Por Fábio Lage – House of Models
Tem horas em que a moda parece tão ocupada tentando parecer séria que esquece de ser viva. Aí vem uma rede de frango frito, pega a própria crocância, transforma aquilo em textura, leva para o corpo, joga vermelho com dourado, injeta humor, desejo, memória afetiva e insolência visual no mesmo balde e pronto. Babado certo… O KFC conseguiu entrar numa conversa que muita marca de moda tenta forçar há anos e não consegue, bebê. Entrar no assunto sem pedir licença e sem parecer desesperada por validação fashion.

Quando eu bati o olho nessas imagens, pensei na hora: isso aqui podia ter dado muito errado… Muito. Podia virar fantasia de campanha oportunista, piada cansada de internet com verba de marketing e pose de editorial. Mas não. O que apareceu foi outra coisa, honey… O que apareceu foi uma marca entendendo que o seu ativo mais poderoso não é só o logotipo, nem o balde, nem o coronel. É a crocância. É a textura. É aquele dourado tostado que, goste ou não, todo mundo reconhece num piscar de olhos. E quando uma marca consegue transformar reconhecimento em linguagem estética, meu amor de Xique Xique, aí a conversa sobe de nível.
Esse é o ponto que muita gente ainda não entendeu. O KFC vai além de apenas uma ação divertida sobre moda e testou, com uma malícia bem interessante, a possibilidade de transformar atributo de produto em código visual. Isso é muito mais sofisticado do que enfiar logo em camiseta branca e chamar de collab. Aqui, o empanado vira textura de desejo, querides. Vira superfície. Vira roupa. Vira acessório. Vira styling. Vira personagem. Vira imagem memorável. E imagem memorável, darling Lee da Silva, vale ouro velho nesse mercado lotado de campanha que nasce morta.
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A peça que mais me fisga de cara é o look com regata preta enxuta, saia ampla felpuda e botas igualmente cobertas por aquela superfície dourada que remete imediatamente ao frango empanado. É quase uma brincadeira entre o grotesco e o chique, entre o absurdo e o editorial. E é justamente por isso que funciona. A saia tem volume, presença e uma certa dramaticidade que impede o visual de tombar na fantasia simplória. A ecobag no mesmo material amplia esse universo com uma ironia deliciosa, como se dissesse que até o utilitário pode ser crocante quando a marca sabe brincar com seu próprio repertório.
Já o visual da modelo de tranças com moletom vermelho e calça dourada texturizada é uma aula de como trazer esse conceito para um lugar mais urbano, mais pop e mais circulável. O vermelho, ali, não entra apenas como cor institucional. Entra como temperatura emocional. Ele acende o look, corta a monotonia do dourado e empurra a produção para uma zona onde streetwear, branding e cultura pop se beijam sem culpa… – Ui, que delicia! A pochete usada no peito reforça essa leitura de acessório objeto de desejo, aquela peça que não está ali para ser discreta… Está ali para ser vista. Para ser fotografada. Para ser lembrada. Para virar comentário. Para virar assunto. E moda, convenhamos, vive disso tanto quanto de tecido.

O puffer com capuz vermelho por dentro é outro acerto. Ali, a campanha escapa do literal e entrega uma silhueta que conversa com o desejo contemporâneo de volume, conforto, impacto visual e imagem instantânea. O jeans largo equilibra tudo com uma base mais familiar, mais rua, mais fácil de ler. É o tipo de construção que faz a pessoa olhar duas vezes. Primeiro pela estranheza. Depois pela inteligência da brincadeira. E é aí que mora o pulo do gato. Ou melhor, do frango, baby!
Também gostei muito da presença do look esportivo usado pela modelo de cabelo armado, com jaqueta felpuda, saia bege volumosa e tênis cobertos pela mesma matéria tátil, arrematados com cadarço vermelho. Ali existe uma camada que vai além da piada visual. Existe styling bem apurado. Existe proporção desejo. Existe um pequeno caos controlado entre esporte, fofura, exagero e escultura. E isso, desculpem, já é mais do que muita campanha de marca supostamente fashion entrega quando tenta parecer cool.

A campanha trabalha menos com a lógica da moda alimentícia e mais com a lógica da semiótica de marca. Não é sobre vestir frango frito no sentido rasteiro da expressão. É sobre vestir o signo do KFC. Vestir aquilo que, antes mesmo do sabor, ativa a memória sensorial e afetiva do público. A textura crocante passa a operar quase como um monograma popular. Quase como um código de casa. Quase como uma assinatura, honey. E eu acho isso fascinante, porque revela uma inteligência rara em branding num momento em que tanta marca grande ainda acha que identidade se resume a manual de aplicação de logo e filtro de Instagram… preguicinha!
A moda já flerta com comida, consumo e cultura pop há muito tempo. Isso não é novidade para ninguém que tenha o mínimo de repertório. A diferença aqui está no modo como o KFC Brasil escolheu entrar no jogo. Ao invés de apenas citar seu universo visual, ele materializou seu atributo mais reconhecível. Isso desloca a conversa do gráfico para o sensorial. E quando uma marca consegue sair do plano do desenho e entrar no plano do toque, ela para de ser apenas lembrada e passa a ser sentida. Mon petit, isso é finíssimo. Popular, debochado e babadeiro… Já quero, viu… KFC!

