No terceiro desfile da Mondepars, Sasha Meneghel usa a avó Alda como arquivo afetivo para construir uma coleção de alfaiataria, casa, rito, desejo e permanência. A pergunta é se a roupa já fala mais alto que o sobrenome.
Por Fabio Lage – House of Models
Depois da lágrima, sobra a roupa… E talvez seja exatamente aí que Alda, coleção da Mondepars apresentada por Sasha Meneghel para o Inverno 2026, fique mais interessante, honey. Porque emocionar uma sala com avó, família, memória, Xuxa na fila A e uma casa translúcida no centro da passarela é uma coisa. Agora fazer a alfaiataria continuar falando depois que o choro seca é outra, mon amour de Bento Ribeiro. E é nessa segunda parte, menos óbvia e muito mais perigosa, que a moda começa de verdade… Ui ui ui!
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Convenhamos em uma coisa, honey Lee… Alda não é apenas uma coleção em homenagem à avó materna de Sasha, Alda Meneghel, mãe de Xuxa, figura apresentada como ligada à costura, à pintura, à casa, à criação manual e à formação estética afetiva da família. Alda é uma tentativa de transformar memória doméstica em linguagem pública de moda. É a avó que deixa de ser apenas lembrança íntima e vira arquivo, origem, narrativa, capital simbólico, matéria e, quando a roupa funciona, forma.
A palavra “homenagem” é bonita, mas perigosa. Ela amolece a crítica, pede delicadeza, quase exige reverência. E moda, honey, não pode ser analisada de joelhos. A Mondepars merece ser tratada com seriedade justamente porque tenta jogar em outro campeonato: o da marca brasileira jovem que quer construir permanência, vocabulário próprio e desejo premium sem depender apenas da curiosidade em torno de quem assina. Sasha Meneghel tem formação em moda, estudou na Parsons School of Design e vem conduzindo bem a Mondepars como projeto autoral. Isso precisa ser reconhecido. Ao mesmo tempo, o sobrenome Meneghel carrega visibilidade, acesso, afeto público, mídia, curiosidade, expectativa e cobrança. Isso também precisa ser dito, honey.
A pergunta que atravessa Alda inteira é simples, cruel e necessária: a roupa sobreviveria se ninguém soubesse que Sasha é Sasha?
A resposta, felizmente, não cabe num “sim” ou “não” de rede social. Parte relevante da coleção sobreviveria, sim. Há construção visual, códigos de marca em formação, styling inteligente, cenografia simbólica, alfaiataria com intenção e momentos editoriais muito fortes e babadeiros. Mas a narrativa familiar amplia a recepção emocional, injeta densidade e oferece à Mondepars uma espécie de ancestralidade instantânea. Uma memória pode ser sincera e estratégica ao mesmo tempo. Quem acha que emoção e posicionamento não se misturam na moda está na Disney, darling. E provavelmente usando um look bege muito caro para fingir neutralidade.
Alda Meneghel como arquivo afetivo
Alda Meneghel entra na coleção como avó, mãe, costureira, pintora, presença doméstica e matriz sensível. Mas o ponto mais interessante não está apenas na biografia. Está na operação simbólica. Ao nomear a coleção Alda, Sasha tenta criar para a Mondepars uma origem. Uma raiz. Uma casa anterior à marca. Uma mão anterior ao produto. Uma história anterior ao desfile.
Isso é forte porque marcas jovens costumam sofrer de um problema básico: elas nascem no presente, mas querem parecer destinadas à permanência. Casas tradicionais têm arquivos, décadas, fantasmas, mitologias, manequins antigos, cartas, croquis, escândalos e perfumes acumulados no tempo. Marcas novas precisam construir profundidade. Algumas fazem isso com referências internacionais mastigadas. Outras fabricam manifesto em inglês ruim. A Mondepars, em Alda, tenta um caminho mais íntimo: buscar na avó uma fundação afetiva.
A questão crítica é se essa fundação aparece na roupa… Porque avó costureira e pintora, sozinha, dá uma história bonita. Mas moda exige matéria… Exige corte… Exige proporção… Exige acabamento… Exige imagem… Exige que a lembrança atravesse o tecido antes que o texto explique. Se Alda fica apenas na narrativa, vira release emocionante. Se Alda aparece no trench, na gola, na renda, na gravata, no marrom, na mão invisível da construção, aí o desfile começa a ganhar espessura, bebê.
