Dendezeiro leva House of Dendezeiro à Itália em L’Héritage, porque o Brasil também sabe fazer legado, baby!

Depois de estrear no Rio Fashion Week com Alton Mason encerrando a passarela e Títi Gagliasso fazendo sua primeira aparição oficial como modelo, a Dendezeiro leva House of Dendezeiro para a Itália em L’Héritage, novo capítulo da coleção que transforma ballroom, brasilidade e pertencimento em linguagem de moda.

Por Fabio LageHouse of Models

Mon amour de Campos Elíseos… existe um tipo de desfile que a gente assiste sentado. E existe outro que a gente assiste com o corpo inteiro. House of Dendezeiro, apresentado pela Dendezeiro no Rio Fashion Week, pertence perigosamente à segunda categoria com louvor. Digo perigosamente porque, quando uma marca brasileira entende que passarela não é apenas uma sequência de roupas, mas uma construção de mundo, fica difícil voltar para aquela moda com cara de release desidratado, pose blasé e conceito que parece escrito no elevador… Ui ui ui, atura ou surta, bebê.

Quando a passarela vira casa

Eu estava lá lindamente onipresente. Primeira fila, olho aceso, radar ligado e aquele estado de espírito que só a moda boa provoca: metade olho de lince, metade fofoca espiritual. No encerramento do Rio Fashion Week, a Dendezeiro colocou na passarela uma coleção que não queria apenas vestir corpos… Queria organizar uma casa. Uma casa simbólica, afetiva, estética e política. E, sim, com esse nome, House of Dendezeiro, o House of Models obviamente se sentiu chamado para o rolê. House reconhece House, mon amour.

A apresentação teve como grande destaque internacional o disputadíssimo supermodelo norte-americano Alton Mason, que encerrou com exclusividade o desfile no Píer Mauá. E convenhamos meus querides, não foi uma aparição qualquer, viu? Alton entrou como corpo em trânsito, como presença magnética, como imagem que compreende performance antes mesmo da roupa terminar de falar. Há modelos que apenas desfilam… Alton performa atmosfera, babê. E isso, na moda, não se compra em duty free.

Mas o desfile teve outro tipo de força bem mágica… Títi Gagliasso, aos 12 anos, fez sua estreia oficial como modelo para a marca, encerrando o Rio Fashion Week em um look babadeiro com inspiração ballroom, cercada por uma emoção familiar que atravessava a passarela. Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank estavam sentados ali, bem próximos, diante de mim, assistindo à filha ocupar aquele espaço com carisma, frescor e uma naturalidade rara. Foi bonito… Foi delicado… Foi daqueles instantes em que a moda, quando acerta, deixa de ser apenas vitrine e vira memória fortíssima.

Dendezeiro leva L’Héritage para a Itália

Agora, depois dessa estreia carioca, a Dendezeiro leva House of Dendezeiro para a Itália no dia 2 de julho, em Turim, com o segundo capítulo da coleção: L’Héritage. A palavra, em francês, significa herança. Mas aqui ela precisa ser lida para além da tradução elegante. L’Héritage fala de legado, permanência, continuidade e, principalmente, daquilo que uma marca brasileira escolhe carregar quando atravessa o Atlântico sem pedir licença estética para ninguém.

Hisan Silva e Pedro Batalha parecem compreender algo que muita gente ainda finge não ver: internacionalizar uma marca brasileira não pode significar higienizar sua origem. O caminho mais pobre seria suavizar o dendê, esconder a Bahia, baixar o volume do corpo, polir a rua, neutralizar a festa, embalar tudo em bege europeu e chamar de sofisticação. Ui ui ui, que preguiça,… A Dendezeiro faz o movimento contrário, honey Lee. Ela leva sua gramática para fora. Leva sua ideia de comunidade. Leva o ballroom não como fantasia visual, mas como estrutura de pertencimentob real.

Ballroom não é moodboard, é pertencimento

E convenhamos mon petit de Salvador… esse é o ponto central. House of Dendezeiro nasce de uma aproximação com a cultura ballroom, mas não como simples moodboard de gestos, poses e atitude. Ballroom, em sua dimensão mais potente, é casa, abrigo, disputa, performance, família escolhida, código de sobrevivência e afirmação de identidade. Quando a Dendezeiro se aproxima desse território, ela está dizendo que moda também pode ser lugar de acolhimento, disputa simbólica e construção coletiva com dendê na veia.

