Com 26 apresentações entre o Pavilhão das Culturas Brasileiras e sete locações externas em São Paulo, a SPFW N61 acontece de 13 a 18 de outubro de 2026. A programação traz a volta da Ellus, a ausência histórica de Lino Villaventura, novas gerações e marcas de diferentes regiões do país. Mas o line-up revela algo ainda maior: depois de três décadas construindo imagem, a moda brasileira começa a discutir estrutura, território, mercado e poder.
Por Fábio Lage – House of Models
Ui ui ui, bebê… Agora temos nomes, dias, horários e sabemos quem vai desfilar debaixo do guarda-chuva da São Paulo Fashion Week e quem preferiu pegar a bolsa, chamar a produção e construir sua própria experiência em algum outro endereço da cidade. A SPFW acaba de revelar a programação completa da N61, que acontece entre os dias 13 e 18 de outubro de 2026, e talvez o mais interessante desse anúncio não esteja exatamente na tabela que todo mundo vai copiar e colar nas próximas horas… Está nas entrelinhas, mon petit.
Porque line-up de semana de moda é um bicho curioso. Para quem olha rapidamente, parece agenda: terça, 11h, fulano; quarta, 15h, sicrano; sexta, 21h, beltrano. Para quem acompanha essa indústria há tempo suficiente para lembrar de quando convite de desfile chegava pelo correio e credencial não era QR Code no celular, uma programação conta muito mais, darling.
Ela revela quem chegou, quem voltou, quem desapareceu, quem ganhou musculatura para fazer um desfile sozinho, quem continua dependendo da estrutura institucional, quais territórios estão produzindo novidade, para onde o dinheiro está olhando e, principalmente, o que uma fashion week acredita que merece representar naquele determinado momento… E a N61 chega num momento particularmente curioso.

A São Paulo Fashion Week completou 30 anos, mas o aniversário talvez seja menos interessante do que aquilo que acontece depois da festa.
Porque depois do bolo, do parabéns, da retrospectiva e das fotografias históricas vem aquela pergunta inconveniente que toda pessoa que atravessa uma idade redonda conhece muito bem, bebê: e agora, meu amor?
No caso da moda brasileira, a pergunta é ainda maior… Depois de três décadas construindo uma das plataformas de moda mais importantes do Hemisfério Sul, o que exatamente queremos fazer com todo esse poder?
Atura ou surta, bebê. É sobre isso que precisamos conversar.

SPFW N61: 26 apresentações, 19 no Pacubra e sete desfiles externos
A N61 terá 26 apresentações distribuídas ao longo de seis dias. Dezenove acontecem no Pavilhão das Culturas Brasileiras, o Pacubra, no Parque Ibirapuera, e sete serão realizadas em locações externas… Mas antes mesmo de a programação entrar no Pacubra, São Paulo toma conta da história.
A terça-feira, 13 de outubro, funciona quase como um prólogo da edição. Herchcovitch; Alexandre abre os trabalhos às 11h. Forca entra às 18h. Ellus encerra a noite às 20h30… Todos externos… Nenhum desfile dentro da estrutura central.
É uma escolha interessante porque recupera uma característica que sempre diferenciou as melhores temporadas da SPFW: a capacidade de fazer a cidade participar da narrativa. Quem viveu algumas dessas edições sabe que São Paulo nunca foi apenas o endereço da semana de moda. Em seus melhores momentos, virou matéria-prima dela.
Galpões, prédios históricos, teatros, estacionamentos, ruas, clubes, fábricas e lugares onde ninguém em sã consciência imaginaria encontrar uma primeira fila já serviram para transformar coleção em acontecimento babadeiro.

