Na segunda coleção alta-costura de Jonathan Anderson para a Dior, a Maison troca a flor-mulher idealizada por uma flor manipulada em laboratório: amarrada, plissada, prensada, bordada e devolvida ao corpo como alta-costura. Funcionou? Em partes muito potentes. E quando tropeçou, pelo menos tropeçou caro, com conceito e com bordado… Ui ui ui! Esta coleção, intitulada Dior Alta-Costura Fall 2026, apresenta uma nova visão sobre o que significa alta-costura.
Por Fabio Lage – House of Models
Mon petit de Champs-Élysées, a alta-costura francesa não é lugar para roupa tímida, baby. Também não é, ou não deveria ser, aquele território sagrado onde todo mundo entra ajoelhado, sussurra “savoir-faire” três vezes e finge que entendeu tudo porque o convite era bonito. Alta-costura, quando presta, precisa fazer mais do que encantar. Ela precisa mexer na nossa percepção de corpo, desejo, imagem, mercado e tempo. Precisa justificar o próprio absurdo. Porque, convenhamos, mon amour, quando uma roupa nasce no andar mais alto da cadeia alimentar do luxo, ela não pode apenas “ser bonitinha”. Bonita é a orquídea da recepção do hotel. Couture tem que fazer a orquídea repensar a própria carreira.

Dior de Jonathan Anderson: a flor foi para o laboratório
Na segunda coleção de Jonathan Anderson para a Dior, apresentada na temporada de Alta-Costura Outono-Inverno 2026-2027, em Paris, a Maison não entrou em cena para restaurar a velha fantasia da flor perfeita, honey. Entrou para mexer na terra, prensar a pétala, torcer o caule, amarrar o tecido, dobrar a superfície e perguntar o que ainda pode ser Dior quando o arquivo deixa de ser altar e passa a ser matéria-prima.
Eis o ponto central babadeiro: Anderson não está tentando fazer uma Dior “correta”… Ainda bem. Dior correta demais vira decoração de herdeira em almoço de conselho. O que ele propõe aqui é uma Dior em estado de manipulação. Uma Dior em que o tecido deixa de ser pano e vira gesto. Em que a flor deixa de ser romance e vira superfície. Em que o Bar jacket não aparece como relíquia, mas como fantasma reorganizado. Em que a feminilidade não vem embalada naquela velha caixinha de perfume francês com laço no pescoço, mas atravessada por textura, volume, amarração, colapso, peso, brilho e estranhamento.

Lynda Benglis como método, não como enfeite intelectual
Segundo a própria Dior, a coleção responde ao trabalho da escultora americana Lynda Benglis, especialmente à maneira como muitas de suas obras partem de materiais bidimensionais transformados em formas tridimensionais por meio de gestos como amarrar, plissar, moldar e drapear. A relação é boa. Mais do que boa: é uma chave de leitura real. O desfile não apenas “cita” Benglis, esse verbo preguiçoso que a moda ama usar quando quer transformar moodboard em profundidade. O desfile tenta operar como Benglis. O tecido é forçado a sair do plano. A roupa parece nascer do atrito entre matéria e mão.
Isso aparece com clareza nos plissados metálicos em prata, bronze e ouro, que se abrem como leques, conchas, folhas rígidas, placas de metal dobradas ou esculturas maleáveis. Aparece nos vestidos amassados, que parecem papel comprimido, seda torturada, pétala prensada ou superfície em colapso. Aparece nos grandes nós, que funcionam como método de construção. Aparece nos drapeados que atravessam o corpo como se a roupa tivesse sido negociada diretamente com a gravidade… Que babado!
Mas o que faz essa coleção ficar interessante é que Anderson não usa Benglis para fugir da Dior. Ele usa Benglis para perturbar a Dior. E perturbar Dior, darling Lee da Silva, é sempre um esporte de risco.
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O Bar jacket sem nostalgia
Christian Dior fundou uma ideia de corpo que, goste-se ou não, ainda assombra a moda: cintura, arquitetura, volume, flor, construção, teatralidade burguesa e desejo muito bem administrado. O New Look, a linha Corolle, o Bar jacket e a mulher-flor são códigos e mitologias industriais. Galliano transformou essa mitologia em ópera, sonho, excesso, delírio e, muitas vezes, espetáculo impossível. Depois da queda abrupta de Galliano, Bill Gaytten entrou num dos lugares mais ingratos da moda: o de segurar a Dior enquanto a Maison precisava atravessar o incêndio simbólico, recuperar o eixo e provar que existia vida depois do teatro gallianesco. Gaytten, então chefe de estúdio e colaborador de longa data, assumiu esse papel de transição entre 2011 e 2012, antes da chegada de Raf Simons, e sua passagem talvez mereça mais respeito do que a memória apressada costuma conceder. Ele não teve o luxo de inaugurar uma era com tapete vermelho conceitual; teve a missão muito menos glamourosa, e muito mais espinhosa, de manter a máquina couture respirando enquanto o mundo inteiro olhava para a Dior procurando cicatriz.

