Modelos brasileiras em ascensão: quem chega à temporada SS27 com o mercado internacional olhando

Às vésperas da temporada internacional Spring/Summer 2027, o House of Models mergulhou em dois anos de passarelas, campanhas, capas, couture, exclusividades, agências e redes de casting para descobrir quais modelos brasileiras realmente chegam em ascensão às semanas de moda de Nova York, Londres, Milão e Paris. O resultado não é outra lista de “promessas para ficar de olho”. É a radiografia de uma geração que já começou a ocupar algumas das engrenagens mais poderosas da moda internacional antes mesmo de o grande público perceber… Ui ui ui!

Por Fábio LageHouse of Models

Mon amour de Xique-Xique e adjacências, no calendário da moda algumas datas chegam carregando aquele tipo muito particular de ansiedade que só uma indústria completamente obcecada por novidade consegue produzir. Não basta mudar a coleção, baby. Precisa mudar o diretor criativo, a cadeira, a narrativa, a cenografia, a família tipográfica, o perfume emocional da marca e, se possível, inventar algum conceito abstrato o suficiente para render seis páginas de release explicando que aquela saia assimétrica é, na verdade, uma investigação sobre memória, desejo, deslocamento, trauma geracional e talvez a relação da humanidade com uma cadeira encontrada num mercado de pulgas em Antuérpia.

O luxo também sofre crise de identidade, bebê. Apenas faz isso com mármore, champagne e orçamento de comunicação.

Naquela terça-feira de março, grande parte da indústria estava olhando para a Dior de Jonathan Anderson. Roupa, bolsa, styling, cenário, celebridade na primeira fila e aquele inevitável campeonato mundial de opinião instantânea que começa antes mesmo de a última modelo deixar a passarela. Só que havia outra história acontecendo alguns metros abaixo dessa superfície, muito menos barulhenta e, para quem acompanha carreira de modelo há tempo suficiente, talvez mais reveladora.

Uma brasileira chamada Rita Dias estava naquele casting.

Se o nome não acendeu imediatamente nenhuma luz na sua cabeça, melhor ainda. O histórico profissional indexado de Rita Dias continua quase minimalista: Dior Fall/Winter 2026, em 3 de março, e Valentino, nove dias depois. Até aí, seriam simplesmente dois desfiles numa indústria que produz centenas deles por temporada. Só que ao lado do primeiro existe uma palavra pequena, quase banal graficamente e gigantesca profissionalmente: Exclusive, honey… Rita aparece registrada como exclusiva da Dior em sua estreia na maison e, logo depois, seguiu para Valentino.

São apenas dois desfiles, darling Lee, mas um deles é Dior Exclusive. E essa pequena diferença explica praticamente toda a tese desta reportagem que vos escrevo.

Eu comecei esta investigação querendo descobrir quais brasileiras chegariam mais fortes à temporada SS27 e, no meio de centenas de créditos, campanhas, castings, editoriais, capas, agências e passarelas, Rita acabou me lembrando de uma coisa elementar sobre este mercado: quantidade impressiona quem olha de fora; contexto interessa a quem entende o que está vendo. Um currículo com vinte desfiles pode ser excelente. Um currículo com seis trabalhos também. Só precisamos parar de fingir que todos os bookings possuem o mesmo peso porque aparecem na mesma coluna de uma planilha.

Talvez tenhamos passado tempo demais procurando a próxima grande modelo brasileira entre aquelas que já estavam fazendo barulho, quando a indústria costuma emitir os sinais mais interessantes muito antes de o público perceber que alguma coisa começou a acontecer… E alguma coisa, definitivamente, está acontecendo, bebê… Só peço uma coisa antes de continuarmos: não venha me falar em “nova Gisele”.

Já deu.

Modelos brasileiras em 2026 e a maldição eterna da “próxima Gisele”

Depois de mais de duas décadas escrevendo sobre modelos e acompanhando essa indústria, eu perdi as contas de quantas “novas Giseles” o Brasil já conseguiu fabricar em manchetes. A menina faz Prada: nova Gisele. Faz Versace: nova Gisele. É brasileira, alta, magra e tem cabelo comprido: nova Gisele. Nasceu no Sul? Aí algum editor quase pede teste de DNA antes de fechar a pauta… Deus me free!

Existe uma espécie de trauma nacional mal resolvido com o fato de termos produzido Gisele Bündchen e, aparentemente, não conseguirmos aceitar que a História não trabalha com reposição automática de estoque. Gisele aconteceu e ainda está acontecendo. Assim como Raquel Zimmermann, Caroline Trentini, Isabeli Fontana, Fernanda Tavares, Adriana Lima, Alessandra Ambrosio, Ana Beatriz Barros, Jeisa Chiminazzo, Daiane Conterato, Aline Weber, Bruna Tenório, Gracie Carvalho, Lais Ribeiro e tantas outras construíram trajetórias internacionais importantes em momentos distintos de uma indústria que também era completamente diferente… E o melhor, ainda continuam extremamente fortes, atuando na indústria como nunca.

Talvez seja justamente aí que esteja um dos nossos maiores erros de leitura quando tentamos compreender esta nova geração de modelos brasileiras. Durante muitos anos, uma carreira internacional poderosa podia ser percebida quase fisicamente pelo volume. Havia aquela garota que começava em Nova York, atravessava Londres, desembarcava em Milão, chegava viva por algum milagre em Paris, fotografava editorial no meio do caminho e, quando a temporada terminava, já estava numa campanha. A quantidade de desfiles funcionava como uma espécie de ticker permanente de poder… Hoje essa equação ficou mais complicada.

