Alexandre Herchcovitch na SPFW N61: coração de couro e o pecado do excesso

Look da coleção Herchcovitch;Alexandre apresentado na São Paulo Fashion Week N61 em outubro de 2026
Herchcovitch; Alexandre Retrato - SPFW 2026 Fotos: Zé Takahashi

Entre corsets, rendas, corações gigantes, alfaiataria e lingerie, Alexandre Herchcovitch apresenta sua nova coleção e revisita suas obsessões sem pedir licença. Mas nem tudo escapou do meu olhar crítico, mon amour!

Por Fábio Lage – House of Models

Eram onze e quarenta da manhã de uma terça-feira na FAAP, em São Paulo, quando Alexandre Herchcovitch resolveu colocar um coração apertadíssimo num corset de couro e borracha para abrir a SPFW N61. A modelo Jae Chang apareceu toda de preto, com gola alta, mangas compridas, amarrações frontais, quadris descobertos e aquela delicadeza de quem poderia terminar a noite anterior numa festa fetichista e seguir diretamente para a passarela. Ui ui ui, mon amour… O dia mal tinha começado e Alexandre já estava querendo bagunçar a moral e os bons costumes da moda brasileira. Adoro quando o café da manhã vem acompanhado de um pequeno escândalo fashion!

Jae Chang com corset preto de couro na abertura do desfile de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61
Jae Chang abriu o desfile com um corset de couro e borracha. Foto: Zé Takahashi

Só que a segunda entrada tratou de mudar completamente a conversa. A modelo Ana Anjos surgiu envolvida por um vestido de renda bordada, flores rosadas, gola alta e uma delicadeza quase saída do guarda-roupa de alguma senhora aristocrática que, aparentemente, guardava segredos interessantíssimos nas gavetas. O corpo aparecia por baixo da transparência e a inocência já começava a ficar suspeita. Depois vieram Daira Pi e Alice misturando tops pretos de couro com saias florais delicadíssimas. Honey Lee da Silva, seria o encontro entre uma dominatrix e uma debutante? Talvez. Mas o mais interessante é que nenhuma das duas precisava vencer a discussão. As duas podiam morar na mesma roupa babadeira.

Ana Anjos com vestido de renda e flores na SPFW N61
Ana Anjos trouxe a renda bordada e as flores em tons pastel ao segundo look. Foto: Zé Takahashi

E esse é um território que Herchcovitch conhece como poucos, baby. Quem acompanha sua trajetória desde os anos 1990 sabe que couro, fetichismo, construções corsetadas e provocações sobre o corpo estão longe de ser novidades em seu vocabulário. Alexandre participou daquela geração que ajudou a retirar a moda brasileira de uma certa obediência estética e levou para a passarela referências da noite, das subculturas e de corpos que a indústria preferia manter longe dos holofotes. Portanto, não vamos fingir que ele inventou a sensualidade nesta terça-feira, darling. O interessante é observar como continua manipulando códigos antigos sem necessariamente transformá-los em peça de museu.

Daira Pi na passarela de Herchcovitch;Alexandre durante a SPFW N61
Daira na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

A renda atravessou boa parte da coleção, ora romântica, ora bastante indecente. Surgiu nos vestidos de tule bordado, apareceu sob paletós e casacos, cobriu torsos masculinos e terminou assumindo o protagonismo da própria lingerie. A alfaiataria também teve momentos deliciosos, especialmente no conjunto xadrez pastel de Isabel Hickmann e no verde-claro de Luiz Pereira, ambos acompanhados por tops transparentes. Alexandre parece se divertir retirando a autoridade do terno sem destruir sua construção. O paletó continua lá, perfeitamente reconhecível, mas perde aquela obrigação antiquada de parecer sério. Afinal, meu amor, ninguém precisa vestir um blazer como se estivesse prestes a aprovar o orçamento anual de uma multinacional do babado.

Kai na passarela de Herchcovitch;Alexandre durante a SPFW N61
Kai na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Convenhamos, mon petit, a pesquisa de materiais merece uma atenção especial. Tafetás ultraleves, jacquards com lurex, rendas metalizadas, nylon, sarjas, lã fria, pelúcia e vinil matelassê apareceram em combinações que exigem conhecimento real de modelagem. Nos vestidos escuros, gostei especialmente da maneira como brilho e franzidos modificavam a percepção do corpo. Em outros momentos, os florais ganharam uma textura quase de tapeçaria antiga, daquelas que poderiam morar tranquilamente na sala de uma tia milionária e ligeiramente excêntrica. Mas aí vieram os anoraques e conjuntos esportivos em sarja stretch, seguidos por superfícies felpudas que cresceram até virar casacões. Alguns funcionaram, como a saída de Johnny Luxo, em que o exagero encontrou uma personalidade à altura. Outros me pareceram um desvio pouco necessário. Não é implicância com o sportswear, mon amour; é questão de edição. Depois da conversa tão interessante entre o couro da abertura, a renda quase indecente e a alfaiataria, certos agasalhos mudaram de assunto antes de a coleção terminar a frase. Alexandre tem repertório de sobra, mas isso não significa que todas as experiências precisem entrar no desfile. Às vezes, uma tesoura na edição faz tanto bem quanto uma excelente costureira no ateliê, bebê.

Alice no desfile de Herchcovitch;Alexandre na São Paulo Fashion Week N61
Alice na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Agora, precisamos conversar sobre aqueles corações! Eles surgiram no corset da abertura, cresceram sobre moletons, ganharam aplicações e reapareceram em peças acolchoadas. Há algo quase infantil nesses desenhos, e eu amo… mas a ingenuidade desaparece quando são associados ao couro, ao vinil e às construções que lembram armaduras. A roupa protege o corpo enquanto parece querer exibi-lo. O romantismo fica menos comportado e a sensualidade, menos previsível. É justamente quando essas duas forças se encontram que Herchcovitch entrega suas imagens mais convincentes.