E aqui me permito uma memória pessoal, porque moda também é feita dessas pequenas liturgias que não entram nos relatórios de mercado. Bill Gaytten chegou a enviar um cartão do ateliê de alta-costura da Dior em agradecimento a um artigo que escrevi nos tempos de portal iG. O cartão chegou à redação de moda, em São Paulo, e causou aquele frisson delicioso de redação boa, liderada pelas jornalistas babadeiras Deborah Bresser e Andressa Zanandrea. Saudade de quando um envelope vindo de Paris ainda fazia uma sala inteira levantar a cabeça do computador como se a alta-costura tivesse batido ponto na firma (suspiros). Raf Simons, depois, tentou limpar a sala, abrir as janelas e reduzir o perfume. Maria Grazia Chiuri deslocou a Dior para o campo do discurso, da mensagem, da imagem política e da repetição estratégica de símbolos. Jonathan Anderson, agora em seu segundo capítulo para a Maison, parece escolher outro caminho: menos nostalgia, menos pedagogia, mais laboratório.
A palavra “laboratório”, aliás, é essencial. A própria marca fala em laboratório como alta-costura. E a expressão faz sentido, desde que a gente não a engula inteira como canapé de vernissage. Laboratório bom descobre. Laboratório vaidoso apenas organiza amostras bonitas. Esta coleção tem os dois momentos.

Plissados, nós e casacos: a nova gramática da Dior
Nos melhores looks, a pesquisa vira forma… O bronze plissado, por exemplo, é um dos pontos altos do desfile. Ali, a referência escultórica não precisa pedir licença ao release. Ela está no corpo… A superfície metálica se abre em lâminas, dobra, projeta volume e cria uma roupa que é objeto, imagem, engenharia e desejo. O mesmo acontece com os pretos bordados em prata, onde a noite Dior ganha energia gráfica, quase pictórica, sem cair no vestido de tapete vermelho genérico que todo stylist com medo ama empurrar para cliente famosa. Há ali brilho, movimento, peso de ateliê e presença pública. É vestido para editorial, para capa, para red carpet e para fazer metade da internet fingir que entende alta-costura enquanto salva a imagem no celular.
Nos casacos, Anderson também encontra uma das melhores respostas da coleção. E isso é importante porque, historicamente, a Dior sempre foi uma Maison de construção do corpo, mas aqui o corpo não é apenas esculpido, bebê: ele é envolvido. Casacos texturizados em preto e branco, cinzas densos, verdes profundos, robes longos, jaquetas de superfície orgânica e peças que parecem misturar cardigan, manto e armadura têxtil criam uma Dior de proteção. Uma Dior que não necessariamente revela a mulher como flor idealizada, mas a cobre como território precioso.
É aqui que a coleção ganha uma camada contemporânea babadeira. Em 2026, o luxo não vive apenas de vestido de baile, por mais que muita gente ainda queira vender Cinderela com planilha de marketing. O desejo hoje está no objeto reconhecível, na textura fotografável, na peça que comunica status sem gritar logotipo, na imagem que atravessa feed, museu, tapete vermelho e os closes da vida. Anderson entende isso. Seus casacos são superfícies de poder. São roupas como abrigo, roupa como escultura, roupa como prova de que uma cliente de couture talvez não queira parecer princesa; talvez queira parecer colecionadora de arte que sabe exatamente quanto custou o silêncio dela.