O calendário internacional se espalhou por main season, Resort, Pre-Fall, Couture, Métiers d’Art, eventos itinerantes e projetos que escapam completamente do circuito tradicional. As próprias relações entre casting directors, stylists, fotógrafos, maisons e modelos passaram a ser percebidas em várias plataformas ao longo do ano. Isso significa que fazer 25 desfiles continua podendo ser extraordinário, evidentemente, honey… mas já não deveria funcionar como a única medida de relevância.

Precisamos perguntar outras coisas… Quem colocou aquela modelo ali? Era a primeira vez? A maison chamou novamente seis meses depois? Houve Resort? Couture? Abertura? Fechamento? Exclusividade? Semi-exclusive? O runway atravessou para uma campanha? Quem fotografou? Qual stylist participou? Qual casting director voltou a trabalhar com aquele rosto? Existe uma sequência ou apenas um momento?

É menos sexy do que publicar “brasileiras dominaram Paris”, eu sei. Mas também é infinitamente mais útil para compreender carreira.

Porque o mercado de modelos nunca foi uma democracia de quilômetros percorridos em passarela. Seis trabalhos muito estratégicos podem carregar mais informação sobre o futuro de uma garota do que vinte bookings que simplesmente aumentam o total… E 2026 está oferecendo exemplos deliciosos disso, querides.

Luiza Perote: quando “promessa” já virou uma definição completamente atrasada

Antes de falar das meninas que começam agora a esquentar, precisamos colocar uma coisa no lugar correto: Luiza Perote já não é promessa há bastante tempo. Se alguém estiver preparando uma matéria sobre “novas modelos brasileiras para ficar de olho” e resolver colocar Luiza no mesmo balaio de uma garota que acabou de desembarcar em Paris com o primeiro book debaixo do braço, favor desligar e ligar o modem novamente.

No recorte atual, Luiza soma 185 desfiles, 11 trabalhos publicitários, 23 editoriais e 13 capas. Só esses números já encerrariam boa parte da discussão, mas justamente agora eles deixaram de ser o aspecto mais interessante de sua carreira. Em setembro de 2026, às vésperas da nova temporada, ela entrou na campanha Winter 2026 da Burberry, fotografada por Glen Luchford, com styling de Tamara Rothstein e casting da toda poderosa Anita Bitton. No mesmo mês aparecem ainda capas da Harper’s Bazaar Brasil, Family Style e theBallroom, depois de uma capa da Vogue Korea em agosto e de uma semana de Haute Couture em julho que passou por Fendi, Jean Paul Gaultier, Chanel, Standing Ground e Schiaparelli.

Então esqueçam por um instante o número 185… A informação realmente babadeira é que Luiza continua sendo desejada, darling.

Isso parece banal quando estamos falando de uma modelo já estabelecida, mas é justamente o contrário. Entrar num grande casting pode ser resultado de timing, estética, excelente trabalho de agência, uma coleção que pede exatamente aquele rosto ou simplesmente o encontro perfeito entre modelo e momento. Permanecer circulando em alto nível, atravessar diferentes equipes criativas e continuar encontrando espaço em campanhas, capas e couture exige algo completamente diferente.

É por isso que Luiza serve como nossa régua superior nesta investigação. Não estamos mais tentando descobrir se ela será relevante. A pergunta agora é quanto tempo consegue sustentar essa relevância dentro de uma indústria que construiu a própria mitologia em torno da próxima novidade… E ela continua ali.

Victoria Blecher e Celine: quando um grande cliente começa a virar relação

Minha pupila Victoria Blecher está em outro momento e talvez seja um dos melhores exemplos para entender como uma carreira começa a sair da soma de bookings e entrar no território das relações profissionais… Podem ficar com ciúmes… é minha pupila e flash… quer dizer… e ponto.

Seu currículo ainda é muito menor do que o de Luiza, evidentemente, mas uma carreira não deve ser lida apenas pelo tamanho da lista. Celine, Dior, Chanel, Jacquemus e AMI começam a produzir um desenho interessantíssimo quando observados em sequência, sobretudo porque Celine deixou de ser um evento isolado.

Na campanha Fall 2026 da maison, publicada em maio, Victoria foi fotografada por Zoë Ghertner para a Celine de Michael Rider, com o babadeiro Samuel Ellis Scheinman responsável pelo casting. Ela aparece oficialmente entre os modelos da campanha, transformando aquela relação com a casa em algo maior do que uma simples passagem pelo runway, sabe?

Pode parecer um detalhe técnico, mon amour, mas é justamente aí que o mercado de modelos começa a ficar fascinante.

Uma modelo entra numa sala… O casting director conhece… Um stylist trabalha com ela… Um fotógrafo observa como aquela pessoa responde diante da câmera… A maison chama… A equipe gosta… Meses depois, outro projeto aparece e alguém lembra daquele rosto… “Chama ela de novo.” Numa indústria que vive sendo bombardeada por new faces de todas as partes do mundo, ocupar espaço na memória das pessoas certas talvez seja um dos ativos mais difíceis de construir.