E desfile externo não é automaticamente sinônimo de desfile melhor, marca maior ou orçamento infinito. Às vezes, inclusive, a conta chega antes do aplauso. Mas existe uma diferença fundamental: sair da estrutura oficial significa assumir maior controle sobre a experiência. A arquitetura deixa de ser cenário genérico e passa a fazer parte da mensagem. O percurso do convidado, a luz, a espera, o som, o número de pessoas, o cheiro, a temperatura e até a dificuldade de chegar podem entrar na construção da memória daquele desfile.
Herchcovitch; Alexandre, Forca, Ellus, Marina Bitu, Gustavo Silvestre, Handred e Uó por Marcelo Sommer escolheram esse caminho na N61.
Sete marcas, sete experiências próprias e sete pedaços de São Paulo que ainda serão revelados… Darling Lee do céu, o babado já começou antes mesmo de descobrirmos os endereços… Ui ui ui!

Alexandre abre. Ellus volta. E 30 anos de moda brasileira entram na mesma terça-feira
Existe alguma coisa deliciosamente simbólica em colocar Alexandre Herchcovitch abrindo a edição.
É difícil contar a história da SPFW sem que Alexandre apareça em vários capítulos, e não apenas porque desfilou muito, honey. Durante os anos em que a moda brasileira começou a construir uma imagem internacional mais consistente, ele foi um dos poucos criadores daqui capazes de produzir uma assinatura visual que podia ser reconhecida antes mesmo de alguém ler o crédito.
O desfile das 81 mil rosas de cristais Swarovski na N59, em abril de 2025, mostrou que essa relação com espetáculo, técnica e imagem continua funcionando.
Agora ele abre a N61… Horas depois, outra velha conhecida reaparece.
A Ellus retorna à São Paulo Fashion Week depois de quase quatro anos fora do calendário… fez falta viu “fia”.
E chamar Ellus simplesmente de “marca de jeans” seria cometer uma injustiça histórica considerável.

Durante décadas, a marca ajudou a construir uma ideia de juventude urbana brasileira atravessada por sexo, rock, provocação, publicidade e desejo. Houve uma época em que uma campanha da Ellus não precisava explicar que queria chamar atenção. Ela simplesmente chamava. E quem acompanhou moda brasileira antes de Instagram, TikTok, algoritmo e creator economy sabe o tamanho que uma imagem precisava ter para atravessar o país quando circulação ainda custava dinheiro… Seu retorno, portanto, interessa menos como nostalgia e mais como pergunta.
Que Ellus volta para a SPFW em 2026?
Porque voltar ao lugar onde você ajudou a construir história é relativamente fácil, darling.
Difícil é mostrar o que pretende fazer com o próximo capítulo…
Ui ui ui! Outubro promete e estou ansioso!
E justamente quando Ellus volta, Lino Villaventura não está.
Talvez a ausência mais importante da N61 seja justamente de alguém que não precisava mais provar pertencimento ao calendário… Lino Villaventura está fora.
Pela primeira vez depois de participar das 60 edições anteriores da São Paulo Fashion Week, um dos nomes mais persistentes, autorais e reconhecíveis da história da plataforma não aparece na programação.

Sessenta edições significam atravessar mudanças econômicas, crises políticas, transformações no consumo, desaparecimento de marcas, nascimento de outras, internet, redes sociais, pandemia, mudanças geracionais e inúmeras discussões sobre a própria relevância das semanas de moda… E Lino atravessou tudo isso desfilando.
Por isso sua ausência não é simplesmente um espaço vazio na agenda, honey Lee do Pará… É uma ruptura de continuidade.
E talvez não exista fotografia melhor da passagem do tempo na SPFW N61: enquanto uma marca histórica como Ellus retorna depois de anos, um criador que esteve presente em todas as edições anteriores falta pela primeira vez.

Enquanto isso, o Brasil ficou grande demais para caber somente em São Paulo
Existe outra mudança acontecendo fora da passarela, e ela talvez seja ainda mais estrutural, querides…
Em 2026, pela primeira vez, o calendário brasileiro passa a funcionar com duas grandes semanas de moda nacionais sob a organização da IMM: o Rio Fashion Week ocupou o primeiro semestre, em abril, e a São Paulo Fashion Week assume agora o segundo, em outubro… e convenhamos bebê, não é uma informação lateral.
Durante três décadas, a SPFW precisou concentrar funções demais. Era calendário, legitimadora, vitrine internacional, ponto de encontro da indústria, plataforma para novos nomes, lugar onde modelos eram descobertas, onde marcas buscavam imprensa e onde um designer praticamente recebia um carimbo simbólico de relevância nacional… Isso produziu poder, mas também produziu concentração.

