Pagode da 27 completa 20 anos: roda de samba, território, moda e identidade

O Grajaú do início dos anos 2000 dificilmente imaginaria que uma roda de samba organizada em uma rua do bairro se tornaria uma das referências culturais da cidade duas décadas depois. Hoje, o Pagode da 27 reúne milhares de pessoas presencialmente e soma mais de 400 mil seguidores nas redes sociais, consolidando-se como um dos principais nomes do samba paulistano atual.

Muito mais que um grupo musical, a iniciativa passou a ocupar diferentes frentes de atuação no território. Jefferson, é um dos articuladores do movimento, e nos contou que essa transformação aconteceu gradualmente. O que começou como uma roda de samba passou a incorporar ações sociais, atividades culturais e iniciativas de formação, ampliando seu papel dentro da comunidade.

“Quando a gente fala em projeto, ele tem começo, meio e fim. O movimento não. Em algum momento entendemos que a Pagode da 27 tinha se tornado um movimento.” – abre Jefferson.

A definição ajuda a compreender a dimensão que a iniciativa alcançou ao longo de duas décadas. Além das rodas de samba, o grupo passou a atuar em áreas como educação, esporte, literatura e formação musical, consolidando uma atuação permanente junto à comunidade.

A história do movimento está diretamente ligada à Rua 27, no distrito do Grajaú, extremo sul da capital paulista. O espaço, que por muitos anos esteve associado aos desafios enfrentados pela periferia, tornou-se também ponto de encontro para moradores, músicos , artistas de todos os nichos e frequentadores vindos de diferentes regiões da cidade.
Essa relação com o território aparece não apenas na música, mas também nas atividades desenvolvidas pela Casa 27. O espaço mantém ações gratuitas voltadas para crianças, jovens e adultos, incluindo aulas de inglês, escolinha de futebol, biblioteca comunitária e projetos de formação musical.

Entre eles está um dos mais empolgantes, a orquestra de cavaquinho, banjo e percussão voltada para adolescentes. A proposta busca contribuir para a formação de novos músicos e para a continuidade das tradições ligadas ao samba. Todas as atividades são oferecidas gratuitamente à comunidade e financiadas por eventos, produtos e iniciativas desenvolvidas pelo próprio movimento.

Ao completar duas décadas de atividades, o Pagode também se consolida como uma das principais referências do samba produzido na periferia paulistana. Na visão de Jefferson, parte desse reconhecimento está ligada à decisão de produzir músicas autorais e registrar as próprias narrativas do território.

Nesta trajetória, o grupo já lançou três álbuns e um vinil, construindo um repertório que reverencia nomes históricos do samba, e documenta experiências vividas no extremo sul da cidade.

“A gente sempre teve a preocupação de contar a nossa própria história.” – completa Jefferson.
E é justamente nesse AÍ, que a moda ocupa um papel relevante na trajetória da Pagode da 27.

Desde bonés, camisetas à acessórios produzidos pelo grupo funcionam não apenas como produtos promocionais mas como peças que incorporam referências visuais ligadas ao Grajaú, à cultura periférica e à população negra , que historicamente compõe grande parte do público das rodas de samba.
O modelo de boné, por exemplo, é desenvolvido para acomodar cabelos crespos e volumosos, é uma escolha feita por quem reconhece a fundo as necessidades do público, as camisetas seguem a mesma lógica, com estampas que costumam trazer referências à favela, à mulher negra e aos elementos culturais presentes no cotidiano da comunidade.

“O samba pode ser moda sim (…) a gente sempre está trazendo essa simbologia, essa referência para que as pessoas que são da periferia se identifiquem com nossos produtos” completa Julinho, que é responsável também pela distribuição dos produtos.

A circulação dessas peças ajuda a construir uma identidade visual compartilhada por dentro do público. Em muitos casos, a experiência da roda de samba começa antes mesmo da música.

Conversamos com a Lu Frazão, uma das radiante frequentadoras do Pagode, pra entender a preparação e expectativa para os domingos na zona sul e o que inclui nessa escolha das peças que serão usadas no encontro.
“A favela é um povo muito criativo” diz.
Pra ela “Não tem competição porque a gente cria o nosso próprio look. Adapta, corta uma peça, mistura referências. Eu praticamente nunca vou igual a ninguém.”

Na fala, é possível compreender o por que a pista ocupa um lugar tão importante quanto o palco na experiência do evento. Roupas customizadas, peças garimpadas em brechós, produções autorais e referências ligadas ao universo do samba convivem no mesmo espaço, transformando o evento em um ambiente de expressão estética coletiva.

Durante a celebração dos 20 anos, realizada no Parque Villa-Lobos, esses códigos visuais apareceram de forma evidente. O público levou para o evento elementos construídos ao longo de anos de convivência, reafirmando uma identidade que ultrapassa a música.
Ao completar 20 anos, o Pagode da 27 apresenta uma trajetória que combina samba, formação comunitária, produção cultural e construção de pertencimento. Uma história em que o território não aparece somente como cenário, mas como o coração pulsante da narrativa que o movimento escolheu contar.

Uma das preocupações permanentes do Pagode da 27 sempre foi a mesma: “contar a nossa própria história”, e podemos afirmar que a mensagem foi recebida.
O grajauense pode se orgulhar e cantar que “quem te vê jamais esquece”, assim como diz a canção.

A roda de samba acontece todos os domingos na Rua Manuel Guilherme dos Reis, 483 – Grajaú- São Paulo – SP, das 16h00 às 20h00, a entrada é gratuita, e recebe doações de alimentos nos mesmos horários.
Para mais informações acesse @casap27 e @pagodeda27 nas redes sociais.

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