Ser novidade é relativamente fácil durante cinco minutos… Ser lembrada é outro babado. E Victoria começa a mostrar que existe memória sendo construída no rolê da indústria.

Ana Beatriz Cortes: da passarela da Louis Vuitton para a campanha

Se Victoria ajuda a explicar relacionamento, Ana Beatriz Cortes é uma pequena aula sobre outra palavra fundamental nesta matéria, mon petit: conversão.

Ana aparece atualmente no Hot List do Models.com, com 35 desfiles, cinco trabalhos publicitários, seis editoriais e uma capa indexados. Seu 2026 passou por Louis Vuitton Fall/Winter, Schiaparelli, Jacquemus SS27 e Louis Vuitton Resort 2027, mas o acontecimento que muda o sentido dessa sequência é a campanha Resort 2026 da Louis Vuitton, fotografada por Cass Bird, com styling da diva criativa Marie-Amélie Sauvé e casting da lendária Ashley Brokaw. Ana integrou um elenco de cinco modelos. Em setembro, seu perfil já acrescenta também editorial na ELLE US.

É aqui que aquela velha contabilidade da fashion week começa a mostrar suas limitações.

Existe uma diferença bastante significativa entre uma grande maison escolher uma modelo para caminhar alguns minutos carregando determinada coleção e decidir depois incorporá-la à imagem comercial da marca. Uma coisa não diminui a outra. Runway e advertising cumprem funções diferentes dentro da construção profissional e simbólica de uma carreira.

Talvez a maneira mais simples de explicar seja esta: runway mostra quem entrou; repeat booking mostra quem foi lembrada; campanha mostra em quem decidiram investir… Guardem isso, bebê, porque essa frase vai nos acompanhar até Paris.

Josefa Santos: quando fazer mais desfiles já não é necessariamente a pergunta certa

Josefa Santos chega à SS27 numa posição curiosa porque seu currículo já atravessou clientes que grande parte das modelos levaria anos para reunir. Dior, Chloé, Schiaparelli, Loewe, Hermès, Jean Paul Gaultier, McQueen e Valentino aparecem em sua trajetória recente, acompanhados ainda por Dior Resort e Hermès Resort em 2026. Seu perfil profissional registra 34 desfiles, além de publicidade, editoriais e a capa de agosto da Vogue Brasil.

Quando abrimos a ficha de Josefa, a pergunta começa a mudar. Ela já provou que consegue entrar em grandes casas e também que consegue voltar. O próximo salto talvez não dependa de acrescentar simplesmente mais oito logotipos ao currículo, mas de transformar essa autoridade de runway numa relação comercial de grande escala.

E isso é importante porque existe uma tendência bastante brasileira de romantizar prestígio como se dinheiro fosse uma vulgaridade incompatível com moda… Não é. Prestígio é lindo… Editorial é lindo… Couture é lindíssimo… Mas modelo é uma profissão e boleto internacional também vence, honey.

A grande pergunta de Josefa durante SS27 não é “quantos desfiles a bela fará?”. É quem, entre todas essas maisons que já confiaram nela na passarela, poderá transformá-la numa imagem comercial de grande impacto… Isso seria um salto “agulha” babadeiro.

Thalita Ferreira: de Saint Laurent e AMI às campanhas de Chloé e Celine

E então chegamos a Thalita Ferreira, talvez o caso mais revelador de por que este artigo precisou ser atualizado enquanto ainda estava sendo escrito e reescrito… Quando comecei a pesquisa, a trajetória de Thalita já possuía um nível de aceleração difícil de ignorar. Hoje seu perfil reúne apenas 15 desfiles, duas campanhas, um editorial e uma capa. O número bruto parece pequeno até começarmos a olhar o que existe dentro dele, baby.

Em março, Thalita abriu Saint Laurent… Depois, em junho, abriu AMI. Vieram Fendi Haute Couture, Jean Paul Gaultier Haute Couture e Schiaparelli Couture, além de outros nomes importantes ao longo do semestre. Em agosto, ela apareceu na campanha Winter 2026 da Chloé, fotografada por Inez & Vinoodh, num elenco com nossa queen Raquel Zimmermann, Jacqui Hooper e Sarah Isaksen. Até aqui já teríamos material suficiente para colocar uma estrela enorme ao lado do nome dela… Só que a carreira resolveu correr mais rápido do que a reportagem.

Na primeira versão deste texto, eu havia escrito algo próximo de: se vier outra campanha importante, muda mais ainda…

Pois não é que ela veio, mon amour?

Em 27 de agosto, a Celine publicou sua campanha Hiver 2026, com Michael Rider no design, Zoë Ghertner na fotografia, Brian Molloy no styling e ele… Samuel Ellis Scheinman no casting. Thalita está oficialmente no elenco… Ui ui ui, bebê, virei Mãe Dináh.

Isso exige recalcular a leitura inteira… Thalita já não chega a setembro como “a garota que abriu Saint Laurent, abriu AMI, atravessou a couture e conseguiu uma campanha importante de Chloé. A bela chega à temporada internacional SS27 tendo convertido runway em publicidade duas vezes, em duas casas muito relevantes, dentro de uma carreira que ainda sequer acumulou grande volume.

A pergunta anterior era se Thalita conseguiria transformar força de passarela em imagem comercial. A resposta chegou antes de publicarmos o artigo: conseguiu.

Agora a questão é muito mais interessante… Isso vai começar a se repetir?