Em L’Héritage, a marca propõe uma poderosa releitura. Os 20 looks originais ganham novos desdobramentos através de styling inédito, ampliando as possibilidades de leitura da coleção. Isso é importante porque desloca a roupa do lugar de peça fechada e a coloca como vocabulário vivo. A mesma roupa, em outro contexto, com outro gesto, outra montagem e outra geografia, passa a dizer outras coisas. Moda boa é assim, baby: não morre no clique do desfile… Continua rangendo, respirando, provocando.

Visualmente, as imagens de divulgação já entregam um caminho bem forte e babadeiro. O azul profundo funciona quase como noite elétrica deliciosa. O preto aparece como arquitetura de poder. O vermelho surge como ferida aberta, desejo e alerta. O corpo é tratado como superfície gráfica, mas não como objeto passivo. Há brilho, couro, alfaiataria, recortes, volumes, logomania, chapéus, botas, bolsas, pernas, ombros, olhares frontais e aquela tensão deliciosa entre rua, festa, desejo e imponência. A Dendezeiro sabe que sensualidade, quando bem construída, não precisa pedir desculpas. Ela entra, senta na cadeira principal e ainda pergunta quem vai servir o café.

Há também uma inteligência de marca muito evidente. Fundada em 2019, em Salvador, por Hisan Silva e Pedro Batalha, a Dendezeiro vem construindo uma assinatura que mistura alfaiataria e streetwear para elaborar uma brasilidade plural e contemporânea. Essa definição poderia soar genérica em qualquer outro caso, mas aqui ela ganha corpo porque a marca não parece interessada em uma brasilidade decorativa, tipo souvenir premium de aeroporto. O Brasil da Dendezeiro é mais complexo. É corpo em festa, mas também em disputa. É roupa que sabe dançar, mas também sabe sustentar uma silhueta tupiniquim. É popular sem ser simplório. É sofisticado sem virar estátua.

E talvez seja aí que L’Héritage fique bem mais interessante. Quando uma marca brasileira fala de herança na Itália, o gesto muda de escala. A Itália carrega um peso histórico brutal dentro da moda mundial: alfaiataria, couro, luxo, indústria, tradição, desejo exportável. Levar uma marca baiana para esse contexto não é apenas ocupar uma agenda internacional bebê… É encostar uma narrativa brasileira em um dos imaginários mais consolidados do vestir ocidental. E fazer isso sem virar cópia é o verdadeiro babado do século.

Porque existe uma diferença enorme entre estar no exterior e ter visão internacional. Muita marca cruza fronteira levando mala cheia e pensamento pequeno. A Dendezeiro parece fazer outro caminho mais delicioso: leva um universo. E universo, darling, é muito mais difícil de despachar. Não cabe em bagagem de mão. Precisa de consistência, assinatura, repetição, símbolo, comunidade e muito desejo.

Dendezeiro Core e a moda como roupa de acontecimento

L’Héritage também antecipa os primeiros desdobramentos do universo Dendezeiro Core, com cinco criações que introduzem um novo capítulo da marca. O projeto nasce como celebração da brasilidade e das manifestações coletivas que marcam a cultura popular, especialmente encontros, festas e momentos que acompanham grandes acontecimentos nacionais. É aqui que a Dendezeiro parece tocar em algo muito brasileiro e muito estratégico ao mesmo tempo: a moda como roupa de acontecimento.

O Brasil tem essa característica bem fascinante… A gente se veste para viver o coletivo. Para ver jogo. Para ir à festa. Para ocupar a rua. Para atravessar o Carnaval. Para assistir a um show. Para aparecer no churrasco, no baile, no estádio, na praia, na laje, no centro, no after, na vida. A roupa, aqui, muitas vezes não nasce apenas da tendência. Nasce da ocasião social, do corpo em grupo, da necessidade de pertencer e se destacar ao mesmo tempo. A Dendezeiro Core parece beber exatamente dessa fonte. E, se for bem conduzida, pode transformar esse repertório em produto sem perder alma. Aí mora o ouro… Ou melhor, o dendê, honey Lee da Silva!

Depois do desfile na Itália, a marca ainda deve expandir essa narrativa com um drop exclusivo do universo Dendezeiro Core, fotografado no país. O gesto reforça esse encontro entre Brasil e mundo, mas sem aquela diplomacia sem sal de “mistura de culturas” que muitas vezes vira frase bonita para não dizer nada. Aqui, a ponte é mais concreta. A marca sai do Brasil levando seus códigos, os reposiciona em outro território e devolve ao público uma nova leitura de si mesma. É espelho, não vitrine… viu?!