Tem ainda uma camada comportamental que eu acho importante. Essa ação nasce num tempo em que moda, entretenimento e experiência já não andam separados nem por decreto divino. As pessoas querem consumir história, imagem, sensação, pertencimento e meme ao mesmo tempo. Querem rir e desejar na mesma rotação. Querem um produto que tenha assunto embutido. Querem performar repertório. Querem usar uma peça e dizer com ela que entendem a referência. Que sacaram a piada. Que fazem parte da conversa. A Tailor Made Couture acerta em cheio porque entende isso. Ela não vende só roupa customizada. Ela vende cumplicidade estética de abalar Bangu!
Ao convidar o público a levar peças do próprio armário para receber essa intervenção, o projeto toca também num ponto importante do presente. A personalização já não é luxo de nicho. Ela virou resposta ao cansaço com tudo que sai pronto, lavado, embalado e condenado a virar descarte emocional em duas semanas. Claro que ainda cabe perguntar mais sobre materialidade, origem dos insumos e impacto do processo, porque criatividade sem responsabilidade também já cansou. Mas, dentro do imaginário proposto, há algo mais interessante em reinventar o que a pessoa já tem do que despejar no mundo mais uma cápsula genérica que nasce para morrer no feed.

Agora vamos falar do elefante deliciosamente empanado no ambiente. Essa estética não nasceu para ficar presa num case bonitinho de apresentação publicitária. Ela tem perna, tem pose, tem ruído visual, tem potencial de circulação. E é aí que a coisa fica realmente estratégica. Porque uma campanha dessas não precisa necessariamente gritar parceria para contaminar um território de moda. Às vezes ela precisa apenas aparecer no lugar certo, com o styling certo, no corpo certo, sob o olhar certo. Pronto. Já fez estrago.
E me perdoem, mas é impossível olhar para esse universo e não imaginar o tipo de frisson que isso causaria num evento como o Rio Fashion Week. Não como algo literal, panfletário e berrante. Deus me free de obviedade. Falo de outra coisa. Falo daquela presença indireta que sabe ocupar o entorno, o corredor, o backstage emocional, o clique espontâneo, a foto que parece casual mas não é, o look que vira comentário entre um desfile e outro, o acessório que entra na cobertura como detalhe e sai como assunto. O verdadeiro luxo de uma marca hoje não é só ser convidada para a festa. É conseguir influenciar a atmosfera da festa sem precisar subir no palco e pedir microfone.
E sejamos honestos. O Rio tem tudo a ver com esse cruzamento entre moda, rua, humor, desejo, comida, calor humano, espetáculo e cultura pop. O Rio entende visualidade escancarada. Entende ironia. Entende consumo performático. Entende imagem que não pede desculpas. Um universo como esse, se bem lido, poderia circular com uma naturalidade quase indecente naquele ecossistema em que moda quer ser conversa, experiência e ocupação cultural ao mesmo tempo. Não estou falando de anúncio. Estou falando de inteligência. Estou falando de leitura de cenário. Estou falando de marca que entende que, às vezes, um bom look entra onde muita campanha milionária não consegue nem estacionar.

E vamos ser honestos bebês… o KFC fez uma coisa que me interessa muito mais do que a velha collab para viralizar por vinte e quatro horas e evaporar no dia seguinte. Ele testou linguagem. Testou repertório. Testou desejo. Testou o quanto a sua identidade visual consegue sobreviver fora do produto e ainda manter magnetismo. E, para a surpresa de muita gente que acha que moda ainda mora só entre veludo, pedigree e sobrenome francês pronunciado errado, funcionou. Funcionou porque tem humor. Funcionou porque tem coragem de parecer ridículo sem de fato ser ridículo. Funcionou porque entendeu que o contemporâneo não quer pureza. Quer mistura. Quer atrito. Quer comentário. Quer um pouco de absurdo bem vestido.
E talvez seja exatamente isso que tanta marca de moda tradicional anda esquecendo enquanto tenta parecer conceitual demais para o próprio bem. O povo quer sentir. Quer reconhecer. Quer rir. Quer desejar. Quer usar uma imagem como se ela fosse senha de pertencimento. O KFC entregou isso com um punhado de sherpa, vermelho estratégico, styling afiado e uma ideia que, na mão errada, seria um desastre. Nas mãos certas, abalou Bangu e adjacências, baby!

Atura ou surta, bebê. Porque quando uma rede de frango frito entende melhor o poder de um código visual do que muita grife que se leva a sério demais, talvez o problema não esteja no frango. Talvez esteja na moda.
Foto: Divulgação
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