Schiaparelli Alta Costura 2026: Daniel Roseberry mergulha no vazio para escapar da própria fórmula

Em L’Appel du Vide, a maison transforma látex, silicone, surrealismo e casting brasileiro em uma discussão sobre o futuro da alta-costura

Por Fabio Lage House of Models

A Schiaparelli abriu a Semana de Alta-Costura de Paris com uma pergunta que parecia menos interessada em impressionar a plateia do que em desestabilizar o próprio lugar de conforto da maison. Em L’Appel du Vide, coleção de alta-costura Outono/Inverno 2026-2027, o babadeiro Daniel Roseberry não partiu da segurança de uma fórmula vencedora, mas do incômodo de perceber que talvez ela já estivesse começando a se transformar em armadilha. Para uma casa que fez do surrealismo sua herança mais visível, o perigo nunca foi parecer estranha demais. O perigo era começar a parecer previsível… Ui ui ui, mon petit!

Essa é a tensão central da coleção, baby. Roseberry poderia ter seguido o caminho mais fácil: ouro anatômico, espetáculo de red carpet, formas impossíveis, uma pitada de Elsa Schiaparelli, duas de delírio controlado e voilà, mais um capítulo pronto para circular como imagem de impacto. Mas o que aparece nesta temporada é mais complexo. A coleção nasce justamente do fracasso dessa tentativa de repetição. No texto oficial da maison, Daniel Roseberry admite ter tentado reproduzir o processo criativo da temporada anterior, antes de perceber que a fórmula sufocava a possibilidade de algo novo.

O vazio, aqui, não é mero cenário, mon petit… É ferramenta. A expressão francesa l’appel du vide, esse chamado quase irracional para o abismo, funciona como metáfora para um processo criativo que só se abriu quando deixou de tentar dominar tudo. E talvez seja aí que a Schiaparelli encontre sua melhor resposta ao próprio legado. O surrealismo da casa não sobrevive quando vira decoração de arquivo, mas quando recupera sua função original: tornar estranho aquilo que parecia familiar, fazer o corpo escapar da obviedade, transformar matéria improvável em imagem inevitável.

E convenhamos, darling Lee de Xique-Xique, é exatamente por isso que a coleção não deve ser lida apenas como mais um exercício de excentricidade couture. Látex, silicone, superfícies moldadas, flores artificiais, dourados escultóricos e volumes orgânicos aparecem como uma discussão sobre o que ainda pode ser considerado nobre dentro da alta-costura. A própria Schiaparelli afirma que a coleção combina técnicas de haute couture com matérias sintéticas como látex, silicone e camadas de tinta cozidas e esculpidas em silhuetas.

E na passarela, essa inquietação também passa pelo casting, dirigido pelo todo poderoso Piergiorgio Del Moro. A presença das brasileiras Ana Beatriz Cortes, Erika Barletta, Luiza Perote e Thalita Ferreira no desfile não é detalhe patriótico para nota rápida, mon petit. Em uma temporada na qual a alta-costura voltou a discutir corpo, artifício, transformação e estranhamento, essas escolhas ajudam a entender como as maisons vêm usando modelos não apenas para vestir roupas, mas para sustentar narrativas visuais. Casting, aqui, não é preenchimento, bebê… É linguagem.

O vazio como método criativo

Há algo bastante revelador quando um diretor criativo admite que só começou a gostar de uma coleção depois de se render ao vazio. Na alta-costura, onde tudo costuma ser apresentado como controle absoluto… da moulage ao bordado, da entrada da modelo à posição da câmera… a ideia de entrega soa quase como falha. Mas é justamente essa falha que interessa na Schiaparelli de Daniel Roseberry. Em L’Appel du Vide, o vazio aparece como método absoluto… Que babado!

