Por Fabio Lage – House of Models
Do single CRAZX ao universo vermelho assinado por Higor Bastos e DUA Lab, a supermodelo brasileira Barbara Fialho troca a perfeição pela verdade e acerta em cheio em seu novo EP.
CINCO FAIXAS, UM RITO DE PASSAGEM: BARBARA FIALHO, O EP CRAZX E O LUXO DE SER HUMANA
Eu apertei o play no EP CRAZX como quem encosta a mão numa maçaneta quente. Não porque “ai, que expectativa”, mas porque tem lançamentos que chegam com clima de evento e tem lançamentos que chegam com clima de corpo. O de Barbara Fialho veio assim, no modo físico, ocupando o ambiente antes mesmo de eu entender a letra inteira. E isso, mon amour, já é um recado: aqui não tem “projetinho de celebrity”, aqui tem rito.
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Barbara Fialho, modelo brasileira com imagem pública do tamanho de uma avenida iluminada, escolheu o caminho mais ingrato quando decidiu virar cantora. Não é sobre coragem romântica. É sobre risco calculado. Quando você já tem capital simbólico, o mundo não te dá “benefício da dúvida”. Te dá auditoria. Te dá ranço preventivo. Te dá aquela sentença preguiçosa do “ai, agora todo mundo canta”. A diferença é que CRAZX não pede licença pra essa patrulha: ele entra, fecha a porta e fala baixo no seu ouvido como quem sabe que vai ser julgado de qualquer maneira.
E aí entra o que separa “tentativa” de “obra”. CRAZX, o EP, e CRAZX, o single, não se apresentam como passatempo nem como extensão cosmética da fama. Eles se apresentam como linguagem direta. Pop como ferramenta de processamento emocional. Maternidade, luto emocional, fim de relacionamento e aquela parte que ninguém posta com filtro porque não tem filtro que aguente. Ui ui ui. Isso não é só confissão. É estratégia artística e, sim, estratégia de marca pessoal, mas do tipo que não parece reunião de branding, parece vida acontecendo sem pedir permissão… Sabe?

O que me pega aqui é a coerência entre som e imagem. Não existe “vou soltar umas músicas” quando o universo visual já chega com unidade, com assinatura e com um código cromático que atravessa tudo como uma veia exposta. Higor Bastos assina direção visual e identidade criativa do projeto e isso aparece como presença, não como crédito. O vermelho não está ali pra ficar bonito em thumbnail. O vermelho atravessa como símbolo de dor, força, intensidade emocional e renascimento. Vermelho de palco, de boca, de telefone que toca tarde demais, de cortina pesada, de confessionário moderno. Vermelho como narrativa, não como tendência.
E quando o videoclipe de CRAZX entra nessa história, ele não vem para “acompanhar” a música. Ele amplia a narrativa visual e abre a conexão direta com o público nas plataformas como se dissesse: eu não quero que você só ouça, eu quero que você sinta onde isso mora. A linguagem do DUA Lab, com esse clima de teaser que não entrega tudo, mas entrega tensão, conversa com a moda do jeito certo. Moda, quando é boa, também é sobre sugestão. Sobre o que fica fora de quadro. Sobre a parte do corpo que a luz escolhe e a parte que a sombra esconde.
E sim, eu vou falar de moda dentro dessa crítica pop porque seria quase ofensivo não falar. A estética do lançamento trabalha a teatralidade sem virar fantasia. Tem boudoir, tem femme fatale contemporânea, mas sem o clichê de “mulher perigosa” de filme ruim. Aqui a tensão é mais interessante: controle e colapso dançando colados. O vermelho vira código de sobrevivência. A câmera escolhe a boca, o telefone vermelho na mão, a cortina como cenário de palco íntimo, e de repente você entende o conceito sem precisar de cartaz explicando… Babado fortíssimo. É a supermodelo que decide se mostrar humana e imperfeita e isso, no nosso momento de indústria, é o novo luxo emocional. Não é “fragilidade como marketing”, bebê. É vulnerabilidade como autoria, quando é de verdade.

E o styling funciona como armadura e como ruína ao mesmo tempo. A leitura de “Crazx” visual passa por escolhas que flertam com Saint Laurent e Ferragamo, e quando o corpo veste esse tipo de referência, ele veste um tipo de poder que historicamente foi usado para esconder rachadura. Só que aqui o luxo não esconde. Ele revela. O arquivo e o acervo, com The Vaut entrando como um cofre aberto, trazem Alexandre Vauthier, Versace de arquivo, Gucci e Courrèges, Valentino e Dolce and Gabbana como se cada casa emprestasse um vocabulário de sedução, mas a frase final fosse dela. E quando Loungerie aparece no meio desse universo, não é “lingerie porque sim”. É corpo como documento. Acessórios como Jack Vartanian, Or Atelier e Swarovski entram como pontuação, e os sapatos de Christian Louboutin, quando aparecem, soam menos como fetiche e mais como postura. É aquela elegância que não está celebrando a perfeição. Está sustentando a travessia… pisando; lacrando.
Existe também um argumento invisível aqui, que é o argumento do time. Barbara Fialho assina como compositora, intérprete, produtora artística e fonográfica, e isso muda a temperatura da conversa, honey Lee de Xique-Xique. A direção criativa e as fotos com Higor Bastos não deixam espaço para improviso estético. O videoclipe com DUA Lab mantém a mesma gramática. O styling de Ana Parisi tem intenção, não só roupa… ou figurino. A beleza de Elcides Freitas entende a cara como narrativa, não como “make bonita”. A cenografia de Felipe Tadeu e a produção cenográfica do Galpão 8 constroem aquele tipo de mundo que parece simples, mas custa pensamento, baby. E a produção executiva da Mangaba Produções segura a operação para que a verdade chegue sem cara de projeto inacabado. Mesmo quando o restante do time aparece, da imagem ao acabamento, a mensagem é uma só: isso aqui foi dirigido. Não foi “vamos ver no que dá”.
Agora vamos ao que interessa, que é a música. Porque é aqui que ela se expõe sem truque.