Gilda de Melloe Souza, em O Espírito das Roupas, nos ensinou que a roupa é linguagem social, corporal, simbólica. Não é enfeite para distrair gente séria. É documento de época, classe, gênero, desejo, comportamento. Vista por essa lente, a pergunta mais interessante sobre Alda não é “Sasha homenageou bem a avó?”. A pergunta é: qual é o espírito dessas roupas? Que mulher essa avó se torna quando traduzida em alfaiataria? Uma presença doméstica? Uma artista? Uma matriarca? Uma lembrança de casa? Uma elegância de interior filtrada pelo luxo urbano paulistano? Uma memória gaúcha convertida em produto premium brasileiro?
É aí que o babado ganha densidade, bebê. Porque a coleção não tenta reproduzir literalmente um guarda-roupa antigo. Ela parece trabalhar com vestígios. Casa, costura, disciplina, tecido, silêncio, solenidade, luto, pele, transparência, rito. Alda vira menos personagem e mais atmosfera.
A casa translúcida de Ana Arietti e a passarela como memória em movimento
A cenografia de Ana Arietti é central para entender o desfile. A casa translúcida no centro da passarela não funciona apenas como cenário bonito para foto. Ela é tese visual. Uma casa que aparece, mas não se entrega totalmente. Uma casa vista por véu, cortina, lembrança, sonho, luto ou álbum familiar embaçado. A passarela deixa de ser apenas espaço de apresentação e vira território psíquico.
Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, escreveu sobre a casa, o quarto, o armário, a gaveta, os cantos, os objetos guardados, essa intimidade que molda a imaginação. Alda parece nascer desse tipo de lugar. Não de uma viagem exótica, não de um arquivo europeu usado como muleta de sofisticação, não de um “moodboard” desesperado por validação. A coleção nasce de uma casa interior. Ou, pelo menos, tenta nos convencer disso.
A casa translúcida é poderosa porque também funciona como metáfora da própria condição de Sasha. Ela cria uma marca dentro de uma casa simbólica já iluminada demais pelo imaginário público brasileiro. A família Meneghel não é uma família qualquer dentro da cultura pop nacional. Há memória coletiva ali. Há televisão, infância, imagem pública, afeto de massa, ruído, projeção. Maurice Halbwachs, em A Memória Coletiva, ajuda a entender isso: lembramos sempre dentro de grupos, imagens compartilhadas, instituições, famílias e narrativas sociais. Quando Alda entra na passarela, ela já não pertence apenas à lembrança privada. Ela passa a circular como imagem pública, como capital simbólico, como origem de marca.
Isso torna a coleção mais interessante e mais perigosa. Porque a emoção está disponível antes mesmo da análise. A sala pode se comover antes de observar um recorte de ombro. O nome pode tocar antes do tecido. A família pode sequestrar o olhar antes da costura. E é justamente por isso que a crítica precisa ter método. A casa emociona. Mas a roupa precisa morar dentro dela sem virar decoração afetiva.
Sasha Meneghel além do sobrenome
Sasha Meneghel não deve ser reduzida à celebridade que criou uma marca. Essa leitura é preguiçosa e, francamente, pequena demais. Ela estudou moda, constrói a Mondepars como projeto autoral e, em Alda, apresenta uma coleção que indica amadurecimento de linguagem. Ao mesmo tempo, também seria ingênuo fingir que Sasha chega ao mercado como uma jovem estilista qualquer, batendo na porta com portfólio embaixo do braço e boleto no e-mail. O campo de partida é outro, bebê.
Pierre Bourdieu, em Distinction, tratou de gosto, classe, capital cultural e capital simbólico. Pensando por essa chave, a Mondepars nasce e cresce num terreno de alta visibilidade. O sobrenome abre portas, atrai atenção, gera repercussão, mas também coloca a roupa sob uma lupa mais exigente. Em Alda, a avó funciona como humanização, origem e adensamento. Não vejo isso como cinismo. Vejo como moda. E moda é justamente esse lugar onde afeto, estratégia, imagem e mercado vivem se olhando no espelho, fingindo que não se conhecem.