Roseberry constrói a coleção a partir de uma tensão rara no luxo contemporâneo: a consciência de que uma linguagem muito bem-sucedida pode se tornar sua própria prisão. A Schiaparelli recente consolidou uma gramática reconhecível, feita de anatomias douradas, volumes extremos, humor surrealista, espetáculo visual e uma relação muito eficiente com celebridades. Isso devolveu à maison uma centralidade que ela não tinha há décadas. Mas toda assinatura forte carrega um risco: quanto mais identificável ela se torna, mais próxima fica da repetição.

É nesse ponto que a coleção encontra sua força… Em vez de apenas repetir os códigos que fizeram Schiaparelli voltar ao centro da conversa, Daniel Roseberry parece colocá-los sob uma pressão deliciosa. O surrealismo continua ali, mas menos como ornamento e mais como instrumento de deslocamento. A pergunta deixa de ser “o que há de estranho neste vestido?” e passa a ser “por que esse estranhamento ainda importa?”. Essa mudança é crucial, baby. Uma maison fundada sobre o absurdo não pode se contentar em parecer excêntrica. Precisa continuar produzindo instabilidade.

O corpo como escultura inquietante

O corpo, portanto, não é tratado como suporte neutro para a roupa. Ele vira território de mutação. A coleção trabalha com bustos rígidos, superfícies lisas, volumes que parecem crescer do próprio corpo, tentáculos, couraças e formas que flertam com criatura, armadura e aparição. A coleção é capaz de provocar medo, espanto e fascínio ao mesmo tempo, chamando atenção para peças lisas e brilhantes, moldadas ao corpo, tendões inflados e placas que pareciam iluminar de dentro.

E essa dimensão quase abissal é bem importante, Honey Lee da Silva… Não se trata apenas de inspiração oceânica, ainda que a imagem do fundo do mar ajude a explicar a estranheza visual da coleção. O abismo, aqui, funciona melhor como estado psicológico. A roupa parece surgir de um lugar onde o corpo humano já não é suficiente como medida única. Ele é aumentado, coberto, endurecido, prolongado, por vezes quase desumanizado. E esse quase é onde mora a tensão babadeira. Schiaparelli não abandona o corpo; ela o força a negociar com o artifício.

Há uma inteligência alienígena nisso… Em uma temporada de alta-costura marcada por experimentações com silicone, termoplásticos, estruturas 3D e novas superfícies, a Schiaparelli se coloca no centro de uma discussão mais ampla: a alta-costura ainda precisa parecer manual para ser reconhecida como alta-costura? Ou basta que ela carregue o impossível, o individual, o tecnicamente intraduzível para escala industrial?

E parece que essa pergunta muda a régua crítica, mon amour. Se o luxo não está apenas no material nobre, mas no domínio de um processo difícil, lento e específico, então látex e silicone deixam de ser provocação barata. Passam a funcionar como novas superfícies de prestígio. A couture sempre gostou do impossível, apenas fingia que ele precisava vir coberto de tradição. Roseberry parece responder que o impossível pode vir brilhante, sintético, estranho e levemente desconfortável. Talvez até precise, viu.

O resultado é uma coleção que não busca seduzir pelo caminho mais fácil… Entende?
Ela não pede apenas admiração… Pede aproximação, recuo, dúvida. Há beleza, claro, mas uma beleza que não vem polida para tranquilizar. Vem com textura de ameaça. E é justamente aí que Schiaparelli evita o destino mais perigoso para qualquer casa ressuscitada com sucesso: virar caricatura de si mesma.

Matéria, imaginação e o novo luxo

A provocação material talvez seja o ponto mais contemporâneo da coleção. Durante décadas, a alta-costura foi educada a se reconhecer por uma espécie de nobreza visível: seda, cetim, lã, organza, bordado, pluma, cristal, renda, horas de ateliê transformadas em superfície preciosa. Daniel Roseberry não abandona esse vocabulário, mas o contamina. Ao colocar látex, silicone e matérias sintéticas no centro da conversa, ele desloca a pergunta. Já não basta perguntar de que é feito um vestido. É preciso perguntar o que foi feito com aquilo.