Se a resposta vier positiva em SS27 ou nas campanhas posteriores, estaremos olhando para uma mudança real de patamar.

Sabryna Oliveira e a matemática particularmente debochada da moda

Aí aparece Sabryna Oliveira para destruir qualquer tentativa remanescente de transformar número de desfiles em religião.
Seu perfil indexa apenas sete shows. Sete. Mas, dentro deles, aparecem Balenciaga, Hermès, Dior (em que seu crédito de FW26 chama atenção dentro da lógica de exclusividade da temporada) e Fendi Haute Couture. Em maio, Sabryna entrou ainda na campanha Versace La Vacanza 2026 fotografada por ninguém menos que Steven Meisel, com Ferdinando Verderi na direção criativa, Guido Palau no cabelo, minha rainha da beleza Pat McGrath na maquiagem e Julia Lange no casting.

É aqui que a matemática começa a rir da nossa cara. Sete desfiles parecem pouco… Até Steven Meisel já saber quem você é.

Isso não garante uma carreira gigantesca, obviamente. Seria irresponsável transformar um único trabalho histórico em profecia e a moda possui cemitérios inteiros de previsões feitas com excesso de entusiasmo, darling. Mas seria igualmente irresponsável olhar para uma sequência envolvendo Hermès, Balenciaga, Dior, Fendi Couture e Versace com Steven Meisel e fingir que estamos diante de acontecimentos completamente desconectados.

Não estamos dizendo que Sabryna será uma supermodelo… Estamos dizendo que pessoas extremamente relevantes começaram a colocá-la em lugares extremamente relevantes. E é aí que existe uma diferença.

Bruna Souza: quando onze desfiles parecem muito maiores do que onze

Toda investigação sobre modelos corre um risco preguiçoso: começar com uma lista de nomes que já conhecemos e terminar orgulhosamente provando que os nomes que já conhecíamos eram importantes… Parabéns… Descobrimos o que já sabíamos.

Por isso esta investigação não começou com uma lista fechada, e uma das recompensas foi Bruna Souza. Seu perfil possui somente 11 desfiles indexados, mas a concentração de clientes provoca uma reação completamente diferente quando abrimos a ficha: Chanel Resort, Dior Resort, Jacquemus, Dior Couture e Chanel Couture aparecem apenas nos últimos meses, além de editoriais para Harper’s Bazaar France e Financial Times HTSI e um trabalho Chloé Spring 27 fotografado por Brianna Capozzi.

Onze desfiles não parecem mais tão poucos, né? Talvez a pergunta errada seja “quantos trabalhos Bruna já fez?”. A pergunta mais interessante é quem já decidiu colocá-la dentro da sala.

Essa concentração entre Dior e Chanel é precisamente aquilo que transforma Bruna numa das apostas mais intrigantes desta investigação. Não porque alguém aqui esteja declarando que nasceu uma estrela internacional, bebê. Não sabemos ainda. Mas o desenho profissional atual é sofisticado demais para ser tratado como coincidência banal.

Ela é exatamente o tipo de modelo sobre quem, dentro de seis meses ou um ano, alguém poderá publicar “conheça a nova brasileira que está conquistando Paris”, como se Bruna tivesse despencado ontem de alguma árvore na Avenue Montaigne… Não caiu, bebê… e os sinais já estavam aqui.

Iasmin Reis e Leticia Hall: a geração que a própria Vogue Brasil decidiu colocar na capa

Durante a edição desta reportagem aconteceu também uma mudança importante na nossa leitura sobre Iasmin Reis e Leticia Hall. Elas precisavam ocupar mais espaço, especialmente depois que a Vogue Brasil reuniu Iasmin Reis, Josefa Santos, Leticia Hall, Thalita Ferreira e Victoria Blecher em sua capa de agosto de 2026, fotografada por Nicole Heiniger e concebida justamente como um retrato de expoentes dessa nova geração.

Uma capa não funciona como censo, evidentemente. Revista é edição, escolha, construção de narrativa. Mas ignorar o gesto seria igualmente ingênuo, porque alguma coisa acontece quando cinco carreiras individuais começam a ser apresentadas culturalmente como parte de um mesmo fenômeno.

Iasmin chega a essa conversa com um dado especialmente forte: foi um dos rostos da Dolce & Gabbana e possui uma trajetória recente que atravessa runway e couture. O próprio material da Vogue Brasil destacou sua relação com a casa italiana, enquanto a nova geração era apresentada como conjunto.

Leticia, por sua vez, aparece no portfólio atual da IMG com uma sequência que passa por Louis Vuitton, Dior, Alaïa, Valentino, Saint Laurent, Schiaparelli e Jean Paul Gaultier. Essa concentração, dentro de uma carreira ainda curta, é exatamente o tipo de coisa que deveria nos impedir de olhar para ela como coadjuvante nesta história.

Gabriela Nied: o que acontece depois de um FW26 com Dior, Loewe, Celine e Louis Vuitton?

Se existe uma modelo brasileira que pode funcionar quase como um experimento editorial durante a SS27, ela é a babadeira Gabriela Nied.

Seu Fall/Winter 2026 foi daquele tipo que deixa agência feliz, booker sem voz e concorrência olhando discretamente o show package. Em Paris, Gabriela passou por Dior, Loewe, Lanvin, Celine, Lacoste… que ela fechou lindamente e Louis Vuitton. O histórico está documentado em sua ficha profissional, que também a colocou entre os Top Newcomers da temporada, pelo Models.com.