O desafio de Sasha é fazer a Mondepars existir como marca quando o sobrenome sai da manchete. Em Alda, ela começa a responder com vocabulário. Não de modo definitivo, não como grife plenamente consolidada, mas como projeto que começa a identificar seus próprios códigos: alfaiataria, marrom, trench, camisas, gravatas, sobriedade, pescoço construído, proporções controladas, diálogo entre masculino e feminino, desejo de permanência.
A Mondepars ainda não está livre do sobrenome. Mas Alda mostra que a marca começa a deixar de ser refém dele. Isso, para uma terceira apresentação, é escandalosamente relevante, baby.
Pedro Sales e o styling como sistema nervoso
O styling é assinado por Pedro Sales, e isso ajuda a entender por que a coleção não se perde numa alfaiataria apenas correta, comportada, educadinha demais. O styling é o sistema nervoso de Alda. Ele desloca a roupa. Cria personagem. Tensiona a sobriedade. Introduz pequenos curtos-circuitos onde a coleção poderia virar apenas “bela roupa premium”.
As gravatas vão além de acessórios e aparecem como disciplina, hierarquia, masculinidade emprestada, laço familiar, nó de memória, código de poder. Às vezes escolares, às vezes dândis, às vezes quase conventuais, elas atravessam a coleção como sinal de controle. As amarrações nos trenchs, as capas curtas, as golas ampliadas, os capuzes, as bolsas, as clutches e as luvas longas transformam cada look em personagem. Não são apenas roupas, querides… São modos de entrar numa sala.
Há algo muito esperto nesse styling porque ele entende que a Mondepars trabalha com uma base visual sóbria. Sem tensão, a sobriedade poderia virar reverência. Sem ruído, o clássico poderia virar bom gosto sem pulsação. Pedro Sales injeta estranhamento, mas sem transformar o desfile em fantasia. E essa dosagem é deliciosamente importante. A coleção flerta com convento, circo, casa, arquivo e rito, mas raramente vira caricatura desses campos.
As luvas, especialmente as brilhantes em marrom e preto, são um dos gestos mais fortes. Elas transformam a mão em instrumento de poder. A mão que costura, que pinta, que ajusta, que cuida, que segura a memória, agora aparece revestida, dramatizada, quase blindada. Ui ui ui, honey, quando um acessório consegue puxar esse nível de leitura, não é adereço… É narrativa babadeira.
A beleza fria de Rodrigo Costa e os rostos que sabem demais
A beleza é assinada por Rodrigo Costa e sugere um caminho muito coerente com a proposta: rostos limpos, frieza emocional, cabelos polidos, molhados, riscos precisos, ondas moldadas, volumes naturais, capuzes e rendas cobrindo cabeça e pescoço. Não há uma tentativa de adoçar o desfile. Ainda bem. Uma coleção sobre memória, casa, rito e armadura não precisava de pele “fofinha”, blush de boneca triste e cabelo de princesa que acordou no Pinterest.
Os rostos parecem saber demais… Essa é a melhor forma de resumir. Há uma ausência de sorriso que não soa pose vazia, mas construção de clima. Os cabelos polidos reforçam o controle. Os volumes naturais criam arquitetura e presença. As ondas moldadas na testa retomam uma elegância antiga, quase de retrato. O cabelo solto e claro do look final, desfilado por Larissa Moraes, abre uma fresta de aparição, como se o desfile terminasse com uma imagem menos presa à instituição e mais próxima da pele.
A beleza participa da dramaturgia porque o pescoço, a cabeça e o rosto são territórios fundamentais em Alda. Gravatas, golas, capuzes, rendas, colarinhos, cachecóis e lenços constroem uma obsessão visual por essa região. O pescoço aparece como lugar de controle, identidade, proteção e tensão. É onde a roupa prende, enquadra, disciplina e, às vezes, sufoca elegantemente. Deslumbrante quando funciona. Perigosamente solene quando pesa.
