Entre camuflados, flores, alfaiataria, peças vintage e um exército muito particular, Fábio Souza revisita a história da À La Garçonne e imagina o guarda-roupa de quem sobreviveu ao fim do mundo.
Por Fabio Lage – House of Models
Nessa quarta-feira, 14 de outubro, São Paulo resolveu colaborar babadeiramente com o roteiro de Fábio Souza. Enquanto a À La Garçonne apresentava sua coleção na SPFW N61, uma tempestade castigava a cidade e o estilista imaginava justamente um mundo depois do apocalipse. Honey Lee, quando até São Pedro entra no departamento de direção criativa, alguma coisa muito interessante está acontecendo! Só faltava aparecer um dinossauro no Parque do Ibirapuera para completar a produção. Mas o que surgiu na passarela foi mais curioso: um exército de sobreviventes que, aparentemente, havia descoberto flores, roupas antigas e o prazer de se vestir sem obedecer absolutamente ninguém.

Logo na abertura, um conjunto de sarja com paisagens vegetais em azul, verde e tons terrosos colocou a proposta em circulação. A roupa tinha algo de uniforme utilitário, mas a superfície parecia ter sido lentamente conquistada pela natureza. Na cabeça, um pequeno chapéu pontudo; sobre os olhos, uma mancha rosa intensa que atravessava o rosto como uma pintura de guerra produzida depois de uma noite bastante animada. Ui ui ui… O mundo acabou, mon amour, mas o departamento de beleza continuou funcionando! E ainda bem, porque aquela interferência de cor ajudava a retirar o militarismo do lugar mais previsível.
A ideia de Fábio Souza não era simplesmente vestir personagens para uma guerra imaginária, baby. O interessante estava justamente naquilo que aconteceria depois dela. Os camuflados, tradicionalmente utilizados para esconder o corpo na paisagem, apareciam misturados a flores e estampas que faziam o movimento contrário: chamavam atenção para quem os vestia. Em certas peças, os desenhos pareciam uma vegetação crescendo sobre superfícies abandonadas. Em outras, ganhavam a aparência de tapeçarias antigas, como se alguém tivesse saqueado a casa de uma tia milionária durante a evacuação e saído carregando o sofá, as cortinas e uma excelente coleção de casacos. Convenhamos, há maneiras muito piores de sobreviver ao caos…
Se você acompanha a À La Garçonne há algumas temporadas reconhece esse prazer de trabalhar com aquilo que já existe. A marca nasceu da customização de roupas vintage e transformou a recuperação de materiais numa parte importante de sua identidade. Na SPFW N60, em outubro de 2025, Souza havia experimentado uma abertura em seda pura, com camisas translúcidas, alfaiataria mais fluida e cinturas rebaixadas. Agora, a delicadeza retorna por outro caminho, atravessando sarjas, estampas militares, jacquards e construções que parecem carregar diferentes vidas no mesmo guarda-roupa. Não vejo propriamente uma ruptura entre as duas coleções, mas uma mudança de temperatura. A leveza anterior ganhou uma camada de proteção.

E proteção, aqui, não significa esconder o corpo o tempo inteiro… Gostei particularmente da maneira como a coleção alternou peças volumosas com vestidos próximos à pele e microsshorts que deixavam as pernocas completamente expostas. Havia casacos amplos, parkas, sobreposições utilitárias e conjuntos quase inteiramente fechados, mas também vestidos delicados, comprimentos curtíssimos e superfícies brilhantes que transformavam a silhueta numa coisa muito menos defensiva. Uma jaqueta camuflada sobre um vestido escuro de brilho discreto, por exemplo, funcionava justamente porque nenhuma das duas peças precisava abandonar sua personalidade para que a combinação fizesse sentido.

A alfaiataria merece uma conversa bem especial, bebê… Em meio a toda aquela vegetação imaginária, apareceram paletós estruturados, coletes, sobretudos, calças amplas e conjuntos xadrez que demonstravam o amadurecimento da marca nesse território. Gostei dos casacos longos, sobretudo daqueles que criavam uma silhueta mais vertical e elegante, e da maneira como os xadrezes em tons de verde e vinho conversavam com golas felpudas e acessórios utilitários. O terno preto de proporções generosas também ofereceu um respiro necessário entre tantas superfícies estampadas. Porque até no apocalipse é preciso ter alguma roupa para resolver questões burocráticas, darling. Ninguém sabe se haverá cartório, mas convém estar preparado.