Agora reparem no ponto exato em que a carreira se encontra… Gabriela já provou que grandes casas a querem no runway. O que ela ainda precisa demonstrar é até que ponto essa sucessão de castings começará a produzir repetição, campanha e relações de longo prazo. É a fronteira entre ser uma modelo extremamente desejada em determinada temporada e começar a construir uma carreira comercial internacional com profundidade…

Uma coisa pode virar a outra rapidamente… Pode demorar… Também pode não acontecer.

Essa incerteza não diminui Gabriela. Pelo contrário, é justamente o que torna sua SS27 tão interessante para observar. Se Dior chama novamente, temos repeat. Se Celine, Loewe ou Vuitton repetem, começamos a enxergar relações. Se uma dessas casas a leva para advertising, ocorre aquela conversão de que falamos desde Ana Beatriz.

Luma Vitoria: diversificação também é uma forma de poder

Luma Vitoria já está um pouco mais adiante no processo de diversificação. Seu histórico reúne 31 desfiles, seis trabalhos publicitários e cinco editoriais, enquanto sua representação passa por Women Management em Nova York e Milão, Supreme em Paris e The Squad em Londres. Em 2026, Luma esteve em Dior Haute Couture, Jean Paul Gaultier Haute Couture, Jacquemus SS27, Louis Vuitton Resort 2027 e Dior Resort, além de publicidade para Wales Bonner.

Luma não depende de uma única maison para justificar sua presença nesta reportagem, bebê. Ela já atravessa prêt-à-porter, Resort, Couture e publicidade, uma circulação que pode parecer menos espetacular do que um grande exclusive isolado, mas diz bastante sobre capacidade de adaptação profissional.

O próximo salto talvez não seja necessariamente fazer mais quinze desfiles. Pode ser aquele cliente ou aquela campanha capaz de cristalizar a percepção de que Luma já deixou de ser alguém que “circula bem” para ocupar uma faixa superior de reconhecimento internacional.

Percebam como cada brasileira chega à mesma temporada carregando uma pergunta diferente… É justamente por isso que eu me recusaria a publicar um texto chamado “dez brasileiras que vão bombar na SS27”.

Bombar significa o quê, honey? Dezoito desfiles? Um Saint Laurent? Dior Exclusive? Voltar para Chanel? Fotografar campanha? Abrir Prada? Fechar uma grande maison? Virar rosto de fragrância?

O mercado não oferece uma única resposta… Carreira também não.

Mariane Calazan, Julia Morais e o valor de uma maison continuar chamando

Existe ainda outro tipo de trajetória que merece atenção, aquela em que um mesmo cliente começa a reaparecer de maneira tão insistente que a própria repetição vira notícia… É o território de Julia Morais e Mariane Calazan, especialmente dentro de Chanel.

A questão aqui não deveria ser transformada numa profecia grandiosa, porque concentração excessiva em uma única casa também pode revelar falta de diversificação. Mas existe uma diferença fundamental entre “fez Chanel uma vez” e “a Chanel continua chamando”. Quando uma maison atravessa temporadas, Resort e Couture com a mesma modelo, começa a existir uma pequena história ali.

E é justamente por isso que SS27 se torna tão importante para trajetórias desse tipo. Se outra grande maison passa a incorporar consistentemente uma dessas garotas ao seu casting, mudamos de categoria analítica. Já não será apenas Chanel gosta dela”. Poderá significar que outras equipes começaram a perceber aquilo que uma casa enxergou primeiro.

É esse tipo de movimento que o House of Models quer registrar enquanto acontece, e não três anos depois, quando a biografia estiver organizada, o outdoor na Times Square estiver pronto e todo mundo jurar que “sempre soube”… Sei.

Lais Garcia e Mauria Caetano: carreiras que ainda podem ganhar outra dimensão em SS27

Mauria Caetano e Lais Garcia representam uma zona particularmente interessante desta investigação porque ainda não possuem uma narrativa única capaz de resumir suas carreiras. Isso, longe de ser problema, é justamente o que torna a próxima temporada bem relevante.

Mauria atravessou clientes como Jacquemus e Dior Couture, além de projetos comerciais e Alta Moda, construindo presença em mais de um território. Lais, por sua vez, já passou por marcas como Jean Paul Gaultier, Acne Studios, Moschino, Blumarine, Emporio Armani, Etro e Coach. Nenhuma delas precisa necessariamente fazer vinte novos desfiles para alterar sua posição no radar. Às vezes basta um único booking de qualidade excepcional, uma abertura, um exclusive ou a primeira campanha importante para reorganizar rapidamente aquilo que achávamos saber sobre determinada carreira.

Essa é outra razão pela qual publicar forecast antes da temporada pode ser muito mais interessante do que simplesmente contabilizar brasileiras depois de Paris. O House of Models deixa a régua registrada… Depois o mercado responde.

Casting directors: quem escolhe as modelos brasileiras que estamos vendo?

Existe um personagem central nesta história que raramente recebe a mesma atenção pública dedicada a designers, fotógrafos ou stylists: o casting director.

A moda transformou diretor criativo em celebridade, fotógrafo em mito e stylist em personalidade de primeira fila, mas boa parte das pessoas que participa diretamente da escolha dos rostos que formarão a imagem de uma coleção continua quase invisível para o público generalista.