O casting como dramaturgia
Visualmente, o casting também participa da narrativa. Entre os nomes apurados, aparecem Thalita Ferreira, responsável por abrir o desfile e Larissa Moraes, que depois de brilhar em Nova York, foi a responsável por fechar o desfile da Mondepars… além de Ana Clara Falconi, Sofia Hiromoto, Deborah Viana, Valeria de Moraes, Gabriela Nied, Nicolas Almeida, Ayrton Gusson, Mustafar Tchipia, Yasminne Camille, Kai Andrade, João Marchioro, Gabriel Neres, Eduarda Berlato, Rafa Fonseca, Alejandro Costa, Bruno Almeida, Gabby Dobbins, Maria Clara Liotto, Alice Rolim Oliveira, Gabriel Valente, Pedro Mesquita e Hamid.
Não se trata apenas de preencher passarela com rostos bonitos, darling. Em Alda, os corpos ajudam a escrever a coleção. Há diversidade racial, cabelos volumosos, figuras jovens, presenças mais maduras, modelos que sustentam o dândi, o austero, o etéreo, o urbano, o ritual. Alguns looks só ganham a potência que têm porque o casting segura a personagem sem pedir licença. Uma capa preta em corpo errado vira teatro escolar. Uma gravata em rosto sem presença vira styling de vitrine. Aqui, em muitos momentos, o casting, assinado por Bill Macintyre, dá densidade e impede que a roupa pareça apenas uma tese bem vestida.
Isso é muito importante para uma marca em processo de consolidação. Identidade também se constrói pelos corpos escolhidos para encarnar uma ideia. E Alda parece entender que passarela não é cabide em movimento. É dramaturgia, bebê!
O primeiro bloco: alfaiataria como uniforme de poder emocional
A abertura do desfile estabelece o vocabulário da coleção com clareza: alfaiataria, trench coats reinterpretados, camisas, gravatas, laços, marrons, vinhos, cafés, saias estreitas, calças amplas e uma atmosfera de guarda-roupa burguês, escolar, dândi e institucional. A roupa parece sair de uma casa antiga, atravessar um escritório, passar por um arquivo familiar e chegar à passarela com a postura intacta.
O trench surge como matriz genética… Ele é abrigo, proteção, memória de roupa clássica, casa portátil. Aparece amarrado, encurtado, estruturado, desmontado, cintado, transformado em quase blusa, quase casaco, quase armadura. Desde o início, a Mondepars parece menos interessada no trench como peça funcional e mais no trench como ideia: vestir é proteger uma narrativa.
A gravata também aparece como signo central. Em alguns looks, ela carrega uma masculinidade emprestada. Em outros, vira laço, disciplina, rigidez, hierarquia, memória escolar. O interessante é que ela raramente aparece relaxada de forma ingênua. Há sempre um gesto de controle, mesmo quando deslocada. A Mondepars não está propondo um guarda-roupa “cool” no sentido banal. Está propondo personagens que sabem se vestir como quem sabe guardar segredo.
O marrom já se impõe como possível assinatura… Chocolate, café, vinho queimado, bordô, taupe, camel, fendi, oliva. Não é neutro. É cor psicológica. É casa, madeira, arquivo, terra, couro, envelhecimento, memória, permanência. O marrom, em Alda, não entra para substituir o preto. Ele entra para contar uma história menos óbvia. Uma história de interior, tempo e matéria.
A rua entra: vermelho, bege, verde e deslocamento urbano
Depois da disciplina inicial, o desfile começa a abrir as janelas. Entram vermelho, bege, verde, camel, laranja queimado, bolsas e mais rua. A coleção sai do gabinete e ganha deslocamento urbano. O vermelho, que poderia facilmente virar grito, aparece como interrupção estratégica. Primeiro como detalhe, depois em bloco total, depois como camada interna. Ele funciona melhor quando surge como faísca dentro da cartela terrosa.
O verde escuro e o oliva trazem um campo utilitário, quase militarizado, mas sem virar uniforme literal. O bege e o camel iluminam a passarela e reforçam a ideia de trench, viagem, casa, cortina, memória lavada pela luz. As bolsas e clutches começam a aparecer como objetos de desejo, mas também como extensão da postura. Não são “bolsinhas” jogadas para vender. Em muitos momentos, funcionam como gesto de personagem.