O surgimento do RioFW muda a equação porque começa a criar algo que o Brasil sempre precisou mais do que outra guerra infantil entre Rio e São Paulo: circulação.
Em abril, 20 marcas passaram pelo Rio Fashion Week. Agora, seis delas aparecem novamente na programação paulista: Aluf, Normando, Hisha, Handred, Apartamento 03 e Dendezeiro.
Uma marca pode apresentar sua linguagem no Rio, continuar desenvolvendo coleção, relacionamento comercial e imagem ao longo do ano e chegar a São Paulo seis meses depois diante de outro público, outra imprensa, outro mercado e outra cidade.
Hisha talvez seja um dos melhores exemplos dessa engrenagem. A marca mineira estreou em uma fashion week no Rio e, no mesmo ano, entra na programação da SPFW.
Isso começa a desenhar uma estrada… E uma indústria não se fortalece construindo um pedestal. Se fortalece construindo estradas.

A nova geografia da moda brasileira não pede mais licença
Durante muito tempo, existiu uma espécie de passaporte imaginário para entrar na moda brasileira institucionalizada.
Você podia nascer onde quisesse, evidentemente. Mas em algum momento parecia necessário desembarcar em São Paulo, aprender determinado vocabulário, circular pelos lugares certos, conhecer as pessoas certas e, de preferência, neutralizar qualquer característica regional que pudesse ser confundida com artesanato, folclore ou “moda local”.
Paris podia ser profundamente francesa… Milão podia ser escandalosamente italiana… Londres podia transformar sua própria subcultura em produto de exportação.
Mas o Brasil passou décadas tentando provar sofisticação justamente escondendo parte do que tinha de brasileiro… Afff!! Que preguiça.

A geração que ocupa a N61 parece muito menos interessada nesse complexo de vira-lata.
Catarina Mina chega do Ceará sem precisar pedir desculpas pelo trabalho artesanal.
Dendezeiro e Santa Resistência carregam a Bahia para dentro da conversa sem transformá-la em cartão-postal.
Normando faz do Norte linguagem contemporânea babadeira, não exotismo.
Aluf, Hisha e Apartamento 03 mostram que Minas Gerais não precisa ser tratada apenas como celeiro de mão de obra ou mercado consumidor.
E essa descentralização talvez seja uma das maiores conquistas silenciosas da moda brasileira recente.
Não estamos simplesmente adicionando estados diferentes ao line-up para produzir uma fotografia bonita sobre diversidade, bebê… Estamos assistindo a territórios que durante muito tempo foram considerados periféricos dentro do sistema assumirem posição central na produção de linguagem.
A periferia geográfica do antigo mapa da moda brasileira está virando centro criativo do novo… Aí, meu amor, muda tudo.

E onde essa nova moda brasileira vai desfilar? No Pavilhão das Culturas Brasileiras… A ironia histórica é boa demais para passar despercebida.
Grande parte da N61 acontece no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera.
Depois de três décadas em que a moda precisou explicar repetidamente ao Brasil que não era apenas roupa, consumo, celebridade ou futilidade, a principal semana de moda do país ocupa literalmente um espaço dedicado às culturas brasileiras.