Quando começamos a cruzar as carreiras das brasileiras, alguns desses nomes passam a reaparecer: Samuel Ellis Scheinman está no casting da campanha Celine Fall 2026 com Victoria Blecher e também na Celine Hiver 2026 que colocou Thalita Ferreira diante de Zoë Ghertner. Ashley Brokaw aparece na campanha Resort 2026 da Louis Vuitton com Ana Beatriz Cortes e também em castings importantes de casas como Loewe. Julia Lange aparece na Versace La Vacanza com Sabryna Oliveira e Steven Meisel.

O que isso significa?

Não que exista um clube secreto de casting das brasileiras. Guardem o chapéu de alumínio, baby… Significa que carreira não é construída apenas por logotipos colocados lado a lado na bio do Instagram. Ela acontece dentro de redes de confiança profissional. Um casting director conhece uma modelo e volta a escolhê-la. Um stylist trabalha com ela e pode levá-la para outro projeto. Um fotógrafo descobre que gosta da maneira como aquele rosto responde à imagem. Uma maison percebe que a garota funciona para determinado universo visual.

Em algum momento difícil de localizar, a modelo deixa de ser apenas mais uma opção num board gigantesco.

Ela começa a ocupar espaço mental… E isso é poder. Muito menos fotogênico do que uma capa… Porém é muito mais importante do que parece.

Couture e modelos brasileiras: quando a relação com a maison começa a ganhar capítulos

A temporada de Haute Couture de julho de 2026 também ajuda a visualizar essa concentração brasileira. Luiza Perote apareceu em Fendi, Jean Paul Gaultier, Chanel, Standing Ground e Schiaparelli. Já Thalita Ferreira passou por Fendi, Jean Paul Gaultier e Schiaparelli. A bela Bruna Souza esteve em Dior e Chanel, enquanto Luma Vitoria fez Dior e Jean Paul Gaultier. A diva babadeira Ana Beatriz Cortes apareceu em Schiaparelli, e a gata Josefa Santos esteve em Fendi e Jean Paul Gaultier.

Não existe nenhuma equação séria do tipo “fez couture, logo será estrela”. Moda infelizmente não vem com gabarito no final e talvez seja melhor assim… né?

Mas existe algo interessante quando uma modelo começa a aparecer em main season, depois Resort, depois Couture. O ruído diminui. O grupo de clientes se torna mais específico. E, principalmente, a relação com determinada maison pode começar a ganhar capítulos.

Bruna Souza é especialmente interessante sob essa ótica porque Dior e Chanel reaparecem em momentos diferentes do calendário. Julia Morais chama atenção pelo mesmo raciocínio com Chanel. Um único desfile conta um booking; repetição começa a contar uma história.

Talvez seja cedo para muitas delas… Na verdade, espero que seja… A graça desta matéria está precisamente em olhar antes, bebê.

A capa da Vogue Brasil e a pergunta inevitável: existe mesmo uma nova geração de modelos brasileiras?

Durante esta apuração, a Vogue Brasil decidiu colocar cinco dessas mulheres lado a lado. Iasmin Reis, Josefa Santos, Leticia Hall, Thalita Ferreira e Victoria Blecher foram fotografadas por Nicole Heiniger para a edição de agosto de 2026, numa imagem editorial que explicitamente posicionou o grupo como representantes de uma nova geração.

Isso não prova automaticamente que estamos vivendo uma “nova era de ouro” das modelos brasileiras… Revista não é censo, honey… E ainda bem.

Mas a capa funciona como importante indicador cultural de algo que nossos dados já começavam a sugerir: carreiras que poderiam ser percebidas isoladamente passaram a ser lidas coletivamente… E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Momentum individual acontece quando determinada modelo começa a acumular trabalhos relevantes. Narrativa geracional começa quando imprensa, casting, agências e mercado passam a enxergar padrões entre vários nomes ao mesmo tempo… entende?

É justamente aí que precisamos tomar cuidado para não destruir a complexidade do fenômeno tentando vender uma manchete fácil… Essas brasileiras não estão fazendo a mesma carreira.

Luiza não está no mesmo estágio de Rita. Victoria não está construindo a mesma trajetória de Gabriela Nied. Thalita não chegou pelas mesmas portas de Luma. Bruna não vive a mesma situação de Josefa. Sabryna e Ana Beatriz possuem formas diferentes de conversão comercial… E ainda bem, bebê. Porque talvez essa diversidade seja exatamente aquilo que diferencia esta geração de outras ondas brasileiras.

Então existe uma nova onda brasileira na moda internacional?

Foi uma pergunta que eu resisti a responder durante quase toda a investigação porque “nova onda brasileira” é uma manchete irresistível. É bonitinha… Cabe no Google… Cabe no Instagram… Faz mãe de modelo encaminhar no grupo da família e tia comentar “eu sempre soube” com seis corações vermelhos… Só que jornalismo precisa perguntar se é verdade.

Eu não encontrei evidência suficiente para afirmar, com rigor estatístico, que “há mais brasileiras nas passarelas do que nunca” ou que “o número de modelos brasileiras triplicou”. Seria uma maravilha de headline e uma porcaria de metodologia.