E foi justamente nessa alternância entre o bruto e o delicado que encontrei algumas das imagens mais convincentes. Os jacquards florais em rosa, os bordados luminosos e os vestidos que flertavam com a roupa de noite apareciam acompanhados de calçados masculinos ou tênis esportivos. Uma jaqueta de cetim rosa intenso, combinada com um top reduzido e shorts estampados, acrescentava uma dose deliciosa de irreverência. Em outro momento, um casaco fúcsia sobre peças brilhantes parecia ter saído do armário de alguém que decidiu ignorar solenemente a gravidade da situação mundial. E eu compreendo perfeitamente. Se o planeta está acabando, pelo menos que o figurino seja memorável.

Mas nem tudo precisa receber aplausos apenas porque existe uma boa ideia por trás. Alguns conjuntos camuflados ficaram próximos demais do território habitual da roupa militar, dependendo mais da estampa e dos acessórios do que de uma transformação realmente surpreendente da silhueta. Em certas passagens, o acúmulo de camadas, padronagens e volumes também enfraqueceu a leitura individual das peças. Essa liberdade de combinação faz parte do vocabulário da À La Garçonne, evidentemente, mas há momentos em que o styling parece querer contar cinco histórias ao mesmo tempo. E, mon amour, até uma boa novela precisa escolher qual personagem está protagonizando a cena.

A pesquisa de materiais, por outro lado, oferece uma discussão muito mais importante do que o espetáculo visual. Souza trabalha com tecidos de estoque, peças vintage e reaproveitamento, práticas que fazem parte da história da marca e não surgiram ontem para ornamentar um discurso ambiental. Nesta temporada, o estilista apontou que aproximadamente 98% dos materiais empregados teriam alguma característica de maior responsabilidade ambiental, incluindo um fio de Lycra desenvolvido com matéria-prima parcialmente vegetal. É uma informação relevante, mas que merece precisão: reaproveitamento, origem renovável e redução comprovada de impacto não significam exatamente a mesma coisa. O número impressiona, mas a indústria precisa aprender que sustentabilidade não se resolve com porcentagens desacompanhadas de critérios verificáveis. A À La Garçonne tem uma trajetória que justifica levar sua pesquisa a sério. Justamente por isso, vale cobrar clareza sobre seus resultados.
E não podemos esquecer da beleza das modelos, meu povo! A maquiagem com pinturas intensas ao redor dos olhos, em vermelho, laranja e verde, ajudava a construir uma espécie de tribo sem uniforme obrigatório. Os cabelos apareciam ora presos, ora mais livres, enquanto pequenos chapéus, acessórios de cabeça e bolsas atravessavam as entradas. O casting misturava apresentações masculinas e femininas, diferentes presenças e proporções corporais, embora a silhueta magra ainda predominasse em boa parte da sequência. Gosto quando a personalidade de quem veste consegue atravessar uma produção tão carregada. Alguns looks dependiam dessa atitude para ganhar força; outros, especialmente os vestidos de construção mais resolvida e os bons conjuntos de alfaiataria, funcionavam mesmo sem precisar gritar.

O elemento mais interessante desta coleção, entretanto, talvez não esteja nas estampas militares, nas flores ou naquela quantidade generosa de roupas que parecem ter sobrevivido a várias décadas. Está na relação de Fábio Souza com o próprio passado. Em uma semana de moda que celebra trinta anos de história, vemos novamente um criador recorrendo ao arquivo, às técnicas que domina e aos códigos que construíram sua identidade. A diferença é que a À La Garçonne não parece interessada em montar uma exposição retrospectiva. As peças antigas voltam a trabalhar, encontram materiais novos, mudam de função e reaparecem diante de outra geração.
Essa talvez seja a imagem mais bonita de todo o desfile: a possibilidade de que alguma coisa continue crescendo mesmo depois da destruição. Não estou falando apenas das flores que tomam conta dos camuflados. Estou falando da capacidade de uma roupa permanecer interessante depois de atravessar outros corpos, outras épocas e outras ideias de beleza.

Fábio Souza não reinventou o guarda-roupa nesta SPFW, tampouco precisava… Sua coleção tem momentos de excesso, algumas soluções previsíveis e uma quantidade de informação visual que poderia ter passado por uma edição mais rigorosa. Mas também tem bons casacos, estampas inteligentes, alfaiataria em evolução e uma relação verdadeira com a matéria-prima. Quando esses elementos encontram equilíbrio, a À La Garçonne consegue algo que muita marca perseguindo novidade desesperadamente ainda não aprendeu: fazer o passado continuar desejável sem transformá-lo em fantasia nostálgica.

E sabe o que eu acho mais divertido, mon amour? Depois de todo esse apocalipse, os melhores sobreviventes não são necessariamente aqueles vestidos para a batalha. São os que entenderam que ainda existe vida depois dela.
Abalou Bangu, bebê. O mundo acabou, mas as flores se recusaram a morrer.
Fotos: Zé Takahashi. Confira também a cobertura oficial da SPFW N61 e a crítica de Herchcovitch;Alexandre no House of Models.
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