Milão passou, Paris mudou de roupa e o casting seguiu igual: o apagamento dos modelos brasileiros no luxo masculino

Milão correu, Paris masculina fechou a porta, a alta-costura abriu o altar. E o Brasil? Continua no corredor, com o cartão na mão e a imagem negada, assistindo a esse luxo brincar de universal enquanto escolhe sempre os mesmos rostos. Deus me FREE!
Porque enquanto o calendário muda de cidade, o poder muda de roupa, mas não muda de hábito. No entanto, é essencial destacar a importância dos modelos brasileiros nesse cenário.

Por Fabio LageHouse of Models

Paris, fim de janeiro, mon petit de Xique-Xique. O tipo de frio que entra por dentro do casaco e sai no teu julgamento moral. Tem carro preto demais, óculos escuros demais pra um céu cinza, e uma coreografia de gente importante fingindo que não está desesperada para ser vista. Nos hotéis, nos salões, nas calçadas, a cidade vira um teatro onde todo mundo é figurante e protagonista ao mesmo tempo. A alta-costura está em curso, oficialmente de 26 a 29 de janeiro de 2026, e quando Paris entra em modo couture, o mundo da moda faz aquela pose clássica: “agora é sério”.

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Só que o “agora é sério” tem um detalhe inconveniente, mon amour. Couture é o ápice do ofício, do capital simbólico, do artesanato como argumento de preço. E, mesmo assim, a indústria ainda tropeça no básico: quem tem o direito de representar o sonho. Porque a costura pode ser francesa, a mão pode ser italiana, o brilho pode custar o equivalente a um apartamento em Ipanema, mas o casting… o casting ainda denuncia o mesmo clube do bolinha…

E é exatamente por isso que este texto entra no ar agora, no meio da alta-costura, sem pedir desculpa e sem fazer reverência. Porque Milão já terminou, sim. A Milano Moda Uomo FW 2026–27 rolou de 16 a 20 de janeiro. E Paris masculina acabou de fechar a porta, de 20 a 25 de janeiro, com debate sobre inovação, poder e transições criativas nas casas grandes. E, no intervalo de um café ruim para um convite dourado, a moda troca o cenário… mas mantém o mesmo vício.

O vício? O Brasil como mercado e o brasileiro como invisível premium. Ui ui ui, atura ou surta… bebê!

O modelo brasileiro Jivago Santini no polêmico casting da Dolce & Gabbana.

A importância dos modelos brasileiros na moda internacional

O fato é objetivo e recente: a temporada masculina de inverno 2026–27 engatou Florença, Milão e Paris numa sequência que é praticamente uma maratona de narrativa. Milão foi calendário oficial (16–20 de janeiro). Paris masculina veio na sequência (20–25 de janeiro), com a cidade debatendo o que é “inovação” quando as lideranças criativas mudam e a pressão comercial sobe. E, sem tempo de respirar, Paris já está na alta-costura (26–29 de janeiro), o momento mais controlado e regulado do sistema, onde o mito da “autoria” é vendido como ouro.

E é exatamente nesse encaixe que a matéria ganha músculo: quando a indústria sobe no altar do artesanato, ela deveria subir também no altar da coerência. Só que não. Aí o Brasil segue naquele lugar humilhante e familiar: “importantíssimo para o caixa” e “dispensável no retrato”.

E antes que alguém venha com “ah, mas tem um ou outro”, honey: migalha não é presença. O babado é certo.

Akin – Joy Management Brasil

O jogo real: imagem, poder e a geografia do “aceitável”

Casting não é só escolha estética. Casting é geopolítica em forma de mandíbula. É o comitê invisível definindo quem é “universal” e quem é “local”. Quem tem cara de “marca global” e quem tem cara de “campanha regional”. E isso acontece num nível tão frio que, se você colocar em e-mail, dá processo. No set, todo mundo sabe.

O mecanismo é simples e perverso: o luxo vende sonho, e sonho precisa de um rosto que o mercado aceite como aspiracional sem debate. Em Milão, esse “aceitável” ainda costuma orbitar o eixo Europa–EUA–Ásia premiumizada, com um “exótico controlado” aqui e ali quando convém. Em Paris, a embalagem muda, fica mais “intelectual”, mais “cultural”, mais “conceito”… mas a porta giratória do poder continua girando para os mesmos corpos, baby.

O Brasil entra como tempero. Só que o Brasil não é tempero, mon petit. O Brasil é panela. É audiência. É consumo. É tráfego. É loja… lojas!