O luxo, quando se torna apenas reverência ao material caro, fica perigosamente perto do fetiche de catálogo. A alta-costura, em sua forma mais interessante, sempre foi menos sobre ostentar matéria-prima e mais sobre tornar visível uma inteligência de construção que a indústria não consegue reproduzir em escala. Nesse sentido, o látex e o silicone não diminuem a couture. Ao contrário: quando manipulados com precisão artesanal, eles expõem uma verdade incômoda para o próprio sistema. Talvez a nobreza não esteja no tecido, mas na dificuldade de transformar uma matéria improvável em imagem inevitável.

A discussão não é isolada, bebê… A temporada Fall/Winter 2026 de alta-costura se apresentou em um momento em que a couture segue forte entre clientes de altíssimo patrimônio, apesar de dificuldades em outras áreas da indústria. A demanda por exclusividade e peças únicas permanece robusta, com listas de espera e limitação de mão de obra artesanal como desafio relevante para o setor.

Essa é uma chave essencial para entender a Schiaparelli. Roseberry está testando sua definição. Um vestido de alta-costura precisa parecer tradicional para ser reconhecido como tal? Ou basta carregar aquilo que a couture sempre prometeu: singularidade, dificuldade, risco, presença e uma dose muito calculada de impossibilidade? A resposta da coleção parece apontar para a segunda opção. E isso torna a proposta mais interessante do que uma simples estética de impacto.

Surrealismo sem museu

Honey, o surrealismo entra justamente nesse ponto. Na Schiaparelli, ele é herança, mas também perigo. Poucas casas têm um arquivo tão imediatamente reconhecível, e poucas correm tanto risco de transformar esse reconhecimento em caricatura. O olho, a boca, o corpo deslocado, o objeto absurdo, o ornamento anatômico: tudo isso pode ser linguagem ou fantasia temática, dependendo da inteligência com que é usado.

A pergunta não é “onde está Elsa?”. Essa pergunta é pequena demais, mon petit… A pergunta mais útil é: o que Elsa autorizou que ainda pode ser radical hoje? A fundadora da maison não fez história apenas porque colocou imagens inesperadas na roupa, mas porque entendeu que moda podia se relacionar com arte, humor, perturbação, desejo e escândalo visual sem pedir licença ao bom gosto dominante. A própria Schiaparelli destaca a colaboração de Elsa com artistas como Salvador Dalí, Cocteau, Man Ray e Giacometti como parte central de sua história.

O legado não está no motivo repetido, mas na liberdade de quebrar a lógica. Quando Roseberry se aproxima desse espírito, a coleção respira. Quando apenas acena para o arquivo, ela se aproxima do souvenir. Nesta temporada, felizmente, o abismo vence a vitrine… Ufa!

E é exatamente por isso que L’Appel du Vide precisa ser lida menos como fantasia submarina e mais como exercício de instabilidade. As referências ao fundo do mar, às criaturas abissais e às formas orgânicas funcionam porque carregam uma dimensão psíquica babadeira. O oceano profundo é também metáfora para aquilo que não se controla: o desconhecido, o informe, o corpo antes da norma, a beleza antes da domesticação. A Schiaparelli de Roseberry parece interessada nesse instante anterior à explicação, quando a imagem ainda não foi traduzida em tendência, quando a roupa ainda causa uma pequena pane no olhar.

Essa pane é rara e valiosa.

A moda contemporânea, especialmente no luxo, se tornou muito competente em produzir reconhecimento imediato. O look já nasce sabendo para onde vai circular: red carpet, editorial, feed, celebridade, capa, meme, arquivo digital. A Schiaparelli também domina esse circuito, talvez como poucas maisons hoje. Mas nesta coleção há um esforço de escapar da própria eficiência. Em vez de apenas fabricar imagens prontas para viralizar, Roseberry tenta recolocar uma pergunta no centro da experiência: o que acontece quando a moda volta a ser menos explicável?