Quando a flor Dior deixa de ser romance e vira superfície
E aí entra a natureza… Porque esta Dior não apresenta uma natureza inocente, campestre, “ai que jardim lindo, vamos tomar chá de camomila”. Deus me free. A natureza aqui é artificializada, prensada, bordada, arquivada, domesticada pelo ateliê. A passarela cercada por vegetação cria a ilusão de floresta úmida, estufa viva, jardim expandido. Mas as roupas respondem com outra coisa: flor construída, flor aplicada, flor de superfície, flor de arquivo, flor transformada em técnica.
A flor Dior, tão sagrada no imaginário da Maison, não desabrocha. Ela é manipulada.
Esse talvez seja o gesto mais inteligente da coleção, mon petit. Anderson não tenta competir com a mulher-flor de Christian Dior no mesmo campo romântico. Ele desloca a flor para um estado pós-romântico. A flor aparece em bordados brancos sobre verde, em superfícies inteiras de aplicações, em sapatos, bolsas, miçangas, relevos, rendas, texturas e ornamentos. Às vezes funciona lindamente. O vestido verde com pequenas flores brancas, drapeado como vegetação disciplinada, é um dos melhores exemplos: tem corpo, direção, savoir-faire e desejo. É jardim, mas não é papel de parede. É flor, mas não é cartão de Dia das Mães couture… Atura ou surta, bebê.
Em outros momentos, porém, a flor pesa um tiquinho… Quando tudo aparece ao mesmo tempo, como flor, colar, bolsa, laço, camisa, bordado, cor, textura, sapato floral, referência cultural e aquele arzinho de “tem pesquisa, viu?” … a coleção fica ansiosa. E couture ansiosa é uma coisa fascinante, mas perigosa. Parece sofisticada até começar a pedir legenda.

Essa é a principal fragilidade do desfile: Anderson é mais forte quando edita o gesto. Quando confia no plissado, no nó, no casaco, no preto e branco, no metal, no corte. Quando a coleção tenta carregar Índia, Ahmedabad, Santa Fe, chita do século XVIII, indiennes, Lynda Benglis, flor Dior, arquivo, bolsa, natureza e artifício no mesmo look, o resultado às vezes fica menos roupa e mais seminário. Um seminário lindo, caro, com bolsa Lady Dior míni e Petit Dîner adornadas por fragmentos antigos de chita e indiennes, claro… Mas ainda assim seminário.
As bolsas como arquivo portátil
A referência à Índia, especialmente à relação de Benglis com Ahmedabad, e à tradição da chita do século XVIII, dá uma camada histórica importante ao desfile. A Dior informa que fragmentos antigos desses tecidos, obtidos de um revendedor especializado, foram usados nas bolsas Lady Dior míni e Petit Dîner. Isso é fascinante porque transforma o acessório em arquivo portátil. A bolsa deixa de ser só objeto pitoresco de styling e passa a carregar memória têxtil. Em uma era em que todo mundo quer transformar bolsa em investimento, Anderson sugere bolsa como fragmento de história. Bem mais interessante do que “must-have da temporada”, essa frase que deveria pagar aluguel de tanto que aparece em release… preguicinha!
Já Santa Fe, no Novo México, onde Benglis mantém casa e estúdio, entra como contraste de paisagem babadeiro: abundância vegetal de Ahmedabad de um lado, ar árido e cristalino de outro. Visualmente, a coleção entrega isso de forma desigual. Os metálicos, os brancos crus, os pretos secos, os cinzas minerais e algumas superfícies queimadas ajudam a sugerir essa tensão. Mas a imagem dominante ainda é de estufa. Uma estufa de luxo, sim, mas estufa. Santa Fe aparece mais como camada conceitual do que como evidência imediata. E tudo bem, desde que a gente não force a barra. O House of Models ama repertório, mas não ama malabarismo geográfico para justificar sapato com flor, honey Lee.