Daniel Tardite – Way Management

Milão versus Paris, o mesmo vício com perfumes diferentes

Em Milão, a estética do poder costuma ser industrial: o homem-roupa, o homem-negócio, o homem-luxo pronto para assumir uma holding. Mesmo quando a coleção pira, a cabeça por trás é “como isso vira produto”. Em Paris, a moda teatraliza mais a ideia de cultura, ruptura, postura autoral. E a semana masculina deste janeiro foi literalmente descrita como um campo de tensão entre inovação e tradição nas casas grandes.

Só que a diferença, na prática, é de sotaque. Paris é melhor em vender discurso. Milão é melhor em vender terno. No fim, ambas ainda operam uma hierarquia silenciosa de corpos e origens. E quando aparece um brasileiro, muitas vezes ele vem embalado em narrativa utilitária: o latino, o beach guy, o “corpo”, a “sensualidade”. O Brasil vira arquétipo, não vira pessoa. Tá na Disney, né‽

Akin – Joy Management Brasil

Quando couture vira “autoria” e o casting vira “administração do risco”

couture é o sistema dizendo “aqui existe regra, existe ofício, existe tradição, existe excelência”. É o momento em que o luxo tenta justificar o preço com trabalho real, mão real, tempo real. E aí você percebe uma ironia deliciosa e cruel: quando a moda vira séria, ela fica ainda mais conservadora no que diz respeito a quem pode ser imagem.

Porque couture é administração do risco em estado puro. Pouca peça, pouca cliente, muito símbolo. E símbolo, para essa gente, é sinônimo de segurança. Segurança, por sua vez, é o eufemismo mais caro do luxo.

Iberê Nakamura – Mega Model

Quem ganha, quem perde, quem finge que não viu

Quem ganha quando o Brasil não aparece? Ganha a continuidade confortável. Ganha o casting director famosinho que não quer briga com o cliente. Ganha o cliente que quer “segurança”. Ganha a agência grande que já domina o fluxo e não quer abrir espaço para um mercado periférico entrar com força. E ganha o executivo local que precisa bater meta e prefere não levantar a mão para dizer “isso aqui é feio, hein”.

Quem perde? O modelo brasileiro, óbvio, que segue sendo exportação difícil, cara e incerta. Perde a agência brasileira que investe em grooming e não vê retorno proporcional. Perde a marca, que desperdiça potência cultural real e se prende numa imagem pasteurizada. E perde o próprio luxo, porque quanto mais ele tenta parecer “global” com rosto repetido, mais ele vira uniforme. Uniforme não dá desejo, dá tédio caro… bocejei!

E quem finge que não viu? Todo mundo que depende do acesso.

Gabriel Gomieri – Prime Management

Os números que deixam a hipocrisia ainda mais cara

Vamos colocar matemática na mesa, porque eu adoro quando a planilha vira espelho, darling Lee da Silva.

Globalmente, relatórios da Bain apontam um mercado de bens pessoais de luxo ainda gigantesco, mas em fase de recalibração, com projeções de leve erosão em 2025 e um setor tentando sustentar desejo num contexto mais duro. Em português: quando o jogo aperta, a imagem vira arma.

No Brasil, a Euromonitor estima o varejo de “luxury goods” na casa de dezenas de bilhões de reais, com crescimento em 2025. Não é troco de estacionamento. É dinheiro de gente grande, num país que vive crise crônica, mas continua sendo aspiracional em escala industrial.

Então me explica, bebê: como é que você opera comercialmente aqui, se alimenta da nossa atenção e do nosso consumo, e ainda acha normal não refletir o Brasil quando monta a narrativa visual global?

Deus me FREE.

Quem é Travos, o modelo indígena que atravessou a Casa de Criadores sem pedir licença?

Anderson Santos – Joy Management

Vem cá… senta aqui; vou te contar uma cena que acontece em variações infinitas…

Um garoto de Recife, 19 anos, perfil limpo, estrutura óssea perfeita, elegância que não precisa de barulho. A agência investe: book, vídeo, testes, inglês, passaporte, visto, passagem parcelada, ansiedade em suaves prestações. Ele chega em Milão e descobre que a cidade não está nem aí para o seu “potencial”. Ele entra num casting com mais 60 caras, e o termômetro não é beleza. É encaixe narrativo.

O cliente olha e solta a frase que parece elogio, mas é gaiola, honey: “very interesting”. Interessante é o limbo. Interessante é o “não sei o que fazer com você”. No dia seguinte, alguém sugere que ele “neutralize a energia”. Traduzindo: seja menos você. Seja mais “global”. O global, claro, sendo o padrão deles.