A resposta não é inteiramente confortável, e esse é o mérito aqui. A coleção tem momentos de beleza evidente, mas sua força está nos momentos em que a beleza parece ameaçada por algo mais estranho. É quando a roupa deixa de servir apenas ao encanto e passa a produzir atrito. Numa temporada em que a alta-costura reafirmou sua vitalidade mesmo diante das dificuldades do mercado mais amplo, essa capacidade de atrito importa, bebê.

Schiaparelli, nesse sentido, não propõe uma resposta tranquila para o futuro do luxo. Propõe uma tensão… Entre tradição e sintético. Entre ateliê e artifício. Entre arquivo e vertigem. Entre desejo e desconforto. E talvez seja essa tensão que impeça a maison de se tornar prisioneira do próprio sucesso recente. O luxo que apenas se reconhece envelhece rápido. O luxo que ainda consegue se estranhar tem alguma chance de permanecer vivo.

Casting como linguagem: as brasileiras na Schiaparelli

Em uma coleção construída sobre abismo, matéria instável e corpo transformado, o casting não pode ser tratado como detalhe técnico, honey Lee. Ele é parte da tese visual inteirinha. A Schiaparelli não precisava apenas de modelos capazes de vestir alta-costura. Precisava de presenças capazes de sustentar estranhamento sem transformar a coleção em fantasia… E essa diferença é decisiva. Há roupas que pedem beleza. Há roupas que pedem imagem. E há roupas, como as de L’Appel du Vide, que pedem acontecimento babadeiro.

O desfile teve direção criativa de Daniel Roseberry, styling apurado de Marie Chaix, cabelo de Guido Palau, maquiagem da deusa Pat McGrath e casting de Caterina Matteucci, Diego Maffezzoni e Piergiorgio Del Moro. A força de uma coleção na passarela não nasce apenas das roupas… Nasce de um sistema de imagem muito estudado. Cada profissional ali ajuda a construir a temperatura simbólica do desfile: a roupa, o corpo, o rosto, o gesto, o cabelo, a pele, o ritmo, o olhar.

É nesse ponto que a presença brasileira ganha relevância no rolê. Ana Beatriz Cortes, Erika Barletta, Luiza Perote e Thalita Ferreira integraram o casting da Schiaparelli Haute Couture Fall 2026, ampliando para quatro o número de brasileiras na apresentação.

Mas o que interessa ao House of Models é a leitura por trás dele. Quatro brasileiras em uma apresentação de Schiaparelli representam a inserção de modelos brasileiras dentro de uma narrativa de moda altamente específica: uma coleção que exige expressão, controle corporal, capacidade de sustentar estranhamento e uma imagem que não se dissolve diante do excesso. Em Schiaparelli, a modelo não pode parecer menor que a roupa. Se parecer, a roupa engole. Se competir demais, a imagem vira ruído. O ponto é esse equilíbrio difícil, quase cruel, entre desaparecer e dominar.

Carol Trentini Encanta Paris: Única Brasileira na Alta-Costura da Schiaparelli

Luiza Perote chega a esse momento com trajetória já consolidada entre grandes casas internacionais; com passagens por Chanel, Gucci, Versace, Saint Laurent, Balenciaga, Alexander McQueen, Fendi e Schiaparelli, além de sua presença no Top 50 do Models.com. Essa continuidade ajuda a explicar por que seu nome não pode ser lido como surpresa exótica ou descoberta de ocasião. Luiza aparece cada vez mais como uma modelo de trânsito amplo, capaz de circular entre códigos distintos sem perder densidade de imagem. Na alta-costura, isso vale ouro. E ouro, no caso de Schiaparelli, nem precisa pedir licença para entrar… né bebê?

Thalita Ferreira ocupa outro ponto interessante da narrativa. Com passagem por marcas como Saint Laurent, Loewe, Balenciaga, Stella McCartney, Celine e Jean Paul Gaultier. Há nela uma leitura possível de ascensão estratégica: não apenas a modelo que “apareceu” em Paris, mas uma presença que vem sendo testada por casas de linguagem forte, frequentemente ligadas a silhueta, atitude e construção de imagem. Em uma Schiaparelli que pede tensão, Thalita entra menos como rosto bonito e mais como corpo editorial de abalar Bangu e adjacências.