House of Dendezeiro e a marca como comunidade

O nome House of Dendezeiro também merece atenção. House, nesse caso, não é apenas uma palavra bonita para dar verniz fashionista… É conceito. É casa. É linhagem. É grupo. É território. É quase uma declaração de método. Em tempos de marcas obcecadas por drops, collabs, algoritmos e frases de impacto, a Dendezeiro parece entender que uma marca forte não é apenas aquela que vende produto, mas aquela que cria pertencimento. Produto sem pertencimento vira estoque. Pertencimento com produto vira cultura. Anota isso, porque é sobre isso que muita reunião de marketing deveria estar falando em vez de discutir se o post vai ter fundo off-white ou bege levemente deprimido.

Dendezeiro / SPFW N55 + Origens

A moda brasileira precisa urgentemente de marcas que não peçam desculpa por serem brasileiras. Não no sentido folclórico, caricato ou turístico, mas no sentido profundo de reconhecer que há pensamento estético aqui. Há tecnologia simbólica. Há corpo. Há rua. Há alfaiataria possível fora do eixo europeu. Há glamour possível fora da limpeza clínica do luxo global. Há sofisticação no excesso, no calor, no suor, na música, na performance, no encontro. E há, sobretudo, uma geração de criadores brasileiros que já entendeu que o mundo não precisa apenas consumir o Brasil… Precisa escutar, tocar, sentir e vestir o Brasil.

Dendezeiro entra nessa conversa com uma força particular porque não tenta separar imagem de comunidade. A marca não parece interessada em construir apenas uma roupa bonita para gente bonita em foto bonita (Que preguiça). Isso seria pouco. E, francamente, o mundo já está lotado disso. O que é nítido em House of Dendezeiro é uma tentativa de organizar códigos: o corpo como manifesto, a roupa como brasão, a passarela como salão, a casa como linguagem.

Quando vi o desfile no Rio, havia ali uma energia de estreia e afirmação muito potente. Uma coisa de “chegamos, olhem bem, porque não viemos para decorar calendário”. Agora, em Turim, L’Héritage parece deslocar essa energia para outra pergunta: o que permanece quando uma coleção atravessa território? O que sobra depois do impacto inicial? O que vira assinatura? O que vira legado?

Essa é a chave, meu amor… Literalmente, aliás. Uma das imagens de divulgação trabalha o buraco da fechadura como símbolo visual. E pouca coisa poderia ser mais precisa. A Dendezeiro parece convidar o público a olhar por uma fresta, mas não para invadir uma intimidade. Para entender que há uma casa sendo construída. E toda casa, quando tem história, tem porta, segredo, sala principal, retrato de família, objeto herdado e visita que chega achando que manda. Spoiler: não manda.

L’Héritage não é apenas a continuação de House of Dendezeiro… É um teste de permanência. E permanência, na moda, é mais difícil do que impacto. Impacto se faz com casting, trilha alta, styling forte e imagem esperta. Permanência exige visão. Exige coerência. Exige que a roupa continue falando quando a luz da passarela apaga. Exige que a marca tenha mais do que estética: tenha estrutura simbólica.

A Dendezeiro parece saber exatamente disso. Ao levar sua casa para a Itália, Hisan Silva e Pedro Batalha estão estão ampliando um território narrativo. E, nesse movimento, colocam a moda brasileira diante de uma possibilidade extremamente preciosa: exportar não apenas roupa, mas pensamento.

Quando o dendê atravessa o oceano

No fim das contas, House of Dendezeiro é sobre vestir uma comunidade imaginada, mas profundamente e deliciosamente real. Uma comunidade feita de corpos que performam, celebram, disputam, desejam, brilham e pertencem. L’Héritage, por sua vez, pergunta o que essa comunidade deixa como rastro quando atravessa o mundo.

E pelo visto, mon petit de Xique-Xique, deixa bastante coisa.

Deixa azul no fundo da retina. Deixa vermelho em estado de alerta. Deixa preto com textura de poder. Deixa Alton Mason como memória de uma estreia histórica no Rio. Deixa Títi Gagliasso inaugurando sua relação com a passarela em um momento de afeto público. Deixa Salvador conversando com Turim. Deixa ballroom saindo do lugar de referência estética para ocupar o lugar de linguagem. Deixa a moda brasileira menos tímida, menos colonizada, menos comportadinha.

E deixa uma certeza intrínseca: quando o dendê atravessa o oceano, meu amor, não é para virar azeite europeu… É para temperar a mesa inteira… Ui ui ui!

Abalou Bangu e Abalou Turim também.

Foto: Divulgação

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