O que os dados que estudamos nos permitem dizer é algo menos espalhafatoso e muito mais interessante: há uma concentração significativa de modelos brasileiras ocupando bookings de grande qualidade, algumas atravessando várias temporadas consecutivas e outras começando a converter passarela em campanha, editorial, capa e relacionamento com grandes casas…

É diferente.

Ana Beatriz Cortes transformou Louis Vuitton em advertising. Victoria Blecher já possui uma relação clara com Celine. Thalita Ferreira chega à SS27 com Saint Laurent, Couture, Chloé e Celine dentro de um mesmo período de aceleração. Sabryna Oliveira já esteve diante de Steven Meisel para Versace. Luiza Perote começa setembro com Burberry e múltiplas capas. Bruna Souza concentra Dior e Chanel num currículo ainda curtíssimo. Gabriela Nied chega depois de um FW26 com Dior, Loewe, Celine e Louis Vuitton. Josefa Santos atravessa algumas das casas mais disputadas do calendário. Luma Vitoria já circula entre runway, Resort, Couture e publicidade, enquanto Rita Dias iniciou sua história internacional com uma Dior Exclusive.

Não acho que devamos chamar isso de uma nova era de ouro… “Era de ouro” é uma expressão que já chega ao texto carregando nostalgia, expectativa e comparação histórica suficientes para esmagar quem está tentando construir a própria história.

Euzinho prefiro outra imagem…. Não existe uma única garota atravessando o céu como meteorito, obrigando todo o mercado brasileiro a organizar a narrativa ao redor dela. Há várias mulheres entrando simultaneamente por portas diferentes: continuidade, exclusividade, couture, publicidade, repeat booking, abertura de desfile, relação com maison, velocidade de progressão, densidade de clientes.

Talvez não estejamos diante da próxima supermodelo brasileira. Talvez estejamos diante de uma nova constelação… E, sinceramente? Acho muito mais interessante.

O dinheiro mudou de humor… e isso também muda o valor de uma campanha

Existe ainda uma camada que não podemos ignorar quando falamos de casting em pleno 2026. A moda e, especialmente, o luxo vêm atravessando um período de consumidores mais seletivos, revisão de estratégias, pressão sobre crescimento e necessidade quase desesperada de reconstruir desejo enquanto alguns preços avançaram para uma dimensão em que certas bolsas parecem exigir escritura pública.

Casting também é estratégia.

Quando uma grande marca decide quem vai carregar sua imagem comercial, não está apenas preenchendo um espaço decorativo. Está distribuindo orçamento, memória, reputação, desejo e a tão desejada atenção.

Por isso a passagem de runway para advertising merece tanta atenção nesta reportagem, honey. Quando Celine coloca Victoria Blecher numa campanha, importa. Quando Chloé e depois Celine colocam Thalita Ferreira em publicidade, importa. Quando Louis Vuitton leva Ana Beatriz Cortes da passarela para Resort advertising, importa. Quando Versace coloca Sabryna Oliveira diante de Steven Meisel, importa. Quando Burberry inclui Luiza Perote na Winter 2026, também importa.

Não porque campanha seja um certificado de superioridade moral sobre desfile. Essa discussão seria infantil, né… Passarela constrói posicionamento. Editorial constrói imagem e repertório. Publicidade constrói relação comercial, dinheiro e alcance, mon petit.

Quando uma modelo começa a circular com naturalidade entre esses territórios, a carreira ganha outra espessura. E aí ela fica perigosa… No melhor sentido.

HOFM Model Momentum Index: como medir ascensão sem transformar modelo em ação da Bolsa

Foi justamente para escapar da tirania do número bruto de desfiles que criamos durante a pesquisa o HOFM Model Momentum Index, uma ferramenta editorial interna para observar qualidade das maisons, progressão recente, exclusividade, abertura, fechamento, couture, repeat booking, publicidade, editorial, equipes criativas, representação internacional e velocidade de aceleração…

Não porque eu tenha acordado com vontade de transformar garota em ação da Bolsa, darling Lee da Cidade do rock… Mas porque uma planilha precisava conseguir enxergar a diferença entre vinte trabalhos medianamente relevantes e sete trabalhos que incluem alguns dos clientes mais poderosos do mundo. Volume continua importando… Só não governa sozinho.

O detalhe mais saboroso é que o índice já mudou antes mesmo de NYFW começar.

Na primeira versão desta reportagem, Thalita Ferreira ainda precisava provar que conseguiria uma segunda grande campanha. Agora tem Celine, além de Chloé. Luiza Perote acrescentou Burberry e novas capas de setembro. Ana Beatriz Cortes entra no mês com Louis Vuitton já convertida em publicidade e novo editorial americano. A Vogue Brasil, por sua vez, colocou cinco dessas mulheres na mesma capa, transformando aquilo que estávamos investigando como possível movimento num fato cultural visível.

Isso é maravilhoso porque prova que momentum não é fotografia. É filme… Ele se mexe.

Luiza permanece numa posição privilegiada porque possui aquilo que ninguém fabrica rapidamente: consistência acumulada em alto nível. Thalita cresce violentamente pela velocidade de conversão. Victoria ganha força pela recorrência com Celine. Ana Beatriz já atravessou a fronteira entre runway e campaign. Josefa sustenta uma densidade impressionante de grandes casas. Sabryna possui poucos trabalhos, mas trabalhos de altíssimo valor simbólico. Gabriela Nied chega à temporada com enorme potencial de conversão. Bruna Souza parece estar sendo percebida por Dior e Chanel antes de ser percebida pelo grande público. Luma possui diversificação. Rita continua sendo a incógnita deliciosa desta investigação.

