Do trânsito infernal de São Paulo ao drifting no Pacaembu, a FORCA Studio transformou a passarela num espetáculo de adrenalina, punk e corpos à mostra. Mas, entre 70 looks e muita fumaça, também encontrei uma marca tentando descobrir até onde pode crescer sem perder a própria identidade. Ui ui ui, bebê!
Por Fábio Lage – House of Models
A FORCA Studio está desenvolvendo comigo uma relação um tanto peculiar… Toda vez que a marca resolve apresentar uma coleção em São Paulo, parece que a cidade recebe instruções secretas para testar minha paciência antes mesmo de eu conseguir chegar à passarela. E olha que, depois de mais de vinte anos cobrindo semanas de moda, já enfrentei bastante coisa nessa indústria… Mas aparentemente o trânsito paulistano decidiu entrar para o meu currículo, honey Lee da Silva!
Na apresentação anterior da marca, realizada no Campo de Marte, minha equipe e eu ficamos literalmente presos num congestionamento ao lado do aeroporto. O desfile acontecendo ali pertinho, os convidados assistindo a tudo e nós dentro do carro, acompanhando o espetáculo à distância, com aquela sensação maravilhosa de quem atravessou a cidade inteira para descobrir que faltavam apenas alguns metros entre o jornalista e a notícia. Uma experiência que, convenhamos, nenhuma assessoria de imprensa deveria incluir no roteiro de cobertura.
Traumatizados? Um pouquinho, mon amour… Tanto que, para a apresentação da Forca X, na terça-feira, 13 de outubro, decidimos sair mais cedo. Afinal, havíamos viajado do Rio de Janeiro para acompanhar a SPFW N61 e perder outro desfile da mesma marca por causa do trânsito seria uma coincidência de gosto bastante duvidoso. Só que, quando já estávamos praticamente ao lado do Pacaembu, onde aconteceria a apresentação, São Paulo resolveu reprisar o episódio anterior. Aquele déjà-vu delicioso, só que sem a menor graça para quem está dentro do carro.
Corremos, cortamos caminho, encontramos onde estacionar e ainda tivemos que desembolsar R$ 50 para um flanelinha que, supostamente, tomaria conta do veículo. Toma aqui os cinquenta reais, bebê! E pensar que estávamos indo justamente para um desfile patrocinado pela Bridgestone, uma das maiores fabricantes de pneus do mundo. Se isso não é uma experiência imersiva sobre mobilidade urbana, sinceramente não sei o que seria.
Mas chegamos! Conseguimos nos acomodar no estacionamento do Pacaembu, na Praça Charles Miller, e finalmente assistir à FORCA Studio fazendo aquilo que parece gostar tanto quanto criar roupas: transformar uma apresentação de moda num acontecimento absolutamente imprevisível.

Primeiro veio Victor Cronos, com uma performance musical que preparou o terreno para o que aconteceria em seguida. Quando quatro carros começaram a executar manobras de drifting, derrapando sobre o asfalto enquanto a fumaça dos pneus tomava conta do espaço, fiquei absolutamente acrílico! Era adrenalina pura, bebê! Não sabia se filmava, assistia ou me preparava para correr… Hahahahaha! E pensar que havíamos acabado de escapar dos automóveis parados de São Paulo para encontrar outros fazendo exatamente o contrário, rodando numa velocidade capaz de deixar qualquer fashionista com o coração na boca.
A FORCA sabe construir essa atmosfera. Já havia levado paraquedistas ao Campo de Marte e experimentado outras formas de espetáculo em apresentações anteriores. Desta vez, resolveu colocar a velocidade praticamente diante do nariz dos convidados. A conexão com a Bridgestone foi evidente até no cheiro de pneu, mas o mais interessante estava no significado daquela encenação: o caos exterior, a agressividade e a necessidade de encontrar alguma proteção dentro de um mundo que parece permanentemente prestes a perder o controle.

E foi sob um painel vermelho intensíssimo que a gata Alice Carvalho apareceu para abrir o desfile, depois da exibição de um teaser do curta-metragem protagonizado pela atriz em parceria com a Barry Company.
Ui ui ui… Que entrada, mon amour!
Alice surgiu com uma jaqueta cropped preta, ombros rigidamente marcados, luvas de inspiração motociclista, calça de couro ampla e cintura baixíssima, deixando o abdômen sarado completamente exposto. O cabelo ganhou uma construção quase escultórica, projetada para cima, enquanto a maquiagem escura intensificava aquele olhar que parecia atravessar a plateia. Mas o grande acontecimento era a maneira como ela caminhava. Havia intenção em cada movimento, uma espécie de insolência controlada que combinava perfeitamente com o espírito da coleção. A atriz compreendeu a personagem que estava vestindo e entregou um catwalk com personalidade de sobra… Gisele que se cuide!