O styling de Benjamin Bruno tem papel central nessa construção couture. Nada ali parece neutro… As camisas brancas surgem como âncoras de realidade por baixo de mantas, casacos, nós e jaquetas. Os colares coloridos e as joias verdes criam pontos de fricção contra os tecidos claros, pretos e metálicos. As bolsas aparecem como objetos quase arqueológicos. Os sapatos florais, insistentes, charmosos e às vezes quase abusados, funcionam como a natureza que está sempre no limite entre a delicadeza e o artifício.
Em alguns looks, o sapato floral dá frescor e ironia. Em outros, parece o assessor de imprensa da coleção sussurrando: “lembrem-se do jardim”. Querido, nós lembramos. A samambaia praticamente está no nosso colo.
Mas há algo muito esperto nessa repetição, baby. Jonathan Anderson está criando um verdadeiro vocabulário. O nó aparece de novo e de novo. O plissado retorna. O casaco retorna. O branco e preto retornam. O verde retorna. A flor retorna. A bolsa-objeto retorna. O desfile não cresce de forma tradicional, como uma escada rumo à noiva. Ele funciona em espiral. Os códigos voltam em estados diferentes, como se cada look fosse uma nova tentativa de resolver a mesma pergunta: até onde o tecido pode ser manipulado antes de deixar de ser Dior?
E a resposta é: bem longe, mas não infinitamente.
A coleção respeita Dior quando entende que a Maison sempre foi sobre construção. Não necessariamente sobre nostalgia. O Bar jacket, por exemplo, não aparece como cópia obediente, mas como memória de cintura, peplum, lapela, proporção e tensão entre torso e quadril. Em algumas jaquetas pretas, cinzas, verdes e brancas, Anderson desloca essa arquitetura para algo menos rígido, menos boneca, mais tátil. Quando isso acontece, a Dior respira. Quando a forma se perde sob excesso de superfície, a Maison fica um pouco abafada, como se estivesse tentando falar por baixo de um bordado muito caro.

O verde, o preto e o branco como códigos de autoridade
O preto e branco é onde Anderson encontra sua maior precisão. Os looks austeros, os casacos longos, os vestidos pretos com bordados prateados, os blazers com contrastes gráficos, as aplicações brancas botânicas sobre fundo escuro: tudo isso dá à coleção uma autoridade que os momentos mais coloridos nem sempre alcançam. O preto tira o açúcar da flor. O branco revela o corte. Juntos, eles limpam o discurso. E, quando o discurso limpa, a moda aparece, honey.
O mesmo vale para os metálicos… A prata e o bronze talvez sejam os materiais mais convincentes da narrativa Benglis. Ali, a passagem do bidimensional para o tridimensional ganha corpo sem precisar de tradução simultânea. São looks que parecem dobrados, moldados, pressionados, expandidos. Alta-costura como escultura em movimento. O bronze, especialmente, tem uma potência rara: ocupa espaço, mas não engole o corpo; brilha, mas não vira fantasia; dialoga com arte, mas não se ajoelha diante dela. Abalou Bangu com método, bebê.

Alta-costura, desejo e red carpet em 2026
A pergunta do desejo também precisa entrar. Há desejo nesta coleção? Sim. Mas não é um desejo óbvio. Não é uma Dior sedutora no sentido tradicional, feita para transformar a mulher em aparição romântica. É uma Dior que seduz pela matéria, pelo gesto, pelo estranho, pela exclusividade, pelo “eu sei algo que você ainda não entendeu”. É desejo de cliente de couture que compra textura. De celebridade que quer imagem com repertório. De editor que vê uma roupa e já imagina o editorial (eu). De colecionadora que não precisa explicar por que um casaco parece uma escultura e custa como uma pequena propriedade rural.
Para red carpet, os melhores candidatos estão nos pretos bordados, nos vestidos metálicos plissados, nos brancos vaporosos, no verde floral drapeado e em alguns robes/casacos de presença monumental. Mas Anderson não parece desesperado para vestir o tapete vermelho tradicional… E isso é bom. O tapete vermelho, hoje, anda tão viciado em nude, fenda e “arquitetura do busto” que qualquer coisa com pensamento já parece revolução. A Dior dele pode render imagens mais interessantes se cair nas mãos certas. Nas erradas, vira meme de “não entendi, mas deve ser caro”. O que, dependendo do código, também é estratégia.