Ana Beatriz Cortes amplia essa leitura com um sinal importante de velocidade internacional. Brasileira, integrante da Hot List do Models.com, ela aparece em 2026 em uma sequência que inclui Schiaparelli Haute Couture Fall 2026, Jacquemus, Louis Vuitton Resort 2027, Louis Vuitton Fall/Winter 2026, Alaïa e Saint Laurent. Sua presença na Schiaparelli reforça a entrada de uma nova geração brasileira em castings de alta exigência simbólica, onde não basta atravessar a passarela; é preciso sustentar conceito, proporção e estranhamento sem desaparecer dentro da roupa.

Erika Barletta completa o trio com outro tipo de sinal… A amazonense ganhou projeção depois de estrear na New York Fashion Week e acumulou passagens por Chanel, Fendi, Calvin Klein Collection, Mugler e Lanvin antes de integrar o casting da Schiaparelli. Essa trajetória mostra velocidade e capacidade de adaptação. Erika aparece no ponto em que a indústria testa uma nova imagem brasileira em casas que operam códigos muito diferentes entre si. Calvin Klein não pede o mesmo corpo simbólico de Mugler. Chanel não pede o mesmo tipo de presença de Schiaparelli. A travessia entre esses territórios indica maleabilidade sem apagamento.

Quando brasileiras entram em um casting de alta-costura tão carregado de conceito, elas estão sendo convocadas para participar da construção de uma imagem global, não para ocupar uma cota de entusiasmo nacional. A pergunta não é “quantas brasileiras desfilaram?”. A pergunta melhor é: que tipo de brasileira a indústria internacional está escolhendo para sustentar suas narrativas mais sofisticadas?

Essa resposta começa a aparecer na própria temporada… São modelos com trajetória internacional em aceleração, trânsito entre maisons, imagem editorial forte e capacidade de atravessar linguagens diferentes. O Brasil, historicamente associado a uma ideia de beleza solar, comercial, sensual ou esportiva… essa prateleira antiga que a indústria adorou usar até gastar o verniz; aparece aqui em outra chave. Menos cartão-postal. Mais construção de imagem. Menos “beleza brasileira” como clichê exportável. Mais corpo brasileiro como instrumento de leitura contemporânea bafônica.

O polêmico Inferno de Dante na Schiaparelli

Na Schiaparelli, isso ganha peso especial. A maison não está trabalhando com uma beleza pacificada… Está lidando com criatura, abismo, artifício, mutação e estranhamento. Quando Ana Beatriz, Erika, Luiza e Thalita entram nessa narrativa, elas ajudam a deslocar também a percepção do que a modelo brasileira pode representar fora do Brasil. Não apenas desejo tropical… Deus me free. Não apenas simpatia de passarela… Não apenas pele bonita sob luz boa… Mas uma presença capaz de sustentar complexidade visual.

É aí que o casting deixa de ser bastidor e vira linguagem, baby. A escolha de uma modelo nunca é neutra. Ela define proporção, energia, leitura racial, ritmo, temperatura, mercado e memória. Em alta-costura, esse efeito é ainda mais radical, porque cada corpo carrega uma roupa que dificilmente será reproduzida em massa. A imagem que sobra é quase tudo. E se a imagem que sobra inclui quatro brasileiras em uma das coleções mais discutidas da temporada, isso não é detalhe, mon petit… É sinal.

L’Appel du Vide

A importância de L’Appel du Vide não está apenas em seus materiais, em suas formas ou na teatralidade controlada de sua imagem. Está no gesto de colocar a própria Schiaparelli diante de uma pergunta incômoda, honey: como uma maison ressuscitada pelo impacto pode continuar relevante sem se tornar dependente dele? Essa é uma questão central para o luxo contemporâneo. O sucesso visual, quando repetido sem atrito, vira fórmula. E fórmula, mesmo quando dourada, continua sendo fórmula.