E aqui preciso reconhecer uma coisa: a FORCA tem conseguido criar imagens que permanecem na memória. O problema, evidentemente, é que imagem poderosa e roupa bem resolvida nem sempre são sinônimos. E foi justamente essa relação que mais me interessou ao acompanhar os 70 looks apresentados por Vivian Rivaben e Silvio De Marchi.

O couro ganhou músculos, mas também deixou a pele respirar
Criada em 2022, a FORCA Studio desenvolveu uma identidade muito ligada ao couro, à cultura noturna, ao universo motociclista e àquela sensualidade ligeiramente agressiva que costuma fazer a festa nos ambientes onde a música eletrônica começa tarde e ninguém parece muito preocupado em voltar para casa antes do amanhecer.
Só que a marca está crescendo, e Forca X apresenta algumas das tentativas mais interessantes de ampliar esse vocabulário.
O couro apareceu em diferentes acabamentos, incluindo superfícies craqueladas, efeitos que lembravam pele de crocodilo, texturas geométricas e tratamentos brilhantes. Gostei especialmente das jaquetas com mangas arredondadas, ombros ampliados e golas que praticamente transformavam o pescoço numa extensão da roupa. Em algumas entradas, a construção parecia uma armadura contemporânea, rígida o suficiente para alterar a postura do corpo, mas sem aquela necessidade de transformar tudo numa fantasia de super-herói de orçamento milionário.
Uma jaqueta marrom com textura de relevo geométrico, por exemplo, encontrou nas proporções exageradas um resultado bastante convincente. Outro momento interessante veio com as peças vermelhas de superfície brilhante, que recuperavam o imaginário dos uniformes de corrida sem parecer simplesmente figurino de piloto. A alfaiataria também entrou nessa conversa, com blazers de ombros arquitetônicos, casacos longos e construções que deslocavam a atenção para a parte superior do corpo.


E foi justamente quando a FORCA começou a brincar com aquilo que deveria permanecer protegido ou completamente exposto que encontrei algumas das imagens mais interessantes da noite.
Havia tops curtíssimos, recortes que deixavam barrigas e quadris descobertos, vestidos de transparência quase indecente e combinações em que a roupa parecia existir apenas para enquadrar determinadas partes do corpo. Em outro extremo, casacos enormes, peças felpudas e jaquetas pesadas praticamente engoliam quem as vestia.


O contraste entre um casaco azul de superfície volumosa e uma peça mínima amarelo-limão foi particularmente divertido. A mulher parecia ter saído de casa preparada para enfrentar uma tempestade de neve, mas com a parte de baixo do look absolutamente comprometida com o verão brasileiro. Honey Lee, essa gata realmente não estava interessada em consultar a previsão do tempo!
A marca também explorou o Foton, um tecido que acompanha sua trajetória desde os primeiros anos e que agora recebeu processos de aquecimento e combustão para criar marcas e aberturas. As camisas aparentemente queimadas, os tecidos desgastados e as peças com partes destruídas contribuíram para essa estética de sobrevivência urbana. Algumas soluções funcionaram muito bem, sobretudo quando o desgaste alterava a estrutura e a percepção da roupa. Outras me pareceram excessivamente dependentes daquele velho truque da camiseta rasgada que custa uma pequena fortuna justamente porque alguém teve o trabalho de destruí-la com muito cuidado.
A moda, convenhamos, adora essas contradições.
Mas gostei de ver a FORCA experimentar uma linguagem mais próxima da roupa de noite. Os vestidos pretos longos, especialmente aquele de superfície brilhante e ombros pontiagudos, demonstraram uma sofisticação que merece continuar sendo desenvolvida. Há sensualidade, rigor de silhueta e uma boa compreensão de como o tecido pode acompanhar o corpo sem precisar revelar tudo de uma vez. Em outros momentos, a combinação entre saias de couro, blusas transparentes e alfaiataria estruturada trouxe uma elegância menos previsível.