Isabel Hickmann com alfaiataria xadrez em tons pastel no desfile de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61
Isabel Hickmann: alfaiataria xadrez pastel e transparência na SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

E teve até bolsa para carregar disco de vinil! Sim, senhor… um porta Long Play de plástico e couro, apresentado com os casacos volumosos de Marina Dias, Maressa e outros looks. Em pleno 2026, quando até a música precisa passar pelo algoritmo para descobrir o que você supostamente gosta de ouvir, Alexandre Herchcovitch colocou o disco físico para passear… Ui ui ui, que delicinha! A trilha do desfile ficou sob a responsabilidade do badalado Max Blum, enquanto Bill Macintyre assinou a direção do desfile e o todo poderoso das madeixas Celso Kamura cuidou da beleza, que alternou cabelos naturais, cortes curtos, volumes exuberantes e caracterizações mais teatrais. O conjunto tinha personalidade, ainda que nem sempre a mesma direção estética.

Luiz Pereira com alfaiataria verde-clara no desfile de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61
Luiz Pereira: alfaiataria verde-clara e top transparente na SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Mas vocês sabem que, aqui no House of Models, roupa nenhuma desfila sozinha. O casting reuniu presenças bastante diferentes, incluindo modelos com uma maturidade visual que foge daquela obsessão da indústria por rostinhos eternamente adolescentes. Nomes como a musa Geanine Marques, Anabela, Daiane Conterato, o babadeiro Johnny Luxo, Jae Chang, Ana Anjos, Isabel Hickmann e Daira Pi, mostraram o poder do catwalk tupiniquim… Gostei especialmente da força de algumas entradas em pelúcia, da atitude dos modelos na alfaiataria e da maneira como a lingerie circulou entre diferentes apresentações de gênero. Só que existe uma contradição que não podemos ignorar: apesar dessa variedade de imagens, a passarela continuou predominantemente ocupada por corpos magros. E justamente por isso uma informação da ficha técnica merece destaque.

Amira Pinheiro na passarela de Herchcovitch;Alexandre durante a SPFW N61
Amira Pinheiro na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Todas as peças apresentadas poderão ser feitas sob medida, em qualquer tamanho.

Lua em look do desfile de Herchcovitch;Alexandre na SPFW N61
Lua na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Ui ui ui, baby Lee da Barra da Tijuca! Aqui temos um compromisso muito mais interessante do que qualquer discurso publicitário sobre inclusão. Porque desenhar um corset para diferentes proporções corporais exige conhecimento, atendimento e vontade de executar. Evidentemente, roupa sob medida não é sinônimo de roupa acessível. O preço continua fazendo parte dessa conversa, e a diversidade anunciada no papel ainda precisa ganhar presença nas imagens. Mas é uma decisão comercial que merece atenção e, principalmente, acompanhamento.

Marlon em look da coleção de Herchcovitch;Alexandre na SPFW N61
Marlon na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Ali pertinho, na plateia, estavam a linda Camila Pitanga e a poderosa deputada federal Erika Hilton. Duas presenças que, cada uma em seu campo, nos ajudam a lembrar como imagem, visibilidade e representação também participam das disputas culturais do nosso tempo. Não significa transformar cada vestido transparente em manifesto político, porque aí também seria forçar a amizade. Mas ignorar essas relações numa coleção tão interessada em expor e esconder o corpo seria perder parte da conversa.

Kenzo no desfile de Herchcovitch;Alexandre na SPFW N61
Kenzo na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Sofia Hiromoto encerrou o desfile com um vestido preto de tule e renda, praticamente devolvendo à pele o protagonismo que o couro havia disputado na primeira entrada. Entre Jae e Sofia, foram 44 looks atravessando romantismo, fetichismo, alfaiataria, roupas esportivas e uma quantidade considerável de desejos criativos. Nem todos chegaram ao mesmo nível de resolução, mas os melhores demonstraram por que Herchcovitch continua ocupando um lugar particular na moda brasileira.

Ícaro com criação de Herchcovitch;Alexandre na SPFW N61
Icaro na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Aos 30 anos de história da SPFW, Alexandre não precisa fingir que está inaugurando uma nova era a cada desfile, tampouco desfilar um catálogo de suas antigas provocações para recordar a importância que teve. O desafio agora é outro: escolher, entre tantas ideias que domina, aquelas que ainda conseguem nos surpreender.

Pedro na passarela de Herchcovitch;Alexandre na SPFW N61
Pedro na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Porque fazer um coração de couro já seria bastante divertido. O difícil é impedir que ele vire apenas decoração… E nessa manhã paulistana, quando Herchcovitch acertou, acertou lindamente.

Geanine Marques no desfile de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61
Geanine na passarela de Alexandre Herchcovitch durante a SPFW N61. Foto: Zé Takahashi

Abalou Bangu, mon amour. E a renda sobreviveu para contar a história babadeira.

Sofia Hiromoto com vestido preto de tule e renda no encerramento do desfile de Alexandre Herchcovitch na SPFW N61
Sofia Hiromoto encerrou o desfile em um vestido preto de tule e renda. Foto: Zé Takahashi

Foto: Zé Takahashi

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Fábio Lage
Fábio Lage é jornalista de moda, fundador e editor-chefe do House of Models. Há mais de 20 anos cobre modelos, casting, carreiras, campanhas, fashion weeks e os movimentos da indústria da moda brasileira e internacional.