Daniel Roseberry parece entender esse risco. A coleção não abandona os códigos que devolveram visibilidade global à Schiaparelli, mas tenta reabrir suas possibilidades. O ouro ainda existe. O corpo ainda é tratado como campo de invenção. O surrealismo ainda ronda cada construção. Mas há uma tensão mais madura entre domínio e perda de controle. Em vez de apenas afirmar uma assinatura, Roseberry coloca essa assinatura em crise. E, em moda, poucas coisas são mais produtivas do que uma linguagem capaz de duvidar de si mesma.

Essa dúvida é justamente o que impede a coleção de ser reduzida a espetáculo. L’Appel du Vide não é uma sequência de imagens extravagantes esperando celebridades, capas e reposts. Embora certamente alimente todos esses circuitos, ela também propõe uma discussão mais profunda sobre o futuro da alta-costura. Em um mercado cada vez mais pressionado por escala, velocidade e tradução imediata, a couture preserva seu poder quando consegue sustentar o que não se explica de primeira. O que não vira produto rápido. O que não cabe inteiramente na legenda.

Há também uma dimensão comercial nessa estranheza. O luxo não vende apenas roupa. Vende autoridade simbólica. E, para manter essa autoridade, precisa provar que ainda consegue imaginar antes dos outros. A Schiaparelli de Roseberry parece apostar nisso: não em agradar de maneira fácil, mas em produzir imagens que reorganizam o olhar. Mesmo quando desconfortáveis, essas imagens criam valor. Mesmo quando impossíveis, elas alimentam desejo. A alta-costura talvez exista justamente nesse intervalo entre o que ninguém precisa e o que muita gente passa a querer porque viu existir.

O desfile também confirma que casting é uma das linguagens centrais da couture contemporânea. A presença de Ana Beatriz Cortes, Erika Barletta, Luiza Perote e Thalita Ferreira não deve ser lida como adereço nacional em uma pauta internacional. Ela revela como modelos brasileiras estão sendo convocadas para participar de narrativas visuais mais complexas, menos dependentes do clichê da beleza tropical e mais conectadas à construção de imagem, presença e repertório corporal. Isso muda a conversa, darling Lee.

A Schiaparelli não escolhe corpos apenas para exibir vestidos. Escolhe presenças para sustentar ideias. E, quando brasileiras entram nesse sistema, entram também no mapa de disputa simbólica da temporada. Não como exceção folclórica, mas como parte da engenharia visual de uma maison que entende que cada rosto carrega uma consequência. Em um desfile sobre abismo, mutação e artifício, estar no casting é também ocupar um lugar dentro da tese.

No fim, a coleção não tenta resolver completamente a tensão que apresenta. Ela deixa uma pergunta aberta… e talvez seja esse o seu maior mérito. A alta-costura ainda precisa parecer preciosa para ser reconhecida como alta-costura? Ou pode ser brilhante, sintética, inquietante, quase monstruosa, e ainda assim carregar a máxima expressão do feito à mão? Roseberry não entrega uma resposta limpa. Entrega uma coleção que insiste em complicar a pergunta.

E é nessa complicação que a Schiaparelli permanece viva. Não quando repete Elsa Schiaparelli como imagem de arquivo, não quando transforma surrealismo em truque de vitrine, não quando entrega ao red carpet mais um objeto pronto para viralizar. Mas quando recupera o gesto mais radical de sua fundadora: desconfiar da normalidade, perturbar a beleza, rir discretamente do bom gosto e lembrar que moda, quando levada a sério, também pode ser uma forma sofisticada de vertigem.

L’Appel du Vide talvez não seja a coleção mais fácil de Daniel Roseberry… Ainda bem, viu? A facilidade costuma ser o primeiro sintoma de uma linguagem que parou de crescer. Nesta temporada, a Schiaparelli escolheu olhar para o vazio… e, por alguns minutos, fez a alta-costura parecer menos interessada em repetir sua própria majestade e mais disposta a descobrir do que ainda tem medo.

Foto: Divulgação – Schiaparelli

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