A FORCA consegue ser bastante interessante quando diminui um pouco o volume da provocação e deixa a própria construção falar.
Porque, meu amor, nem todo mundo precisa chegar à festa parecendo que acabou de escapar de uma perseguição policial para demonstrar personalidade.
Punk, nostalgia e os deliciosos problemas de crescer
A presença da palavra NOSTALGIA em peças de tricô chamou minha atenção… Principalmente porque estamos falando de uma marca que reivindica a contracultura, mas que, ao mesmo tempo, revisita um repertório visual bastante reconhecível: o punk, as jaquetas de motociclista, o glam rock, os ombros exagerados dos anos 1980 e a sensualidade das pistas de dança.
O punk britânico dos anos 1970 ajudou a transformar roupas rasgadas, alfinetes, inscrições provocativas e códigos fetichistas em instrumentos de contestação. Pouco tempo depois, parte daquela linguagem já estava sendo absorvida pela própria indústria que pretendia afrontar. Portanto, não há nada particularmente novo na relação entre rebeldia e comércio. A diferença está no que cada geração consegue acrescentar à história.
E aqui encontro uma questão interessante para a FORCA. Algumas roupas avançaram nessa pesquisa, especialmente nos tratamentos de superfície e nas construções mais elaboradas. Outras permaneceram excessivamente próximas de uma imagem punk que a moda já reproduziu incontáveis vezes.
Os cigarros, os olhos carregados, os cabelos pontiagudos e os acessórios metálicos criaram uma identidade visual fortíssima. Maxima Naomi teve papel importante nessa caracterização, assim como o styling de Vivi Rivaben e Silvio De Marchi. Só que, em determinadas entradas, tive a sensação de que a atitude estava trabalhando um pouquinho mais do que a roupa. E, quando isso acontece, a apresentação corre o risco de transformar a rebeldia numa espécie de uniforme de gente que quer parecer perigosíssima enquanto espera tranquilamente pelo próximo convite de desfile.
Atura ou surta, bebê!
O casting, por outro lado, merece todo reconhecimento… A FORCA reuniu presenças muito diferentes, com expressões de gênero, idades aparentes e características físicas que ampliaram a personalidade da passarela. Uma das entradas com bengala também chamou atenção pela maneira como a pessoa ocupou o espaço dentro daquele universo visual tão interessado em força, corpo e movimento. E gosto quando uma apresentação permite que essas presenças existam sem precisar transformar cada pessoa numa explicação ambulante sobre diversidade.
No House of Models, vocês já sabem, modelo nunca foi cabide com CPF. O corpo participa da construção da imagem, a maneira de caminhar modifica a percepção da roupa e existem profissionais capazes de transformar uma saída aparentemente simples num dos momentos mais interessantes de uma coleção… A própria atriz Alice Carvalho demonstrou isso na abertura.


Também vejo a FORCA tentando conquistar um território comercial mais amplo. A presença da marca na Matalab, na Cidade Matarazzo, e a expansão para alfaiataria, tricôs, jeans, vestidos e peças de uso cotidiano indicam uma ambição que ultrapassa aquele público originalmente associado às pistas de techno. E não vejo problema nisso. Marca precisa vender, crescer, pagar profissionais, desenvolver produto e construir um futuro babadeiro.
A colaboração com a Bridgestone, incluindo o uso de material reaproveitado de pneu em uma criação, e os acessórios em crochê desenvolvidos por Marta Bez fazem parte desse movimento. O curta-metragem com Alice Carvalho também amplia as possibilidades de circulação da identidade FORCA para além da passarela.
O desafio está justamente em preservar a personalidade enquanto o negócio aumenta… Porque uma coisa é transformar códigos de contracultura em produto desejável. Outra, bastante diferente, é permitir que a identidade rebelde se torne apenas uma embalagem luxuosa para vender aquilo que todo mundo já conhece.
E, com 70 looks, a coleção também sofreu um pouco desse excesso de vontade de mostrar serviço. Havia excelentes jaquetas, vestidos interessantes, alfaiataria bem encaminhada e uma pesquisa de materiais que merece bastante atenção. Mas também encontrei repetições, combinações que acrescentavam pouco à narrativa e peças que poderiam ter sido retiradas sem prejuízo algum à força do conjunto.
A boa edição continua sendo uma das ferramentas mais poderosas da moda. Não adianta acrescentar dez ideias quando cinco delas já contaram a história perfeitamente.

No encerramento, os modelos voltaram à pista em meio à fumaça, iluminação intensa e sinalizadores, construindo uma imagem coletiva que parecia pertencer a algum encontro improvável entre um festival de música, uma corrida automobilística e uma festa underground.
Abalou Bangu!
Saí do Pacaembu convencido de que a FORCA sabe perfeitamente como transformar um desfile num acontecimento. Silvio e Vivi têm uma identidade reconhecível, domínio de determinados materiais e uma habilidade rara de construir atmosfera. Há ambição criativa, desejo comercial e uma relação interessante com o corpo contemporâneo.
Mas também saí pensando que a próxima evolução da marca talvez dependa menos de aumentar o espetáculo e mais de aprofundar aquilo que já consegue fazer tão bem. As melhores peças da Forca X não precisavam de carros derrapando, fumaça ou sinalizadores para chamar atenção. Tinham força própria, bebê.
E isso, para quem construiu uma marca chamada FORCA, deveria ser a melhor notícia possível… Agora, se na próxima apresentação São Paulo resolver me prender novamente no trânsito, espero ao menos que o flanelinha aceite cartão. Porque, mon amour, entre couro, gasolina e estacionamento, essa minha experiência com a moda automobilística já está começando a sair bastante cara.
Ui ui ui… E ainda tem gente que acha que cobrir desfile é só sentar na primeira fila e fazer carão!
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