Essa parte é bem interessante porque mostra potencial de mercado. A Mondepars não está fazendo apenas imagem para posar em editoriais… Há blazers, casacos, camisas, calças, trenchs, bolsas e malhas com vocação de produto premium babadeiro. O desafio é preservar o feitiço quando essas peças saírem da passarela. Um blazer Mondepars precisa carregar tensão. Se virar apenas “um bom blazer marrom”, o encanto evapora. E ninguém merece pagar caro por evaporar, baby.
A alfaiataria amolece: malhas, drapeados e casacos-casulo
Na sequência, a rigidez começa a ceder… Entram malhas, drapeados, casacos-casulo, peças amarradas, volumes mais orgânicos e o corpo aparecendo em brechas. É uma virada importante porque, até ali, a coleção corria o risco de ficar solene demais. A malha traz humanidade. O drapeado traz gesto. O casaco-casulo traz abrigo psicológico.
Essa parte da coleção conversa muito com a ideia de casa. Não casa como decoração, mas como sensação de proteção. Uma roupa que envolve, guarda, cobre, emoldura. Algumas peças parecem ter sido desmontadas, amarradas, atravessadas no corpo. O trench vira matéria maleável deliciosa… A alfaiataria deixa de ser apenas prova de maturidade e começa a mostrar desejo de transformação.
Quando a roupa permite o corpo aparecer em braços, ombros, pernas ou colo, ela não cai imediatamente no sensual óbvio. A pele surge como intervalo, não como espetáculo barato. E isso é sofisticadíssimo, darling Lee… Porque Alda fala de afeto, mas não precisa virar castidade. Fala de avó, mas não precisa virar santinho. Fala de casa, mas não precisa esconder o corpo no armário…Ui ui ui, atura ou surta, bebê.
A armadura do desejo: luvas, brilho e tops-couraça
O meio para o fim do desfile traz uma das viradas mais fortes: a sensualidade blindada. Tops rígidos e laqueados, luvas longas, lapelas brilhantes, peitos expostos, superfícies polidas em marrom e preto. A roupa virando armadura de desejo.
Aqui a coleção fica mais perigosa, e eu gosto quando a moda chega perto do perigo sem escorregar na fantasia barata. Os tops brilhantes transformam o tronco em couraça. As luvas alongam a mão e criam um gesto quase fetichista, mas controlado. As lapelas profundas colocam o corpo dentro da alfaiataria, não fora dela. Não é nudez jogada para chamar atenção. É exposição enquadrada por corte, brilho, disciplina e postura.
Esse bloco também mostra que o marrom pode mudar de temperatura. Antes, ele era terra, arquivo, casa, couro envelhecido. Aqui, com superfície laqueada, vira pele artificial, líquido, verniz, proteção. O mesmo campo cromático ganha outro estado emocional. Isso é uma das melhores coisas da coleção: a cor não fica parada.
A fragilidade mora no excesso possível. Luva longa e top-couraça são códigos de alto impacto. Se repetidos sem evolução, viram truque. Em Alda, funcionam porque aparecem depois de uma narrativa que já construiu proteção, disciplina e corpo. Não chegam como efeito gratuito. Chegam como consequência.
O preto ritual e a roupa como máscara
Depois do brilho e da pele enquadrada, a coleção escurece… O preto entra como rito, não apenas como elegância. Surgem capuzes, golas altas, renda, smoking, branco pontual, atmosfera quase litúrgica. A roupa deixa de ser apenas proteção e vira máscara.
Esse bloco talvez seja o mais denso em termos simbólicos. A alfaiataria preta, as capas curtas, as golas de padre, os capuzes e a renda criam uma solenidade que conversa com convento, luto, cerimônia e anonimato. O risco de teatralidade é real, claro. Mas a coleção vinha preparando esse território desde o início, com seu pescoço obsessivamente construído, suas gravatas, suas golas, seus rostos frios. Quando o preto chega, ele não cai do céu. Ele é a noite natural daquela casa translúcida babadeira.
