com fotografia de Talia Chetrit.

Thalita se encaixa nessa narrativa sem parecer uma personagem artificialmente colocada dentro dela. Existe uma segurança em suas imagens que merece ser observada, especialmente quando lembramos que estamos falando de uma profissional cuja estreia internacional aconteceu em março de 2026. Na fotografia com a polo amarela, por exemplo, sua expressão não se perde diante da força gráfica da roupa, da bolsa ou da arquitetura refletida no veículo. Ela sustenta a imagem. Parece uma observação simples, mas é justamente essa capacidade de estabelecer presença numa composição publicitária que diferencia uma fotografia bonita de uma fotografia que realmente funciona para uma marca.

Para compreender a dimensão dessa conquista, precisamos voltar alguns meses. Até o segundo semestre de 2025, Thalita trabalhava numa pizzaria em São Paulo, quando recebeu do proprietário do estabelecimento o incentivo para tentar a carreira de modelo. A história tem todos os ingredientes que a indústria adora transformar numa narrativa de descoberta quase cinematográfica, mas seria injusto reduzir sua trajetória a um encontro fortuito com a sorte. Existe uma distância considerável entre alguém enxergar potencial numa jovem e essa mesma jovem conseguir atravessar o rigoroso circuito de seleções das grandes casas internacionais. Nesse percurso entram preparação, desenvolvimento de imagem, gestão de carreira, trabalho de agência e, sobretudo, a capacidade da própria modelo de responder às exigências de profissionais que não costumam distribuir oportunidades por generosidade.

Agenciada no Brasil pela EVOL MGMT, Thalita chegou à temporada Outono-Inverno 2026 com um início que muita modelo levaria anos para construir. Sua estreia nas passarelas internacionais aconteceu abrindo o desfile da Saint Laurent, sob direção criativa de Anthony Vaccarello. Sim, baby, abrindo Saint Laurent. Para quem acompanha o funcionamento dos desfiles, essa informação está longe de ser um detalhe decorativo. A modelo responsável pela primeira entrada apresenta ao público o tom inicial de uma coleção e ocupa uma posição de confiança dentro de uma escolha construída entre estilistas, diretores de casting e equipes criativas. Na mesma temporada, a brasileira também abriu os desfiles da Loewe e da Schiaparelli e encerrou a apresentação de Jean Paul Gaultier. A sequência chamou a atenção da Vogue americana, que a incluiu entre as nove modelos revelação do Outono-Inverno 2026.

Mas a verdadeira questão nunca foi quantas marcas importantes Thalita conseguiria colocar em seu currículo durante aquela estreia. A pergunta que me interessa é o que acontece quando os holofotes deixam de iluminar uma novidade e os profissionais responsáveis pelas escolhas precisam decidir quem desejam contratar novamente. Porque abrir três desfiles importantes é extraordinário, evidentemente, mas transformar esses convites numa relação continuada com as marcas exige outra combinação de atributos. É aí que o entusiasmo inicial precisa encontrar consistência, versatilidade e uma imagem capaz de acompanhar diferentes propostas criativas.

Thalita Ferreira em imagem editorial da Vogue Brasil de agosto de 2026, fotografada por Nicole Heiniger.

Em julho, quando escrevi aqui no House of Models sobre o encontro de Raquel Zimmermann e Thalita Ferreira na campanha de inverno 2026 da Chloé, fotografada por Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin, a discussão girava justamente em torno dos diferentes momentos de uma carreira. De um lado, Raquel, uma brasileira cuja trajetória internacional atravessa décadas e continua despertando o interesse de algumas das maiores casas de moda do mundo. Do outro, Thalita, recém-chegada a esse universo, compartilhando uma campanha importante com uma profissional que representa a própria ideia de longevidade na indústria. Naquele momento, o encontro já dizia bastante sobre a confiança depositada na nova geração de modelos brasileiras. Agora, poucos meses depois, a história ganha outro capítulo.