CRAZX NÃO PEDE DESCULPA, ELE SE DECLARA
Crazx, a faixa, é desabafo cru e arrebatador no melhor sentido, aquele em que a dor ainda pulsa e a coragem já desponta. Ela canta como quem acabou de levantar do chão, ainda com poeira na pele, mas com a coluna aprendendo a ficar reta de novo. A sensação que fica é de catarse sem teatralizar sofrimento. É transformador justamente porque não tenta parecer “profundo”. Ele é. E quando a ideia de transformar o sofrimento em propósito atravessa a faixa, não soa como frase de coach, soa como sobrevivência articulada. É o tipo de música que você não escuta só com o ouvido. Você escuta com o estômago… com a alma.

POP UP É O TIPO DE SOM QUE MUDA A MOBÍLIA DO AMBIENTE
Pop Up chega grandona, ocupando espaço como se a casa precisasse se reorganizar para caber nela. Tem música que toca e te acompanha. Pop Up toca e te conduz. Ela contagia de um jeito que faz o corpo entrar no compasso antes do cérebro terminar de racionalizar, e isso é mérito de pop bem construído: comunicação direta, impacto imediato, refrão que não pede permissão. Só que, por trás da energia, existe postura. Existe dignidade. Existe fronteira restaurada. É aquela faixa que parece festa, mas é decreto. A vibe de “faz mover o popozão” não é só metáfora, é sensação de presença. O coração bate em sintonia com a música e, por um segundo, você entende o que é retomar o próprio centro.

SHOW OFF É CLÍMAX COM SORRISO DE CANTO DE BOCA
Show Off mantém o clímax e faz o retrato mais ácido do EP sem precisar levantar a voz. Aqui, o alvo é a máscara, a performance, as aparências, aquele tipo de personagem que coleciona versões de si mesmo como se fossem álibis. A ironia entra como ferramenta de lucidez. Não tem melodrama, tem percepção. E a melhor parte é justamente a maturidade do corte: a ferida não é dela. Ela só estava perto demais para achar que era. Show Off dança com desilusão, mas não se afoga nela. É libertação que não grita, honey. É constatação elegante, quase cruel.

GOD BLESS É ARREPIO, MAS É TAMBÉM LIMITE
God Bless vem curta, quase como um suspiro, e é daquelas que arrepiam até os pelinhos da nuca sem precisar de explosão. Tem algo espiritual aqui, mas não no sentido de “religioso de vitrine”. É espiritual no sentido de aceitar a dualidade, benção e maldição, e ainda assim não romantizar o que não deu certo. É a maturidade de deixar ir sem transformar o outro em vilão de novela. E isso é raro. A canção faz um tipo de silêncio ativo, como se dissesse: eu entendo, eu sinto, mas eu não fico. É quase um “Atura ou surta, bebê”, só que na versão serena de quem já aprendeu a não negociar a própria paz.

MARIA É A JANELA ABRINDO QUANDO VOCÊ ACHOU QUE NÃO TINHA MAIS AR
Maria, em português, muda a textura do EP como quem muda a luz do dia. Ela tem aquela sensação de rede, pés descalços, grama, um dia em que não há tempo e só existe sonho. Não é “fofura” nem escapismo. É cura como recomeço. É um estado. E quando a ideia de “é tão bom poder amar outra vez” aparece, ela não funciona como frase, ela funciona como clima. Você sente o corpo aliviar. Você sente o peito reaprender a expandir. Maria parece o vento entrando e levando embora o que ficou pesado demais para continuar carregando.
O que me deixa interessado, de verdade, é que CRAZX entende o jogo e, ao mesmo tempo, não é escravo dele. A indústria ama vulnerabilidade agora, mas só ama quando ela vem embaladinha, palatável, com cara de campanha. Quando ela vem real, o público testa, morde, procura incoerência. “Celebrity music” costuma dar errado quando é ego trip, quando é vaidade travestida de arte, quando é barulho sem mundo. Aqui existe mundo. Existe coerência estética. Existe narrativa confessional. Existe produto pop direto. Existe autoria. E é isso que blinda Barbara Fialho do ranço automático. Não porque todo mundo vai amar, ninguém precisa. Mas porque dá para respeitar a intenção mesmo antes de qualquer veredito.

E convenhamos, honey Lee de Hawkins e adjacências… no fim, o que ela faz com CRAZX é simples de dizer e difícil de executar. Ela pega uma imagem construída no alto brilho, aquela imagem que o mundo acha que conhece, e resolve derrubar a porta por dentro. Ela usa o vermelho como cicatriz e como bandeira. Ela usa moda como linguagem, não como enfeite. Ela usa o pop como faca e como cura. E se isso é desconfortável para quem prefere mulher impecável e silenciosa, ótimo. A arte não nasceu para massagear o ego de ninguém.
Porque CRAZX não é só ferida, darling. É cura. É fogo. É rio. É Barbara Fialho em seu estado mais verdadeiro, cantando com o corpo inteiro para lembrar que tudo que vai volta, só que quando volta, encontra uma mulher reconstruída, brilhante e inteira. E aí, meu bem, não é que ela ficou “barbara”. É que ela sempre foi. Só que agora, ela canta… Miau!
Foto: Higor Bastos
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