E dentro dele estarão Catarina Mina, Santa Resistência, Normando, Dendezeiro, Ronaldo Fraga, Foz, Apartamento 03, Aluf e tantos criadores que trabalham justamente com questões de território, identidade, memória, raça, gênero, artesanato, ancestralidade e cultura popular. Não precisamos inventar metáfora, darling Lee… O endereço fez o trabalho sozinho.
A pergunta agora é se essa ocupação será apenas geográfica ou se a N61 conseguirá transformar o próprio espaço numa discussão sobre aquilo que chamamos de moda brasileira em 2026.
A programação, por enquanto, oferece deliciosas pistas… As respostas começam a aparecer no dia 13 de outubro, quando Alexandre Herchcovitch abrir a semana, e só terminam cinco dias depois, quando a última luz da N61 se apagar.
Porque line-up, como eu disse lá no começo, conta muita coisa… Mas não conta tudo, baby.
Nome conhecido não garante bom desfile… História não compra relevância eterna… Representatividade geográfica não produz automaticamente linguagem… Patrocínio não fabrica cultura. E colocar “Brasil” no discurso é muito mais fácil do que conseguir transformá-lo em moda capaz de produzir desejo, mercado, memória e influência.
É justamente por isso que esta edição me interessa tanto, darling Lee da Silva.
Aos 30 anos, talvez a SPFW não precise mais provar que colocou a moda brasileira no mapa… Essa batalha já foi travada por muita gente que passou por suas passarelas…
A pergunta da N61 parece outra: que Brasil queremos colocar no mapa agora?
Nos vemos em outubro, bebê.
Porque a agenda chegou.
Agora falta a moda.
Ui ui ui!

Confira o line-up completo, horários e locais da SPFW N61
13 de outubro, terça-feira
11h — Herchcovitch; Alexandre — Externo
18h — Forca — Externo
20h30 — Ellus — Externo
14 de outubro, quarta-feira
11h — Marina Bitu — Externo
15h — À La Garçonne — Pacubra
17h — Mercado Livre — Pacubra
19h — Martins — Pacubra
20h30 — Artemisi — Pacubra
15 de outubro, quinta-feira
11h — Gustavo Silvestre — Externo
15h — Catarina Mina — Pacubra
17h — Sou de Algodão + Ronaldo Fraga — Pacubra
19h — Dario Mittmann — Pacubra
20h30 — João Pimenta — Pacubra
16 de outubro, sexta-feira
12h — Lilly Sarti — Pacubra
15h — Santa Resistência — Pacubra
17h30 — Amir Slama — Pacubra
19h30 — Hisha — Pacubra
21h — Handred — Externo
17 de outubro, sábado
11h — Uó por Marcelo Sommer — Externo
15h — Aluf — Pacubra
17h — Normando — Pacubra
19h — Cria Costura — Pacubra
20h30 — Dendezeiro — Pacubra
18 de outubro, domingo
16h — Foz — Pacubra
18h — Ammi — Pacubra
20h — Apartamento 03 — Pacubra
Atura ou surta, bebê!

Serviço: Ingressos
A venda geral ao público começa dia 27 de agosto, a partir das 12h.
Os ingressos serão vendidos através do site www.eventim.com.br.
TIPOS DE INGRESSO (somente para o Pavilhão das Culturas Brasileiras – Pacubra):
HUB: Permite acesso às áreas comuns e de convivência, incluindo stands, espaços de alimentação e bebidas (A&B) e exposições. Não concede acesso a sala de desfile. Valores Inteira a partir de R$120,00, clientes C6 Bank a partir de R$ 96,00. Meia a partir de R$ 60,00.
CLUB: Permite acesso às áreas comuns e de convivência, incluindo stands, espaços de alimentação e bebidas (A&B) e exposições. Permite acesso a todos os desfiles realizados no Pavilhão das Culturas Brasileiras – Pacubra) no dia escolhido, concedendo acesso antecipado a sala de desfile, acesso à área VIP e Welcome kit. Inteira a partir de R$1.600,00. Clientes C6 Bank R$ 1,280. Meia a partir de R$950,00
INSIDE: Permite acesso às áreas comuns e de convivência, incluindo stands, espaços de alimentação e bebidas (A&B) e exposições. Permite acesso ao desfile escolhido sentado. Inteira a partir de R$310,00 , cliente C6 Bank a partir de R$248,00. Meia a partir de R$155,00.
INSIDE STANDING: Permite acesso às áreas comuns e de convivência, incluindo stands, espaços de alimentação e bebidas (A&B) e exposições. Permite acesso ao desfile escolhido em pé. Inteira a partir de R$220,00, cliente C6 Bank a partir de R$176,00. Meia a partir de R$110,00.
Foto: AG Fotosite
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