Depois da Chloé, Thalita também integrou a campanha de inverno 2026 da Celine, fotografada por Zoë Ghertner, ampliando sua presença na publicidade de luxo. Em agosto, apareceu na capa coletiva da Vogue Brasil, fotografada por Nicole Heiniger, ao lado de Letícia Hall, Iasmin Reis, Josefa Santos e Victoria Blecher, numa edição dedicada a uma geração de brasileiras que vem conquistando espaço no circuito internacional. Enquanto isso, seu trabalho nas passarelas continuou avançando, com apresentações para Givenchy, Balenciaga, Bottega Veneta, Celine e outras casas, incluindo sua participação na coleção Primavera-Verão 2027 da Fendi, assinada por Maria Grazia Chiuri, em Milão.

É nesse contexto que a campanha da Loewe adquire uma relevância especial. A brasileira não está apenas acumulando nomes importantes para impressionar quem olha seu currículo, darling. Ela começa a transitar entre diferentes linguagens visuais e interesses comerciais, passando do romantismo de Chemena Kamali na Chloé para a construção sofisticada de imagem da Celine e, agora, para o universo de experimentação cromática, artesanal e urbana que a Loewe desenvolve sob sua nova direção criativa. São propostas distintas, com exigências diferentes de interpretação, expressão e presença. Para uma modelo em início de carreira, essa variedade pode ser tão importante quanto o prestígio das marcas, porque demonstra que sua imagem não depende de uma única fórmula.

A modelo brasileira Thalita Ferreira na campanha Loewe Primavera-Verão 2027, fotografada nas ruas de Madri por Talia Chetrit.

Também existe uma questão de mercado que merece entrar nessa conversa. A passarela costuma oferecer a uma modelo sua primeira grande vitrine internacional, mas campanhas publicitárias acrescentam outra dimensão ao relacionamento com as marcas. Enquanto o desfile apresenta uma coleção a compradores, imprensa e profissionais da indústria, a campanha prolonga sua narrativa para o consumidor e participa diretamente da construção de desejo em torno dos produtos. Quando uma mesma modelo começa a circular entre esses dois espaços, especialmente em casas com identidades tão definidas, isso pode indicar que seu trabalho ultrapassou a condição de novidade. Não significa, naturalmente, que uma carreira esteja garantida. Quem conhece os bastidores sabe que o mercado é capaz de transformar entusiasmo em silêncio com uma velocidade pouco recomendável para a saúde emocional de qualquer ser humano.

Ainda assim, é impossível ignorar a rapidez com que Thalita Ferreira vem construindo um percurso que reúne momentos importantes de passarela, reconhecimento editorial e contratos publicitários. E talvez seja justamente essa combinação, muito mais do que qualquer comparação precipitada com nomes históricos da moda brasileira, que mereça nossa atenção neste momento. Não precisamos procurar uma nova Gisele, uma nova Raquel ou uma nova qualquer coisa cada vez que uma brasileira conquista seu espaço. Thalita tem uma trajetória própria, ainda em construção, e será muito mais interessante acompanhá-la pelo que efetivamente fizer do que pelas expectativas que o mercado decidir projetar sobre ela.

Campanha da Loewe Primavera-Verão 2027 com Thalita Ferreira, modelo brasileira fotografada por Talia Chetrit em Madri.

A pré-coleção Primavera-Verão 2027 da Loewe começa a chegar às lojas em 12 de novembro, enquanto a nova Flamenco Flap tem lançamento previsto para 3 de dezembro. Nas fotografias de Talia Chetrit, Madri se transforma num encontro entre a tradição de uma casa quase bicentenária e a necessidade de descobrir novas maneiras de apresentar o luxo. Para Thalita, o encontro representa mais um passo nessa transição delicada entre ser o rosto que todos querem conhecer e se tornar uma profissional que as marcas desejam continuar contratando.

E, mon amour, existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. A primeira faz uma modelo ser notícia. A segunda é o que pode fazer dela uma carreira que ainda teremos muitos motivos para acompanhar… beijinhos!

Fotos da campanha Loewe: Talia Chetrit. Fotografia da Vogue Brasil: Nicole Heiniger.

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.