Mas o índice não é sentença… É termômetro. E a SS27 existe justamente para bagunçá-lo… Ui ui ui, mon petit!

A temporada SS27 pode mudar tudo… e não precisamos da próxima Gisele para isso

Talvez seja esta a conclusão que eu mais gostaria que permanecesse depois de toda esta apuração que fizemos.

A obsessão brasileira pela “próxima Gisele” não ajuda ninguém, convenhamos bebê… Não ajuda as modelos, obrigadas a carregar uma comparação impossível. Não ajuda a indústria brasileira, que continua tentando medir o futuro com uma régua construída para outra época. E não ajuda o jornalismo de moda, que transforma carreiras completamente diferentes numa disputa imaginária pelo trono de alguém que jamais pediu sucessora e nem aposentou o salto alto…

Gisele Bündchen não precisa de substituta… Raquel Zimmermann não precisa de cópia… Caroline Trentini não precisa de reencarnação fashion.

A pergunta relevante é outra: como se constrói uma grande carreira internacional de modelo em 2026?
Talvez seja acumulando a consistência monumental de Luiza Perote e ainda chegando a setembro com Burberry, Vogue, Bazaar e couture. Talvez seja transformar Celine numa relação recorrente, como Victoria Blecher. Pode ser passar da passarela da Louis Vuitton para a publicidade, como Ana Beatriz Cortes, ou construir um runway extraordinariamente sofisticado enquanto aguardamos o próximo grande movimento comercial, como Josefa Santos.

Pode ser abrir Saint Laurent e AMI e, em poucos meses, aparecer simultaneamente nos universos de Chloé e Celine, como Thalita Ferreira. Pode ser fazer apenas sete desfiles e descobrir que Steven Meisel já fotografou você para Versace, como Sabryna Oliveira. Pode ser atravessar Dior, Loewe, Celine e Louis Vuitton na mesma temporada e chegar ao próximo circuito carregando uma carreira inteira de conversão pela frente, como Gabriela Nied. Pode ser possuir apenas onze desfiles, desde que boa parte deles contenha nomes como Dior e Chanel, como Bruna Souza.

E talvez, mon amour, seja possível começar uma história internacional realmente importante com apenas dois… É por isso que precisamos voltar a Rita Dias.

Em março de 2026, ela apareceu no Dior Fall/Winter marcada oficialmente como Exclusive e, nove dias depois, entrou em Valentino. Até agora, praticamente isso. Um currículo quase absurdamente pequeno quando colocado ao lado de algumas mulheres desta reportagem, mas que contém exatamente o tipo de informação que iniciou toda esta apuração: não importa somente quanto uma modelo trabalhou; importa onde, como e em quais circunstâncias ela foi escolhida.

Rita pode voltar à Dior nesta temporada. Pode atravessar Paris inteira. Pode aparecer em uma única grande maison. Pode ter uma SS27 silenciosa… Não sabemos.
E esse “não sabemos” é muito mais interessante do que fabricar profecia porque apareceu uma palavra poderosa no início de uma carreira.

Talvez, inclusive, a grande brasileira da temporada nem esteja nesta reportagem… Dentro de algumas semanas, alguma new face babadeira poderá aparecer exclusiva em Milão, abrir uma maison em Paris ou entrar num casting que reorganize completamente o radar que construímos durante meses… Tomara.

Forecast não é profecia bebê.

Jornalismo não deveria brincar de Madame Natasha com show package… Nosso trabalho é olhar para trás com atenção suficiente para identificar o que já começou a se mover, compreender o peso de cada movimento e reconhecer quando um booking deixa de ser episódio e começa a formar sequência… Ou seja: o objeto desta apuração se mexeu diante dos nossos olhos.

É exatamente assim que uma carreira cresce. Não existe uma sirene avisando “ATENÇÃO, NASCEU UMA ESTRELA”. Acontece aos poucos, dentro de relações profissionais que muitas vezes o público nem consegue ver. Um casting leva a outro. Uma abertura muda percepção. A maison chama novamente. Resort vira couture. Runway vira campanha. A campanha vira outra campanha. Um fotógrafo importante trabalha com aquela garota. Um stylist lembra. Um casting director chama novamente. Uma casa decide que aquele rosto ainda tem alguma coisa para dizer.

Até que, alguns anos depois, alguém olha o currículo pronto e pergunta:

“Meu Deus, de onde ela surgiu?”

Do nada não foi, bebê… Nada nesta indústria surge do nada. Já havia um Dior, um Chanel, um Vuitton, um Celine, um Chloé, um Burberry. Já havia Inez & Vinoodh, Steven Meisel, Zoë Ghertner, Ashley Brokaw, Samuel Ellis Scheinman, Julia Lange. Havia uma exclusive, uma abertura, uma couture, um repeat booking, uma campanha, depois outra. Havia uma casa chamando novamente. Havia profissionais importantes prestando atenção antes de quase todo mundo… Havia sinais, honey Lee do céu!

A questão nunca foi se eles existiam. A questão era saber quem estava prestando atenção… E, meus amores, setembro mal começou.

Ui ui ui… Atura ou surta, bebê.

Foto: Divulgação

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