A renda preta é um ponto importante… Ela filtra a pele. Revela e oculta ao mesmo tempo. A vulnerabilidade aparece, mas continua codificada. A pessoa está exposta, mas vestida de segredo. Essa é uma imagem muito forte para uma coleção sobre memória: a lembrança nunca aparece nua. Ela sempre vem mediada por véu, filtro, corte, narrativa.
Roland Barthes, em A Câmara Clara, fala da imagem, da ausência, do luto e daquele detalhe que fere, o famoso punctum. Em Alda, eu me pergunto onde está esse ponto que fere e permanece. Talvez não esteja no conceito inteiro, mas nos detalhes: uma renda preta cobrindo o corpo, uma gola branca cortando o preto, uma casa translúcida ao fundo, uma luva brilhante, uma gravata deslocada, a noiva final. O desfile é mais forte quando encontra esses detalhes que não apenas explicam, mas atravessam.
A noiva final: aparição, pele bordada e emoção de alto rendimento
O último look, em renda branca transparente, é uma imagem de alta carga simbólica. Pode ser lido como noiva, aparição, pele bordada, fantasma, passagem geracional, rito de encerramento, luz. O perigo seria reduzi-lo a “noiva final”, como se toda coleção de memória familiar precisasse terminar com um suspiro branco para garantir lágrima e manchete. Mas dentro da sequência visual, ele funciona melhor do que essa leitura simplista.
A força do look está no fato de ele vir depois da renda preta… Se a renda preta era máscara, luto, sombra e pele filtrada pela noite, a renda branca surge como avesso luminoso. Não é pureza simplória… É aparição. É corpo depois da armadura. É a pele ainda codificada pela delicadeza do bordado. A gola alta mantém a obsessão do pescoço e impede que a transparência vire apenas sensualidade fácil.
Ainda assim, sejamos honestos: é também uma imagem emocional de alto rendimento. Sabe que funciona. Sabe que fecha bem. Sabe que condensa avó, rito, mulher, casa, memória, passagem e luz… Isso não a invalida. Moda também é construção de clímax. A questão é se o clímax é sustentado pela trajetória anterior. Aqui, em grande parte, sim. A noiva não aparece como truque isolado. Ela chega depois de uma coleção inteira sobre proteção, controle, luto, desejo e pele.
Luxo silencioso brasileiro ou solenidade demais?
A Mondepars parece buscar uma espécie de luxo silencioso brasileiro, mas com uma diferença bem importante: tenta inserir memória, casa, avó, costura e afeto dentro de um vocabulário sóbrio. Isso é mais interessante do que apenas repetir o minimalismo internacional com cara de apartamento caro e alma em modo avião.
O problema é que o luxo silencioso pode virar anestesia se ninguém tomar cuidado. Alda tem momentos de muita beleza, mas também carrega risco de solenidade excessiva. Há looks em que a reverência endurece. Há momentos em que marrom, calça ampla, blazer e gravata beiram a repetição. Há peças que dependem muito do styling para ganhar força. E há uma necessidade visível de provar maturidade, como se a marca ainda dissesse: “olhem, somos sérios”. Eu entendo o impulso. Mas, às vezes, ser sério demais envelhece uma ideia antes dela respirar.
A coleção ganha quando aceita pequenas imperfeições vivas: um cabelo volumoso criando desordem, uma luva brilhante tensionando a alfaiataria, um vermelho aparecendo sob o marrom, uma renda expondo a pele, uma gola exagerando a autoridade, uma peça amarrada fugindo do controle. A Mondepars precisa cultivar esse risco. Sem ele, pode virar uma marca elegante demais para pulsar.
Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero, ajuda a pensar uma contradição deliciosa: Alda fala de permanência dentro de uma indústria treinada para esquecer rapidamente. A avó vira temporada. A memória vira lançamento. O afeto vira imagem. O íntimo vira evento. O desafio é fazer com que as peças sobrevivam ao próprio storytelling. A verdadeira atemporalidade não está no bege, no preto ou na alfaiataria limpa por si só. Está na capacidade de uma roupa continuar desejável quando o discurso se cala.
Costura, mão invisível e responsabilidade material
Há uma camada ética e estética importante em Alda: quando uma marca invoca uma costureira, precisa honrar a inteligência da costura. Costurar não é apenas fazer roupa… É preservar presença. É transformar mão invisível em linguagem visível. É uma tecnologia cultural rica que, por muito tempo, foi diminuída justamente porque tantas vezes esteve ligada ao trabalho feminino doméstico.