Ele sai com um “we’ll call you”. Não chamam. E quando chamam, às vezes chamam para o papel que já está pronto: o latino sexy no fundo da campanha e na passarela. Babado forte, e não é do bom.

O que isso ensina? Que talento sem posicionamento vira objeto de avaliação alheia. E que o mercado ama a diversidade quando ela não exige reimaginar o centro.

Campanha da grife Paco Rabanne fotografada no Rio de Janeiro.

O set no Rio, o moodboard europeu e o Brasil como cenário, não como sujeito

Campanha “inspirada no Brasil”. Filmagem no Rio, cor, calor, textura, suor controlado, trilha “latina” versão luxo. A marca fala de cultura local, de energia, de autenticidade. Só que a cara da campanha poderia ser de qualquer lugar. Modelo europeu, styling que simula “tropical” sem encostar no real, e um casting brasileiro reduzido a figuração de atmosfera. Brasil como cenário. Brasileiro como adereço.

E quando alguém pergunta, a resposta vem lisa: “o cliente queria uma imagem mais internacional”. Mais internacional como? Mais parecida com o que já existe. A moda faz turismo cultural com guia pago, mas não hospeda ninguém, bebê.

O que isso ensina? Que o exotismo é lucrativo, mas a representatividade dá trabalho. E o luxo, quando está preguiçoso, escolhe o que dá menos trabalho.

Jorge Barros – Singular Management

“Tá, e como isso acontece na prática?”: a engenharia invisível do casting

Acontece na soma de pequenos filtros que ninguém assume, mon petit.

Filtro de logística: “brasileiro dá problema de visto”. Às vezes dá mesmo. Mas quando o mercado quer, resolve.
Filtro de rede: casting é relacionamento. Quem está no WhatsApp de quem define o fluxo.
Filtro de estética: a tal “coerência de marca”, que vira senha para manter um padrão.
Filtro de risco: “não quero debate”. Marcas preferem evitar barulho, só que o silêncio também é barulho.
E o mais venenoso: filtro de narrativa. Se o Brasil não está escrito no roteiro da marca, o brasileiro vira exceção, não protagonista.

Se você é modelo e quer jogar esse jogo sem virar refém dele, pensa assim: você não é só corpo, você é ativo de imagem. Tenha material impecável e honesto, sim, mas tenha também um posicionamento que explique por que você existe no mercado, que história seu rosto conta e que energia você entrega no set, bebê. Entenda contrato, prazo, exclusividade e uso de imagem como quem entende boleto: no detalhe, sem vergonha de perguntar. Cuida da tua saúde mental como parte da tua carreira, porque o “não” repetido em casting não é só profissional, é psicológico. E escolha agência como quem escolhe sócio: transparência, estratégia, rede real e plano de longo prazo. Se a tua carreira depende de “um milagre em Milão” ou “um match em Paris”, deu ruim. Milagre é bom na novela. Carreira é construção.

Noah Alef – Way Management

Quem opera no Brasil tem obrigação moral e comercial de refletir o Brasil nos castings

Eu vou ser direto, darling. Marca que lucra no Brasil e insiste em não refletir o Brasil nos castings está fazendo uma escolha política, cultural e econômica. E essa escolha tem consequência, mesmo que demore a chegar.

Porque o consumidor brasileiro está ficando mais inteligente. Ele pode amar status, mas também ama se ver no espelho. E o brasileiro, quando percebe que está sendo usado só como carteira, começa a criar anticorpo. Talvez não vire boicote imediato, mas vira erosão de desejo. Vira ranço. E ranço é uma das forças mais subestimadas do mercado brasileiro… Hello Oscar!

Enquanto Paris vende “autoria” como religião, o luxo ainda escolhe imagem como burocracia. Couture diz “excelência”. Casting responde “prudência”. Prudência, quando vira regra estética, é só conservadorismo com perfume caro.

Milão já acabou, sim. Paris masculina acabou de fechar o ciclo. E a alta-costura está acontecendo enquanto você lê isso. A indústria ama tratar calendário como desculpa: “ah, já passou”. Só que as estruturas não passam. Elas se repetem, com outra trilha, outra luz, outro casting “seguro”.

Até quando o Brasil vai aceitar ser mercado sem ser imagem? Porque quem paga a conta, uma hora exige aparecer no retrato. E quando exige, não é com pedido. É com poder tupiniquim, darling!

Foto: Divulgação

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