O casting de Ashley Brokaw e as brasileiras na passarela
O casting, assinado por Ashley Brokaw, merece atenção especial. A passarela reuniu 64 modelos, com abertura de Laura Kaiser e encerramento de Kaja Krawczyk. Entre esses nomes, seis brasileiras aparecem confirmadas: Bruna Souza, Carol Monteiro, Gloria Maria, Luma Vitoria, Mauria Caetano e Victoria Blecher. Cerca de 9,4% do casting. Para uma Dior em segundo capítulo de Jonathan Anderson, isso não é rodapé patriótico… É dado de mercado. É presença brasileira dentro de uma das engrenagens mais simbólicas da alta-costura internacional.

E aqui o House of Models precisa fazer o que o House of Models faz: lembrar que roupa não anda sozinha. Couture precisa de corpo. Precisa de presença. Precisa de modelo que sustente o peso físico e simbólico da ideia. O casting de Brokaw não foi de teatralidade explosiva, darling. Foi de presença seca, frontal, quase imperturbável. Modelos que não competiam com a roupa, mas também não desapareciam. Esse equilíbrio importa muito em uma coleção tão material. O risco era o corpo virar cabide de laboratório. Em boa parte do desfile, não virou.

As brasileiras entraram nessa narrativa sem estereótipo fácil. Nada de Brasil como exotismo tropical embalado para europeu bater palma. Elas aparecem dentro da lógica internacional da coleção, carregando códigos distintos: floral, textura, verde botânico, casaco, noite, superfície, ornamento, estrutura. Isso é mais relevante do que uma presença isolada transformada em manchete apressada. É sinal de consistência. Em um mercado que ainda ama usar diversidade como confete institucional, ver seis brasileiras atravessando uma Dior de alta-costura com densidade visual é pauta, sim. E das boas.
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Funcionou? A segunda Dior de Anderson entre manifesto e transição

Agora, o veredito.
A segunda coleção de Jonathan Anderson para a Dior funciona? Funciona em partes, e as partes boas são muito boas. Não é uma coleção perfeita… Ainda bem. Perfeição demais em moda costuma esconder medo. O desfile tem picos excelentes, especialmente quando transforma pesquisa em forma: os metálicos plissados, os pretos gráficos, os casacos de textura densa, o verde floral bem editado, a noiva vegetal, os brancos construídos, os nós que realmente organizam a roupa. Tem também momentos de excesso ornamental, quando a coleção parece querer provar repertório demais no mesmo look. Aí a imagem pesa, a referência aparece mais do que a roupa e o ateliê vira quase nota de rodapé do conceito.
Mas o saldo é bem importante, bebê. Anderson não está simplesmente aplicando sua gramática pessoal sobre a Dior como quem troca o papel de parede de um palácio. Ele está testando uma negociação difícil: como manter a Maison reconhecível sem transformá-la em souvenir de si mesma. Como falar de flor sem cair no perfume. Como falar de arquivo sem parecer museu com ar-condicionado agressivo. Como falar de luxo sem depender apenas de brilho, princesa e aplauso automático.

A coleção não é um renascimento pleno… Não ainda. É mais interessante chamá-la de manifesto de método. Anderson mostra como pretende pensar Dior: pela matéria, pela mão, pela superfície, pelo gesto, pelo deslocamento cultural, pela tensão entre roupa e objeto. Ele não entrega todas as respostas. Entrega uma pergunta cara, irregular, ambiciosa e visualmente potente. E pergunta boa, mon petit, às vezes vale mais do que resposta obediente.
No fim, a flor Dior não morreu… Só foi para o laboratório. Foi amarrada, plissada, prensada, bordada, torcida, arquivada, vestida e devolvida à passarela com cara de quem viu coisas. A velha mulher-flor virou mulher-matéria. Menos idealizada, mais estranha. Menos jardim francês, mais estufa global. Menos conto de fadas, mais experimento de ateliê com orçamento bilionário… adoro!

E, quando Dior erra com orçamento bilionário, erra bordado. Mas quando acerta, darling, faz até a samambaia da passarela parecer que acabou de assistir a uma tese de doutorado vestida.
O babado é certo, mon amour.
Foto: Divulgação – Dior
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