Ao trazer Alda para o centro, Sasha reposiciona simbolicamente essa figura. A avó não fica apenas no bastidor sentimental. Ela vira nome da coleção. Isso é bonito. Mas também cria responsabilidade. A modelagem precisa responder. O acabamento precisa responder. O corte precisa responder. O tecido precisa contar algo que o release não conta.
Em muitos momentos, Alda responde bem: trenchs reinterpretados, blazers com lapelas ampliadas, calças de fluidez contínua, tops-couraça, capas, golas, rendas, volumes de casaco e amarrações constroem uma coleção com pensamento material. Em outros, a roupa se aproxima mais do correto elegante do que do memorável. E tudo bem reconhecer isso. Crítica carinhosa não é crítica cega… É justamente porque a coleção tem força que merece exigência.
A moda brasileira e uma imagem menos óbvia de brasilidade
A relevância de Alda para a moda brasileira está também no que ela não faz. Ela não se apoia no clichê tropical, no colorido como obrigação, no artesanal decorativo ou na brasilidade de cartão-postal. Nada contra esses caminhos quando são bem feitos. Mas é importante ver uma marca brasileira jovem propondo um inverno psicológico, sóbrio, de alfaiataria, casa, memória, marrom, rito e pele.
A brasilidade aqui não está na estampa óbvia, mas na situação simbólica. Uma família pop brasileira, uma avó costureira e pintora, uma casa translúcida, uma marca tentando se legitimar, uma memória privada transformada em imagem pública, um desfile em São Paulo, uma estética premium que tenta não virar cópia fria de minimalismo internacional. Isso é Brasil também, bebê. Um Brasil menos carnavalesco e mais psíquico. Menos exportável em clichê e mais interessante em subtexto.
A Mondepars não precisa provar brasilidade colocando país no cabide. Precisa provar voz. Em Alda, essa voz começa a aparecer. Ainda com sotaques de referências amplas, ainda com zonas de reverência, mas com códigos próprios em formação.
A roupa aguenta a emoção?
Volto à pergunta inicial: depois da lágrima, sobra a roupa?
Em Alda, sobra bastante roupa… Não tudo com a mesma força, não tudo com a mesma necessidade, não tudo livre de repetição… Mas sobra uma construção visual consistente. Sobra uma coleção que entende a potência do marrom, a gravidade do preto, o impacto do branco final, a força do trench, a autoridade da gravata, a sensualidade da luva, a inteligência da gola, a função narrativa da casa e a importância do styling como dramaturgia.
A coleção emociona pela história, mas interessa quando a roupa sustenta a emoção. E seus melhores momentos são aqueles em que a avó não precisa ser explicada. Ela aparece como vestígio. No corte… Na casa… Na renda… Na mão… Na gola… Na proteção… Na pele filtrada… até no silêncio.
A Mondepars ainda precisa provar continuidade. Precisa mostrar, nas próximas temporadas, se esse vocabulário seguirá evoluindo ou se Alda foi um grande gesto de origem. Precisa tomar cuidado para que a solenidade não vire fórmula, para que o marrom não vire carimbo, para que a alfaiataria não vire certificado de maturidade pendurado na parede. Precisa ganhar mais pulsação, mais despojamento, mais imperfeição viva. Porque marca que quer durar não pode apenas parecer permanente. Precisa se mover.
Mas Alda é, sim, um passo muito importante… Talvez o momento em que Sasha Meneghel começa a fazer a Mondepars parecer menos uma marca promissora sob holofote familiar e mais uma linguagem em processo real de construção. A alfaiataria ainda não fala totalmente mais alto que o sobrenome, mas já não sussurra atrás dele. Ela começa a ocupar toda a sala, bebê.
E isso, mon amour, na moda brasileira de hoje, já é muita coisa.
Alda é a tentativa da Mondepars de reivindicar para si uma ancestralidade genuína. A pergunta, agora, é se essa ancestralidade ficará no storytelling ou se continuará costurada na roupa quando a próxima estação chegar.